Azeitona
Capitulo 15
15.
Já fazia cinco dias que Emília e lisa não se viam, desde o incidente no hospital durante o parto de Rosa.
Quando Emília foi visitar os gêmeos, na segundafeira, já
na casa de Rosa, lisa não estava por lá. Provavelmente porque tinha visto os bebês e conversado com a garota no dia do parto.
Emília não conseguira voltar naquele dia como havia
prometido – estava ensopada com a chuva e preferiu ficar trancada em seu quarto, assim como no dia seguinte, para não encarar os pais. O fone de ouvido alto abafou as vozes histéricas vindas do outro lado da porta. Ela teria de conversar com eles em algum momento, mas ainda não era a hora.
Rosa parecia estar exausta, então Emília não demorou
muito na visita. Mas, claro, precisou se esquivar dos milhares de perguntas sobre Gael feitas por Catarina durante o depoimento que gravou na casa da colega.
Naquele mesmo dia, Emília tentou entrar em contato com
lisa, perguntando se o cinema que tinham combinado para a quinta-feira seguinte ainda estava de pé. Mas não obteve resposta.
Na quarta, Emília tentou novamente. Dessa vez recebeu
uma mensagem de lisa dizendo que não iria. Sem explicação. Sem desculpa. Apenas não iria. Isso fez com que Emília enviasse um áudio de quase dois minutos dizendo que explicaria tudo o que estava acontecendo e que confiava nela.
– Você foi a primeira pessoa que fez com que eu me
sentisse eu mesma quando conversávamos, e acho que nunca mais encontrei isso em ninguém. – Emília deu um suspiro no meio da mensagem gravada. – Vamos lá, por favor. A gente tem muita coisa pra conversar.
Lisa respondeu cerca de trinta minutos depois, em texto,
com um “tudo bem”.
As duas decidiram assistir ao filme antes de Emília explicar tudo o que havia acontecido. Perceberam depois que talvez aquilo não tivesse sido a melhor ideia do mundo, uma vez que saíram aos prantos da sala do cinema.
Enquanto as duas andavam desoladas em direção à praça
de alimentação, como boa parte das outras pessoas que haviam visto o filme, lisa secava os olhos relembrando o último suspiro do cachorrinho na tela.
Durante o filme elas esqueceram a conversa séria que
teriam em breve, entretidas com a história da cadela que morrera junto com o dono logo após os dois terem sido diagnosticados com um tumor. O animalzinho não poderia passar por uma cirurgia porque estava esperando filhotes e morreu assim que eles nasceram. O filme terminou com a câmera se afastando e uma música triste ao fundo, enquanto o grande amor da vida do protagonista chorava, acariciando um filhotinho e prometendo cuidar dele para sempre.
As duas pediram o mesmo hambúrguer e se sentaram, já
mais recuperadas, depois de terem passado duas horas com o coração na mão. Emília observou a amiga enquanto ela desembrulhava sua comida, tentando encontrar o momento certo para entrar no assunto.
Sempre que Emília olhava para lisa, tinha flashes da
infância e das brincadeiras entre as duas, sentindo que tudo tinha passado rápido demais. Uma hora elas estavam fingindo ser chefs de restaurante, cozinhando com terra, água e folhas de limoeiro, e de repente elas estavam ali, num shopping, sozinhas e pedindo suas próprias comidas. Naquele mesmo shopping onde dez anos antes estariam sendo repreendidas por suas mães por correrem pelos corredores ou lembradas de que não era necessário levar três tipos de tiaras, uma vez que elas só tinham uma cabeça.
– Lisa, quero contar o que está acontecendo. – Emília
disse. A garota a encarou e largou o hambúrguer.
– O que o Gael foi fazer no hospital? – lisa perguntou sem
levantar o olhar do seu lanche.
– Você o reconheceu? Não sabia se você iria se lembrar dele, vocês não se veem há anos. Tudo bem que o cabelo dele continua grande, mas não parece mais uma tigela – Emília disse, brincando, mas lisa não pareceu achar graça. Agora era difícil entender o que se passava na cabeça da amiga. – Mas então... Ele é meu namorado. – Emília contou, com cautela.
– Não, Emília... – lisa disse, decepcionada, como se já
estivesse esperando por aquilo, mas não quisesse acreditar. Em seguida fez uma careta e seu olhar percorreu as mesas ao redor, sem se fixar em nenhuma delas. Também parecia confusa, tentando entender onde Ian entrava naquela situação.
– Por que “não”? A gente estava ficando e dando um
tempo desde sempre, e desde aquela época ele sempre foi muito querido comigo. Diferente de quando éramos crianças. De um ano e meio pra cá começamos a namorar de verdade. – Emília levantou os olhos para lisa. – o Ian é só um colega da escola.
