Azeitona
Capitulo 11
11.
O quarto de Emília estava inundado com a luz forte e quente que passava pelas cortinas cor creme, o que deixava todo o ambiente aconchegante. É claro que, se ela quisesse, poderia pedir aos pais que trocassem por uma cortina capaz de bloquear a iluminação que vinha de fora, mas ela gostava da sensação que a luz do sol trazia logo de manhã. Era quase uma motivação para acordar cedo todos os dias para ir à aula.
Exceto nos fins de semana, quando podia dormir mais.
Nesses dias ela usava os travesseiros como uma barreira para o sol. Naquele sábado, o céu estava um pouco encoberto e a luz, infelizmente, não era o principal problema de Emília. A garota sonhara que estava em uma sala de parto, na mesma cadeira que havia visto na sala do dr. Rômulo, mas as hastes que sustentavam seus pés não paravam de subir. Até ela ficar totalmente suspensa, quase chegando ao teto, sustentada apenas pelos pés.
– Emília, Emília! – Ela tentava olhar para baixo para
identificar quem gritava seu nome, mas não conseguia.
As hastes finalmente chegaram até o teto, forçando o
gesso. Como se quisessem pegar impulso, recuavam por um metro e subiam com velocidade ainda maior. Na terceira vez em que isso aconteceu, perfuraram o gesso, que cedeu num estrondo.
Emília tentava se desvencilhar quando finalmente
despertou, e demorou algum tempo até voltar à realidade.
– O que é isso, Emília? – a mãe gritou e levantou um
papelzinho retangular, num movimento brusco e desesperado. Levou as mãos ao rosto, escorrendo as palmas em direção ao queixo, como se desse modo pudesse limpar a expressão aflita.
O coração de Emília disparou. Ainda meio perdida por
causa do sono e com a visão embaçada, não fazia ideia do que estava acontecendo. A mãe parecia dar voltas no quarto, a ponto de chorar ou ter um surto. Emília se sentou. Suas mãos tremiam. Será que a casa está pegando fogo? Será que aconteceu algum acidente? Será que alguém morreu?
– O que foi? – perguntou numa voz fanha e trêmula,
esfregando os olhos.
– Ontem a Carla… – Helena parou por um segundo para
retomar o fôlego. Emília se assustou com a possibilidade de ter acontecido alguma coisa com a empregada, que frequentava sua casa havia quase sete anos. – ontem ela pegou uma calça no seu quarto e levou pra lavar. Ela me disse que um cartãozinho tinha ficado no bolso e deixou no balcão da lavanderia. Hoje eu fui ver, e era isso aqui!
Helena jogou o cartão no colo de Emília. – Não acredito que você fez isso! Você tem dezessete anos!
Eu pensei que com o tempo fosse me incomodar menos com você, mas parece que você vai continuar infernizando a minha vida pra sempre! – a mulher bradou, com raiva, lançando algumas gotas de cuspe em Emília, que as secou discretamente.
Helena desabou em um choro compulsivo, e a garota
pegou o cartão. Piscou os olhos ainda embaçados enquanto respirava fundo. Merda. Ela já não conseguia ouvir o que a mãe dizia. Sabia que, sempre que uma briga se iniciava, a primeira frase de Helena seria repetida várias vezes, de formas diferentes e com alguns insultos perdidos. Depois de um tempo seu cérebro desligava e ela parecia ouvir um som agudo e contínuo de fundo, enquanto todo o resto desabava ao seu redor. Era uma resposta do seu subconsciente tentando encontrar alguma paz.
Se Emília tivesse colocado no cesto de roupa suja a calça
que usara no dia anterior, em vez de largá-la na poltrona do quarto, teria visto que no bolso ainda estava o cartão que havia recebido do dr. Rômulo.
– Mãe eu… eu não… – Emília não conseguia completar a
frase. Falar com a sua mãe sobre gravidez ainda soava muito estranho.
– Emília, pelo amor de Deus. O que significa esse cartão
de um médico obstetra no bolso da sua calça? Quem te deu isso? – Ela parecia uma bexiga esvaziando, dando voltas pelo quarto. Até que parou no meio do local e se virou para a filha. No fundo, sabia o que aquilo significava, mas ainda tinha alguma esperança de que não fosse verdade. – Você está grávida?
