Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 10 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Agora Lembrei o Outro m otivo de…

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AGORA LEMBREI O OUTRO m otivo de eu não gostar de refrigerante: m e dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tam anho de um a caixa de fósforos nos fundos m e força a seguir direto para a toalete da rodoviária.

No cam inho, j ogo no lixo a lata de refrigerante pela m etade.

Passando reto pelas três prim eiras cabines, que estão noj entas, m e fecho na quarta e penduro a bolsa e a m ala no gancho da porta azul. Espalho um a boa cam ada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhum a doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer j eito o botão do j eans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desaj eitadam ente levantado atrás de m im .

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos My th Busters; fiquei arrasada por m eses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realm ente borrifa germ es invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâm padas fluorescentes do banheiro são m ais fracas que as de fora. Um a delas pisca acim a de m im . Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos m ortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as m ãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único j eito de secar as m ãos é com aquele soprador noj ento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Com eço a esfregar as m ãos no j eans, m as aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido.

Eu m e encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finj o que estou secando as m ãos (porque sei que no final vou enxugar no j eans m esm o), um a som bra se m ove atrás de m im e cham a m inha atenção nos espelhos.

Eu m e viro e ao m esm o tem po o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novam ente.

Um hom em está na porta do banheiro, olhando para m im .

Meu coração dispara e m inha garganta seca.

— Aqui é o banheiro fem inino.

Olho para as m inhas bagagens no balcão. Tenho algum a arm a? Sim , eu trouxe pelo m enos um canivete, m as ele não vai aj udar m uito a alguns m etros de m im , fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro m asculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O hom em , usando tênis suj os e velhos e um j eans desbotado com m anchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom . Se ele tivesse m esm o entrado aqui por engano, com certeza iria parecer m ais constrangido e j á teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até m inhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá m ais alguns passos na m inha direção.

— Eu... não queria te assustar — ele diz.

Abro m inha m ala e procuro o canivete, enquanto tento ao m esm o tem po ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus — ele fala, e continua a se aproxim ar. — Meu nom e é Robert.

Eu m e viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. — Finalm ente sinto o cabo do canivete e o em punho, m antendo a m ão escondida dentro da m ala. Meu dedo aperta a pecinha de m etal que abre a lâm ina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O hom em para a uns 2 m etros de m im e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim , agora lem brei; ele veio nos m esm os ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava m e olhando esse tem po todo?

Puxo o canivete de dentro da m ala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e m ostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso m e assusta tam bém .

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de m im — aviso, cerrando os dentes. — Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te m achucar — ele responde, ainda sorrindo perturbadoram ente. — Eu vou pagar um a grana preta pra você chupar m eu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares m ais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vam os sair ganhando.

Com eço a gritar a plenos pulm ões, quando de repente outra som bra escura m e cham a a atenção. Andrew pula em cim a do hom em , j ogando o corpo dele m eio m etro longe sobre o longo balcão. As costas do hom em batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novam ente. Deixei cair o canivete em algum m om ento. Vej o-o no chão, m as agora estou apavorada dem ais para m e m exer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o hom em de cim a do balcão, puxando-o pela cam isa. Ele põe a outra m ão para trás e enterra o punho no rosto do hom em . Ouço um barulho noj ento de cartilagem esm igalhando e o sangue j orra do nariz dele. Mais e m ais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o hom em não consegue m ais m antê-la erguida e ela com eça a dançar feito bêbada sobre seus om bros. Mas Andrew não para, segurando o hom em pelos om bros com as duas m ãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulej ada.

Ele o nocauteia com pletam ente.

Andrew solta o corpo do hom em , que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, m as há algo perturbadoram ente indom ado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o hom em desacordado.

Mal posso respirar, m as consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem ?

Ele sai do transe e se vira bruscam ente para m e olhar.

— Quê? — Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas.