Lisa colocou os cotovelos sobre a mesa e tapou os olhos,
fazendo um aceno negativo com a cabeça, como se quisesse esconder um choro ou uma expressão que não conseguia segurar.
– O que foi, lisa? – Emília perguntou.
– Mas… e o bebê? – disse, ignorando a pergunta da amiga.
– Ele é do Gael?
Emília respirou fundo e tomou um gole do refrigerante.
Se existisse alguém que pudesse entender tudo aquilo, essa pessoa seria quem dividia segredos com ela antes de todo mundo: lisa.
– Não é do Gael.
– Ele sabe disso? – lisa perguntou, agitada. – Porque
quando o vi no hospital achei que era por causa de…
Ela mesma se interrompeu.
– Por que o quê? – Emília estava curiosa para saber o que
ela iria dizer.
Lisa balbuciou um “nada” quase inaudível e cruzou os
braços sobre a mesa, encolhendo-se.
– O filho também não é do Ian – Emília disse. – inclusive
minha barriga deve estar alguns centímetros menor desde a última vez que nos vimos no hospital. – A expressão de lisa ficou ainda mais confusa. – Eu não estou grávida.
A colega permaneceu com os braços cruzados, que
deixavam seus ombros altos numa postura nada atraen te. Ela abria e fechava a boca como se estivesse tentan do elaborar uma frase, mas aquilo parecia impossível.
Deu para ver os olhos de Lisa se enchendo de lágrimas até
que a primeira caísse. Eles já estavam vermelhos e úmidos por causa do filme. Dava para perceber que ela fazia força para não chorar, pressionando a palma da mão sobre os olhos, como quem tenta estancar um sangramento.
– Eu não queria estar grávida – ela disse numa voz baixa
que saiu como um miado.
– Eu sinto muito – Emília tentou consolar a amiga
passando a mão no seu ombro. – Você quer me contar o que aconteceu? Eu ainda não sei quem é o pai.
Lisa encarou a colega, tentando enxergar a confiança que
precisava para se abrir. Apenas negou com a cabeça.
– Por que você está participando do Novos Pais, então? –
lisa perguntou.
– Dinheiro – Emília respondeu, direta. Quando ouviu
aquilo saindo de sua própria boca, pensou em voz alta: – nossa, agora você fez eu me sentir mal.
– Não é culpa sua eu estar grávida – lisa disse. – Eu sei, obrigada por entender o meu lado – Emília
lançou um sorriso de gratidão. – Você não acha errado eu estar participando, acha?
O celular de Emília começou a vibrar na mesa de mármore
e ela atendeu.
– Você está sozinha? – Gael perguntou do outro lado da
linha.
– Não, por quê?
– Porque é sobre o programa. Não responda nada suspeito
– Gael disse. – Eu li o contrato que pedi para você me enviar. Se você topar, a minha ideia pode dar certo. Não tem nada aqui que impeça isso.
– Mas qual é a ideia?
– Encontrei uma forma de você permanecer no programa
de um jeito que seja mais fácil explicar a sua família e seus amigos. E, para não ter nenhum problema com os jornais e revistas, poderíamos usar o dinheiro pra viajar pra longe juntos.
Com um pigarro, Emília sinalizou a ele que continuasse.
Mais uma vez, não gostou da forma como ele se referira ao seu dinheiro como se fosse dos dois. Ela ainda precisava decidir se ir para longe com Gael seria a melhor opção.
– O que você pensou? – ela perguntou.
– Eu posso entrar no programa no lugar do Ian.
Ian havia chegado atrasado à casa de Caio da última vez por causa da gravação no hospital. Estela não estava lá para perceber, e o garoto parecia indiferente. Por mais que pudessem jogar tênis mesmo com chuva na quadra coberta, Caio preferiu mais uma vez observar Ian jogando videogame.
O rapaz sentiu que Caio não estava bem já fazia tempo,
mas naquele dia não quis nem jogar conversa fora. O mesmo aconteceu na terça seguinte.
Na quinta-feira Ian foi determinado a acabar a falta de
motivação de Caio e obrigá-lo a se divertir um pouco. Daquela vez o tempo estava ótimo.
– Você está indo para a casa do menino Caio, né? – o
porteiro perguntou antes de destravar o portão.
– Estou sim. – Ian respondeu, sem entender, já que ele estava sozinho e passava ali três vezes por semana. O porteiro já o conhecia.
– Ah, que bom – disse, enquanto Ian empurrava o portão
destravado –, talvez você possa ajudar os pais dele.
