Entre o Agora e o Nunca
As Palavras Dele m e calam por…
13
AS PALAVRAS DELE m e calam por uns cinco segundos. Minha m ão solta o seu cotovelo.
— Acho que a sua situação é um pouco m ais im portante que a m inha, agora — argum ento.
— É m esm o? — ele diz. — E você querer viaj ar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco im portante?
Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, m as a m aior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está m orrendo lá em cim a, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lam ento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode dem onstrar o tipo de em oção necessária num a situação com o essa sem se tornar m enos hom em por isso.
Tam bém não consigo dem onstrar em oção, m as não fui criada assim , fui forçada a isso.
— Você nunca chora? — pergunto. — Nem por outros m otivos? Algum a vez você j á chorou?
Ele bufa.
— Claro. Todo m undo chora, até caras fortões com o eu.
— Tá, m e diz um a vez.
Ele responde com facilidade:
— Um ... um film e m e fez chorar, um a vez — m as de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.
— Qual film e?
Ele não consegue m e olhar nos olhos. Sinto o clim a pesando m enos entre nós, apesar do m otivo por trás do peso.
— Que im porta isso? — Andrew desconversa.
Sorrio e chego m ais perto dele.
— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te cham ar de m ulherzinha?
Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.
— Diário de um a Paixão — ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.
— Você disse Diário de um a Paixão?
— É! Chorei vendo Diário de um a Paixão, tá?
Andrew m e dá as costas e eu uso todas as m inhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de um a Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão hum ilhado por adm itir.
Eu rio. Não consigo segurar, o riso sim plesm ente escapa.
Andrew se vira, com os olhos m aiores do que pratos, e m e fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele m e agarra e m e j oga sobre o om bro, m e carregando para fora do hospital.
Estou rindo tanto que m eus olhos enchem de lágrim as. Lágrim as de alegria, não aquelas que parei de derram ar depois que Ian m orreu.
— Me bota no chão! — Eu bato os punhos nas costas dele.
— Você falou que não ia rir!
Dizendo isso, ele só m e faz rir m ais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.
— Por favor, Andrew! Me bota no chão! — Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da cam isa.
Finalm ente, sinto m eus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse com igo. Não posso deixar que abandone o pai.
Mas ele fala prim eiro:
— Só não posso ficar chorando por ele, com o j á te falei.
Toco o braço dele delicadam ente.
— Bom , então não chora, m as pelo m enos fica.
— Não vou ficar, Cam ry n. — Ele m e olha intensam ente nos olhos, e eu sei, só pelo m odo com o está m e olhando, que não vou conseguir fazê-lo m udar de ideia. — Agradeço você tentar aj udar, m as isso é algo que não posso fazer.
Com relutância, balanço a cabeça.
— Talvez, em algum m om ento desta viagem com a qual você concordou, vam os conseguir contar um pro outro as coisas que não querem os contar — ele concede, e m eu coração, por algum m otivo, reage à sua voz.
Há um a palpitação no m eu peito, por baixo dos m eus seios, atrás das costelas.
Andrew sorri lum inosam ente, seus olhos verdes perfeitos com o o centro de seu rosto esculpido.
Ele é lindo m esm o...
— Então, o que você decidiu? — ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.
— Vou te com prar um a passagem de avião pra casa ou quer m esm o ir pra Lugar Nenhum , Texas?
— Você quer m esm o ir com igo? — Sim plesm ente não consigo acreditar nisso, e ao m esm o tem po, quero m ais do que tudo que sej a verdade.
Prendo a respiração esperando a resposta.
Ele sorri.
— Sim , quero m esm o.
A palpitação se transform a num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo m om ento pareço não conseguir relaxar o rosto.
— Mas só tenho um a queixa sobre essa ideia — ele diz, levantando um dedo.
— Qual?
— Viaj ar naqueles ônibus — ele diz. — Odeio aquela porra.
Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.
— E de que outro j eito podem os viaj ar?
Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.
— A gente pode ir de carro — sugere. — Eu dirij o.
Eu não hesito.
— Tá.
