Azeitona

Bruno Miranda · Capítulo 7 de 23

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Azeitona

Capitulo 7

7.

 

Ian conferiu se todos móveis estavam no lugar após a saída da equipe. Para dar espaço aos equipamentos de iluminação, eles tinham levado o sofá, que dividia a sala, quase para cima da televisão, abrindo espaço para a cozinha.

Sua irmã chegou menos de uma hora depois que a equipe

deixou o local. Ian ficou assustado com a sua chegada e tentou disfarçar. Ela cumprimentou o irmão e foi para o banho, um pouco desconfiada.

Vestida com uma blusa solta e uma calça de mole tom

confortáveis, Iris foi até a sala onde Ian assistia TV, carregando uma caixa cheia de álbuns de fotos. Todas as fotos tinham sido reveladas por Ellen, a última fazia quase oito anos.

– Por que você vai ver essas fotos agora? – Vão colocar um telão na formatura com fotos que

tiramos durante o curso e de quando éramos criança – ela passou a mão sobre a capa do primeiro álbum, tentando limpá-lo, mas a poeira que o cobria já estava impregnada. – Faz anos que eu não vejo isso.

Havia por volta de vinte álbuns. Entre eles, três com fotos

de momentos importantes – primeiro banho, batismo, aniversários. Cinco reuniam fotos de iris, dois tinham fotos da família, outros dois, registros de viagens. Cada álbum tinha umas três viagens diferentes, que se limitavam à praia ou à serra. O pai deles não suportava praia, mas eles eventualmente iam por causa dos filhos. Ian observou a irmã de longe enquanto ela passava as fotos. Ela sorria quase todo o tempo. Em algumas, parava por período maior, como se elas se transformassem em um filme em suas mãos. Por mais que a maioria daquelas lembranças fosse alegre, quanto mais tempo ela parava em uma foto, mais o sorriso ia sumindo. Até virar a página novamente.

– Essa foto é maravilhosa, né? – Iris virou o álbum para

Ian.

A imagem tinha sido feita num dia de muito calor,

durante uma visita a um santuário no interior. Como o pai deles não tinha aguentado ficar para a missa, eles e a mãe passaram a manhã inteira juntos. O local era aberto e muito arborizado. Na estrada de lajotas que levava até a capela, um chafariz com jatos d’água de quase dois metros era o primeiro ponto de parada dos turistas.

– Olha que chafariz liiindo! – A mãe, que carregava um

Ian de um ano e três meses no colo, disse enquanto tentava retirar a máquina fotográfica da bolsa com dificuldade. – Vai ali, iris, deixa a mãe tirar uma foto.

Iris revirou os olhos e se sentou em frente ao chafariz.

Depois de fotografar a filha, Ellen pediu a ela que fotografasse o irmão.

– Vou colocar ele ali sentado e você tira a foto. – Ellen

posicionou o menino sentado. Não parecia tão seguro deixá-lo ali sozinho, então olhou ao redor antes de se deitar em frente ao chafariz para segurar os pés de Ian sem aparecer na foto.

Depois que a câmera analógica disparou, eles seguiram

para a capela. Só quando revelaram as fotografias que viram a imagem com Ian, a fonte... e Ellen – que não deveria ter aparecido, mas, por causa do mau enquadramento de iris, era quem chamava mais atenção na foto, deitada no chão duro e empoeirado.

Ian pegou o álbum na mão para analisar a imagem mais de

perto.

– Não seria mais fácil ter me segurado no colo para tirar a

foto? – ele perguntou. Iris pegou o álbum de volta para examiná-la novamente.

– Ela sempre quis que a gente tivesse as mesmas

oportunidades e, pelo jeito, as mesmas memórias. – Iris abaixou o álbum e olhou para Ian. – De alguma forma ela sabia que em algum momento seríamos apenas eu e você. Você não lembra, mas ela me dizia isso. Eu sempre desviava da conversa porque, caramba, era uma coisa horrível de ouvir.

Ian se arrastou no sofá até o lado de iris. Ele também não

via as fotos havia muito tempo. Iris parou em um registro de viagem, quando todos foram pela primeira vez a um resort onde passaram o fim de semana.

– É engraçado que o que eu sinto hoje vendo essas fotos

não é exatamente tristeza ou raiva, nem sei… Essa casa está vazia, mas já não parece que falta alguma coisa, depois de todos esses anos. Mas algumas vezes eu ainda preciso fazer um esforço pra afastar alguns pensamentos.

Ian encarou a irmã.

– Eu não me sinto assim – ele disse, tentando analisar a

expressão de iris. – Eu não sinto falta deles. É claro que eu gostaria de ter meus pais por perto, mas as minhas únicas memórias estão nessas fotos. Eu tive você. Sempre tive você.

