Azeitona
Capitulo 14
14.
Orestaurante próximo à escola em que Emília e Ian estudavam era todo de madeira, num estilo rústico, e ficava lotado de alunos na hora do almoço. A escola oferecia aos alunos do terceiro ano um curso preparatório para o vestibular aos sábados, e o local ficava cheio nesse dia.
Para não levantar suspeitas, eles continuaram sem
conversar durante as aulas. Nas últimas duas semanas, desde que contara para a irmã, Ian não precisava mais inventar desculpas, porém Emília ainda não sabia se queria revelar para sua família.
– O que você planeja fazer quando sua mãe vir você na
televisão? E seus parentes e seus vizinhos? – Ian disse, antes de colocar a primeira garfada de frango na boca.
– O programa vai estrear um mês depois do meu
aniversário. Eu já vou ter dezoito anos e minha família não vai poder fazer nada.
Ian arregalou os olhos.
– Você é mais velha que eu?
– Mais velha e mais madura. – Emília olhou para Ian e
abriu um sorriso fingido, brincando. – Precisamos de um nome para nossa filha de mentira.
– Uau – Ian espremeu os olhos –, que mulher madura. – Que tal juntar o nome das nossas avós? – Emília
perguntou. – Às vezes funciona. Tipo, lúcia e Mara. Lucimara. A minha avó é Maria. A sua?
– Joana.
– Marijoana?
Os dois pensaram por alguns instantes. – Não – concordaram.
– Preciso dizer esse nome quando nós formos gravar o
bate-papo no estúdio na sexta que vem.
– Não me importo, você pode escolher. Vai, qual nome
você sempre quis colocar em um filho?
Emília começou a pensar. Na gravação anterior, dois dias
antes, no chá de bebê de Rosa, ela revelara que o bebê era uma menina e que ainda não tinham decidido o nome da criança. Então Catarina pressionou os dois para que decidissem logo e contassem na próxima gravação.
Até então, eles não haviam mais sido convocados para
outra gravação num consultório médico. Catarina passou a fazer perguntas relacionadas a consultas e exames para Emília durante os depoimentos, o que a fez deduzir que a produtora havia desistido de mostrar os aspectos médicos da sua gravidez, já que não poderia gravar com o patrocinador. Conforme o pedido do dr. Rômulo, a garota citou no programa que se tratava com o dr. Mauro. Se tivesse sorte, não precisaria mais ver nenhum médico na sua frente até o fim daquelas gravações.
– Não sei. Não sei mesmo – Emília bateu com o dedo nos
lábios, pensativa. – Eu gosto de luna.
– A garota louca de Harry Potter? – Ian perguntou. – não
poderia combinar mais.
Os dois seguiram o almoço na mesa do canto, comentando
como haviam sido as gravações que tinham feito em separado. No fim de semana anterior, Ian ha via ido a um jogo de boliche com todos os outros pais da edição. Ele contou que um deles tinha seu próprio motorista. Por que alguém que tem seu próprio motorista participaria de algo assim?
Eles chegaram à conclusão de que as pessoas estavam
participando do programa por razões diferentes. Alguns, como eles, por dinheiro. Outros porque achavam que sua participação poderia passar alguma mensagem. Outros ainda, talvez a maioria, apenas para ficar famosos.
– E o seu namorado, Emília? – Ian pousou os talheres na
mesa. – se você quer fugir da sua família agora, tudo bem. Mas vai conseguir fugir dele também?
– Não! não estou fugindo. – Ela pareceu um pouco
confusa. – só não sei ainda se quero contar ainda.
– Vocês não foram criados juntos? No fundo você deve ter
uma ideia de como ele deve reagir.
– Sim, mas nunca passamos por uma situação
minimamente parecida com essa. Ele é ciumento, mas não acho que se importaria por você estar participando comigo disso.
Ian olhou sério para Emília.
– Por quê?
– Sei lá, acho que porque a gente não combina – Emília
disse antes de encher a boca de comida.
– Como assim? Por que a gente não combina? – Ele
precisou esperar a colega terminar de mastigar por um tempo longo e constrangedor.
– Não sei, só nunca pensei em você dessa forma. Eu gosto
de você, mas nunca pensei em você de outra forma – ela repetiu, nervosa. Analisou a expressão de Ian, que parecia um pouco consternado. – o que foi?
– Não é que… não que eu tenha pensado em você de outra
forma. É só que, não sei, nunca é legal ouvir que eu e o seu cachorro despertamos o mesmo sentimento em você e que isso nunca vai mudar... – Ian começou a suar.
– Eu não tenho um cachorro.
– Pois é.
– Não é todo mundo que vai se apaixonar por você –
Emília falou, levantando as sobrancelhas e com a boca num biquinho indiferente.
