Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 7 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

— Mais Dez Minutos — eu digo…

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— MAIS DEZ MINUTOS — eu digo —, e vam os sair desta lata de sardinha.

Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.

Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.

— Dorm iu m elhor? — ele pergunta, fechando a m ochila.

— É, até que dorm i — adm ito, m e esticando para apalpar m inha nuca, onde não sinto nenhum m úsculo em bolado desta vez. — Obrigada pela sugestão involuntária.

— Disponha sem pre — ele diz com um sorrisão. — Denver? — pergunta, olhando para m im .

Presum o que ele estej a perguntando se essa é a m inha próxim a conexão.

— É, daqui a quase sete horas.

Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem .

Dez m inutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City . Tem três vezes m ais gente ali do que na últim a rodoviária, e isso m e preocupa. Abro cam inho pelo term inal até o prim eiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidam ente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.

Ele se senta ao m eu lado e abre a lata de refrigerante.

— Que foi? — pergunta, olhando para m im .

Não percebi que o estava observando tom ar aquele refrigerante com um a expressão enoj ada.

— Nada — respondo, desviando o olhar —, só acho isso um noj o.

Eu o ouço rir baixinho ao m eu lado, e então ele abre o saco de batata frita.

— Pelo j eito, você acha um m onte de coisas um noj o.

Olho de novo para ele, aj eitando m inha m ala no colo.

— Quando foi a últim a vez que você com eu algum a coisa m enos... causadora de infarto?

Ele m astiga m ais um a batata e engole.

— Eu com o o que eu estiver a fim de com er. Você é o quê, um a daquelas vegetarianazinhas m etidas que reclam am que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?

— Não sou um a dessas — respondo —, m as acho que as vegetarianazinhas m etidas podem ter razão.

Ele m astiga m ais algum as fritas e tom a um gole de refrigerante, sorrindo para m im .

— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem — ele argum enta, sem parar de m astigar. — As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos am ericanos que decidem com er aquilo.

— Você tá se cham ando de am ericano burro? — Eu retribuo o sorriso.

Ele dá de om bros.

— Acho que sou, quando m inha escolha está lim itada a m áquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-suj o.

— Ah, tá — eu exclam o, revirando os olhos. — Até parece que você ia escolher com er algo m elhor, se tivesse escolha. Fala sério.

Acho que estou m elhorando nessas alfinetadas.

Ele ri alto.

— Com certeza eu ia escolher algo m elhor. Prefiro sem pre um filé de cinquenta dólares em vez de um ham búrguer dorm ido, ou um a cervej a em vez de um refri.

Balanço a cabeça, m as não consigo parar de sorrir com pletam ente.

— O que você com e norm alm ente, afinal? — ele pergunta. — Saladas e tofu?

— Eca — reclam o, torcendo o nariz. — De j eito nenhum eu com eria tofu, e saladas são só um m odism o pra quem quer em agrecer. — Fico em silêncio e sorrio para ele. — Sinceram ente?

— Sim , claro, desem bucha — ele diz.

Ele está m e olhando com o se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.

— Gosto de m acarrão enlatado com alm ôndegas e sushi.

— O que, tudo isso m isturado? — Agora ele parece discretam ente enoj ado.

Dem oro alguns segundos para entender.

— Ah, não — digo, balançando a cabeça —, isso tam bém seria um noj o, aliás.

Ele sorri, parecendo aliviado.

— Não sou m uito fã de carne — continuo —, m as acho que com eria um filé, se alguém m e oferecesse.

— Ah, então você tá m e pedindo pra te convidar pra j antar? — Seu sorriso acaba de aum entar.

Eu arregalo os olhos e m eu queixo cai.

— Não! — exclam o, praticam ente corando de vergonha. — Eu só tava dizendo que...

Andrew ri e tom a m ais um gole.

— Eu sei, eu sei — ele diz —, não se preocupe. Eu j am ais pensaria em te convidar pra um encontro.

Eu arregalo os olhos e abro a boca m ais ainda e sinto m eu rosto pegando fogo.

Ele ri m ais alto.

— Caram ba, garota — ele continua, ainda rindo enquanto fala —, você não é m uito rápida pra sacar as coisas, é?

Eu franzo a testa.

Ele franze a testa tam bém , m as de certa form a ainda está sorrindo ao m esm o tem po.

— Vam os fazer o seguinte — ele decide, parecendo um pouco m ais sério —, se a gente tiver a sorte de encontrar, num a dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 m inutos que tem os antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente com e o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.

— Bom , posso te dizer desde j á que não vai ser.

Ele sorri obliquam ente.

— Então não vai — diz. — Pra m im tá bom assim .

Acho que ele encerrou o assunto, m as aí de repente ele acrescenta: — Mas então o que vai ser, se não for um encontro?