Emília a encarou de volta enquanto Helena, respirando
fundo, andava lentamente em direção a ela como se tentasse se aproximar de um bicho arredio. Ela não sabia se falava naquele momento sobre o reality ou se confirmava a gravidez para facilitar quando a mãe precisasse aparecer nas gravações. Preferiu não mentir – apenas omitir.
– Eu não estou grávida. – E então voltou a se deitar, como
se o assunto tivesse acabado. Mesmo sabendo que o assunto poderia continuar por horas e horas, até que ela realmente estivesse grávida, aos trinta anos, do terceiro filho. A mãe se afastou em silêncio. Emília olhou pelo canto dos olhos, estranhando o comportamento dela. Não era do feitio de Helena terminar uma discussão amistosamente depois de ouvir o que a filha tinha pra dizer.
A mulher entrou no banheiro que ficava no quarto de
Emília, pegou a lata de lixo e espalhou o conteúdo pelo chão. Emília ouviu um barulho alto quando, sem querer, Helena bateu com a lata no canto da pia. – Mãe, você tá louca?! – Foi até a porta do banheiro.
– Que nojo! Mãe!
– Se você não tá grávida – ela colocou a lixeira em cima
do vaso sanitário e começou a analisar a pilha de lixo no chão, movendo os papéis com o sapato –, isso aqui vai me dizer.
– Como você sabe quando eu… Ali! – Emília gritou,
empolgada, apontando para um absorvente usado.
Helena olhou para o objeto e depois se virou para Emília. – Por que aquela porcaria daquele cartão estava no bolso
da sua calça? – Emília percebeu que a boca da mãe tremia.
– É que… teve uma palestra. Uma palestra na escola ontem.
Você pode ligar para confirmar. – Emília estava confiante de que seu blefe fosse dar certo, torcendo para que a mãe não ligasse.
– E você pegou o cartão caso precise de um… obstetra? –
Helena perguntou, furiosa. Elas ainda não haviam tido “aquela conversa”. Inclusive, Emília esperava que ela nunca ocorresse.
– A palestra foi pra prevenir! Ele é um médico
especializado, que falou sobre o assunto e deixou o cartão com todos! Para o caso, e não estou dizendo que eu cor ra o risco, mas para o caso de alguém precisar.
Helena balançou a cabeça afirmativamente, respirando
fundo, ainda avaliando se acreditava ou não na história. Olhou para a pilha de lixo no chão e se virou, como se quisesse esquecer o que tinha acabado de acontecer.
– Limpa esse banheiro – a mulher disse, saindo sem olhar
para trás.
Ian estranhou quando chegou à porta da casa de Caio e não o viu esperando ali. Esperou por algum tempo até avistar o garoto acenando próximo à quadra de tênis, de longe, com a raquete no alto. Parecia que, desde seu último encontro, quando haviam jogado cercados pelas câmeras do reality, Caio voltara a se empolgar com o esporte.
Assim que se aproximou, o garoto perguntou, girando a
raquete na mão:
– O que foi aquela coisa das câmeras? Você vai ser pai
mesmo?
O menino começou a andar em direção à quadra de tênis e
Ian o seguiu. Se tinha uma pessoa naquele momento em quem ele podia confiar, essa pessoa era Caio. Talvez porque ele não tivesse motivos para revelar seus segredos nem ninguém interessado em ouvi-los.
– É uma longa história: eu basicamente estou mentindo
para um monte de gente e tô com medo de que dê merda em algum momento – Ian desabafou.
– Então é mentira? – Caio tropeçou na calçada e se
desequilibrou porque prestava atenção no rosto de Ian.
– É. Preciso fingir que eu e uma colega estamos esperando
um bebê porque o cachê que eles pagam é gigante. Você nunca viu tanto dinhe… bom, você já viu, mas você entendeu.
– Caramba! Todo mundo vai saber quando passar na TV. –
o garoto estava com os olhos arregalados, como se fosse ele quem tivesse se metido em uma encrenca. – Vale a pena fazer tudo isso?