Como a salvação para uma discussão que não levaria a
nada, o celular de Emília tocou. Era Catarina. Eles estranharam – ela não costumava ligar em fins de semana.
– Emília, preciso que você se arrume agora! Vou mandar
uma van te buscar na sua casa… ou pega um táxi. É, é isso aí, pega um táxi que é mais rápido, porque aqui é urgente. Você nunca aceita as vans mesmo – Catarina pareceu dizer tudo aquilo num respiro só. – Vou ligar para o Ian também.
– Estou com ele, acabamos de almoçar. – Melhor ainda, venham vocês dois agora! Hospital santa
Misericórdia, no centro.
Emília ficou assustada.
– O que aconteceu? – Até então, hospitais para ela eram
apenas sinônimo de problema. Mas não vêm apenas notícias ruins de lá quando se convive com onze garotas grávidas.
– A Rosa está em trabalho de parto – Catarina explicou. –
Preciso de alguns de vocês aqui. Como vocês duas estavam bem próximas nas últimas gravações, imaginei que você gostaria de acompanhar.
– Claro! nós já estamos indo. – Emília desligou e levantou
sem terminar o almoço.
Assim que Ian e Emília entraram no hospital, perguntaram por Rosa na recepção. O que não era exatamente necessário, uma vez que o local estava cheio de câmeras e Catarina estava logo ali na entrada, com o tablet nas mãos acompanhando em tempo real o que as câmeras gravavam. Emília havia sido instruída a perguntar por Rosa à recepcionista.
– A paciente Rosa nader está na sala de parto no momento.
A médica acabou de informar que está tudo bem e que a dilatação está avançada, já chegou a sete centímetros. Vocês podem esperar aqui até que ela traga mais informações – relatou a recepcionista, sorridente.
– Ótimo, corta! – Catarina gritou, e as três câmeras se
abaixaram. – Ian, você pode sentar ali um pouquinho. Emília, vamos até a fachada do prédio para gravar um depoimento.
O tempo estava um pouco abafado e nublado, o que era
ótimo para a gravação. O sol encoberto deixava a luz difusa, só que, para garantir que ao longo da gravação uma linha de sol não pegasse no rosto da garota e estragasse a filmagem, dois membros da equipe seguraram um rebatedor acima de Emília.
Ela sempre se sentia desconfortável nessas situa ções, já
que toda a parafernália técnica chamava muita atenção. Depois de algum tempo, as pessoas começavam a prestar atenção e algumas até tiravam fotos.
– Parece que vai chover, vamos logo. – Catarina apressou
os dois rapazes do rebatedor. – Ótimo, aí está perfeito. Emília, onde a gente está e o que você está fazendo aqui?
– Nós estamos agora no Hospital santa Misericórdia
porque a Rosa… – Emília parou, como se tivesse pensando na situação pela primeira vez. – Meu Deus, nós estamos aqui porque tem dois bebês saindo de dentro da Rosa! – ela disse rápido, numa voz estridente, e colocou as mãos sobre a boca, assustada.
Catarina trocou um olhar confuso com um dos operadores
de câmera.
– Tá tudo bem, Emília – Catarina disse, com calma. – isso
também vai acontecer com você e vai ser lindo, não vai?
Emília colocou a mão sobre a barriga e aproveitou para
estufá-la um pouco mais.
– Eu estou feliz pela Rosa – Emília voltou a focar no
depoimento. – Deve ser, hum, estranho ter duas pessoas novinhas em folha vivendo com você assim de repente. Elas vão crescer, vão falar, e você vai ter que gostar delas pra sempre porque você não tem escolha. – Catarina levantou os olhos do tablet para o rosto de Emília. – É estranho que na sua barriga, que era pra ter, sei lá, comida, de repente tem uma pessoa dentro – Emília terminou, praticamente falando consigo mesma.
Catarina balançou lentamente a cabeça, pensando se seria
interessante continuar o papo, que não parecia fazer o menor sentido.
– Já temos o depoimento da Emília – ela anunciou para a equipe. – Markus, chama o Ian.
O pensamento de que, por mais que estivesse ali de
brincadeira e que não tivesse nada além do almoço dentro de sua barriga, todas as outras colegas viviam aquilo de verdade voltou a assombrar Emília.
A garota foi andando devagar até a recepção, como se seu
pensamento inquieto comprometesse sua habilidade de caminhar.
– Ian, sua vez – Catarina disse para o rapaz, que agora
estava abaixo do rebatedor. – o que você acha do nascimento dos bebês da Rosa? Está empolgado para quando nascer o seu?
– Eu estou feliz pela Rosa e... – Ian esquecia que não podia
olhar para a câmera, mas era quase como um ímã. Uma pergunta lhe surgiu na hora e ele se voltou para Catarina. – Ela recebe dois cachês porque são dois bebês?
