Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 12 de 23

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Azeitona

Capitulo 12

12.

 

Assim que Emília entrou no estúdio, viu algumas das meninas que tinham participado da primeira gravação.

Desta vez desacompanhada de Ian, tentou encontrar lisa,

mas ela parecia não ter chegado ainda.

Três garotas conversavam sentadas num sofá atrás das

câmeras, perto de uma mesa com sucos, sanduíches, doces e frutas. A parte iluminada no estúdio, para onde as câmeras apontavam, estava movimentada. Um grupo de funcionários terminava de montar uma base redonda e branca no chão, da altura de um degrau. O fundo também era todo branco.

– Ah, você chegou, Emília! – Catarina bradou,

caminhando do outro canto do estúdio. – Você tem que ir para a sala de maquiagem. Me segue que vou explicando. – Ela abriu a porta e Emília a seguiu. – A gente vai gravar a abertura. Você deve ter visto a das outras edições, vai ser a mesma coisa.

Emília já tinha visto. Cada uma das meninas aparecia por

alguns segundos em pé, em cima de uma base giratória, como se fosse um frango de padaria. A cada volta, a barriga de cada uma crescia um pouco mais.

– Espera. A gente vai ter que fazer isso todo mês,

enquanto a barriga cresce?

Catarina começou a rir.

– Isso aqui é televisão, Emília. Mesmo se uma de vocês

não estivesse grávida – Emília engoliu em seco, assustada –, a gente daria um jeito de enfiar um bebê pra dentro! nós colocamos um enchimento, não temos tempo pra gravar isso toda semana.

Catarina abriu a porta do camarim. O ambiente tinha uma

decoração simples, com paredes de tijolinhos brancos e um espelho que se estendia por quase todo o local. Ao redor dele, várias lâmpadas para facilitar a visão dos maquiadores.

Das cinco cadeiras, três estavam ocupadas. Uma das

garotas, cujo nome Emília ainda não tinha gravado, já estava pronta e sentava no sofá atrás das cadeiras. Parecia estar aguardando a colega que recebia um spray no cabelo solto enquanto conversavam. Uma maquiadora magrela cuidava dela. A segunda explicava algo sobre um procedimento para eliminar pontas duplas enquanto segurava uma tesoura na mão. Ela se mexia tanto com aquele objeto que Emília pôde perceber a aflição da garota sentada. Já a terceira, que maquiava lisa, tinha o cabelo todo roxo e parecia estar concentrada.

Assim que entraram, um maquiador que tinha os braços

cheios de tatuagens se levantou como se a entrada de Catarina exigisse continência.

– Vini, essa aqui é a Emília. Vai, Emília, senta ali na

cadeira. – o rapaz a seguiu e começou a mexer em seu cabelo, fazendo movimentos para deixá-lo mais solto. – E todos vocês podem dar uma agilizada, vamos começar a gravar agora com as meninas que já estão lá, então, assim que terminarem, coloquem-nas pra dentro.

Emília percebeu que Catarina não tinha muita amizade

com os funcionários e ficou surpresa porque mesmo assim ninguém começou a falar mal dela depois que saiu.

– E aí, tudo bem? – Emília perguntou para lisa. – Aham – a garota olhou para a própria barriga e pousou

a mão sobre a blusa folgada. – Ele só tá se mexendo muito, até fiquei preocupada, mas minha mãe falou que nessa fase que eu tô isso começa a acontecer. Espera só quando for você, dá um pouco de agonia.

Emília estava esperando que lisa falasse de si, e não sobre

o bebê. Em alguns momentos ela esquecia que, entre todas aquelas garotas, apenas ela não esperava um bebê e apenas ela não pensava naquilo o tempo todo.

Entretanto ficou feliz em ver que lisa parecia mais

animada do que da última vez que tinham se visto. Às vezes é assim, quando você fica muito longe de um amigo, de repente vocês não têm mais nada sobre o que falar. Ela havia imaginado que era isso o que tinha acontecido, mesmo que lisa parecesse outra pessoa.

– Que ótimo! A gente precisa muito um dia sentar e

conversar, né? – Emília disse. – Tomar um sorvete.

Lisa concordou. A garota entortou a boca num sorriso

olhando para o chão, enquanto se lembrava da época de escola. As duas passavam fome no intervalo das aulas para poder tomar um sorvete expresso que ficava logo na saída.

