Azeitona
Capitulo 9
9.
Faltavam quinze minutos para o sinal de saída da escola tocar, mas Ian e Emília já estavam pertinho do colégio. Tinham decidido sair da praça de alimentação da emissora mais cedo, para evitar um atraso como o daquela manhã. Uma vez que ninguém sabia que Emília não havia ido para a aula, precisava voltar à escola, onde pegaria carona até em casa.
– Segura aqui a minha bolsa. – Emília, já de uniforme, a
entregou para Ian assim que os dois pararam na esquina da escola. Ela se abaixou para amarrar o cadarço, que estava arrastando no chão fazia um tempo sem que tivesse percebido.
Ian, apoiando a bolsa em seu ombro, percebeu que desde a
esquina da escola até o portão, onde a rua sem fim terminava, já havia algumas pessoas aguardando os alunos.
Distraídos, Ian e Emília levaram um susto quando o carro
preto que estacionou ao lado deles buzinou. Os dois se viraram.
– Merda! – Emília disse, terminando de amarrar o
cadarço num laço apertado.
– Quem é? – Ian perguntou, sem mover os lábios,
enquanto observava um rapaz vindo na direção dos dois.
A garota se levantou e esperou Gael chegar até ela. – A sua aula ainda não acabou. O que você tá fazendo aqui?
– não estava bravo, mas definitivamente não parecia feliz.
Ian queria encostar no muro do colégio com Emília e
afundar, até sumir por completo, como se nada tivesse acontecido. Não que estivesse com medo, mas não teria circunstância pior para conhecer Gael. Na verdade, ele nunca tinha parado para pensar que um dia iria conhecê-lo, dada a situação em que ele se encontrava com a namorada do rapaz.
O namorado de Emília tinha feito dezoito no começo do
ano, mas, pela aparência, Ian diria que ele era mais velho. Provavelmente por causa dos ombros largos e do rosto angular. Ele tinha o cabelo claro e grande o suficiente para fazer um coque, mas não o fazia. Não vestia uma camisa xadrez nem tinha a barba muito grande para se encaixar num estilo lenhador moderno. Inclusive, a última coisa que Ian queria naquele momento era imaginar Gael com um machado.
– Que bom que você chegou, amor – Emília abraçou Gael,
encostando sua cabeça no peito do namorado. Ian ainda segurava sua bolsa. – Eu passei meio mal na sala, fiquei tonta, sei lá.
Emília pensava rápido.
– E ele? – Gael apontou com o queixo pontudo para Ian. – É um colega, o Ian. – os dois se cumprimentaram
também com um movimento curto de cabeça. – Viemos até aqui justamente para ver se você já tinha chegado.
– Por que você não me mandou uma mensagem
perguntando?
– Hum… sem rede. Já falei, celulares funcionam melhor
no presídio do que nessa escola – Emília se voltou para Ian e agradeceu antes de pegar sua bolsa de volta. – não esqueça de pegar a sua mochila depois.
– Que mochila?
– Que ficou dentro da sala. Você esqueceu a sua quando
veio me ajudar – disse ela, já garantindo uma explicação a menos a Gael sobre o fato de Ian não estar carregando nada.
– Ah, verdade. E meu uniforme está lá também – Ian
olhou para Gael. – Eu me troquei porque vou para outro lugar saindo daqui.
A situação estava começando a ficar constrangedora para
os três, com tantas explicações. Gael apenas virou o rosto e seguiu em direção ao carro, sem cumprimentar Ian. Era um mau sinal. Emília o seguiu.
– Você quer que eu te leve ao hospital? – Gael perguntou
com má vontade, provavelmente por causa da presença de Ian.
– Não precisa. Acho que foi porque não tomei café da manhã – Emília disse, enquanto passava as costas da mão na boca. Havia acabado de comer um sanduíche e seria um problema se ali tivesse algum farelo.
Ela precisava tomar cuidado também para que Gael não
perguntasse nada a Helena. O que poderia parecer estranho, mas não para os dois – eles tinham sido vizinhos por muitos anos, até a família de Emília se mudar para o prédio da confeitaria. A mãe de Gael era muito amiga da mãe de Emília e dera muitas dicas quando Helena também ficou grávida, alguns meses depois dela.
