Azeitona
Capitulo 3
3
Ian correu para chegar ao condomínio de Caio a tempo. Suas horas de trabalho não eram tão inflexíveis, mas ele não gostava de deixar o garoto esperando quando se atrasava.
O portão do condomínio era circundado por uma grande
estrutura de concreto, pintado numa cor creme clara. Somado aos coqueiros que cercavam a entrada, deixava claro em apenas uma olhada que o grupo de pessoas que poderiam viver ali era bem seleto.
Desde o começo do ano Ian ensinava tênis para Caio.
Depois de quatro meses, ele já não precisava mais se identificar. Ainda mais com a roupa de esporte, tênis, boné e munhequeira – que em competições evitava que o suor dos braços chegasse até as mãos e tirasse sua aderência, mas que, naquele caso, servia mais como adereço, já que nos últimos tempos raras eram as vezes que chegava o ponto de suar naquelas aulas. O rapaz acenou para o porteiro, que retribuiu o cumprimento e liberou a entrada.
A casa de Caio podia ser vista da entrada do condomínio.
Todas as residências seguiam um padrão de estilo colonial americano. Moravam ali alguns atores e empresários famosos, mas Ian nunca havia esbarrado em nenhum. Provavelmente porque viviam viajando, mas ele sempre prestava atenção nas pessoas para não perder a oportunidade. O fluxo de empregados parecia estranhamente maior que o de moradores.
Caio aguardava Ian sentado em frente à calçada da sua casa,
com uma mochila nas costas. Do seu lado já estavam as raquetes, em cima de uma bolsa entupida de bolas de tênis. Caio tinha feito doze anos havia três meses e suas canelas já eram finas o suficiente antes mesmo do estirão da puberdade. Os cabelos crespos viviam desgrenhados, muito diferentes dos cachos planejados na ponta dos fios lisos de sua mãe.
– Você tá louco, Caio? – Ian disse, antes mesmo de cumprimentar o garoto. – Você não vai colocar nem a roupa do treino dessa vez pra despistar? Eu estou colocando a minha cabeça em risco aqui por você.
– A minha mãe não tá em casa – Caio disse sem muito
ânimo, enquanto se levantava, fazendo força para não ser puxado pelo peso da mochila. – E eu disse pra nina que a roupa estava na mochila. Ela tem bastante coisa pra fazer em casa hoje pra ficar indo atrás de mim, não se preocupe.
Ian encarou Caio por alguns segundos, enquanto pensava
se poderiam seguir com o plano.
– Tá – Ian disse, sério. Então deu um tapinha com as
costas da mão no braço do menino. – E aí, tudo bem?
– Aham – respondeu. Entregou o saco com as bolas de
tênis a Ian e caminhou a seu lado em direção à academia.
Assim que viraram a esquina da casa de Caio, já era
possível ver o campo de futebol, que costumava ser mais usado nos fins de semana. Entre as quadras de tênis e as de basquete, de um lado, e o campo, de outro, ficava a academia, de frente para a piscina. Era um galpão enorme que parecia uma caixa de vidro cheia de equipamentos. Ela até tinha algum movimento durante a noite. Se Ian não trabalhasse ali apenas na parte da tarde, talvez tivesse mais chance de dar de cara com algum dos moradores famosos.
Enquanto caminhavam quietos, Ian olhou para a mochila
de Caio e pressionou os lábios, preocupado.
– Eu me sinto responsável por você, sabia? Não quero ser
seu cúmplice nisso. Não foi você que escolheu aprender tênis?
– A Estela me obrigou a escolher alguma coisa – Caio não
chamava Estela de mãe. Acabou se acostumando porque sua avó a chamava assim, e depois nina, que trabalhava na casa desde que ele nascera, também. – Eu escolhi o menos pior. Algo que não me obrigasse a correr e que não envolvesse muitas pessoas.
– Você deve ter vários amigos – Ian disse, e Caio não
entendeu a piada.