– A confeitaria que a minha mãe estava abrindo na época

agora está enorme! Você precisa ir lá conhecer um dia. Eu quero saber tudo… o pai – Emília apontou para a barriga de lisa –, eu conheço?

Lisa olhou para Emília, seus olhos fizeram um

malabarismo como se tentasse desviar do olhar da amiga. Vini também olhava pra ela, esperando a resposta.

– Eu acho que não…

– Vocês não se falam?

– Ele não sabe, na verdade. – lisa destravou e travou o

celular que estava em suas mãos várias vezes, nervosa.

– Mas eu não gosto de falar muito sobre isso, sabe? Emília balançou a cabeça. Talvez lisa se abrisse mais

quando elas estivessem sozinhas.

– Sabe o que… – Emília foi girada para o lado oposto

àquele em que lisa estava sentada. Vini iria começar a fazer a maquiagem. Não era nada muito elaborado. A maioria das garotas parecia estar apenas com as bochechas mais saudáveis e a pele com pó suficiente para não brilhar nos holofotes quentes do estúdio. – sabe o que eu percebi? Você parece estar um pouco tímida, não sei. E nós duas não éramos nada tímidas.

– Não sei – lisa disse com uma voz baixa, sorrindo. – A

gente muda muito desde quando é criança. Cada dia a gente passa por coisas que fazem a gente mudar um pouquinho, é normal.

A porta se abriu e Catarina trouxe Rebeca, a participante

que faltava. Ela não esperou ser convidada para sentar na última cadeira vaga. Emília a cumprimentou com um sorriso simpático sem mostrar os dentes. Rebeca retribuiu com algo que poderia ser um aceno de cabeça sem animação ou apenas um movimento para ajeitar a franja. Emília preferiu acreditar que havia sido o primeiro.

Lisa esperou Emília terminar sua maquiagem. As outras

participantes já tinham seguido em direção ao estúdio. Quando as duas saíram, Rebeca ainda não havia trocado nenhuma palavra com sua maquiadora ou com qualquer uma das participantes.

Emília e lisa abriram a porta de ferro do estúdio,

cuidadosas. A luz vermelha acima da porta indicava que estavam gravando naquele momento. Assim que entraram, viram Catarina gritando:

– Isso, linda! Mais sorriso! Acaricia a barriga! Tá, olha

pra barriga feliz e, quando a plataforma virar pra frente, você olha pra câmera.

As outras garotas estavam ao redor, vendo a colega

rodando na plataforma. Enquanto iam em direção à fila que se formou, Emília teve certeza de ter ouvido a palavra “frango” no cochicho de uma das garotas que esperava. Provavelmente não foi a única a pensar que parecia um forno de padaria.

– Cuidado! – Rosa gritou para Emília. Todas as garotas se

viraram para encará-la, e lisa, que estava logo atrás, pulou, tomando um susto. – Você vai pisar no vômito da Alana.

Emília não pôde ver o chão porque aquela parte do estúdio

estava escura. O chão preto estava manchado com um líquido claro e pastoso, provavelmente com resíduos de comida aos quais Emília não se deu ao trabalho de analisar.

– Não foi só meu! – Alana se defendeu. Ela estava sentada

num dos sofás no canto da sala. – não é uma boa ideia colocar uma mesa cheia de sanduíche grátis e garotas grávidas girando numa plataforma no mesmo lugar.

– Já estão vindo limpar – Catarina disse para Emília. –

Acontece, meninas. É só uma vez, vamos lá! Pode sair, Lena!

Catarina deu a mão para Lena descer da plataforma. Ela não

parecia passar mal, mas os olhos crispados em uma linha e o andar como se estivesse pisando em falsos degraus indicavam que estava tonta.

A produtora auxiliou Mel a subir na plataforma. Enquanto

uma faxineira limpava o vômito, Emília viu Mel ficando branca após o quinto minuto girando em cima da base.

No total foram quinze. – A gente precisa ficar esse tempo

todo lá em cima?

– Emília perguntou para Rosa, a última da fila antes de ela

chegar.

– Sim. A Catarina explicou que isso vai ser tanto para a

abertura como para vinhetas e essas coisas. Eu tô tonta só de olhar – ela respondeu, rindo. As bochechas de Rosa eram protuberantes e rosadas, como dois pêssegos maduros. – Mas pode ir embora quando terminar a sua parte.