Os dois brincaram juntos por muitos anos e deram o
primeiro beijo juntos. Mas só tinham começado a namorar havia um ano e quatro meses. Antes disso, ficavam de vez em quando.
Emília percebeu que Gael estava com ciúme, mas preferiu
não ficar se explicando, já que nada demais estava acontecendo entre ela e o colega, ao menos não no sentido romântico. Se ele perguntasse, ela contaria tudo.
Gael estacionou num restaurante ao qual os dois
costumavam ir uma vez por semana, sempre que ele a buscava. Durante a noite, ele fazia um cursinho para passar num concurso público, então de resto eles se viam apenas nos fins de semanas. Os pais dele trabalhavam na prefeitura, em cargos de administração, havia mais de quinze anos.
– Que calor! – Emília começou a se abanar. Eles estavam
sentados longe do ventilador do restaurante, que não tinha ar-condicionado porque era todo aberto.
– E você levou uma jaqueta pra aula? – Gael perguntou. – Mais cedo estava um pouco frio. – Emília engoliu em
seco.
– Como vão as coisas lá na sua casa?
Emília ficou aliviada com a pergunta. Pensou que talvez
fosse começar um interrogatório sobre Ian. Ela já havia ficado com garotos mais ciumentos que Gael, mas desta vez até Emília acharia sua desculpa suspeita se estivesse no lugar dele.
– Mais ou menos. Depois daquela história do almoço, no dia seguinte ela já não lembrava mais. Ou seja – os pratos haviam chegado à mesa e Emília agradeceu ao garçom –, ela cria brigas sem necessidade alguma, diz coisas horríveis e depois a única pessoa que fica mal sou eu.
Na semana anterior, ela ficara encarregada do almoço. Eles
não tinham uma empregada que viesse todos os dias, só uma vez por semana. Então a comida era a mãe que fazia. Emília nunca precisava cozinhar, mas sabia fazer algumas coisas, como arroz, salada e frango.
Mais precisamente, apenas arroz, salada e frango. Naquele dia, ela começou a preparar o almoço assim que
chegou da escola. O frango já estava cortado e temperado, só precisava cuidar das panelas. Mas sua cabeça ainda estava a mil por causa do programa, e ela começou a pesquisar sobre parto e gravidez enquanto esperava a comida ficar pronta. Encontrou vários vídeos e não conseguia mais parar de ver – e de se sentir aliviada por não estar grávida.
Tanto o frango quanto o arroz criaram uma crosta preta
por ficarem tempo demais no fogo. Mas, ainda assim, estavam comestíveis. Durante o resto do dia, enfrentou uma longa jornada ouvindo quanto era desatenta, despreparada, irresponsável e imprópria para se cuidar sozinha. Quando a mãe passava por ela no escritório da confeitaria, balançava a cabeça.
– Meio que toda mãe é assim, eu nem ligo muito quando
ouço esse tipo de coisa. Você deveria fazer o mesmo – Gael disse. E então colocou na boca uma garfada da massa que havia pedido.
– Tem um restaurante do lado da nossa casa, não é como
se nós fôssemos passar fome naquele dia ou como se eu tivesse atrasado o trabalho de todo mundo. Nós almoçamos em casa mesmo assim, porque era só não pegar a parte queimada. Mas, enquanto comia, parecia que sentia que ela queria que eu me engasgasse – Emília contou, séria, espetando sua batata frita com força, mas Gael achou engraçado e balançou a cabeça. Sua boca estava cheia para falar alguma coisa.
– Não foi necessário aquilo, sabe? – Emília disse. – o meu
pai até mandou eu parar de me importar também e falou que ele já tinha feito isso. – Ela largou os garfos e olhou pra Gael. – Você acredita nisso? Ou seja, ele prefere não ver o problema a ter de resolvê-lo. Isso me irrita!
– Sério? – Gael riu. – seu pai é engraçado. Mas acho que
ele não está de todo errado. Às vezes a gente que ainda não sabe, e na verdade casamento é isso: aguentar a outra pessoa.
Emília olhou séria para Gael.
– Que bom saber que você pensa assim – Emília disse
com a cabeça inclinada. – Eu acho que você precisa estar feliz com a pessoa com quem você está, não tem sentido relevar o que te incomoda e ir se machucando sem ao menos falar pra ela.