Normalmente, Iris já estaria com os lábios tremendo,

tentando prender um choro que duraria minutos a fio. Mas de alguma forma a gravidez a havia deixado mais resistente. Como se seus hormônios estivessem trabalhando para que se mantivesse mais racional do que sentimental.

Assim que Ian terminou de falar, Iris lançou um sorriso

em direção ao irmão, colocou a mão sobre seu joelho e o balançou num gesto carinhoso. Os dois não precisaram dizer mais nada.

Iris juntou as fotos que havia separado em uma pilha –

eram quatro. A do chafariz não era uma delas, mas tinha outras tão clássicas quanto. A irmã apoiada na pia da cozinha em sua fase emo, por volta de 2002, antes de ir para a primeira balada. Uma foto de quando era uma bochecha que escondia uma bebezinha por trás. Uma no parque de diversões, momentos antes de um vômito vigoroso, após afirmar que estava bem para as voltas de 360 graus do barco viking. Escolheu também uma com toda a família, feita por um fotógrafo em um fundo careta simulando o céu.

Ela não guardou ressentimentos do pai quando ele

abandonou a família de repente. Como já era mais velha, percebeu que o relacionamento dos pais estava desgastado e que era só uma questão de tempo até que eles não estivessem mais juntos. A forma com que ele deixou a família é que foi um pouco traumática.

Joel largou tudo para trás sem dar notícias. Ela não sabia

se ele tinha avisado sua mãe, mas ela não pareceu surpresa na época. Talvez Ellen apenas tivesse agido daquela forma para tranquilizar os filhos, foi o que Iris pensou alguns anos depois.

A mulher havia sido diagnosticada com uma complicação

no coração, que segundo os médicos era comum, então ninguém se preocupou tanto. Mais uma vez, quando sua forma de pensar se tornou tão protetora e altruísta quanto a de sua mãe, Iris já não sabia se a gravidade da doença não fora também omitida por Ellen.

Quando ocorreu o primeiro infarto, o pai já estava

desligado da família. Iris sabia que ele havia deixado um número, mas ela nunca teve coragem de ligar. No segundo infarto, quando tudo aconteceu, e sem mais contato algum com o pai, ela e Ian ficaram sozinhos.

 

Na sexta-feira, Ian e Emília encararam um ao outro por quarenta e cinco minutos enquanto terminavam o projeto de química na escola. Eloy lançava um olhar quase recriminatório para os dois, indicando que sabia o que estava acontecendo, enquanto o “casal” tentava conversar entre si o menos possível.

Quando estava no ônibus naquele dia, no caminho de casa,

Ian recebeu uma ligação de Catarina. Atendeu tremendo e quase perdeu seu ponto de parada por causa do conteúdo da conversa. Enquanto caminhava até sua casa, digitou uma mensagem rápida para Emília, que saiu com vários erros de português. Disse que os dois tinham muita coisa para conversar e combinaram um encontro no estabelecimento da mãe dela depois do almoço.

 

Uma chuva fininha fez com que Ian passasse um pouco de frio no trajeto até a confeitaria. Sua sorte era que o local era quentinho, provavelmente por causa dos fornos da cozinha ou das luzes amarelas que flutuavam num fio que vinha do teto sobre cada mesa.

A confeitaria não era grande e sempre estava cheia. As

paredes eram cobertas até a metade por uma madeira escura e até o teto subia um papel de parede que imitava tijolos – ele colocou a mão para ter certeza de que era papel de parede enquanto esperava.

Do lado esquerdo ficava a parte da bancada, entupida de

uma variedade gigante de doces: cupcakes, brownies, muffins, tortas, cheesecakes e barrinhas de chocolate de vários sabores que vinham em tabletes de três.

A família de Emília trabalhava no negócio havia dez anos,

mas eles não eram os únicos donos. Notando o talento de Helena quando ela ainda fazia doces caseiros, uma das suas clientes decidiu investir em uma confei taria e colocou a mulher, que já tinha muita experiência na produção e venda, como sócia.

Quando a empresa começou a dar retorno, passaram a

investir na melhoria do negócio e compraram a loja de trás do prédio para duplicar o tamanho. A parte de cima era onde eles moravam, o que fazia com que o prédio todo, que tinha apenas dois andares, fosse praticamente da família.

Assim que pôs os pés no local, Ian percebeu que Emília

não precisava do dinheiro tanto quanto ele.

Ian enviou uma mensagem à garota, enquanto tomava um chocolate sentado em uma mesa para dois. Cinco minutos depois, ele a viu descendo uma escada de ferro no canto da loja.