– Acho que não é vantagem quando você é a última. Rosa riu e as duas voltaram a prestar atenção na colega

seguinte girando. Rosa parecia divertida. Ela seria a primeira a ganhar bebê, portanto não iria demorar muito na plataforma, já que sua barriga já estava no último estágio, diferente da de Emília.

– Então… você já sabe quando vai nascer? – Agora completaram 35 semanas – Rosa falou, como se

aquilo significasse algo para Emília. A garota respondeu com um meneio de cabeça. Por que elas não respondem em meses? – Pode nascer a qualquer momento – Rosa completou, como se tivesse percebido a confusão na cabeça da colega.

– Ah, nossa! Caramba! não… dói? – Emília perguntou,

encarando a barriga de Rosa. – Meu Deus, deve ser uma aflição pensar que tem um bebê aí.

– São dois, na verdade. Se um dia eu acordasse com essa

melancia dentro da barriga eu ficaria aflita, mas assim, crescendo aos pouquinhos, você até esquece que tem duas pessoas dentro de você.

A gravação de Rosa foi mesmo a mais rápida. Por sorte,

ou por precaução, a plataforma girou bem lentamente. Com aquele barrigão a uma velocidade alta, corria o risco de ela sair dali com os dois bebês já no colo.

Enquanto via a colega, Emília lembrou que não comia

havia um tempo e que sua barriga, apesar de não ser das mais secas, não parecia a de uma grávida de mais de três meses quando seu estômago estava vazio.

– Lisa – Emília olhou para a amiga assustada e falando

baixinho –, você pode ir no meu lugar? Preciso comer alguma coisa.

– Você tá passando mal? Fala com a Catarina. – Não precisa – Emília interrompeu –, vai primeiro. Emília colocou a mão no ombro da colega e saiu em

direção à mesa de comida.

– Toma uma água! – lisa gritou para a amiga, que já

estava do outro lado do estúdio.

– É exatamente isso que eu vou fazer.

Emília estava comendo um sanduíche escorada na mesa de

comida, quando viu a porta se abrir. Rebeca entrou e foi até a fila, agora vazia, enquanto lisa rodopiava na plataforma. Emília teria de deixá-la ir na frente também. A colega havia entrado e saído do estúdio algumas vezes, provavelmente para checar a fila, já que na sala de maquiagem pelo menos havia uma televisão e nenhuma participante, o que para Rebeca parecia ser um ponto positivo – estar cercada por ninguém.

Emília completou o projeto “barriga de grávida” com

quase um litro de água, o que a obrigou a ir ao banheiro antes que pudesse ao menos ser chamada para gravar.

– Emília, tudo bem se eu já for pra casa? – lisa perguntou,

antes de a amiga entrar no banheiro, convenientemente ao lado do galão de água.

– Hum, tudo bem – Emília disse, retorcendo-se. – Vamos

marcar alguma coisa agora. Quinta que vem vai estrear o filme novo do livro do nicholas sparks, a gente pode ir juntas.

– É aquele em que a mulher vai morar do lado de um

fazendeiro, eles se apaixonam e ele morre de câncer? – lisa disse. – Eu não gosto muito de filmes que me fazem chorar.

– Não. Não é esse. É o cachorro do cara que morre de câncer… depois o homem morre.

– Mais triste ainda. Mas, o.k., vou dar uma olhada no

horário da sessão. – Emília ficou esperando lisa se despedir para correr para dentro do banheiro, mas a amiga não se moveu.

– Você não vai embora agora? – Emília parecia um tronco

retorcido tentando segurar a vontade de ir ao banheiro.

– Ah, sim. Vou só esperar uns dois minutinhos porque

estou um pouco tonta. – lisa disse, passando a mão pelas têmporas. – sabe o que lembrei quando estava lá em cima no negócio girando? De quando a gente teve uma aula de artes com argila. Agora sei como um vaso se sente.

Emília riu. De fato a sensação deveria ser a mesma. – Já volto. Tchau – Emília disse, antes de correr para

dentro do banheiro.

Ela se aliviou como se as comportas de uma represa

tivessem sido abertas. Assim que voltou do banheiro, percebeu que lisa já havia saído. Agora, além da equipe técnica na sala, havia apenas Catarina e Rebeca.

– Vamos, Rebeca, quero um sorrisão! É o dia mais feliz da

sua vida e você tá muito feliz! Abre mais essa boca. Isso! – Catarina falava, empolgada.