– Foco, Ian – Catarina respondeu, encarando o rapaz. – Fico feliz que ela esteja ganhando gêmeos. Na verdade,
espero que ela esteja feliz, porque ela é quem vai cuidar. – Ian coçou a cabeça. – se eu tivesse um irmão gêmeo, gostaria de ter nascido primeiro. Geralmente o bebê que vem primeiro pega o nome favorito dos pais e o segundo precisa ficar com o outro.
– Tá ótimo – Catarina o interrompeu. – Todo mundo está
meio alterado por causa da emoção do nascimento hoje. Vamos lá para dentro esperar.
Antes que Ian pudesse sentar no banco ao lado de Emília, o celular da garota tocou. Ela se levantou para atender no canto da sala de espera. Emília viu no identificador de chamadas que era o namorado e atendeu pronta para dizer que estava ocupada. Precisava encerrar a conversa o mais rápido possível.
– Oi, Gael, eu tô muito ocupa... – o alto-falante do
hospital começou a transmitir um recado, e Emília num impulso tirou o celular do ouvido e o apertou contra a barriga para abafar o som.
– Você tá num hospital? – Gael perguntou, alterado,
quando ela voltou o aparelho para perto do ouvido. – o que aconteceu?
Emília não tinha saída.
– Não foi nada comigo, não se preocupa. – A linha ficou
em silêncio.
– Foi com alguém da sua família? Algum conhecido? Fala
alguma coisa, droga! – o rapaz estava impaciente.
Emília olhou ao redor, tentando buscar uma desculpa
enquanto caminhava até a porta. Lisa havia acabado de chegar e estava dando o seu depoimento sobre Rosa.
– Foi a lisa. Aquela nossa amiga que encontrei de novo,
lembra? Ela sofreu um acidente. Ma-mas passa bem – completou, gaguejando.
– O quê?! – ele gritou, como se Emília tivesse dito que ela
mesma havia sido atropelada. – Você está aí sozinha?
– Sim – Emília disse, enquanto olhava para Ian, que a
observava de longe.
– Estou indo aí agora, me espera.
Antes que Emília pudesse contestar, Gael desligou o
telefone. Ela voltou para o lado de Ian, agora com o aparelho pressionado contra o peito e com os olhos arregalados.
– O Gael está vindo pra cá – contou para o rapaz, que não
tirou os olhos dela em nenhum momento, morrendo de curiosidade.
– O seu namorado? Por que você chamou ele? Você contou
tudo? – Ian estava tão perdido quanto Emília e fazia uma pergunta atropelando a outra.
– Acho que fiz uma burrada.
Ian a acompanhou até o lado de fora do hospital. Os dois subiram as escadas que levavam até a parte de trás, onde entravam as ambulâncias de emergência, para tentar encontrar uma solução.
– O.k., nós temos uns vinte minutos até ele chegar. Se
tiver trânsito, acho que uns dez a mais – Emília disse, enquanto caminhava de um lado para o outro na área onde as ambulâncias estacionavam.
– Vamos sentar – Ian disse, puxando a colega gentilmente
pelo braço afastando-a da área onde os automóveis paravam – antes de você sofrer um acidente também.
Os dois sentaram no banco de concreto da par te de fora do
hospital. Ela explicou que o namorado acreditava que lisa havia sofrido um acidente. Emília também havia descartado a ideia de simplesmente fugir dali – quando Gael chegasse e visse lisa, ele a reconheceria.
– Já sei, você precisa ligar para ele e dizer que está no
hospital da Zona sul. Anda, liga e diz que está na santa Casa da Zona sul – Ian disse, apressando Emília. Ela pegou o celular e tentou discar, mas o namorado não atendeu. Emília olhou para Ian e soltou um palavrão.
– Tenta de novo! – ele a encorajou. Emília telefonou mais
uma vez.
– Eu estou dirigindo, daqui a pouco chego – Gael
respondeu após o primeiro toque.
– Na santa Casa da Zona sul, né? – ela disse. – Mas... ah, droga. Tudo bem, eu vou fazer o retorno – o
rapaz respondeu, enquanto trocava de pista.
Emília suspirou aliviada.
– O Hospital santa Casa de Misericórdia pede desculpas
pelos transtornos decorrentes da gravação do programa.... – o alto-falante anunciou mais uma vez, e Emília desligou a ligação num impulso. Desta vez ela estava logo abaixo de um deles, mesmo se tivesse abafado o microfone, Gael teria ouvido.
Emília e Ian se olharam. O namorado de Emília sabia que
não estava no outro hospital e chegaria ali em poucos minutos. Ela fechou os olhos, nervosa.
– Se o problema é ele encontrar lisa, que deveria estar
sendo atendida... – Emília pensou em voz alta. – A gente só precisa esconder a lisa.
Sem analisar o plano duas vezes, os dois correram para
dentro do hospital novamente.
