Azeitona
Capitulo 5
5.
Havia sobrado mais da metade da torta, e ela foi o café da manhã de Ian na segunda-feira seguinte à festa-surpresa. Provavelmente Iris serviria algum pedaço se o namorado passasse por ali naquele dia, mas ainda as sim sobraria o suficiente para pelo menos mais um café, já que ela não comeria.
Aos sábados, Ian acabava indo dormir mais tarde. Não
conseguia voltar ao horário correto no domingo, quando acordava após o meio-dia. Com isso, na segunda-feira ele com frequência acordava atrasado para a aula, geralmente se esquecendo de alguma coisa.
Sua aula começava às 8 horas, e para chegar até a escola ele
precisava de uns quarenta minutos. Na maioria das vezes acordava às 7 horas nas segundas, para estar às 7h10 na parada do ônibus que o levava – o que não era o ideal, mas em geral funcionava e o ajudava a desenvolver a habilidade de fazer múltiplas coisas ao mesmo tempo.
Ele estava a cinco minutos de perder o ônibus. Enquanto
corria até o portão, um lampejo fez com que o rosto da produtora aparecesse em sua mente, seguido pelo de Emília. Sentiu seu sangue ser bombeado num jato quente, que em milésimos de segundos se transformou em um frio na barriga.
Naquele dia ele teria de contar para Emília que havia sido
convidado para participar de um reality show para casais adolescentes esperando bebês e que… ela seria a mãe.
Ian balançou a cabeça enquanto abria o portão velho de
ferro, como se não estivesse concordando com a própria ideia. Ainda não havia pensado muito no assunto, por mais que tivesse tido tempo suficiente. Sempre que a ideia voltava à sua mente, ele respirava fundo e prometia a si mesmo que pensaria melhor depois. Mas agora ele precisava pensar, mesmo com seu cérebro lutando para que esquecesse aquilo, como uma lembrança constrangedora que surge antes de dormir.
O portão velho estava emperrado – o que oportunamente
acontecia nos dias em que ele se atrasava. O protocolo para resolver era 1) conferir se aquela era a chave correta, 2) colocá-la ao contrário e 3) passar a mão entre a grade e tentar abrir pelo lado de fora. Por fim, o último método, de emergência, exigia que ele pulasse a grade. Por sorte isso não foi necessário naquele dia, mas já tinha sido outras vezes, quando ele ainda não havia desenvolvido o protocolo.
A mochila de Ian batia nas suas costas como se estivesse
galopando em um cavalo enquanto corria até a parada. Viu o ônibus chegando quando ainda estava a duzentos metros de distância. Correu o máximo que pôde e conseguiu embarcar poucos segundos depois do último passageiro.
Emília sentava na penúltima fileira da sala, no canto, e
Ian, duas cadeiras à frente – só que do lado oposto. Ela ficava escorada o tempo todo, deixando o caderno na horizontal para que pudesse escrever de forma mais tranquila. Não era uma má aluna, mas mantinha aquela posição para ter um acesso mais fácil à melhor amiga, que sentava atrás.
Qualquer um da sala sabia que Emília e Ávia eram
melhores amigas. Elas aos poucos estavam incluindo Cristina em suas conversas. Não que nenhuma das duas conversasse com ninguém que não fosse a outra, mas elas eram tão diferentes entre si que estranhamente começaram a se dar bem, até porque não faziam questão de se encaixar em nenhum outro grupo.
Em um universo paralelo, as três se odiariam. Dizem que
quando você convive demais com uma pessoa acaba pegando traços da personalidade dela, mas isso não parecia acontecer entre elas e, mesmo assim, não era um problema.
Ávia tinha a pele morena e os cabelos escuros, parecendo
ter uma ascendência indígena que Ian nunca teve coragem de perguntar para confirmar. Quando era criança, tinha muitas gordurinhas, o que, somado à altura quase desproporcional e à cara amarrada, intimidava todo mundo – os meninos e as meninas.
Mas a puberdade a atingiu como um trator, e cada pedaço
de gordura se encaminhou para lugares oportunos em proporções estratégicas, o que a deixou ainda mais intimidante para os rapazes do terceiro ano.
O quadro estava ficando cheio de fórmulas matemáticas
rápido o suficiente para parecer que o professor o preenchia com números aleatórios. Ian dividia sua atenção entre copiar e prestar atenção em Emília.
Ela era uma garota que chamava a atenção. E também que
prestava atenção – Ian sentiu que ela o havia pegado observando-a diversas vezes. Será que ela está conversando agora com a amiga sobre mim?