— Com o assim ? — digo. — Vai ser um lance de am izade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo um a refeição j untas.

— Ah — ele diz, com um brilho nos olhos —, então agora som os am igos?

Isso m e pega desprevenida. Ele é bom . Penso por um m om ento, franzindo os lábios contem plativam ente.

— Claro — digo. — Acho que som os tipo am igos, pelo m enos até Wy om ing.

Ele estica o braço e m e oferece sua m ão. Relutantem ente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, m as firm e, e seu sorriso é genuíno e gentil.

— Am igos até Wy om ing, então — ele conclui, balançando m inha m ão um a vez e soltando.

Não sei ao certo o que acaba de acontecer, m as não sinto que fiz algo de que vá m e arrepender m ais tarde. Acho que não há nada errado em ter um “am igo” de viagem .

Posso im aginar m il tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e adm ito que é interessante conversar com ele. Não é um a velhinha querendo m e contar histórias de quando tinha a m inha idade, ou um hom em m ais velho e iludido que ainda se im agina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de algum a form a consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial m eio-term o virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria m elhor, por vários m otivos, se ele fosse um a garota, m as pelo m enos está na m inha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.

Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que m e incom oda nessa situação toda.

Você sabe m uito bem que não im porta tanto o que estej a acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o m undo ou quão inadequado sej a se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a um a etapa aceitável. Você continua hum ana, e assim que vê alguém atraente, não tem com o não notar. É da nossa natureza.

Por outro lado, agir m otivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o m eu lim ite.

Isso não vai acontecer, haj a o que houver.

Mas, sim , o fato de ele ser gato m e incom oda porque significa sim plesm ente que vou ter que m e esforçar m uito m ais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a im pressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se m ostrando. E tam bém é da natureza hum ana dos caras gatos achar autom aticam ente que um sorriso inocente ou um a conversa que continua por três m inutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.

Portanto, essa “am izade” vai m e dar m uito trabalho. Eu quero ser legal, m as não legal dem ais. Quero sorrir quando for necessário, m as preciso tom ar cuidado e m edir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, m as não quero que ele pense que é um a risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.

É, isso vai m e dar trabalho m esm o. Talvez um a velhinha fosse m elhor, no fim das contas...

Andrew e eu esperam os no term inal quase um a hora até que o próxim o ônibus encosta na rodoviária. E, com o era de se im aginar, parece que não vam os ter duas poltronas livres para cada um , desta vez. Pelo tam anho da fila de em barque, j á estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo m undo. Dilem a. Saco. Andrew e eu som os am igos tem porários de repente, m as não consigo pedir que ele se sente com igo.

Isso pode contar com o um a daquelas coisas que dão a im pressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de m im , estou torcendo para que ele decida se sentar ao m eu lado por conta própria. Antes ele do que algum a pessoa com quem nem conversei.

Vou para o m eio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e m e sento na j anela.

Ele se senta ao m eu lado e eu fico secretam ente aliviada.

— Já que você é m enina — diz, pondo a m ala no chão entre os pés —, vou te deixar sentar na j anelinha.

Ele sorri.

Depois que o ônibus enche e eu j á consigo sentir o calor hum ano extra em anando de tanta gente apertada no m esm o espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em m ovim ento.

A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou um a hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o m otivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as m úsicas dela são m elhores do que Boston ou Foreigner, que para m im soam iguais. Discutim os isso durante vinte m inutos dessa hora — ele é m uito teim oso, m as diz o m esm o de m im , então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é “Nat”, m as não entro nos detalhes sanguinolentos do m eu relacionam ento com ela.

Quando anoitece, m e dou conta de que não houve um só m om ento de silêncio constrangedor entre nós desde que subim os no ônibus e ele decidiu se sentar ao m eu lado.

— Quanto tem po vai ficar em Idaho?

— Uns dias.

— E aí vai voltar de ônibus? — Estranham ente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom hum or.

— Vou — respondo, sem querer m e aprofundar m uito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.

Eu o ouço suspirar.

— Não é da m inha conta — ele diz m e olhando, e sinto o espaço entre nós dim inuindo, porque ele está sentado tão perto —, m as você não deveria viaj ar sozinha assim .

Não olho para ele.

— Bom , eu m eio que preciso.

— Por quê? — ele pergunta. — Não tô te paquerando nem nada, m as é perigoso para um a garota j ovem e diabolicam ente linda com o você viaj ar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.

Sinto m eu rosto se abrindo num sorriso, m as tento futilm ente escondê-lo.

Olho para ele.

— Você não tá m e paquerando — retruco —, m as m e cham a de “diabolicam ente linda”

e praticam ente usa a velha cantada do “o que um a garota com o você faz num lugar assim ” na m esm a frase.

Ele parece um pouco ofendido.