Os dois estavam de frente para a quadra, agora separados
pelo saco cheio de bolinhas que Caio trouxera. Algumas rolaram para fora quando ele o largou no chão.
– Vale. Eu acho. Tenho mais a ganhar do que a perder – Ian
disse, tentando convencer a si mesmo. – Eu acho. Droga, na verdade não sei. Mas vou contar pra minha irmã assim que der.
Ian ficou esperando por mais perguntas. Caio na maioria
das vezes era curioso, parecia que nunca tinha cruzado os limites do condomínio e queria saber como era a vida lá fora. Mas desta vez ele ficou quieto. Ian continuou:
– E você, está bem?
– Aham – Caio disse. Sempre parecia responder no
automático, porque na maioria das vezes simplesmente não tinha nada para adicionar. – na verdade eu não sei, eu estava pensando umas coisas sobre o que você disse.
– O que eu disse? – Ian perguntou desconfiado. – Você falou sobre lembrar de consertar os problemas só
depois de perder alguém.
Ian olhou para Caio com as sobrancelhas franzidas. – É, eu disse – respondeu, receoso. – Mas não é uma
regra. Quer dizer, o ideal é que isso não aconteça. Foi por isso que eu disse pra você. Sabe, é preciso apostar tudo antes de não poder apostar mais nada.
Caio balançou a cabeça e desviou o olhar. – Acho que não quero jogar hoje, pode ser? – Caio disse,
enquanto se abaixava para juntar as bolas que haviam caído da bolsa. – A gente pode ir pra sala da academia e você pode jogar o meu videogame.
– Sério que você desistiu? Parecia tão empolgado. – Ian
pegou o saco da mão de Caio e o abriu para que o garoto jogasse as bolas que juntara. – Às vezes é tão difícil entender você... Mas é você quem escolhe, esse é o nosso trato.
Ian acompanhou Caio até sua casa para buscar o
videogame e os dois foram até o mezanino que servia de esconderijo para dias sem tênis. Ian se divertiu um pouco jogando enquanto tentava puxar assunto com o garoto, que ficou encolhido num pufe logo atrás dele.
– Caio, não tem muita graça jogar sozinho – Ian disse
cada palavra como um soluço enquanto tentava lançar golpes no adversário, retorcendo-se como se sua posição fosse contribuir para o jogo. – o que está acontecendo? Por que você não me fala?
Ian pausou o jogo e se virou para o menino para ouvi-lo. – Não sei. Eu me sinto estranho, tem essa coisa no meu
peito que nunca passa, e não é nenhum tipo de dor. Queria entender – ele respondeu, deixando Ian ainda mais confuso. – Minha própria mãe parece quase se esforçar para tentar esquecer que eu existo. E eu não tô sendo, sei lá, dramático. Às vezes os nossos contatos são até meio constrangedores. Isso não é normal, é?
Ian se lembrou da conversa que havia tido com Estela.
Talvez Caio estivesse certo em pensar daquela forma.
– Sabe, falei com a sua mãe da última vez e ela me pareceu
empenhada em que você tivesse o melhor – Ian tentou contornar. – Às vezes as pessoas expressam o amor de forma diferente. Quem sabe não é isso? Você acha que ela – Ian tentou encontrar alguma frase mais sutil, mas não conseguiu – não gosta de você?
– Acho que não é isso, porque ela se preocupa comigo, às
vezes. Só que parece… ter medo, como se eu tivesse uma doença contagiosa e ela precisasse se manter afastada para não pegar. E sempre foi assim – o garoto se mexia lentamente, como se estivesse cansado. – É que, depois que fiquei na casa de um amigo da escola uns dias atrás, não consigo parar de pensar nisso. A mãe dele ajudou a gente a fazer uma pirâmide de papel machê! isso é loucura! A Estela nunca faria isso – Caio disse, abismado –, e eles ainda conversavam e riam porque fizemos com um rolo de papel higiênico, e aquilo molhado era nojento pra caramba.