O rapaz ia perguntar o que tinha acontecido, mas, assim
que olhou em direção à casa de Caio e viu Estela e Rudi do lado de fora, entendeu que havia algo errado. Os dois conversavam com um policial ao lado de uma viatura. Rudi estava sério e Estela parecia perdida. Ela fez um movimento com uma das mãos sobre a testa, como se estivesse medindo a febre. Ian percebeu que ela apenas escondia os olhos enquanto chorava.
Ian correu até eles. Rudi e Estela o observaram de relance e
então voltaram a atenção para o policial.
– O restante da equipe de investigação está chegando. Eles
vão analisar as câmeras de segurança e vasculhar toda a área do condomínio – o policial disse. – É possível que ele tenha saído daqui de dentro?
– Eu acho que não – Estela disse, passando a mão pelos
cabelos com fios saindo da raiz para direções opostas. – Tem câmeras nas saídas e os muros são altos.
– Você acha que alguém pode ter... – Rudi se aproximou
do policial e falou mais baixo. – Pode ter levado ele?
Estela deu um passo para trás, jogando a cabeça para o
lado em um movimento desesperado.
– Por enquanto ainda não descartamos nenhuma
possibilidade, senhor – o policial respondeu.
– O que aconteceu? – Ian perguntou, acuado com a
presença de Rudi e do policial.
Todos se viraram para ele, como se tivessem esquecido
que ainda estava ali. O policial o olhou de cima a baixo, fazendo com que Ian ficasse receoso.
– Quem é você? – Rudi perguntou.
– Eu dou aula de tênis para o Caio – Ian olhou para Estela,
esperando que ela o apresentasse, mas fazer isso não parecia ser sua maior preocupação naquele momento. – Está tudo bem com ele?
Ian estava com a garganta seca. Se acontecesse alguma
coisa com Caio, ele iria se sentir culpado, porque percebera que o garoto passava por algum problema e não fizera nada para ajudá-lo.
– O Caio sumiu – Estela disse, em meio a lágrimas. –
Nenhuma das empregadas o viu desde cedo. Ninguém ao menos o encontrou pra levar à aula, ele também não deixou um bilhete. Elas me ligaram de manhã, mas eu não podia deixar a empresa, porque com a expansão aquilo lá está um caos. Eu não sabia que ele não iria voltar – Estela sentiu a garganta fechando com um espasmo de choro e não conseguiu mais falar.
Ian começou a recordar todas as conversar que haviam
tido. Lembrou que Caio tinha ficado particularmente interessado na conversa sobre dar mais valor quando não se tem mais a pessoa por perto. Será que ele fugiu? Ou será que...
O policial pediu licença para ir ao encontro da outra
viatura que havia acabado de estacionar no condomínio.
– Você quer que eu vá junto? Nós podemos ajudar a
procurá-lo por aqui – Estela disse.
– Não é necessário, dona Estela. Mas, se vocês puderem
dizer locais aonde o Caio costuma ir, nós começaremos por eles.
– Eu... Eu não sei o que ele costumava fazer por aqui. Mas
posso perguntar para as empregadas. Que eu saiba ele gostava de andar de bicicleta, mas andava por todo o condomínio – Estela disse.
O policial se virou para Ian.
– E você? – perguntou, com voz firme. Ele era mais
afetuoso com a família. Ian sentiu como se ele o tratasse como suspeito.
A sala em que os dois ficavam na academia lhe veio à
cabeça na mesma hora. Se ele havia se escondido em algum lugar, com certeza tinha sido lá.
– Nós jogávamos tênis na quadra – Ian respondeu,
encolhendo os ombros. – não sei onde ele poderia estar a não ser lá.
O policial balançou a cabeça enquanto o encarava com os olhos semicerrados numa linha assombrosa. Estela e Rudi entraram na casa para tentar descobrir pistas com as empregadas. O policial seguiu para o outro lado.
Quando o casal fechou a porta, Ian correu até o
investigador e assumiu que sabia onde Caio poderia estar.
– Dentro da academia tem um mezanino onde Caio e eu
passávamos as tardes jogando videogame quando ele não estava com vontade de jogar tênis. Os pais dele não sabem disso. Eu só queria manter o meu emprego porque sei que vai ficar tudo bem e ele deve estar lá – Ian disse, confiante. – Aquele seria o único lugar onde ele se esconderia, eu sei. Se ele não estiver no mezanino, acho que vocês podem investigar... fora desse condomínio.
O policial balançou a cabeça e pediu mais informações
antes de seguir até a outra viatura. Ian voltou até a casa e tentou conversar com Estela, mas ela mandou dizer que estava nervosa demais. Então, ele esperou por notícias sentado na calçada em frente à porta.
Quando o policial com quem havia conversado passou por
ali, Ian se levantou num pulo. O homem balançou a cabeça negativamente e o coração de Ian disparou.
Ele não estava lá.
Caio não havia simplesmente se escondido.