Ele se aproxim a. — Se eu tô bem ? Que pergunta é essa? — Ele aperta m eus antebraços e m e olha intensam ente nos olhos. — Você tá bem ?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, m as ele segue m eu m ovim ento e m e sacode um a vez para m e forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem — digo finalm ente —, graças a você.

Andrew m e puxa para seu peito rij o com o pedra e aperta os braços nas m inhas costas, praticam ente m e m atando esm agada.

— A gente precisa cham ar a polícia — ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele m e puxa pela m ão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e som brio.

Quando a polícia chega, o hom em j á desapareceu.

Andrew e eu concluím os que ele deve ter saído de fininho depois que fom os em bora.

Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevem os para os policiais e dam os nossos depoim entos. Eles parabenizam Andrew — sem m uito entusiasm o — por intervir, m as ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez m inutos, portanto, estou presa no Wy om ing de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho — Andrew diz.

Deixei escapar que m eu “ônibus pro Texas” foi em bora sem m im .

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estam os sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom , agora tô indo pro Texas — é tudo o que digo, m esm o sabendo que fui “pega no flagra” e tendo a sensação de que m uito em breve vou acabar contando um a parte da verdade. — Você não foi em bora de táxi? — digo, tentando fugir do assunto.

— Fui — ele diz —, m as não com eça a falar de m im , Cam ry n. Por que você não tá m ais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até m e fazer falar, por isso j ogo a toalha.

— Na verdade, não tenho um a irm ã em Idaho — adm ito. — Só tô viaj ando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sem pre tem algum a coisa a m ais... Você tá fugindo de casa?

Finalm ente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao m enos não no sentido de fugir ilegalm ente.

— Em que sentido, então?

Dou de om bros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tem pos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscam ente e olho em seus olhos verdes e intensos, que m e penetram .

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tom ou um ônibus sozinha?

— É. — Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar m e contar m ais do que isso — ele afirm a, resoluto.

— Olha, tô m ais agradecida do que você pode im aginar pelo que você fez. De verdade.

Mas acho que m e salvar não te dá o direito de saber da m inha vida.

Um leve ar de insulto tom a sutilm ente o seu sem blante.

Me sinto culpada na hora, m as é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o j oelho.

— Vi aquele pedaço de m erda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a m inha atenção. — Você não viu, m as eu vi, por isso eu com ecei a vigiar o cara. — Ele ainda não m e encarou de novo, m as estou olhando fixam ente o seu perfil enquanto ele explica. — Vi o suj eito pegar um táxi e ir em bora antes de m im , e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a cam inho do hospital, tive um m au pressentim ento. Falei pro taxista m e deixar num restaurante e fui com er. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí — interrom pi —, você não foi pro hospital?

Ele olha para m im .

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... — ele desvia o olhar novam ente — ... não ia ter com o prestar atenção no m au pressentim ento que eu tava tendo enquanto visse m eu pai m orrendo.

Eu entendo e não digo m ais nada.

— Então fui pra casa do m eu pai, peguei o carro dele, dei um as voltas, e quando não consegui aguentar m ais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia m e assustar? — Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew m e olha nos olhos e vej o aquela expressão brincalhona e m etida a esperta com eçando a tom ar conta do seu rosto novam ente.

Ele vira as duas m ãos de palm as para cim a.

— Hum , um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? — Suas sobrancelhas se enrugam na testa. — Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-m eu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, m as desiste.

— O que você vai fazer, Cam ry n? — Seu rosto fica sério de novo e eu tam bém paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próxim o ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as m ãos nas m inhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? — ele pergunta calm a e m etodicam ente. — Melhor desem buchar de um a vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialm ente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom , então acho que você vai ficar sentado aí bastante tem po, até eu tom ar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tom ar m ais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum . Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum . É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vam os fazer o seguinte...

Pisco algum as vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até am anhã de m anhã. Isso vai te dar bastante tem po pra decidir se prefere m e deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tom ar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho com o se ele fosse louco.