– Mas foi ela quem sugeriu tênis, na verdade. Disse que era esporte de rico.
– Sério? – Ian riu. – Eu não sou rico. Sem contar que você
meio que não precisa de um esporte de rico para ser rico. Quer dizer, você tem um professor de tênis só seu! Eu nunca teria aprendido tênis se não fosse o cartão de funcionário da minha irmã – ele parou por alguns instantes, analisando o que havia dito. – o.k., talvez faça algum sentido.
Por causa dos eventos que organizava num clube gigante
da cidade, Iris recebera passe livre para ela e Ian utilizarem os espaços e participarem das aulas. Enquanto ela fazia aulas de treinamento funcional, Ian praticava tênis e musculação.
Mesmo antes de frequentar o clube, Iris fazia questão de
que Ian participasse de atividades esportivas. Queria garantir que ele fosse criado da melhor forma possível, assim como a mãe faria.
Ian não falava muito sobre isso com Caio. Apesar de achar
demais ele passar férias cada ano em um país diferente e ganhar presentes que pagariam um ano do aluguel de sua casa, sabia que para o garoto aquilo não era nenhuma novidade.
Os pais eram os únicos donos de uma rede de pizzarias
muito famosa, que aparecia em propagandas na TV o tempo todo. Ian descobriu quando pesquisou pelo nome de Estela assim que recebeu o convite para dar aulas a Caio, depois de ela tê-lo visto jogando no clube.
O que ele descobriu depois disso foi que Estela, que
parecia jovem demais para ter um filho da idade de Caio, era adolescente quando o teve e, para sustentá-lo, começou a trabalhar na pizzaria do atual marido, Rudi.
Antes, ajudava a mãe vendendo peças íntimas que a
mulher costurava. Com a experiência em vendas, ela se destacou na pizzaria, apresentando várias ideias e ajudando Rudi a executá-las. Com o tempo que passavam juntos, começaram a se relacionar e, quando Caio tinha três anos, se casaram.
Naquele momento, a pizzaria já tinha três filiais. Nada
perto do crescimento astronômico que teve nos anos seguintes, quando passou a servir pizzas fitness e também atraiu o público com as decorações e os cardápios temáticos mensais. O maior sucesso da rede fora a criação do mês do queijo, quando as poltronas amarelas ganharam adesivos redondos num tom um pouco mais escuro, de modo que os clientes se sentiam sentados em grandes pedaços de queijo suíço. Em cada mesa, numa panelinha de fondue, borbulhava um queijo cremoso em que podiam ser mergulhadas as fatias de pizza.
Os dois entraram na academia, que tinha apenas um andar.
Próximo da entrada, no entanto, uma escada levava a um mezanino com duas salas. Os dois subiram silenciosamente, enquanto observavam um velho que caminhava na esteira.
– Está tudo aí dentro? – Ian perguntou, quando já estavam
em frente a uma das portas.
– Claro – Caio colocou a mão para trás, apalpando a
mochila. Depois a retirou das costas, pegou a chave que estava dentro do zíper menor e entrou.
Caio se jogou em um dos pufes do chão na sala minúscula
e com um ventilador no teto, que garantia alguma ventilação além das janelas estreitas.
– Eu queria poder trazer a minha TV pra cá – Caio
protestou enquanto abria o zíper da mochila.
– O quê?! – Ian disse incrédulo. – Essa TV é gigante. Não
dá nem pra acreditar que ela esteja aqui, sem ser usada.
A sala de descanso da academia era toda branca, o que
permitia notar que não era limpa com frequência, e, mesmo assim, parecia nova em folha. Além da TV enorme, havia três pufes e um sofá comprido e muito baixo. Ian nunca tinha visto um igual. Era compreensível que o espaço fosse pouco usado. Como a academia ficava dentro de um condomínio, as pessoas podiam simplesmente descansar em sua própria casa.