– E então? – Emília se sentou em frente a Ian. – A Catarina me ligou – ele respondeu. Emília arqueou a

sobrancelha e balançou a cabeça, indicando que ele deveria ir logo às informações importantes. – Eles tiveram aquela reunião ontem. Ela mostrou os casais que havia entrevistado aos executivos. Mesmo eu acreditando que nossa entrevista tenha sido a mais bizarra, parece que os outros casais conseguiram ir pior.

A garota parecia ter prendido a respiração. – Eu nem acredito que eles tinham outros casais, pra falar

a verdade. Ela pareceu tão empolgada quando me fez o convite no consultório. Bom, espero que você não tenha mudado de ideia nesses três dias, porque agora... Só precisamos assinar o contrato – Ian disse – e estaremos no programa.

Emília permaneceu na mesma posição por tanto tempo

que o rapaz começou a ficar preocupado.

– Você vai participar ainda, né? – ele perguntou. –

Porque, nesse ponto, não sei se estaríamos mais ferrados em continuar ou em dizer que foi tudo mentira. Esse programa custa milhões e...

Ela respirou tão fundo que cortou a fala de Ian. A fumaça

que saía do copo do rapaz tremulou e se dissipou no ar. Emília olhou ao redor, certificando-se de que não estava sendo observada, e encarou Ian.

– A gente precisa decidir algumas coisas antes, Ian – ela

se ajeitou na cadeira. – o.k., eu posso usar uma barriga falsa. Eu posso fingir enjoos. Mas e os meus pais? E a sua irmã? E os nossos amigos? O que nós vamos falar quando isso for ao ar?

– Em algum momento a gente vai ter que contar para

essas pessoas. Seus pais, minha irmã, seu… namorado. Minha irmã vai ter que emprestar o bebê, afinal – Ian explicou. Emília jogou a cabeça para trás, achando a última frase estranha e engraçada.

– Então eu vou contar para a Ávia. Ela perguntou como tinha sido o trabalho na sua casa e eu me enrolei toda pra inventar uma desculpa. Ela ficou achando que tinha rolado alguma coisa e eu desconversei – Emília disse. – Ela não vai contar nada para ninguém se souber.

– Eu disse que em algum momento a gente teria de contar

para essas pessoas, mas não acho que esse momento seja agora.

– Milhões de pessoas assistem ao programa! E se nos

conhecerem e perguntarem do bebê na rua?

– “Ele está em casa dormindo” – Ian sugeriu. – Emília, a

menos que queira continuar famosa, as pessoas logo vão esquecer você. Não é difícil ser esquecido. Se você nunca está lá, as pessoas te esquecem – Ian disse.

– Assim que acabar tudo e você pegar o dinheiro, pode

viajar sei lá pra onde e, quando voltar, depois de alguns meses, ninguém mais vai saber quem você é.

Emília desviou o olhar para o copo de Ian em cima da

mesa e começou a passar a unha do dedo indicador sobre o plástico áspero, desenhando alguma coisa sem atenção. Ian percebeu que, quando ela estava pensativa, seus lábios se apertavam em um biquinho que parecia formar um coração.

– A menos que você queira ficar famosa – Ian disse. Ele sempre a vira como alguém tão bem resolvida. Era

estranho pensar que pudesse ter qualquer outra motivação além do dinheiro. A verdade é que as decisões que ela iria tomar depois em relação a tudo aquilo não eram mais responsabilidade de Ian. Eles eram apenas parceiros no crime. E era isso que importava para ele.

– Não, eu não quero ficar famosa nem nada. Só é bom ter

pessoas que gostam de você, eu acho.

– Mas você tem várias pessoas que gostam muito de você

– Ian disse, quase brigando com a garota. – Todo mundo te conhece na escola. Algumas pessoas têm até medo de chegar para conversar porque você parece confiante demais para fazer novas amizades.

– O quê? Não, é difícil explicar – ela fechou os olhos por

uns instantes. – Mesmo com tantas pessoas ao meu redor, eu não me sinto ligada a ninguém – ela parou mais um tempo, organizando os pensamentos na cabeça. – sabe aquela frase que diz que lar não é bem um lugar, e sim onde estão as pessoas que são importantes pra você? – Ian assentiu. – Eu sinto que eu não tenho um lar.

– Ninguém é importante pra você? – ele perguntou. – Não é isso – Emília respondeu de uma forma que fez Ian

pensar que talvez a tivesse ofendido. – Eu tenho a minha família, os meus amigos e o meu namorado. Mas, no fim do dia, sinto que não tenho uma ligação forte o suficiente com ninguém.