– Onde vocês estavam? – Catarina protestou. – Daqui a
pouco nascem os bebês da Rosa, a médica avisou que já está com nove centímetros de dilatação. Vocês vão entrar na sala assim que terminar, acho que não dura uma hora, então fiquem por aqui.
Ian e Emília concordaram e foram até lisa, que se sentou
no banco em que Ian estivera minutos antes.
– Preciso da sua ajuda, lisa – Emília disse. – lembra
quando estudávamos juntas e confiávamos plenamente uma na outra? Uma vez o nosso professor fez aquela brincadeira de uma pessoa ficar de olhos fechados e se deixar pender para trás para que a outra segurasse…
– E você não me segurou.
– …mas eu te levantei depois – Emília completou. – nem
sempre a mão que realmente te segura é a que te ajuda a levantar quando você precisa. E agora eu preciso de você.
– O que é? – lisa perguntou, com as duas mãos
entrelaçadas em cima da coxa.
– Eu preciso que você suma daqui.
Emília e Ian a acompanharam até a entrada de
ambulâncias, onde estavam quando a Emília conversara com Gael ao celular. O local era o lado contrário de onde todos os visitantes costumavam chegar e seria seguro.
– Senta ali, lisa. – Emília olhou em volta e encontrou uma
máquina de lanches automática. – Vou pegar um Toddynho pra você. Vem comigo, Ian.
O rapaz a seguiu até a máquina de comida. – Vou esperar na entrada do hospital e tentar dispensá-lo.
Vou dizer que ele não pode ficar. Se não der certo, vou ter que ir pra casa com ele. Inventa alguma coisa para a Catarina.
– Tenta ligar mais uma vez. Diz que você saiu do hospital,
sei lá. A gente fica aqui com a lisa, ele não vai vir por essa entrada, eu acredito.
Emília tirou o celular e viu que sua bateria estava por um
fio, não aguentaria nem mais uma ligação.
– Não, é melhor continuarmos com o meu plano. A gente
se vê daqui a pouco. – Emília acenou para lisa e saiu. Ian levou o achocolatado para a garota.
A recepção em que Catarina e a equipe estavam fica va perto da entrada do hospital. Dois cinegrafistas e o operador de áudio conversavam na rua e viram Emília passando. Ela os cumprimentou e avaliou de longe se Catarina poderia vê-la dali.
Assim que a localizou, seus músculos se retesaram como
num choque, formigando suas têmporas e descendo pelos seus braços até a ponta dos dedos. Sua boca secou e ela ficou paralisada a poucos metros da porta de entrada, sem saber o que fazer.
Catarina conversava com Gael.
Ele segurava as chaves do carro, enquanto ouvia a
produtora, que gesticulava, balançando seu tablet no ar. Antes que tivesse chance de pensar em uma desculpa, Emília abriu passagem entre os cinegrafistas, voando em direção aos dois. Não sabia quanto tempo fazia que ele estava ali, mas, se os dois continuassem conversan do, ela não teria como consertar a situação.
– Lá está ela! – Catarina apontou para uma Emília
desesperada, que entrou cambaleando sala adentro.
Gael se virou e a encarou sem mover nenhum músculo do rosto, lançando-lhe um olhar retesado.
– Seu amigo perguntou por lisa na recepção, disse que
você a estava acompanhando. Ele achava que era a lisa quem estava lá dentro! Que confusão! – Catarina riu. – Ainda vai demorar alguns meses para ser a vez de a lisa ganhar o bebê.
Gael quebrou a expressão neutra franzindo o cenho e
lançou um olhar confuso e bravo para Emília. Seu peito subia e descia, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Ele em seguida fitou o chão, tentando assimilar a fala de Catarina. O rosto de Emília estava vermelho e ela sentia as têmporas latejando.
– Espera aí, meu Deus! liguem as câmeras! – Catarina
gritou, balançando as mãos no ar. – Você é o pai! Você é o pai do filho da lisa que ela não quis colocar no programa! É claro, você soube que ela estava no hospital e achou que tinha acontecido alguma coisa.
– A lisa está grávida? – Gael perguntou, num tom mais
baixo. Talvez estivesse intimidado com a empolgação de Catarina.
– Ah, então você não é o pai – a produtora constatou,
desviando o olhar, desanimada. Parou por um instante e arrumou seu cabelo impecável, mantendo um olhar fixo e pensativo a sua frente. – Espera. Ah, meu Deus! Você é o pai, mas ela não te contou, foi isso? – A produtora se afastou dos dois e fez um gesto para que Emília continuasse a conversa. As câmeras apontavam para os dois enquanto Catarina pensava consigo mesma que o exnamorado descobrindo a gravidez da garota naquela circunstância renderia a maior audiência do programa de todos os tempos!