– Mortal Kombat? – Caio perguntou. – O.k.
Os jogos que Caio trazia definitivamente não eram para a idade dele. Ian curtia ver os fatalities, mas era sangue o suficiente para que não quisesse assistir enquanto comia. Se os pais de Caio tinham comprado, não seria Ian quem impediria o garoto de jogar.
Durante a hora que Ian passava ali, o menino troca va
várias vezes de jogo. Parecia enjoar rápido. Às vezes deixava Ian jogando sozinho quando o game era de estratégia, para que eles conseguissem passar para a próxima fase e deixassem salvo para a próxima vez.
Ian achava aquilo tudo estranho. Caio era um pré-
adolescente normal, eles se divertiam às vezes. Mas nunca imaginou ver um pré-adolescente desdenhando um jogo de videogame. Nas vezes em que ele continuava sozinho, olhava de vez em quando para o menino, que ficava observando a tela deitado no sofá. Ele parecia muito vidrado na TV, mas com o pensamento longe.
Daquela vez, Ian aproveitou que Caio ainda parecia
empolgado com o jogo para puxar conversa. O garoto era um pouco fechado. Ian não sabia o que ele pensava, se tinha amigos, como era ter mais dinheiro do que jamais poderia gastar…
– Deve ser legal ser rico pra cacete, né? – Ian não foi
muito sutil.
– Hum, acho que é – Caio respondeu sem interesse. – Na
verdade não sei, nunca parei pra pensar nisso.
– Desculpa, você é só uma criança. É que, quando você fica
mais velho, você meio que começa a pensar nisso, sabe? Porque tem esse monte de coisa com que você precisa lidar. Faculdade, os seus sonhos, você imagina como vai ser o futuro.
Ian se desconcentrou do jogo e sua barra de vida zerou
com um golpe de Caio.
– E a gente sempre acha que precisa mais do que tem e,
mesmo tendo tudo, sempre falta algo.
– O quê? – Caio não entendeu. Nem Ian conseguiria
repetir, mas pareceu algo muito bonito em sua cabeça.
Os dois voltaram a ficar entretidos com o jogo. – Acho que entendi – Caio voltou a falar depois de um tempo. – não gostaria de ter menos que tenho. Mas, se eu não tivesse isso – ele apontou para a tela da TV –, talvez tivesse pais com... tempo... sei lá.
– Eu não sei o que dizer, porque... – Ian estava confuso e
encarou o garoto tentando ler sua expressão. – Você não pode ter tudo na vida, mas pode se divertir com o que tem.
– É estranho porque parece que eu tenho uma mãe que não
parece lembrar ter um filho – Caio falava mais baixo que o normal, como se aquelas palavras custassem a sair de sua boca. – Como se ela não pudesse me ver.
Ian soltou um riso sem querer.
– O quê? – Caio se virou para Ian, bravo. – É que... você tem doze anos! Você vai ter pelo menos
mais uns cinquenta anos para se sentir depressivo. Não faça isso agora.
Caio levantou e desligou a televisão. Já estava quase no fim
do horário de Ian. O rapaz observou o garoto, temendo ter piorado ainda mais a situação dele, que parecia não estar bem.
– Ei – Ian levantou e chamou a atenção do garoto –,
desculpa por não entender os seus problemas, porque eu sei que é algo sério pra você. Mas você não sabe das intenções da sua mãe, entende? – Ian abriu a mochila para que Caio colocasse os jogos novamente. – Pais não são perfeitos. Mas tem um momento em que você precisa parar de culpá-los e entender.
– Eu sou o problema? – quis saber o menino. – Não, não – Ian respondeu rapidamente. – não estou
dizendo que você seja o culpado. Mas você precisa entender o que está quebrado para poder consertar. Eu não acredito que seja você o problema, mas com certeza algo precisa ser consertado, entendeu? Não espere até você perder alguém pra começar a pensar em consertar as coisas.