Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 21 de 23

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Azeitona

Capitulo 21

21.

 

E mília entrou na recepção gelada do hospital por volta das 6 horas da tarde. Aquele dia estava sendo longo – desde a revelação de seu “segredo” com Gael naquela manhã, não conseguira contato com Ian. Mesmo após descobrir sobre o acidente de Iris durante a conversa com lisa mais tarde.

Num rastro, ela foi em direção ao balcão para saber mais

informações sobre iris. O local estava muito mais movimentado do que da última vez em que estivera ali. Desta vez quem atendia era um homem esguio e com o rosto anguloso que fazia movimentos excessivos com a cabeça enquanto conversava com um casal de idosos.

Esperando para ser atendida, ela se virou e escorou as

costas no vidro da recepção. Seu olhar encontrou Ian como um ímã. Ele estava sentado numa poltrona, com a coluna torta numa posição que não parecia confortável. Tinha um cotovelo no encosto de braço e a cabeça escorada na mão com punho fechado, tirando um cochilo.

Enquanto seguia em direção ao colega, Emília ficou

preocupada com a gravidade do acidente. Sabia que era horário de visita porque o segurança do hospital estava em frente à porta dos quartos e ela estava aberta – em geral ele ficava sentado num banco ao lado controlando apenas a entrada de acompanhantes e a porta permanecia fechada. Se Ian não podia visitar iris, significava que ela ainda não estava no quarto.

Um homem de cinquenta e poucos anos, de terno, que se

sentava ao lado de Ian e observava a porta da rua, enquanto batucava com o sapato no chão, se voltou para Emília quando viu que ela encarava o garoto e mordia a unha do dedo polegar. A garota não sabia se o acordava ou esperava.

– Você quer... – o homem disse, apontando para o seu

assento, enquanto levantava e buscava por outra poltrona, sem esperar que Emília respondesse. Ela agradeceu com um aceno de cabeça.

Assim que se sentou, conseguiu ver mais de perto o rosto

de Ian. Seus cílios compridos estavam molhados. Ela desviou o olhar e respirou fundo, pensando que ela tinha estragado tudo.

Ian se ajeitou na cadeira, e levou a visão imediatamente

para um relógio que ficava na parede bem na frente dos dois. Provavelmente esperava notícias que o médico havia prometido em algum horário específico, Emília pensou.

Ian não a viu de imediato, e ela permaneceu calada,

examinando-o e esperando algum contato visual. O rapaz manteve o olhar no chão como se acompanhasse um inseto passeando pelo piso de vinil.

Emília colocou a mão em cima da perna de Ian, e ele girou

a cabeça rapidamente em direção à garota.

– Me desculpa por hoje de manhã – a voz de Emília saiu

num sussurro quando viu o nariz e os olhos do garoto vermelhos de choro, e aquilo cortou seu coração. – Desculpa, desculpa, desculpa. Eu não sabia. Desculpa. Você conseguiu o dinheiro?

Ian balançou a cabeça negativamente. Ele esticou as pernas

e cruzou os pés, obrigando Emília a recolher a mão, que ainda pousava em sua coxa.

– O namorado da minha irmã saiu, disse que iria tentar

alguma coisa – ele disse sério, sem olhar para Emília. – ia falar com os pais. Mas ele sabe que eles também não têm essa grana.

– Eu conversei com a minha mãe. Ela tem alguma coisa no

banco e disse que, se o dinheiro for reposto nos próximos meses, pode tirar algo do caixa da empresa. De quanto você precisa?

Ian disse o valor, já cansado daqueles números que o

assombravam. Emília arregalou os olhos.

– Ah, caramba! Bom, posso falar com ela – ela abriu um

sorriso amarelo, tentando passar para Ian uma esperança que ela mesma não sabia se tinha. – Ei, ela pode também conseguir um empréstimo. O crédito da minha mãe deve ser grande por causa da confeitaria. Você não precisa se preocupar, vai dar certo.

– Obrigado – Ian disse. Ele fez uma pausa, analisando se

valia a pena dizer o que estava pensando. – Mas, sinceramente, você me assusta agora. Eu já estou tão ferrado para precisar lidar com você. Se aceitar, vou ter medo de um dia amanhecer com a minha casa pegando fogo porque você decidiu que de repente não confia mais em mim.

– Eu não sou uma pessoa ruim ou com más intenções –

Emília se defendeu, com a mão sobre o peito. – É que conhecia o Gael há tantos anos e conheço você há tão pouco tempo. Ele me convenceu de que essa história de programa de TV parecia tão maluca. Você nem me conhecia quando me colocou nessa.

– A gente se via todo dia na aula – Ian a olhou nos olhos. –

E você continuava na minha cabeça mesmo quando eu, ou você, não estava na escola.

Emília não entendeu direito. Geralmente ao falar uma

frase dessas ele estaria brincando. A garota observou a expressão de Ian, que permaneceu séria, e ela decidiu não reagir.

– Eu realmente acreditei que fosse acabar muito mal pra

mim – ela continuou, como se Ian não tivesse dito nada – e sentia que você sabia alguma coisa que eu não sabia. Eu sempre acredito nas pessoas, mas, quando o Gael me alertou de que você poderia estar planejando alguma coisa, preferi acreditar nele e me proteger.

Ian balançou a cabeça com o rosto ainda franzido. – Ótimo. Não sei o que você quer que eu diga ou o que

veio fazer aqui. Você quer que te desculpe para se sentir melhor? Porque isso não vai mudar nada pra mim.

– Eu contei para a Catarina que não estou grávida. Ian a

encarou. Sua expressão permanecia a mesma, mas era possível ver, pelos seus olhos, que estava atônito.

– O que ela disse?