Emília não poderia negar, era engraçado ver Rebeca

sorrindo pela primeira vez. Existem algumas pessoas que combinam com um rosto sorridente. Não era o caso de Rebeca. Eles tinham retirado o lápis escuro que ela sempre usava e seu rosto parecia mais suave. Os cachos do cabelo escuro também estavam mais organizados.

Antes de voltar para seu lugar na fila, Emília resolveu dar

uma volta pela parte de trás do estúdio. Havia uma tapadeira que separava do resto da sala uma área com objetos de cenografia. O local era organizado na medida do possível: a variedade de objetos aleatórios – como letras gigantes, placas de madeira, latas de tinta, pedaços de ferro e caixas de plástico com o que pareciam ser tecidos, fitas e fios – impedia que fosse categorizada corretamente com as etiquetas em cada prateleira.

Numa das caixas, sobre uma bancada com alguns dos

objetos usados naquela gravação, havia algo que parecia uma pilha de tecido bege. Emília colocou a mão e sentiu o dedo afundar levemente no amontoado de espuma que o preenchia. Ela retirou um dos tecidos da pilha. Era uma série de preenchimentos de barriga, que estavam sendo usados na gravação.

Sem pensar duas vezes, pegou três de tamanhos

diferentes. Colocou os dois primeiros dentro de sua bolsa, mas ela havia ficado tão estufada que precisou fazer um esforço maior para tentar enfiar o terceiro.

– Eles estão chamando você.

Emília sentiu um calafrio descer por sua espinha como

uma pedra de gelo. Poderia retirar o que havia colocado dentro da bolsa antes de se virar. Mas, quando percebeu, Rebeca já estava do seu lado. Ficou sem saber o que falar por alguns segundos.

– Três está bom, será? Pra eu levar… para a Catarina –

Emília tentou contornar a situação. Sua garganta estava seca, mesmo depois de tomar um litro de água.

Rebeca olhou para a bolsa de Emília, estufada de

preenchimentos para barriga falsa. As suas mãos estavam dentro da bolsa, na mesma posição de quando fora flagrada, como se Emília não conseguisse mover um músculo sequer.

– Você está roubando esses enchimentos? – Rebeca

perguntou, em tom acusatório.

– Não! Eu estava levando eles até a Catarina, pra gravar a

abertura. – Embora Emília conseguisse men tir sem gaguejar, era só olhar para seus olhos. De repente, pareciam duas bolinhas de vidro paralisadas e sem expressão.

– Por que você iria roubar uma...

– Eu não estava roubando! – Emília interrompeu, falando

alto. Então começou a retirá-las da bolsa, deixando a última, quando percebeu a voz de Catarina.

– Ei! Vocês estão brigando? – Catarina apareceu de trás da tapadeira. – Vocês não podem brigar! Estão me ouvindo? É um desperdício vocês brigarem sem que nós estejamos gravando.

Emília se voltou para Rebeca. A garota estava com a boca

entreaberta, como se estivesse processando uma informação complicada. Encarou Emília como se fosse roubar sua alma e soltou uma bufada com os olhos fechados antes de sair quase esbarrando em Catarina.

– Vamos, Emília, só falta você. – Catarina puxou Emília.

Colocou-a em sua frente e a seguiu com as mãos nos seus ombros, como se não quisesse perdê-la no caminho.

Nos quinze minutos em que girou na plataforma, Emília

tentou sorrir enquanto se lembrava, preocupada, do que havia acabado de acontecer. Rebeca sabe que eu não estou grávida.

A garota conseguiu girar o tempo necessário sem vomitar

e foi liberada por Catarina. Assim que abriu a porta da rua, a tontura evoluiu para um enjoo, e o chão da parte de fora do estúdio foi preenchido com o lanche que fizera pouco antes.

Emília escorou na parede ao lado da porta. Catarina saiu

apressada e quase pisou em cima do vômito.

– Tudo bem, você gostou daquele sanduíche, mas não

precisa mostrar pra todo mundo – disse, tentando não encarar o chão enquanto se arrastava pela parede, no canto que não estava sujo. – Argh!

Emília se desculpou e voltou ao banheiro para se limpar. Seu saldo final do dia havia sido um vômito no corredor

da maior emissora do país, um cinema marcado com a melhor amiga de infância, com quem tinha perdido contato, uma nova amiga grávida de gêmeos, e, aparentemente, uma inimiga que não sorria.