Seus olhos m e respondem : Sim , nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscam ente e fica de pé na m inha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas m açãs do rosto perfeitam ente esculpidas parecem m ais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda m ais feroz. Sinto um calafrio correr pela m inha barriga.

— Isso é loucura. — Rio, m as sei que ele está falando sério, e então digo com m ais severidade: — E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna m ais desesperada.

Ele com eça a desviar o olhar, m as um a ideia o traz de volta.

— Então vem com igo.

Quê? Sem chance...

Ele parece m ais esperançoso do que determ inado, agora. Volta a se sentar ao m eu lado no banco de plástico azul.

— Vam os ficar aqui m esm o até am anhã de m anhã — ele continua. — Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, m e olhando de lado interrogativam ente.

— Não, não vou — digo, em bora sinta que posso realm ente confiar nele; ele m e salvou de ser estuprada, m eu Deus! E nada nele m e dá os m esm os m edos que senti quando Dam on fez praticam ente a m esm a coisa. Não, Dam on tinha algo m ais som brio nos olhos quando m e olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vej o preocupação.

Mesm o assim , não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta — ele diz, aparentem ente contente por eu ser tão “inteligente” quanto ele esperava. — Vam os esperar am anhecer, e só pra você ficar m ais tranquila, vou cham ar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no m eu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planej ado essa parte. Tipo, j á confio nele, m as é com o se ele quisesse ter certeza de que não confio, com o se estivesse m e ensinando um a lição de form a discreta e indireta.

Fico até envergonhada em adm itir que ele precisa “m e ensinar” essas coisas.

— E depois do hospital, vam os voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a m ão.

— Com binado?

Penso um m om ento em tudo, confusa, m as ao m esm o tem po com pletam ente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante prim eiro, depois de novo, com m ais segurança.

— Com binado — digo, e aperto a m ão dele.

Sinceram ente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problem as em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficam os sentados j untos por várias horas ali m esm o na rodoviária, falando de coisas nada im portantes, m as eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre com o eu cedi e tom ei um refrigerante, e com o foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara — ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocam os discretam ente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de m ortos, com o se estivessem viaj ando de ônibus há um a sem ana sem conseguir dorm ir. E falam os m ais um pouco sobre rock clássico, m as a discussão continua no m esm o im passe de quando tocam os no assunto pela prim eira vez no ônibus.

Ele praticam ente m orreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sem pre. Tipo, acho que literalm ente o feri. Ele pôs aquela m ão enorm e no coração, j ogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o m ais. Foi m uito dram ático. E engraçado. Tentei não rir, m as era difícil m e segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticam ente sorrindo tam bém .

E quando íam os sair, depois que am anheceu, parei para olhá-lo um m om ento. Um a brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem -cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para m im e m e cham ando para o táxi.

— Você vem com igo, não vem ?

Sorri calorosam ente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. — Segurei sua m ão e m e sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a m orte de Ian. Nem m esm o Natalie conseguia m e deixar genuinam ente alegre, e ela se esforçava m uito. Minha am iga fazia de tudo para m e aj udar a sair da depressão, m as nenhum a das tentativas dela j am ais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tem po, e sem querer.

ANDREW

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisam os no hospital, com o se um a m uralha de escuridão surgisse do nada e m e engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadam ente caídos. E então sinto a m ão de Cam ry n tocar m eu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que m e faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso num a trança bagunçada de um lado, j ogada sobre o om bro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a m ão e afastá-los delicadam ente com o dedo, m as não faço isso.

Não posso fazer essas m erdas. Preciso m e livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatam ente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem — ela diz.

Sua m ão solta m eu pulso quando ela nota que cham ou m inha atenção. Sorrio fracam ente para ela.

Seguim os o corredor até o elevador e subim os para o terceiro andar. A cada passo do cam inho, sinto que deveria dar m eia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu dem onstre em oção lá dentro, e no m om ento estou prestes a explodir.