– Bom, talvez o problema esteja com ela, e não com você
– Ian disse. – Vocês precisam conversar. Ela te ama, você não deve esconder coisas que te incomodam das pessoas que você ama.
– Assim como você não está escondendo nada da sua
irmã? – Caio o interrompeu, enquanto se levantava. – se você soubesse que ela ia apoiar você, já teria contado a ela. Mas, em vez disso, você decidiu não contar porque, quando a gente sente que precisa fazer algo mais drástico, simplesmente... precisa fazer. Vou pra casa, acho que você já pode ir. Até mais!
Caio abriu a porta da sala e saiu sem esperar Ian. O rapaz
precisou desligar o videogame do garoto antes de deixar o local. Em seguida, levou o aparelho em uma mochila para entregar a um dos empregados da casa de Estela.
Assim que chegou perto da entrada, entreouviu uma voz
conhecida do outro lado da porta. Ian chegou mais perto para escutar melhor, mas a madeira era muito grossa para que ele ouvisse com clareza.
Naquele momento não sabia se batia na porta ou se
deixava a mochila ali e saía correndo. Quando a porta se abriu, ele teve a certeza de que era uma voz conhecida.
– Ian? – Iris perguntou, assustada. – Você me seguiu? O
que você tá fazendo aqui?
Iris não era a única surpresa. Estela viu os olhos
arregalados do rapaz pelos ombros da mulher que organizava o evento de lançamento da linha de pizzas congeladas da sua empresa.
– Não, eu – Ian gaguejou –, eu dou aula para o filho da
Estela.
– Não acredito, essa Estela? – Iris se virou para a mulher.
– Que demais! nem imaginei que fosse a mesma Estela. É pra ela que estou organizando aquele evento grande de que venho falando há um tempo. Hoje foi a última reunião. Se não tivesse encontrado você aqui, eu nunca saberia.
– Seria uma pena – Ian respondeu, sem empolgação. – Olhando assim, um ao lado do outro, vocês são
parecidos – Estela disse. – Que loucura isso. Por que você não me contou que tinha uma irmã que trabalhava com produção de eventos? Teria sido mais fácil encontrá-la.
Ian abriu um sorriso amarelo, dando de ombros, e
entregou a mochila de Caio para Estela, explicando que ali estavam suas roupas do treino. Ele percebeu que Estela estranhou o peso, mas não pareceu curiosa.
– Você já vai, Ian? Então, vamos juntos – Iris disse,
sorrindo, enquanto ajeitava a bolsa no ombro esquerdo e apoiava a mão direita na barriga.
Assim que observou Iris acariciando a barriga, Estela
colocou a mão sobre a boca.
– Espera, então são dois bebês ao mesmo tempo na
família? – ela riu. – Que trabalho!
A saliva de Ian secou como se sua garganta a tivesse
puxado como um ralo de pia se esvaziando.
Iris encarou o irmão num olhar de cumplicidade, como se
dissesse: “Do que essa louca tá falando?”. Ela ainda não havia entendido a que Estela se referia e riu, sem graça.
– Hum, a barriga está no tamanho normal, o médico
disse. Você acha que está grande para três meses? – Iris disse a Estela.
Ela já tinha pego o costume de colocar a mão sobre a
barriga, mas a verdade é que não tinha percebido mudança nenhuma no tamanho. Era apenas gordura. Mas preferiu não dizer isso a Estela para não causar nenhum desconforto.
– Vamos, iris? – Ian tentou puxá-la, interrompendo a
tentativa de Estela de falar.
– Não é isso! – Estela disse. – não quis dizer que você está
com a barriga grande demais. Eu disse porque você está grávida – Estela apontou para a barriga de iris, em seguida, levou a outra mão em direção a Ian – e a namorada do Ian também. São dois bebês na família de uma vez só. Parabéns!
Em seguida, Estela abraçou iris, despedindo-se, mas
também como um gesto de congratulação. Sem conseguir raciocinar direito, Iris retribuiu o abraço com o braço que não segurava a bolsa. Enquanto sua cabeça estava no ombro de Estela, lançou para Ian um olhar que ele não imaginava que pudesse vir de olhos tão simpáticos.