Ian não era o garoto menos confiante do mundo. Ele sabia
que as meninas o achavam um cara legal – já tinha ouvido isso antes. Ele era o cara dos esportes. Não o cara dos esportes do mal que joga crianças do primeiro ano na lata de lixo. Era o cara dos esportes que às vezes tinha o cabelo com uma franja caindo despretensiosamente no canto da testa e às vezes tinha o cabelo “ele-realmente-deveria-estar-repartido-ali?”. Seus olhos eram um pouco mais escuros e instigantes que os olhos doce da irmã, e ele sabia usá-los quando necessário.
Ian não sabia muito sobre Emília, mas ela o intimidava
tanto quanto Ávia. A garota parecia tão confiante.
A outra amiga, Cristina, era diferente das duas: muito
mais vaidosa. Os amigos brincavam que ela passava mais tempo se arrumando para ir à escola do que dentro da escola. Tinha trauma das aulas de educação física e tentava se esquivar ao máximo dos esportes. Tudo por causa de um incidente no início do ano que a fizera ficar conhecida como Cristina Restaurada.
O professor de educação física abrira o ano com uma aula
intensiva, para testar o ânimo dos alunos como não fazia havia muito tempo. Começou passando um aquecimento com polichinelos e corrida, antes de colocar todos para jogar uma partida de basquete.
Todo mundo saiu da aula exausto, com suor escorrendo pelo pescoço. Durante toda a partida Emília tentara ajeitar o coque improvisado e, no final, parte do cabelo estava grudada por todo o rosto. Já Cristina, num movimento impensado, levou sua camiseta branca em direção ao rosto ensopado de suor.
Segundos depois, lembrou-se da maquiagem que estava
usando e largou rapidamente a ponta da camiseta. O estrago já estava feito. No uniforme estava estampado o que parecia ser o quadro do Cristo restaurado, que estava parecido o suficiente para que os colegas se lembrassem do meme de anos atrás. Sorte dela que eles estavam no último ano do ensino médio.
Emília não era tão alta quanto Ávia nem tão vaidosa quanto Cristina. Era vista todos os dias nos corredores da escola com o cabelo preso em um coque malfeito e a cara lavada.
Apesar disso, havia algo nela que chamava a atenção. Não
sorria o tempo todo, mas todo mundo que tentasse fechar os olhos para imaginá-la a veria sorrindo. Talvez porque sua boca bem desenhada roubasse um pouco da atenção de suas palavras ou talvez porque a presença dela fosse simplesmente prazerosa.
Os dois haviam trocado poucas palavras desde o início do
ano, quando começaram a estudar juntos, mas ele fazia questão de passar por ela sempre que tinha oportunidade durante o intervalo – ela tinha um aroma suave e diferente. Uma mistura de goma de mascar com…ar fresco e canela. Era estranho. Pensou em falar isso para Eloy para convencê-lo a colocar Emília num posição melhor do ranking que tinham feito das meninas bonitas da sala, mas essa era uma coisa que as pessoas não entendem e você mantém para si. Na lista de Eloy, ela tinha ficado em quarto, e, na de Ian, em segundo. Para Eloy, a segunda posição era de Ávia. A primeira, para os dois, Cristina.
Mas a relação dos dois não passava disso: ele achava ela
cheirosa. Ela praticamente não sabia que ele existia. Assim que o sinal da saída tocou, Ian observou todo mundo se levantando, enquanto ele ficou parado, pensando qual seria o próximo passo. Daquele dia não poderia passar. A melhor opção seria segui-la até que as amigas não estivessem mais por perto. Caramba, isso tá estranho mesmo.
Ian levantou-se num impulso antes que Eloy fosse até ele
para acompanhá-lo até a parada do ônibus. Geralmente eles ficavam conversando por alguns minutos antes que o ônibus chegasse, mesmo a casa de Eloy ficando próxima o suficiente para que ele não precisasse de condução.
Na calçada do lado oposto à escola, Ian acompanhava com
os olhos Emília descendo o pequeno lance de escadas até o portão. Torcia para que ela se separasse logo das amigas. Ele não poderia contar o plano a ela com outra pessoa por perto.
– Ian! Você tá louco, por que saiu correndo? – Eloy
perguntou, confuso, chegando perto do colega, que pareceu não ter notado que estava sendo seguido.
– Eu tenho que falar com uma pessoa – Ian respondeu,
sem dar muita atenção.
Ian viu de longe que Cristina havia parado para to mar
água, enquanto Emília a esperava. Se elas não fossem sair juntas, ela não estaria esperando. Droga!, Ian pensou, passando a mão pela cabeça enquanto soltava todo o ar dos seus pulmões pela boca como um pneu furado. Ao menos quando elas estiverem fora da escola as pessoas já vão estar longe o suficiente para não ter muita gente ao redor.