Talvez sej a m elhor eu sair, esm urrar algum as árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Param os na sala de espera, onde algum as outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui — Cam ry n diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra com igo?

Quero m uito que ela entre. Não sei por quê.

Cam ry n com eça a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá — diz, parecendo pouco à vontade agora. — É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a m ão, pego delicadam ente a m ala do om bro dela e ponho no m eu. Está leve, m as ela estava com eçando a parecer incom odada.

— Não tem problem a — insisto. — Eu quero que você entre com igo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosam ente o resto da sala, antes que seus olhos azuis m e encarem de novo.

— Tá — ela diz com um breve aceno.

Sinto m eu rosto se abrir num sorrisinho e instintivam ente seguro a m ão dela. Ela não m e im pede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um .

Andam os de m ãos dadas até o quarto do m eu pai.

Ela aperta m inha m ão um a vez, m e olhando com o que para m e encoraj ar m ais. E

então eu em purro a porta do quarto de hospital. Um a enferm eira m e olha quando entram os.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenem ente e continua aj ustando as m áquinas e tubos conectados ao m eu pai. O quarto é um espaço tipicam ente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâm ica tão lustroso que as lâm padas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do m onitor de frequência cardíaca ao lado da cam a do m eu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, m enos para ele.

Os dedos de Cam ry n apertam os m eus.

— Com o ele está? — pergunto, m as sei que é um a pergunta idiota. Está m orrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer m ais nada.

A enferm eira m e olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tem po todo, com o você j á deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhum a m udança, nem para m elhor, nem para pior. — Ela aj eita um tubo de soro preso nas costas da m ão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cam a, pega um a prancheta da m esinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? — pergunto.

A enferm eira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últim os dias. Alguns saíram há m ais ou m enos um a hora, m as acho que devem voltar.

Provavelm ente Aidan, m eu irm ão m ais velho, e sua esposa, Michelle. E m eu irm ão m ais novo, Asher.

A enferm eira sai discretam ente do quarto.

Cam ry n olha para m im , apertando m ais forte m inha m ão. Seus olhos sorriem cautelosam ente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, em bora tudo que ela disse tenha sum ido da m inha m ente com o um a lem brança fugidia. Seus dedos soltam os m eus devagar e ela se senta perto da parede, num a poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em m eus lábios ressecados.

O rosto do m eu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio.

Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo m antido por aparelhos, m as isso m e dá um a pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai m elhorar; isso j á foi praticam ente confirm ado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar um a cirurgia, m as quando m eu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalm ente reclam ou:

— Vocês não vão m exer na m inha cabeça, caralho — ele exclam ou. — Querem que eu pague m ilhares de dólares pra um m édico de m eia-tigela rachar a m inha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificam ente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no m eio das pernas!

Meus irm ãos e eu estávam os dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, m as ele assinou escondido da gente algum tipo de “cláusula” que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tom ar essas decisões por ele.

Foi m inha m ãe que alertou o hospital sobre os desej os do m eu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, m as m inha m ãe é um a m ulher inteligente e am orosa, e nenhum de nós j am ais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu m e aproxim o e olho para o corpo dele. Minha m ão m eio que tem vontade própria, e quando dou por m im , está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Com o se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problem a em segurar a m ão dela. Mas este é m eu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na m inha cabeça: “Hom em não pega na m ão de hom em , rapaz. Qual é o teu problem a?”

De repente, m eu pai abre os olhos e instintivam ente solto a m ão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem ?

— Linda — ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. — Minha m ulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidam ente para Cam ry n, que está sentada quietinha, observando.

Eu m e viro para o m eu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lem bra?

Seus olhos verde-claros estão m olhados. Não são lágrim as. É só um idade. Ele parece zonzo por um m om ento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d’água? — pergunto, e estico o braço para a longa m esa com rodinhas que foi afastada da cam a. Um a j arra d’água cor-de-rosa e um a caneca grossa de plástico com tam pa e um canudo no m eio estão em cim a dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você aj eitou a sra. Nina? — ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim , ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom , que bom — ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça tam bém .