Enquanto aguardava a volta de Emília, lisa a esperava impaciente ao lado de Ian, os dois olhando para a televisão sem som da sala de espera. Eles não tinham assunto nenhum e cada segundo parecia uma hora.
– Você sabe o que está acontecendo? – lisa perguntou para
Ian, sem tirar os olhos da televisão.
– Sei sim – ele encarou a garota. A calça de lisa estava com
algumas gotas de achocolatado, que tinham subido pelo canudo enquanto ela apertava a embalagem sem perceber. – Mas você não precisa se preocupar porque não é nada com você.
– Então por que estou aqui? A Emília pediu para eu
confiar nela, mas parece que ela não confia em mim para dizer o que está acontecendo – lisa retrucou.
– Aposto que ela vai te contar, mas...
– Eu não vou ficar aqui – ela o interrompeu. – A gente
ficou muitos anos sem se ver, eu não posso ficar aqui sem saber o porquê. Não posso – lisa se levantou imediatamente e caminhou em passos largos em direção à saída.
A garota jogou a embalagem que segurava no lixo e
percebeu a mancha na calça. Ian levantou-se para tentar impedi-la de seguir enquanto ela andava, meio desengonçada, passando a mão na mancha. Parecia estar com tanta pressa que não percebia que ela não sairia sem pelo menos um pouco de água.
Assim que a garota cruzou a porta de vidro da sala de
espera, Ian a alcançou e colocou sua mão sobre seu ombro.
Ela soltou um grito forte, e Ian levou um susto. Não
esperava aquilo. Ela parecia tão tímida e de repente chamava a atenção do hospital inteiro como se ele tives se acabado de atacá-la.
O rapaz se encolheu, assustado, e deixou que ela seguisse
de volta para a recepção. Lisa parecia emocionalmente instável, mas Ian não sabia o motivo.
Ela não chegou a correr, mas, assim que entrou na
recepção, seus pés travaram, como o freio de mão de um carro sendo acionado quando viu Gael.
No mesmo momento deu meia-volta e esbarrou com Ian
na porta, que preferiu não segui-la mais. Lisa não pôde ouvir nada da conversa lá dentro e, por sorte, sua presença também não foi percebida na sala.
O clima na entrada do hospital não era dos melhores. – Mas por que ele veio aqui procurando pela lisa? Quem é
esse rapaz, afinal? – Catarina perguntou de longe, para estimular os dois a começar uma discussão que rendesse para o reality.
– Ele não é o pai do filho de ninguém! – Emília
respondeu, eufórica.
Gael permaneceu calado por alguns instantes. Olhou para
Catarina e viu que ela parecia decepcionada com a informação, mas com um meneio de cabeça ele tentou confirmar o que Emília havia acabado de dizer para a produtora.
Ele chegou mais perto de Emília, segurou firme em seu
braço na altura do cotovelo com força suficiente para ela se desequilibrar por um segundo.
– Que merda é essa da lisa estar grávida? – ele perguntou,
quase sussurrando, para Emília. Sua voz estava trêmula. Se ele não estivesse com uma expressão furiosa, Emília diria que ele estava com medo. – o que são essas câmeras?
– Por que você está segurando ela desse jeito? – Ian disse
com segurança, saindo debaixo da porta, dando um passo à frente.
Gael olhou para trás, sem reconhecer a voz, e viu que era o
colega que estava com Emília no dia em que fora buscá-la no colégio e ela disse ter passado mal.
Então soltou o braço de Emília. Ele e Ian se encararam,
com os peitos inflados.
– Ainda mais quando ela está grávida! – Catarina
completou, colocando mais lenha na fogueira, mas visivelmente incomodada com a postura de Gael.
O rapaz se virou para Emília como um foguete. – Você está grávida? – ele perguntou, apertando os dentes. Emília queria negar, mas viu que Catarina acompanhava
tudo e que, se contasse a verdade naquele momento, tudo o que tinha passado até ali teria sido em vão. Então permaneceu calada.
Ela imaginou que tudo devia estar parecendo muito
confuso para Gael, com todas aquelas câmeras, Catarina fazendo perguntas, Ian saindo em sua defesa, e ainda sua mentira sobre lisa ter sofrido um acidente.
Gael umedeceu os lábios, olhando ao redor, e num
movimento rápido girou o corpo e acertou em cheio um soco no rosto de Ian, que não teve tempo de se proteger e cambaleou para cima de um bebedouro. O galão de água não chegou a cair, mas acabou levando consigo o suporte de copos, espalhando-os pelo chão. As pessoas que estavam sentadas próximas se levantaram, tentando se afastar da briga.
Gael empurrou um dos operadores de câmera que o
filmavam e obstruíam sua passagem e saiu pisando fundo.
– Espera, Gael! – Emília gritou, correndo atrás do
namorado. – Aonde você vai?