– Nem com o seu namorado?

– Talvez a minha ligação com ele seja a mais forte. – E você acha que milhões de pessoas gostando de você

pelo que veem na TV vão te fazer se sentir melhor em relação a isso? – Ian perguntou. Emília deu de ombros. – Enquanto você tentar se completar com qualquer outra coisa que não seja amor de verdade, você vai só se inflar como um balão de festa; quanto mais cheia, mais frágil.

Emília encarou Ian, tentando processar o que ele havia

acabado de falar. Enquanto ela o encarava, Ian buscou analisar se fez certo em dizer aquilo. Um precisava do outro para seguir até o fim, e ele não queria criar nenhuma desavença logo no início.

– Então, você tá dentro ou não? – Ian perguntou. – Sim – Emília respondeu, séria.

 

Helena continuava trabalhando na cozinha da confeitaria mesmo depois de todos aqueles anos. Ela desenvolvia as receitas e supervisionava as outras funcionárias. A cozinha contava com mais seis mulheres. Todas mais velhas, exceto Guta, que tinha apenas dezenove anos e era apaixonada por confeitaria. Ela era responsável por decorar os produtos, enquanto as mais velhas, com seus braços fortes, davam conta de mexer as massas mais pesadas. A garota era a única dali que estava fazendo um curso para se especializar naquele tipo de culinária.

– Como esse é com chocolate branco, vocês precisam

cuidar, além da textura, do tempo de forno, para ele ficar bem moreninho. – A equipe estava ao redor de Helena, pegando as instruções para preparar o novo brownie. – A receita está no caderno. Fora isso, o preparo é o mesmo que o do tradicional. Fiquem de olho porque, se ficar muito branco, fica estranho. Se ficar muito escuro, parece queimado.

Todas balançaram a cabeça afirmativamente antes de cada

uma provar um pedaço da fornada que ela havia preparado. O resultado foi unânime – todas gostaram muito. O clima na cozinha não era muito rígido, todas tinham muita experiência e ficavam conversando durante o trabalho sobre tudo o que viam na TV, ligada num volume alto no canto da cozinha abafada.

– Hum, Helena – Cássia estava terminando de comer seu

pedaço de brownie. – não passou a matéria da Emília no jornal, né?

– Verdade. – Helena levava a bandeja com os brownies que

haviam sobrado até a pia. – Quando fui pegá-la na casa do colega que também fez o trabalho, a Emília me disse que ia passar ao meio-dia. Isso foi o quê? Na terça? Acho que nem vai passar mais.

Todas olharam para a TV, como se esperassem encontrar a

resposta no aparelho. Em vez disso, passou a propaganda para a temporada do Novos Pais, que estava na reta final, com o discurso emocionado de uma das participantes sobre o preconceito que sofria na escola por ser tão jovem e ter engravidado.

– Que pouca-vergonha. – Cássia disparou. As outras

mulheres balançaram a cabeça, concordando, enquanto se encaminhavam para seus afazeres.

– Eu já assisti a esse programa algumas vezes – Helena

contou. – Dá pena dessas meninas porque, se os pais educassem bem, ficassem em cima, esse tipo de coisa não aconteceria. É tudo culpa da educação que não receberam em casa, não tenho dúvida.

– Se pelo menos elas pudessem escolher se querem ou não

continuar a gravidez, né? – Guta comentou despretensiosamente, enquanto alisava uma torta de quatro leites com uma espátula.

– Como assim, menina? – nica, que já tinha quase setenta

anos, demorou alguns segundos a entender. E então se benzeu, sujando a testa de farinha.

– É que eu também acho a educação importante, então não

acho certo a criança ser criada de qualquer jeito quando a mãe não quer, só porque o bebê é obrigado a nascer. – Todo mundo parou o que estava fazendo para encarar Guta. Sua mãe, que também trabalhava ali, lançou à filha um olhar de reprovação, e ela entendeu que era melhor ficar quieta.

Nos segundos seguintes parecia que ninguém da cozinha

respirava e os únicos barulhos vinham dos clientes nas mesas e da televisão alta. Até que nica quebrou o silêncio.

– Minha querida, essas meninas novinhas só que rem

aproveitar. Não se dão o respeito. Elas merecem ter de criar esses filhos para aprender.

Guta, que respirou fundo, olhou para a mãe e abai xou a

cabeça, apertando o saco de glacê com força para finalizar a decoração do bolo. Aos poucos todas foram voltando às suas atividades.

Então elas passaram a conversar sobre outras coisas, e no

fim do expediente ninguém mais lembrava da discussão ou do programa, que, em breve, seria uma dor de cabeça para Helena.