Azeitona
Capitulo 2
2.
Iris havia deixado o irmão em casa antes de partir para uma confeitaria no centro, onde aconteceria uma degustação de doces para o casamento de uma cliente. De tempos em tempos ela conseguia trabalhar com casamentos, que pagavam mais que festas infantis. Em dias como esse, ela normalmente provaria todos os doces, fingindo já não saber de cor o sabor de cada um. Mas, agora que estava grávida, não queria que o bebê nascesse com a lembrança de que um casadinho é muito mais delicioso do que uma fatia de melão.
Ian foi direto para seu quarto, desenrolando os papéis que
recebeu de Catarina, com pressa.
As paredes do quarto tinham um tom claro de cinza.
Haviam sido devidamente pintadas por ele e pela irmã três anos antes, na única mudança maior que fizeram na casa depois que passaram a morar sozinhos. Depois disso, os investimentos de Iris foram todos direcionados para pagar o curso. De longe, mal dava para notar as manchinhas cinza de tinta na moldura da porta.
O documento era dividido em itens. No início, havia uma
introdução explicando como o programa funcionava. Ele mostrava o dia a dia de doze adolescentes grávidas de seus primeiros filhos. Algumas haviam acabado de descobrir, enquanto outras estavam prestes a ganhar o bebê. As gravações eram realizadas algumas vezes na semana, acompanhando a rotina dos futuros pais e mães até o parto das doze participantes. Havia também bate-papos gravados em estúdio e atividades das quais todos os casais participavam juntos.
Pela página seguinte Ian apenas passou os olhos. Era
alguma coisa sobre a missão do programa, com estatísticas, regras e outras coisas chatas.
Quando virou a última página, seus olhos foram atraídos
como ímãs para os números em negrito. Ele ganharia, de uma vez só, assim que a temporada fosse ao ar, metade do valor do cachê – quase o que sua irmã levaria um ano inteiro para receber trabalhando em eventos. E ainda tinha a outra metade ao final. Isso apenas em troca de algumas horas de sua semana. Um dinheiro que ele jamais tinha chegado perto de ganhar, fosse servindo nos eventos da irmã, fosse ensinando tênis.
Em último caso, quando o programa estreasse, dali a três
meses, ele e sua cúmplice ainda poderiam inventar uma desculpa para sair com metade de toda aquela grana! ou pelo menos era isso o que ele tinha entendido.
Ian copiou o número da produtora em seu celular,
guardou os papéis no fundo da gaveta entulhada da escrivaninha e começou a pesquisar sobre o Novos Pais na internet.
O programa estava na quarta temporada. Muitos dos
participantes acabaram ficando muito famosos. Havia várias reportagens sobre liana, que estivera em todos os programas da emissora dando entrevistas no mês anterior.
O rapaz passou boa parte da tarde pesquisando e
assistindo a episódios no YouTube.
Quando Iris chegou, ainda era cedo para o jantar, mas, como ela trabalhava muito durante a noite, nos dias em que não tinha eventos tentava dormir cedo para regular o sono. Ela e Ian sempre tentavam fazer ao menos uma refeição por dia juntos.
Depois de tomar banho, Iris começou a preparar o jantar.
Desde que descobrira estar grávida, passara a comer como uma atleta – geralmente carboidratos de baixo índice glicêmico, frutas e verduras. Isso acabou sobrando para Ian também, que frequentava a academia e praticava esportes, mas não tinha o hábito de comer como se fosse um medalhista olímpico.
– Eu vou nesse casamento que você está organizando? –
Ian perguntou, com as mãos apoiadas na mesa, logo atrás da irmã.
– Não precisa, já tenho a equipe fechada para esse dia. Vai
ser num domingo e são quatro horas de carro daqui até o local. – Iris colocou na boca um pedaço do queijo branco que estava picando em cubinhos para a salada. – Você tem aula na segunda.
– Vai ser no dia do seu aniversário?
– Não é neste domingo, é no outro. – Iris se virou para o
irmão. – Está sendo tão divertido. Esse casal tem praticamente um orçamento ilimitado, ela vai chegar numa carruagem. Foi um inferno achar a carruagem que ela queria. Sem contar que o cachê do cavalo é praticamente maior que o meu.
– Que bom que vai rolar uma grana boa, porque a gente
precisa tirar o anjo do meio da sala antes que as chuvas aumentem no verão – Ian disse, enquanto pegava pratos e talheres para os dois no armário.
Mais ou menos na metade do verão passado, num dia de
chuva forte, algumas telhas tinham se quebrado. Ian fora obrigado a subir no telhado para consertá-las. Elas estavam com pequenas rachaduras e foram perfeitamente seladas com Durepoxi. Mas as chuvas intensas das semanas seguintes fizeram com que a goteira voltasse. E ainda mais vigorosa.