A rua da escola não tinha saída. As vans e os ônibus que
levavam os alunos podiam entrar, mas os pais que estavam de carro não. Emília sempre voltava com o pai ou a mãe. Ela e Ávia revezavam, na verdade. Quando os pais de uma delas vinha, a outra pegava carona. Moravam a duas quadras de distância.
As duas seguiram até o fim da rua, e Ian foi logo atrás. Era impossível qualquer uma delas suspeitar que estava sendo seguida, já que aquela direção era a única possível para os estudantes caminharem. Eloy estava curioso e foi junto. Ian parecia ter perdido sua visão periférica, porque nem percebeu o amigo ao seu lado.
– Você tá olhando pra Ávia? É com ela que vai falar? –
Eloy perguntou. – Você vai chamar ela pra sair ou alguma coisa assim?
– O que você tá fazendo aqui? – Ian o interrompeu. – não é
com a Ávia que eu quero falar. É com a Emília.
– Eu sabia! Percebi que você estava olhando pra ela a
manhã inteira. Na verdade, achei que você estava olhando pra Ávia. – Eloy disse. Parecia estranhamente empolgado. Ele achava relacionamentos difíceis e parecia se entusiasmar mais com os de Ian do que com a ideia de ir atrás dos seus. – Ah, espera. Você vai conversar sobre o trabalho de ontem? Porque já separei a parte de todos, estava pensando em decidir isso na próxima aula de química.
Ian deu de ombros e continuou acompanhando a garota
com os olhos, em passos lentos. Então parou num rompante e fitou Eloy.
– Nossa, é isso aí – Ian quebrou o silêncio, e em seguida
respirou fundo. – Mas acho melhor falar com ela agora.
Eloy concordou.
– Ô EMÍLIA! – o rapaz gritou e deu um susto em Ian. As
meninas se viraram. A boca de Ian de repente ficou seca. Ele estava odiando esse novo Eloy desprendido. Ele tinha começado a fazer teatro porque queria ser advogado e havia lido num artigo que advogados que são bons atores conseguem manipular os sentimentos do júri e do juiz e acabam sendo mais bem-sucedidos. Sem contar que precisaria de qualquer jeito perder a vergonha de falar em público. Por enquanto, Ian constatou que ele parecia apenas ter perdido o bom senso.
Enquanto eles caminhavam até as meninas, Ian percebeu
que elas não pareciam achar aquilo estranho. Estavam apenas esperando. Sem cara franzida. Sem troca de olhares arrogantes. Elas pareciam ser garotas legais.
Ávia estava com a cara fechada, mas as sobrancelhas
levantadas indicavam que ela não estava brava. Ela não parecia ter uma gama muito grande de expressões, então era pela sobrancelha que se podia ler o que ela pensava.
– O Ian queria conversar com você sobre o nosso trabalho
de química – Eloy disse. – sexta-feira você não veio e agora está no nosso grupo. Eu iria falar apenas na próxima sexta, pra ninguém me achar chato ou algo assim, ficar falando do trabalho como se eu fosse um desesperado por notas, mas, já que ele quis, acho melhor, porque podemos terminar antes.
Ávia estava com o celular na mão, provavelmente
trocando mensagens com o pai, que devia estar chegando. Seu telefone tocou e ela se afastou alguns metros para atender, já que o assunto de Ian não era com ela.
– Ah, tá bom – Emília respondeu, despretensiosa. – o que
tenho que fazer?
– Na verdade eu… era pra falar… – Ian não conseguia
completar uma frase sequer. – É difícil.
– Claro que não! – Eloy interrompeu, batendo no ombro
de Ian. – o trabalho está todo encaminhado.
Os neurônios de Ian tentavam processar cada caminho
para chegar aonde queria o mais rápido possível, sem sucesso.
Se ele dissesse que queria falar outra coisa, Emília ficaria
curiosa, e ele teria de falar tudo ali na frente de Eloy, e talvez na frente de Ávia também. E da mesma forma ela poderia surtar na frente de parte da escola; ele não a conhecia direito para prever sua reação.
Por outro lado, não poderia só falar sobre o trabalho e
deixar toda a história do programa de lado. Seu tempo com Catarina estava se esgotando.
O silêncio já começava a ficar constrangedor. Emília ia
falar alguma coisa quando ele a interrompeu.
– A sua parte e a minha são a mesma… parte – Ian disse.
Eloy virou a cabeça rápido como uma flecha para o amigo. – Amanhã vou montar o projeto. A gente tem como se encontrar na minha casa?