– Então por que você não faz isso e não conta para a sua
mãe o que te incomoda?
Emília olhou para o prato e respirou fundo. – Eu estou na vida dela há dezessete anos. – Então olhou
para Gael. – Ela que me fez. Provavelmente não me vê como uma pessoa que tem algum direito de dar alguma opinião. Sempre vai pensar que eu sou a pessoa que precisa mudar. Talvez a convivência tenha estraga do tudo. Eu só preciso de um pouco de ar livre, vai ser melhor pra todo mundo.
Gael franziu o cenho, mas concordou com a cabeça, e os
dois continuaram comendo. Emília começou a lembrar da gravação do Novos Pais. Ela havia conversado com Ian sobre para quem eles contariam primeiro, já que, em algum momento, precisariam contar. Tinha pensado em Ávia, mas chegara à conclusão de que talvez Gael fosse o mais indicado, já que, se ele descobrisse que até a amiga dela sabia e ele não, o problema poderia ser ainda maior.
– Você já viu aquele programa Novos Pais na TV? – Emília
perguntou e deu um gole em seu suco, sem tirar os olhos do namorado, esperando a resposta.
– Umas partes só. Vi alguma coisa na internet – ele deu
um gole no copo de refrigerante. – Aquele programa é uma besteira.
– É? Deve ser complicado para aquelas garotas, né?
Estarem grávidas. Algumas são até mais novas que eu.
Gael começou a tossir depois de engasgar e colocou seu
copo na mesa.
– Por que você tá falando disso, Emília? – ele perguntou,
assustado. – Que papo estranho.
Emília percebeu que ele estava entendendo outra coisa. – Nããão, não é isso que você tá pensando. – Gael soltou
um suspiro de alívio. – Eu só queria mesmo saber o que você pensa, porque… bom, deixa pra lá. Você não assiste, então tudo bem. Eu só queria falar do programa.
– Emília pensou que talvez desse mesmo para confiar no
namorado, mas que contar quando estivesse mais perto de o programa estrear fosse uma melhor opção. Ele não poderia impedi-la de fazer qualquer coisa, afinal.
Os dois já tinham terminado seus pratos quando Emília se
lembrou de lisa. Gael a conhecia porque tinham estudado na mesma escola, e ele era um dos meninos com quem as duas brincavam durante o intervalo.
– Você se lembra daquela minha amiga do ensino
fundamental, a lisa? Falei com ela. – Assim que soltou a frase, Emília percebeu que tinha feito uma besteira. Ainda mais porque naquele dia, em tese, ela tinha ficado na escola a manhã inteira. Os dois tinham conversado no dia anterior e ela não havia dito nada. – Falei pela internet, quero dizer. Lembrei do nada, fui procurar o perfil dela e a encontrei.
Emília percebeu que Gael ficou meio desconfortável ao
ouvir nome de lisa, o que era estranho, ainda mais porque os dois se conheciam muito pouco, só mesmo das brincadeiras esporádicas nos intervalos das aulas.
– Ela tá bem? – ele perguntou, como se estivesse
cumprindo uma obrigação. Pegou a chave do carro de cima da mesa. – Vamos indo?
– Vamos. – Emília se levantou. – Ela tá bem, sim, comentei porque não sabia se você lembrava, faz tanto tempo.
– Acho que sei quem é, sim. Você quer que eu te leve pra
casa? – Gael emendou rápido.
Emília olhou para o namorado, confusa. – Claro, eu trabalho à tarde, você sabe.
No caminho, eles conversaram sobre as aulas de Gael, que
estavam mais pesadas porque o concurso estava chegando. Mas Emília tinha ficado com uma pulga atrás da orelha. Não sabia se ele apenas não estava tão interessado em saber sobre a amiga de infância dela ou se tinha alguma coisa ali. Ainda mais depois da maneira como lisa ficara após ter visto a foto dele no seu celular. Emília balançou a cabeça tentando afastar o pensamento. Começou a achar que toda essa história de ter mentido e guardar segredo a estava deixando paranoica. Ou talvez participar do programa estivesse apenas remexendo em coisas do passado que nenhum dos envolvidos gostaria que fossem descobertas.