– Você está grávida daquele idiota do seu colega? – Ele
parou, do lado de fora da porta da recepção do hospital. As câmeras já não os seguiam mais. Catarina permaneceu com Ian, que foi socorrido por uma enfermeira. – Porque se fosse meu você iria me contar em vez de contar pra aquele babaca.
– Fosse seu o quê? – Emília gritou. – Fica calmo, Gael! Eu
nunca dei motivos pra você… – Emília percebeu que estava falando alto demais e alguém da equipe poderia ouvir. Chegou mais perto de Gael. – A gente se conhece há tanto tempo, você sabe que não precisa desconfiar de mim. Só preciso conversar com você num lugar privado.
– Pra você me explicar que foi sem querer? Que você
ainda gosta de mim? – Enquanto Gael gritava, Emília percebeu que até mesmo as pessoas que caminhavam pela calçada no lado de fora do hospital diminuam os passos para acompanhar a briga.
– O que vocês estão olhando? – Emília bradou. Voltou a olhar ao redor para ver se ninguém mais os
observava quando viu lisa subindo lentamente pela escada que levava à entrada de ambulâncias em que a havia deixado. Emília esqueceu por um momento a briga – a amiga não parecia estar passando bem. Gael seguiu o olhar da namorada e também encontrou lisa.
– Lisa! – Emília gritou. Agora, que já tinha dado tudo
errado, não havia problema de o namorado ver a colega. – Você está bem? Precisa de ajuda?
A garota, que parecia subir com dificuldade a escada, se
virou para os dois e ficou paralisada, como se tivesse sido pega numa atividade ilícita. Ela se escorou na parede de concreto e afastou os pés, que estavam em um mesmo degrau. Colocou uma das mãos sobre a boca e olhou ao redor, parecendo perdida ou tonta. Sua boca se encheu de um líquido amargo e ela vomitou sobre a calçada do hospital. O olhar assustado e as lágrimas fazendo uma linha reta em seu rosto por causa da maquiagem a deixaram com uma aparência perturbada.
Lisa limpou a boca e desistiu de subir as escadas,
correndo em direção à recepção, mantendo o olhar em Gael. Lembrava um animal mantendo seu predador no campo de visão por segurança.
Emília não sabia o que fazer primeiro – ajudar lisa ou
resolver seus problemas. Então supôs que a amiga estava bem e que enjoos eram normais na gravidez, e ela iria receber atenção de Catarina e das enfermeiras.
– Vamos pro seu carro – Emília disse com uma voz mais
calma –, a gente conversa lá. Preciso explicar pra você o que aconteceu.
Gael demorou para responder.
– Eu vou pro meu carro. – Ele voltou a andar em direção à
saída. – Mas você não. E os seus pais vão saber disso. Agora.
– Você vai ser um grande babaca se contar para os meus
pais sem nem me ouvir antes. – os olhos de Emília se encheram de lágrimas. – Um babaca!
Gael pressionou os lábios com raiva e seguiu para o
estacionamento. Assim que entrou no carro, travou as portas. O vidro desceu por dez centímetros, o suficiente para que Emília pudesse ouvi-lo.
– Estou indo pra sua casa agora. Se você acha que sou um
babaca por causa disso, eu vou ser um babaca. Mas os seus pais não vão pensar que você é melhor que isso quando eu contar que a filha deles engravidou de uma colega de classe enquanto traía o namorado – Gael disse com a voz calma, mas os lábios tremiam.
Ele arrancou o carro sem prestar atenção nos gritos
furiosos de Emília, repetindo que não estava grávida.
A garota voltou correndo para a recepção assim que o
carro saiu pelo portão. Ian estava do lado de fora, esperando que ela chegasse. O soco tinha cortado a parte de dentro da sua boca, perto dos lábios, e ele estava com um grande tufo de gaze no local, deixando toda a área redonda e inchada, como se seu rosto fosse uma caricatura dele mesmo.
– Vou ter que pegar um táxi agora para a minha casa! –
Emília disse em tom de urgência. – o Gael tá louco e disse que vai contar para os meus pais. Se ele contar agora, eu estou ferrada. Nós, na verdade. Você e eu.
– Esse cara é um babaca. – A voz dele saiu estranha. Emília fingiu não ouvir.
– Vou ter que contar pra ele agora – Emília disse. Ian fez
um gesto com a cabeça, como quem diz “eu te avisei”. O rapaz respirou fundo.
– Como uma garota como você pode estar com esse
idiota? – sua mão esquerda estava fechada em um punho desde antes de Gael sair. – Quem ameaça a namorada dessa forma?
– Nós crescemos juntos, esqueceu? Ele é quase tão
próximo dos meus pais quanto eu. – Ela tentou ver através da porta de vidro da recepção. – Tudo bem com a lisa? – Em seguida olhou para onde ela havia vomitado. O chão já havia sido limpo e agora estava apenas molhado.