A situação é m eio constrangedora, e sei que isso está escrito na m inha testa e na m inha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d’água ou apenas m e sentar e esperar Aidan e Asher voltarem . Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? — ele pergunta, olhando para a parede.

Eu m e pergunto com o m eu pai consegue ver Cam ry n lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Cam ry n fica im óvel por um instante, m as aquele sorriso lindo dela lhe ilum ina o rosto. Ela levanta a m ão e acena para ele pelo espelho.

Mesm o com todo o inchaço, vej o um sorriso nos lábios do m eu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? — ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Cam ry n não tenha ouvido isso, m as não sei com o ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracam ente um a m ão e acena para Cam ry n.

Ela se levanta e vem ficar ao m eu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até im pressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta m enos à vontade do que nunca, neste quarto com este m oribundo que ela nem conhece, m as segura a onda.

— Olá, sr. Parrish — ela diz. — Sou Cam ry n Bennett, am iga de Andrew.

Ele olha para m im . Conheço essa cara; está com parando a resposta dela com a m inha expressão, tentando decifrar o significado de “am iga”.

E então, de repente, m eu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a m ão... para m im .

O gesto m e deixa atordoado.

Só quando noto Cam ry n disfarçadam ente m e alertando com os olhos para aceitar a m ão dele é que caio em m im e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um m om ento longo e em baraçoso e m eu pai fecha os olhos e volta a dorm ir. Solto a m ão dele quando sinto seu fraco aperto perder com pletam ente a força.

A porta se abre e m eus irm ãos entram , j unto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do m eu pai na hora, levando Cam ry n com igo, sem perceber que estou segurando a m ão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou — Aidan com enta, m as com um a pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto com igo por não ter tom ado um avião e chegado m ais rápido. Ele vai ter que se conform ar; cada um lam enta à sua m aneira.

Apesar disso, ele m e puxa num abraço, apertando um a das m ãos entre nós e batendo nas m inhas costas com a outra.

— Esta é Cam ry n — apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, j á da poltrona perto da parede.

— Estes são m eu irm ão m ais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. — Aponto delicadam ente para eles. — E aquele é o m ais pirralho, Asher.

— Babaca — Asher responde.

— Eu sei — concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de um a m esa, e com eçam a distribuir os ham búrgueres e fritas que acabaram de com prar.

— O velho ainda não acordou — Aidan diz, enfiando algum as batatas fritas na boca. — Detesto dizer isso, m as acho que nem vai.

Cam ry n olha para m im . Nós dois falam os com m eu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelm ente não — digo, e vej o Cam ry n apertando os olhos, confusa.

— Quanto tem po você vai ficar? — Aidan pergunta.

— Não m uito.

— Por que isso não m e surpreende? — Ele dá um a m ordida no seu ham búrguer.

— Não com eça com essa m erda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe — Aidan diz, balançando a cabeça e m astigando a com ida. Ele m ergulha algum as batatas fritas num m ontinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no m eio da m esa. — Faz o que você quiser, m as estej a aqui pro enterro.

Não há em oção no seu rosto. Ele sim plesm ente continua a com er.

Eu fico com pletam ente paralisado.

— Porra, Aidan — Asher diz atrás de m im . — Dá um tem po, cara! Fala sério, m ano, o Andrew tem razão.

Asher sem pre foi o m ediador entre m im e Aidan. Sem pre foi o m ais equilibrado. Eu e Aidan pensam os m elhor com os punhos. Meu irm ão m ais velho sem pre ganhou de m im quando éram os m ais novos, m as m al sabia ele que sem pre que m e enchia de porrada estava m e treinando.

Agora estam os no m esm o nível. Evitam os as vias de fato a todo custo, m as sou o prim eiro a adm itir que não sei segurar m inha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle com o um a distração. Ele lim pa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá um a risadinha.