A solução foi lançar mão de um dos arranjos que Iris
guardava na garagem. Ela geralmente mantinha utensílios de decoração que não eram usados ou que tinham sido comprados apenas para uma festa e os clientes não faziam questão de manter.
Ela colocou uma fonte de plástico com um anjo por cima
bem no meio da sala. A fonte tinha mais ou menos um metro e meio de altura e funcionava ligada na energia. O objeto havia sido comprado pela internet – e era até muito bem-feito pelo preço. Iris só não havia percebido que a água saía numa cascata como se o anjinho estivesse fazendo xixi. Isso a impossibilitou de usar a fonte no casamento para o qual a havia comprado. Ao menos agora ela tinha alguma serventia.
Colocar o anjo no meio da sala foi ao mesmo tempo uma
solução temporária e uma maneira de lembrar que precisavam chamar alguém para arrumar o telhado. Mas eles já haviam se acostumado com ela lá e só recordavam que o telhado precisava de conserto quando chovia e a goteira reaparecia.
Antes de sentar para comer, Ian viu na tela a mensagem
não enviada que havia escrito para a produtora. “Tô dentro!”, dizia. Sem pensar muito, pressionou o botão de enviar. Leu e releu várias vezes, tentando analisar se não tinha feito uma besteira. Então digitou: “Quer dizer, estamos dentro!”.
Agora precisava ainda analisar seus contatos femininos
para encontrar alguém que topasse participar e quisesse receber alguns milhares de reais – o que poderia tornar a procura mais fácil.
Ian começou a comer, sem prestar muita atenção no que a
irmã falava. Ele não estava fazendo nada de errado, afinal. E, se quisesse, ainda poderia nunca mais responder a Catarina e fingir que nada aconteceu.
Enquanto isso, a TV anunciava o próximo episódio de
Novos Pais, e o anjo jorrava água pelas partes íntimas como nunca.
Ian achava interessante como todos os alunos respeitavam a professora Firmina, de química, sem que ela precisasse fazer muito esforço. Baixinha e corpulenta, tinha um sotaque diferente, herdado dos pais poloneses, mesmo tendo nascido no Brasil. Suas bochechas ficavam desproporcionalmente vermelhas na maior parte do tempo, enquanto no inverno o nariz adquiria a mesma cor. Talvez ser uma professora fofa fosse sua arma.
Como era uma das professoras mais antigas do colégio,
sempre estava envolvida nos projetos que a escola propunha. No ano anterior, organizara a “1a Exposição de Maquetes de Usina de Energia do segundo Ano”, que acabou se tornando uma mostra de cata-ventos, uma vez que todo mundo percebeu que a usina eólica era a mais fácil de ser feita.
Agora, no terceiro ano, Ian e os colegas estavam livres
dessas maquetes.
– Nesses papéis que eu estou entregando está o tema de
cada um – a professora explicava enquanto caminhava pela sala. – Quero que vocês façam uma experiência e… – Firmina ficou levemente entalada entre a parede e uma carteira vazia no fundo da sala, enquanto tentava passar para o outro lado. – …um trabalho escrito, explicando a reação química ocorrida na experiência de acordo com o tema que está no papelzinho.
Ian fazia todos os trabalhos com Eloy, seu melhor amigo,
que sentava ao seu lado. Eloy era totalmente esforçado nos estudos, chegando a ser chato eventualmente. Dava para notar ele meio desconfortável, tentando participar das brincadeiras do grupo quando ninguém estava realmente interessado em iniciar o trabalho. Mas sua vontade de fazer tudo impecavelmente era maior que isso. Portanto era sempre ele quem acabava criando os slides, organizando a parte dos colegas e dividindo as tarefas – que às vezes ele mesmo fazia.
Depois que os papéis foram distribuídos, os alunos que
pegaram os mesmos temas começaram a juntar suas mesas.
– A Emília pode vir pro meu grupo? – perguntou uma das
garotas que estava no grupo de Ian, com a mão levantada. Emília e outro aluno haviam faltado naquele dia, e no grupo de Ian ainda havia uma vaga.
Ele e Eloy tinham conseguido entrar no mesmo sem
precisar participar do câmbio de temas ilegal que rolava na sala. Junto com eles estavam mais duas meninas – Ávia, que era a amiga de Emília, e outra cujo nome Ian não sabia. Essa última fazia parte de um grupinho de amigas com mais duas meninas que ficavam meio escondidas na sala. Praticamente não conversavam com ninguém. Elas também não sabiam da existência do câmbio ilegal de temas, então em geral alguma ficava separada mesmo.