– Ela tá lá dentro, sentada – ele disse, enquanto os dois
corriam em direção à saída. – Deram água para ela beber e estão medindo a pressão.
Emília puxou Ian pelo braço e pediu a ele que a ajudasse a
pedir um táxi, o que foi rápido. Depois de tudo o que havia acontecido, era mais que obrigação do destino contribuir para consertar o que ele havia estragado.
– O que eu falo para a Catarina? Você vai voltar? – Ian
perguntou antes de Emília embarcar.
– Vou conversar com ele, e espero que ele entenda. Depois
eu volto. Não quero perder o nascimento dos bebês da Rosa.
Os dois se despediram. Emília pediu ao taxista que fosse o
mais rápido que pudesse em direção à sua casa.
Ian precisou fingir que não fazia ideia do que estava
acontecendo quando Catarina começou a enchê-lo de perguntas. A mulher esperou lisa ficar mais calma para fazer as mesmas perguntas a ela. A garota fez um movimento negativo com a cabeça, indicando não saber de coisa alguma também. Ian ficou aliviado.
O rapaz consultou o horário em seu celular e viu que, se
conseguisse um táxi na mesma velocidade que Emília, estaria a tempo na casa de Estela para as aulas de sábado de Caio.
Catarina acabou liberando-o. Ela havia chamado mais
algumas participantes, já que lisa não parecia estar em seu melhor dia também. Antes de partir, Ian contou que Emília havia prometido voltar.
– É bom que ela volte, mesmo porque ela tem muitas
coisas para me explicar – Catarina disse, parecendo zangada. Ela e a equipe entraram no quarto de Rosa para filmar os momentos finais do parto.
A viagem de táxi até a casa de Emília foi agonizante – tanto para ela, que não conseguia ficar quieta no ban co, conferindo o trânsito a cada meio minuto, quanto provavelmente para o motorista, com os pés da garota batucando freneticamente atrás de seu banco.
Emília segurava o celular e já tinha pressionado mais de
dez vezes o botão inicial sem sucesso. A bateria tinha oficialmente acabado e ela não poderia ao menos ligar para a mãe e tentar contornar a situação. Mesmo se ficasse no hospital e usasse um telefone de lá, uma ligação não resolveria aquela situação.
Assim que o veículo parou em frente à confeitaria, ela
entregou o dinheiro que já estava separado para o taxista e saltou do carro sem sequer esperar pelo troco.
Um alívio tomou conta de seu corpo, como se tivesse
respirado pela primeira vez desde que vira o namorado conversando com Catarina. A mãe estava terminando de ajeitar uma bandeja de doces trufados no balcão de vidro.
– Mãe, preciso falar com você. – Emília disse, quando
chegou mais perto. – o Gael vai vir aqui e está todo confuso, eu preciso explicar pra ele algumas coisas antes. Então se ele disser...
– Ele já veio aqui – Helena disse enquanto retirava as
luvas. – Está lá em cima. Disse que queria conversar em particular. Eu estava subindo agora para ver o que ele quer.
– Ótimo! não vai – Emília pediu enquanto caminhava para
a escada que levava até sua casa.
– Por quê? – perguntou, sem obter resposta. A mulher
começou a seguir a filha. A garota não se importou. Como estava à frente da mãe na escada, teria como puxar o namorado para o quarto e explicar tudo antes que ele revelasse qualquer coisa.
Emília abriu a porta num rompante enquanto a mãe ainda
estava no primeiro lance de escadas e avançou em busca do namorado. Quando pousou seus olhos no sofá da sala, ficou paralisada. Se seu coração aguentasse aqueles mini-infartos até o fim do dia, ela provavelmen te nunca morreria por causa dele.
Gael e o pai dela estavam sentados um de frente para o
outro e se viraram para Emília. Helena chegou logo em seguida.
– Ué, virou uma reunião em família isso aqui? – a mulher
perguntou, achando engraçado, até começar a perceber a feição preocupada de Emília, a de raiva de Gael e a chocada de Ruy. Helena perguntou, com a mão sobre o peito: – o que aconteceu?
Gael se levantou.
– A sua filha – ele começou a falar, enquanto caminhava
na direção das duas – está grávida. Mas não de mim, e sim de um colega da escola. Ou seja, ela é uma irresponsável e também me traiu.
Helena olhou para a filha. Primeiro ficou sem entender –
ouvir aquilo em voz alta de alguém de repente parecia tão estranho. Depois, lembrou-se do cartão encontrado dentro da calça de Emília. O cartão de um obstetra que, conforme Emília tinha garantido, havia apenas dado uma palestra na sua escola.