O olhar de Cam ry n cruza o m eu; provavelm ente ela está tentando cham ar m inha atenção há alguns m inutos, e por um m om ento penso que quer m e avisar que é hora de ir em bora, m as ela só balança a cabeça, pedindo que eu m e acalm e.

Obedeço na hora.

— Então — Asher diz, para aliviar a tensão no am biente —, há quanto tem po vocês estão saindo? — Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Som os quase idênticos, com o m esm o cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem m ais escuro, e em vez de covinhas, ele tem um a pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, som os só am igos — digo.

Acho que Cam ry n ficou verm elha, m as não tenho certeza.

— Deve ser um a boa am iga, pra vir até o Wy om ing com você — Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de m im , eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é — Cam ry n diz, e sou instantaneam ente absorvido pela doçura da sua voz —, eu m oro perto de Galveston; achei que alguém devia viaj ar com o Andrew, j á que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lem brar a cidade onde falei que m orava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com sim patia; suas bochechas se m ovem enquanto ele m astiga.

— Maior gata, m ano — ouço Asher cochichar atrás de m im .

Eu m e viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, m as cala a boca.

O velho se m exe quase im perceptivelm ente e Asher se aproxim a do lado da cam a. Ele dá um soquinho am igável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe ham búrguer.

Aidan levanta seu sanduíche com o se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente com e tudo.

Papai continua im óvel.

Ele treinou m uito bem os três filhos. A gente j am ais pensaria em ficar em volta da cam a dele, deprim idos e essas m erdas todas. E, quando ele m orrer, Aidan e Asher provavelm ente vão pedir um a pizza e um a caixa de cervej a e ficar falando m erda até am anhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto m ais tem po eu ficar, m aior a chance de ele m orrer antes que eu vá em bora.

Falo com m eus irm ãos e com Michelle m ais alguns m inutos, e então m e aproxim o de Cam ry n.

— Você tá pronta?

Ela pega m inha m ão e fica de pé.

— Já vão em bora? — Aidan diz.

Cam ry n fala antes de m im , dizendo com um sorriso: — Ele volta; a gente só vai com er algum a coisa.

Ela está tentando desarm ar a discussão antes que com ece. Olha para m im e eu, concordando em fazer o m esm o, viro para Asher e digo: — Me liga se algum a coisa m udar.

Asher concorda com a cabeça, m as não diz m ais nada.

— Tchau, Andrew — Michelle diz. — Foi bom te ver de novo.

— Você tam bém .

Asher nos acom panha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? — ele diz.

Cam ry n se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, m as não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, m ano. — Ele faz que sim com a cabeça. — Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cam a.

Meu irm ão está dizendo a verdade, por m ais estranha que ela sej a.

Ele tam bém olha de relance para Cam ry n, depois de dizer isso.

— Só am igos? Mesm o? — cochicha para m im com um sorriso m alicioso.

— Sim , a gente é só am igo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosam ente e bate no m eu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando “for preciso” significa quando papai m orrer.

Asher levanta a m ão para acenar para Cam ry n.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho m esm o.

Com eço a andar m ais rapidam ente pelo corredor e ela m e acom panha. Enfio as m ãos nos bolsos. Sem pre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve m e achar um babaca egoísta por estar indo em bora, m as você não entende.

— Então m e explica — ela insiste, m e segurando pelo cotovelo enquanto continuam os andando. — Não acho que estej a sendo egoísta, só acho que você não sabe com o lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando m e olhar nos olhos, m as não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de m orte feita de tij olos verm elhos.

Chegam os ao elevador e Cam ry n para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, m as assim que chegam os ao térreo e as portas de m etal se abrem , ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela m e faz virar. Ela m e olha com um a expressão tão atorm entada que m eu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o om bro direito dela.

— Fala com igo — ela diz m ais baixinho, agora que cham ou m inha atenção. — Falar não faz m al.

— Do m esm o j eito que não faz m al m e contar por que o Texas?

Isso a atinge.

CAMRYN