O experimento que fariam era sobre termodinâmica– um
balão cheio de água que, colocado sobre o fogo, fica intacto porque a água absorve o calor que faria a borracha estourar. A verdade era que cada um poderia fazer sua parte do trabalho sozinho, e Eloy sabia disso.
Mas sabia também que aquilo só poderia ter uma
explicação: sua primeira teoria, sobre Ian estar dando em cima de Emília, estava correta. Ele balançou a cabeça afirmativamente para o amigo. Naquele momento, a ligação de Ávia acabou e ela voltou à conversa.
– O que que deu? – ela perguntou a Emília. – Tenho que fazer um trabalho de química na casa do Ian
– Emília explicou.
– Eu preciso ir também? – As sobrancelhas de Ávia se
retraíram, virando quase uma só.
– Hum – Ian e Eloy se olharam –, não. O Ian e a Emília
ficaram com a parte da experiência, então eles precisam testá-la e tudo o mais – Eloy respondeu, tornando-se cúmplice do colega.
– Que bom – as sobrancelhas de Ávia descansaram, indo
uma para cada lado, como deve ser.
– Você vai poder ir? – Ian perguntou a Emília, mais
calmo. Se ela fosse, ele não precisaria falar nada sobre o programa ali, no meio da rua. – Você não trabalha?
Ian percebeu que deveria ter esperado ela responder
primeiro. Na verdade, estava apenas surpreso porque Emília realmente iria até sua casa. De livre e espontânea vontade. Com seu cheiro de goma de mascar, ar fresco e canela.
– Eu trabalho com a minha mãe. Se é para fazer trabalho
para a escola, posso sair. – Ela deu um sorriso gentil de canto de lábio pela primeira vez.
– Ah, era o meu pai no telefone. – Ávia avisou a amiga. –
Ele já está chegando.
Antes que pudesse terminar a frase, viu de longe o carro
do pai. Ian pegou o número de Emília para que pudesse enviar o seu endereço e eles se despediram com um aceno antes de as duas entrarem no carro.
Eloy acompanhou Ian até o ponto de ônibus. – Você viu que ela deu um sorrisinho quando disse que
poderia sair? Eu tenho certeza de que ela sabe bem o que vocês vão fazer naquela casa.
– Eu ficaria muito mais feliz e tranquilo se ela soubesse o
que nós iríamos fazer naquela casa e ainda estivesse disposta a ir – Ian disse quase que para si mesmo. Eloy olhou para o amigo e balançou a cabeça com um sorriso sacana sem dizer nada. Então Ian percebeu que ele havia entendido tudo errado.
– Tenho quase certeza de que o “sorriso” foi por ela
mesma ao pensar que vai ficar longe do trabalho por algumas horas, e não porque vai pra minha casa. – Eloy pendeu a cabeça para o lado como um cachorro, tentando entender. – o negócio com a Emília não tem nada a ver com eu querer ficar com ela ou algo assim.
Ian sentiu o celular vibrar no bolso. Era Catarina, que já
sabia que ele havia acabado de sair da aula. Ele levantou o celular para Eloy como uma explicação enquanto se afastava para atender.
– Oi, Ian! Catarina – a produtora disse, apressada. – Tudo
pronto para gravarmos? Preciso marcar uma data pra já! Tudo certo com a Emília? Preciso dos dois juntos.
– Mas já? – Ela havia falado tanto que parecia que a
conversa já estava no fim sem que ele pudesse dar um pio.
– Você quer fazer isso quando, querido? É pra ontem! –
Ela não parecia tão doce quanto da primeira vez em que conversaram.
– Amanhã mesmo eu te respondo, prometo. Catarina aceitou com relutância. Pegou alguns dados do
rapaz e disse que iria pedir mais algumas informações por e-mail. Ele comentou que os dois iriam se encontrar no dia seguinte para discutir melhor e que ele a manteria informada.
– Você vai até a casa da Emília? – Catarina perguntou.
– Não, ela vai pra minha casa logo após o almoço. – Perfeito. A gente se vê amanhã. Beijos! Ian desligou o telefone e caminhou até Eloy, tentando
entender o que significava o “a gente se vê amanhã”. Porque ele pensava que havia deixado bem claro que iria conversar com Emília e a avisaria. Não que gravariam amanhã.
– Espera aí – Eloy interrompeu o pensamento de Ian,
levando um susto quando o perfil de Emília carregou no seu celular. Ele levantou o celular e virou a tela para Ian. – olha a foto de capa da Emília. Cara, o que você tá fazendo...
Ele não tinha se lembrado de verificar isso. Emília tinha um namorado.