A mulher olhou em direção à barriga da filha e a
respiração descompassada deu lugar a um soluço de choro, que a fez desabar em lágrimas. Os choros de Helena vinham com gemidos num tom grave entre um suspiro e outro, fazendo parecer que sentia uma dor física, o que sempre levava Emília a querer chorar junto com a mãe.
Ruy foi até a mulher e a abraçou. Gael engoliu em seco.
Vendo aquela cena, percebeu que talvez tivesse se precipitado.
– Você não vai explicar o que aconteceu? – o pai gritou
para Emília. Ela não se recordava da última vez que isso havia acontecido.
– Você sabia dos riscos! Por que não pediu ajuda se tinha
alguma dúvida?! – A fala de Helena foi se transformando num berro enquanto ela tentava se desvencilhar do marido.
Emília piscou, e uma linha de lágrima escorreu pelo seu
rosto. Ela estava triste pela decepção da mãe e do pai, pela atitude do namorado e pela sua independência indo pelo ralo com tudo vindo à tona, o que a deixaria de fora do programa.
Ela não sabia como consertar aquilo. Não sabia o que fazer.
Queria que Ian estivesse ali. Na rua, começou uma chuva torrencial que quebrou o silêncio da casa.
Olhou ao redor com o canto dos olhos, e todos estavam
esperando que ela dissesse alguma coisa. A mãe tremia e parecia olhar para ela com raiva.
– Desgraçada. Sua inútil, desgraçada! – Helena gritou. As
palavras da mãe fizeram Emília sentir um arre pio que subiu por toda a sua espinha. Já tinha ouvido muitos xingamentos da mãe, nos quais nunca prestava atenção, mas nada tão terrível justamente nessa hora em que mais precisava de apoio. Não seria aquilo o que precisaria ouvir se estivesse realmente grávida.
Se ela precisava de um motivo para levar em frente aquela
maluquice, agora ela o tinha. Tinha de se preocupar consigo mesma, e somente isso. Sem dizer nada, virou as costas e bateu a porta da rua.
Gael permaneceu ali por mais ou menos cinco minutos,
explicando para Helena o que havia dito anteriormente para Ruy. Quando desceu e chegou à porta de seu carro, encontrou Emília se protegendo da chuva na frente do prédio. Seus olhos estavam vermelhos e os cílios molhados colados uns nos outros com lágrimas.
Assim que ele destravou as portas para entrar, Emília
tentou entrar junto, mas Gael foi mais rápido e voltou a trancá-las. Pelo vidro do passageiro, viu Emília permanecer no mesmo lugar, pegando chuva. Ela ficou encharcada, como se não estivesse percebendo a água cair.
Então ele liberou a trava e deixou Emília entrar. – Vai falar com a sua mãe, isso não é mais problema meu. – Eu NÃO estou grávida! – Emília o interrompeu,
gritando tão alto que era possível ouvir do lado de fora do carro mesmo com as janelas fechadas e o barulho da chuva caindo na lataria do carro. – E você vai me ouvir. Porque eu não tenho ninguém. – A voz de Emília falhou no final, e ela secou as novas lágrimas, que escorreram quentes em meio aos pingos gelados da chuva em seu rosto.
Com o carro parado ali mesmo, numa vaga na rua, ela
contou tudo. Como Ian tinha recebido o convite e como a havia colocado naquilo. Os motivos para ela ter aceitado e seu não envolvimento amoroso com o colega.
Gael ouviu tudo aquilo sem dizer nada.
– E agora você estragou tudo – Emília concluiu. – Eu sei
que menti pra você, mas olha o que você fez! Quantos anos você tem? Cinco? Minha vida vai ser um inferno agora.
Gael pousou as duas mãos sobre o volante e abaixou a
cabeça entre os braços. Aquilo tudo parecia uma grande piada, mas sabia que Emília não estava brincando.
– Você pode me culpar por ser um babaca – ele dis se. –
Eu fiquei com raiva. Eu estou com raiva. Mas você não pode me acusar de ter estragado tudo. Eu salvei você. Agora seus pais acham que você está grávida.
Emília não esperava que ele fosse compreender tudo tão
rápido e ainda apoiá-la. Ela não havia citado o valor do cachê, apenas que permitiria a ela morar sozinha, o que dava para imaginar que não seria pouco.
– Você está certo – Emília disse. – Mas eu preciso de um
namorado que não seja só meu cúmplice “no crime”, mas também na vida.
Gael colocou a mão sobre o joelho da namorada e o
acariciou.
– Eu posso ser o seu cúmplice – ele disse, com a voz
calma e reconfortante. – E eu tive uma ideia que vai nos ajudar muito nessa história.
Emília o encarou com as sobrancelhas franzidas. Nos
ajudar? De que forma ele poderia se incluir naquilo se era ela quem estava participando, e apenas o casal que estivesse esperando o bebê recebia o pagamento?