— Tô falando sério, Cam ry n — ele insiste, e o m eu sorriso brincalhão se dissolve. — Você pode se m achucar de verdade.

Tentando m udar o assunto constrangedor, sorrio e digo: — Não se preocupe. Confio na m inha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.

Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às m inhas tentativas de aliviar o clim a.

— Então, m e fala do seu pai — digo.

O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim . Não sei, m as tenho a estranha sensação de que ele está escondendo algum a coisa. No Kansas, quando ele falou rapidam ente que seu pai estava m orrendo, exteriorm ente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cim a, para ver o pai antes que m orra, então deve am á-lo. Sinto m uito, m as você nunca fica indiferente quando alguém que você am a m orre ou está m orrendo.

Isso parece estranho vindo de m im , que não consigo m ais chorar.

— Ele é um bom hom em — Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está im aginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lem branças.

Ele, então, olha para m im sorrindo, m as não é um sorriso que tenta acobertar algum a dor, m as sim m otivado por um a boa lem brança.

— Em vez de m e levar pra ver um j ogo de beisebol, m eu pai m e levou pra ver um a luta de boxe.

— É m esm o? — Sinto m eu sorriso se ilum inando. — E com o foi?

Ele volta a olhar para a frente, m as a ternura não deixa m ais seu rosto neste m om ento.

— Papai queria que fôssem os lutadores... — Ele olha para m im . — Não lutadores de boxe ou de verdade, em bora ele tam bém não se incom odasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicam ente.

Balanço a cabeça para m ostrar que entendi.

— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois hom ens batendo um no outro, e o tem po todo ouvia m eu pai falando por cim a do barulho do público, ao m eu lado: “Eles não têm m edo de nada, filho”, ele dizia. “E todos os m ovim entos deles são calculados. Cada m ovim ento que fazem pode funcionar ou não, m as eles aprendem algum a coisa a cada m ovim ento, a cada decisão.”

Andrew m e olha nos olhos por um m om ento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.

— Ele m e contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, m as até nessa hora, eles sem pre caem com o hom ens.

Tam bém não estou m ais sorrindo. Não sei exatam ente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, m as com partilham os o m esm o hum or sóbrio. Quero perguntar se ele está bem , porque é óbvio que não está, m as o m om ento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas em oções.

Não digo nada.

— Você deve m e achar um babaca — Andrew com enta.

Eu pisco, surpresa.

— Não — respondo. — Por que você diz isso?

Ele recua im ediatam ente e m inim iza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novam ente.

— Vou ver o velho antes que ele bata as botas — Andrew explica, e suas palavras m e chocam um pouco —, porque é isso que a gente faz, certo? É um costum e, com o dizer “saúde” quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém com o foi seu fim de sem ana quando na verdade você tá pouco se fodendo.

Cacete, de onde está vindo tudo isso?

— É preciso viver no presente — ele continua, e eu fico discretam ente atordoada. — Não acha? — Sua cabeça pende para o lado e ele m e olha novam ente.

Levo um m om ento para organizar as ideias, m as m esm o assim não sei ao certo o que dizer.

— Viver no presente — repito, m as ao m esm o tem po pensando na m inha própria crença de am ar no presente. — Acho que você tem razão. — Mas fico im aginando exatam ente qual a visão dele dessa crença.

Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para exam iná-lo m ais de perto. É com o se de repente eu tivesse um enorm e desej o de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.

— O que viver no presente significa pra você? — pergunto.

Noto que um a das suas sobrancelhas trem e por um segundo e ele m uda sua expressão, surpreso com a seriedade da m inha pergunta ou o nível do m eu interesse.

Com as duas coisas, talvez.

Ele endireita as costas e levanta a cabeça tam bém .

— Apenas que ficar se prendendo e planej ando é besteira — ele diz. — Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa m uito tem po planej ando o futuro, você se em purra pra trás ou fica estagnada no m esm o lugar a vida toda. — Seus olhos encontram os m eus. — Viva o m om ento — ele diz, com o se estivesse dizendo algo sério — aqui, onde tudo está certo, vá com calm a e lim ite suas m ás lem branças e você chegará ao seu destino, sej a qual for, m uito m ais rápido e com m enos acidentes de percurso.

O silêncio entre nós é apenas o de duas m entes pensando no que ele acabou de dizer.

Me pergunto se os pensam entos dele são iguais aos m eus. Tam bém m e pergunto, m ais do que quero adm itir, por que tantos pensam entos dele j á m e fazem sentir que estou m e olhando no espelho quando olho para ele.

O ônibus corre pesadam ente pela estrada, sem pre barulhento, raram ente com suavidade. Mas depois de tanto tem po, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, com parada ao luxo de um carro. E quando você pensa m ais nos aspectos positivos de um a viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao m eu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e um a linda m aneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na com panhia de um a coisa linda.

Eu não deveria estar aqui...

ANDREW