– Eu não sei – Emília respondeu, tirando o cabelo do

rosto –, ela desligou em seguida. Estou com medo, não queria piorar ainda mais as coisas pra você.

Ian bufou, soltando um riso de desdém, como se ela

pudesse piorar ainda mais as coisas.

– Posso ficar aqui com você, por um tempo? – Emília

perguntou. O rapaz não respondeu e voltou à posição em que estava quando ela chegou, com o rosto apoiado no punho, e fechou os olhos, que ardiam depois de uma noite sem dormir.

 

Por alguns momentos Ian até conseguiu esquecer que Emília estava do seu lado. Porém começava a se sentir fraco, já que tinha comido apenas um salgadinho da máquina automática do hospital naquela madrugada e já estava ficando escuro de novo.

– Vou comer na lanchonete aqui do lado – ele disse, sem

dar a entender se era um convite.

– Vou com você – Emília disse. Ela estava do lado do

colega não apenas por pena ou porque se sentia culpada, mas porque imaginou que seria bom para ele ter algum conhecido por perto enquanto aguardava notícias. Assim que Leo voltasse, ela retornaria para casa.

Os dois se levantaram ao mesmo tempo que o salto de

Estela se chocou contra o chão do hall. O movimento dos dois chamou a atenção da mulher, que mudou imediatamente sua rota, seguindo em direção a Ian.

O rapaz demorou alguns segundos para reconhecer Estela

porque jamais imaginava que ela pudesse aparecer por ali.

– Como vai a iris? – ela perguntou.

– O médico disse que ela está estável, mas ainda não

acordou – Ian começou a explicar, desconfiado. – Eles já iniciaram o processo para retirá-la da sedação. Na verdade, ela já deveria ter acordado, mas o médico disse que isso era imprevisível, e ela poderia acordar a qualquer momento agora. Ele vai trazer notícias antes das 8 horas de novo – Ian explicou. – Caio não veio?

– Eu não deixei. Ele passou tempo o suficiente dentro de

um hospital nesses últimos dias. Mas ele me convenceu a repensar nisso tudo – Estela permaneceu séria como se não tivesse sido convencida, e sim obrigada. – Mesmo que eu não esteja nem um pouco feliz pelo braço quebrado do meu filho, fiquei feliz pelo coração generoso dele.

Ela revisou a bolsa e retirou de lá um envelope, que

entregou a Ian.

– Esse é o pagamento pela organização do evento da nossa

linha de pizzas – Estela avisou. – Tem um pouquinho a mais, um bônus, pelo bom trabalho da iris. E vocês vão precisar, caso ela tenha que tirar um tempo sem trabalhar.

Ian pegou o cheque sem pensar duas vezes, engolindo

qualquer sentimento de orgulho que pudesse lhe acometer naquela hora.

Emília assistia àquela cena de canto. A cada palavra de

Estela ela se sentia um pouco mais leve, podia respirar melhor, e era como se seu coração, que se transformara em um pedaço de carne inútil, voltasse a bater.

– Muito, muito obrigado, Estela – Ian checou o valor com

o canto do olho. Era exatamente o valor de que precisava, e certamente muito mais do que ela devia a iris. Ele estranhou por um instante a precisão, e então se recordou do papo que tivera com o porteiro, quando lhe contara tudo sobre o acidente. – Eu... Caramba... Obrigado! Mesmo! E perdão se fiz alguma coisa que...

– Não – ela interrompeu –, você não precisa se desculpar.

Eu não iria conseguir dormir esta noite se não fizesse algo. Tudo bem que, por sua culpa, o meu filho quebrou um braço e está manco, mas… eu não sei, às vezes o pior que pode te acontecer é nunca acontecer nada.

Ian olhou para o cheque e percebeu que o alisava sem

querer.

– Não acho que a minha irmã vá estar em condições de

participar do seu evento, mas prometo pagar o que você está nos emprestando – Ian desviou o olhar, envergonhado. – não sei exatamente quando, mas vou pagar tudo.

– Como disse, gostei do trabalho da sua irmã, e não é um

empréstimo – Estela disse. – Entrei em contato com a Rafaela, que já trabalhou com a sua irmã algumas vezes e a ajudou de perto nesse projeto como assistente. Ela conhece o procedimento.

Ian balançou a cabeça, concordando com um sorriso

tímido, e limpou com as costas da mão o nariz, que escorria.

– Vou poder voltar a dar aulas para o Caio? Ela encarou o rapaz sem dizer nada por alguns instantes. – Não acho que seja uma boa ideia – finalmente dis se,

esfregando os dedos pela alça de sua bolsa. – Quan do ele ficar melhor, vou levá-lo para as aulas de tênis do clube. Vocês podem conversar por lá se quiser. Ele disse que vocês eram amigos, então vai ser bom pra ele ter um amigo por lá.

– Vai ser ótimo pra ele – Ian disse. Era estranha a ideia de

que não frequentaria mais a casa de Caio, e a perda do emprego o assustava, ainda mais naquele momento. Mas, quando a irmã estivesse melhor, e se o evento de Estela fosse um sucesso, surgiriam várias oportunidades de trabalho para a irmã. Ele não poderia perder toda a esperança, afinal. – E obrigado, de novo.

Ian levantou o cheque e pediu licença para confirmar o

pagamento no balcão do hospital, quase com medo de que aquele papel criasse pernas e fugisse.

As últimas doze horas haviam sido uma montanha-russa.

Sentia uma euforia enorme só de imaginar a ligação que faria a Leo avisando-o de que ele poderia descansar – estava tudo resolvido.

Agora só precisava da notícia dos médicos para poder

relaxar o suficiente e dormir por algumas horas para recarregar as energias.

– Vai ficar tudo bem – Estela consolou Ian com um

sorriso gentil, como se aquele gesto tivesse feito bem para si mesma também.