A professora concordou com o pedido de Ávia, colocou o
outro garoto que faltou em um grupo e jogou o papel dos dois no lixo. Os grupos começaram a dis cutir as opções de experiências que havia no livro de química. A menina que não falava muito era tão dedicada quanto Eloy. Enquanto Ian tentava ajudar a deci dir, Ávia apenas concordava com as ideias, sem sugerir muita coisa. Eloy e a menina cujo nome Ian não sabia concordaram que era melhor procurar uma nova experiência na internet, e ele ficou de trazer mais algumas opções para a próxima aula.
A cantina do colégio tinha uma espécie de cardápio
rotativo. Toda sexta-feira, assim que o sinal do intervalo soava, o pátio se tornava uma pista de corrida cuja linha de chegada era a fila para conseguir um pedaço do bolo de cenoura mais macio já assado no mundo, que sustentava uma cobertura grossa de chocolate salpicada com granulado.
Enquanto Ian comia o seu pedaço com Eloy na mesa do
refeitório e esperava o resto dos amigos voltarem da fila, uma ligação fez seu celular vibrar.
Ele precisou largar o bolo de lado e lamber os dedos para
não lambuzar toda a tela do aparelho ao atendê-lo. A ligação era de Catarina. Ela havia ligado mais cedo, enquanto ele ainda tomava café, e outra vez quando estava dentro da sala de aula. Mas Ian preferiu não aten der. Ainda não tinha decidido nada, e conversando pelo telefone ia ser mais difícil mentir. Não poderia continuar deixando-a sem resposta se quisesse que seu plano des se certo. Seja o que Deus quiser, ele pensou, antes de se afastar da mesa e atender a chamada.
– Oi, Ian! Aqui é a Catarina, da produção do Novos Pais.
Tudo bem? Recebi a sua mensagem, que ótimo que vocês topam participar! – a produtora disse, tão eufórica quanto no dia anterior, quando haviam conversado no consultório.
– Nós estamos bem empolgados. Eu e a minha namorada. E
o bebê também, se bobear – Ian riu sem mui ta confiança na própria piada. – Desculpa, mas agora eu estou na escola e não vou conseguir falar.
– Sem problemas! É rapidinho: as gravações começam
nesta segunda, então preciso decidir entre vocês e outro casal com que conversei. – Ian engoliu em seco.
– Preciso de algumas informações, depois a gente grava
uma entrevista com você e sua namorada. Eu levo para os executivos da emissora e nós decidimos o casal que vai preencher a vaga. Primeiro, de quantas semanas ela está grávida?
– Ela... uh... ela... – Ian tentou lembrar o que a irmã havia
falado assim que saiu do consultório. – Está do tamanho de uma... azeitona.
– Ahn... isso não é nem três meses, certo? – Ela esperou
que o rapaz respondesse e ele balbuciou um “uhum”. – isso com certeza é um ponto a mais para vocês. Nós realmente precisamos de mais um casal num estágio inicial da gravidez. E qual o nome da garota?
Ian ficou mudo. Observou a mesa onde os amigos
conversavam, animados, olhou ao redor os alunos caminhando… mas não conseguia prestar atenção nem em seus próprios pensamentos. Ele não sabia se desligava o telefone, inventava um nome, desistia do dinheiro ou...
– Emília.
– O.k.! – Ela pareceu anotar alguma coisa. – Vou deixar
você estudar agora. Eu te mando um e-mail com todas as informações sobre a nossa primeira gravação. Até logo!
Quando a ligação terminou, ele encarou o telefone, como
se não reconhecesse aquele objeto.
Emília.
Por que eu falei Emília?! Por que eu disse justamente o nome
da garota com quem troquei apenas duas palavras em três meses, desde que as aulas começaram?
Ian voltou para a mesa, sentou e encarou o bolo de
cenoura mordido que havia deixado em cima do guardanapo enquanto pensava. Quando os amigos perceberam que ele estava na mesma posição havia um tempo, a cena começou a ficar estranha, e alguns colegas fizeram bolinhas com seus guardanapos e jogaram na direção de Ian, que nem se mexeu.
No resto da manhã, o garoto continuou fora do ar,
enquanto os pensamentos se agitavam em sua cabeça.
Quando o professor de matemática entrou na sala para
iniciar sua aula, os alunos desfizeram a organização anterior das carteiras, divididas em grupos para a aula da professora Firmina.
Depois de arrumar a sua carteira, Ian olhou para a de
Emília, que estava vazia. Foi até lá e a colocou no lugar também. Se antes ele estava perdido em relação ao que fazer para encontrar a parceira de crime ideal, pelo menos agora tinha uma meta: convencer Emília.