— Tá? — ele exclam a, fazendo um a pausa. — Fácil assim ? Vai entrar no carro de um cara que você m al conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em algum a estrada deserta? A gente j á não conversou sobre isso?
Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.
— Faria algum a diferença se eu tivesse te conhecido num a biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? — Inclino a cabeça para o outro lado. — Todo m undo é desconhecido no com eço, Andrew, m as nem toda m ulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está m orrendo, praticam ente na m esm a noite. Eu diria que você j á passou no teste da confiança faz algum tem po.
O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das m inhas palavras sinceras.
— Então esta viagem é um encontro?
— Hein? — Eu rio. — Não! Foi só um a analogia.
Sei que ele sabe disso, m as preciso dizer algum a coisa para que ele não note m inhas bochechas, que estão ficando verm elhas.
— Você entendeu.
Ele sorri.
— É, entendi, m as você m e deve um j antar “am igável” na com panhia de um filé. — Ele faz aspas com os dedos quando diz “am igável”. O sorriso nunca deixa o seu rosto.
— Devo, sim , não nego.
— Então tá com binado — ele decide, m e dando o braço e m e levando para o táxi que espera perto do estacionam ento. — Vam os buscar o carro do m eu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar um as coisas e depois cair na estrada.
Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre prim eiro e a fecha depois de se sentar ao m eu lado.
O táxi com eça a rodar.
— Ah, acho que preciso estabelecer algum as regras básicas antes de a gente fazer isso.
— Ah, é? — Me viro e olho para ele, curiosa. — Que tipo de regras básicas?
Ele sorri.
— Bom , prim eira: m eu carro, m eu som ; sei que não preciso explicar m ais.
Eu reviro os olhos.
— Então você tá m e dizendo, basicam ente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem ?
— Ah, você vai acabar gostando.
— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar m eus pais ouvindo o dia todo.
— Segunda — ele continua, erguendo dois dedos e ignorando com pletam ente o m eu protesto —, você tem que fazer tudo que eu m andar.
Viro a cabeça bruscam ente e franzo a testa.
— Hã? Que história é essa?
Seu sorriso fica ainda m aior, m aquiavélico até.
— Você disse que confia em m im , então confie nisso tam bém .
— Bom , vai ter que m e explicar m elhor. Sério, sem brincadeira.
Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.
— Prom eto que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.
— Então, basicam ente, não vai m e pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?
Andrew j oga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se m exe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.
— Não, nada disso, com certeza, j uro. — Ele ainda está rindo um pouco.
— Tá, m as o que vai m e pedir pra fazer, então?
Estou com pletam ente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, adm ito, m as tam bém estou um pouco apavorada agora, tem endo algo com o acordar com um bigode desenhado com canetinha.
Ele dá uns tapinhas na m inha coxa.
— Se isso te faz sentir m elhor, você pode m e m andar catar coquinho se não quiser fazer algum a coisa, m as espero que não faça isso, porque quero m uito te m ostrar com o viver a vida.
Uau, isso m e pega com pletam ente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e m ais um a vez fico fascinada por ele.
— Com o viver a vida?
— Você faz perguntas dem ais. — Ele dá m ais um tapinha na m inha coxa e põe a m ão novam ente no próprio colo.
— Bom , se você estivesse sentado deste lado do carro, tam bém faria um m onte de perguntas.
— Talvez.
Meus lábios se abrem um pouco.
— Você é um a pessoa m uito estranha, Andrew Parrish, m as tá, confio em você.
Seu sorriso fica m ais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para m im .
— Mais algum a regra básica? — pergunto.
Ele olha para cim a, pensativo, e m orde a bochecha por dentro por um m om ento.
— Não. — Sua cabeça cai para o lado. — Só isso.
É a m inha vez.
— Bom , tam bém tenho algum as regras básicas.
Ele levanta a cabeça, curioso, m as deixa as m ãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.
— Tá, m anda — ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.
— Núm ero um : em nenhum a circunstância você vai m e com er. Só porque sou sim pática com você e tô concordando com ... bem , com a coisa m ais doida que j á fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxim a transa, nem vou m e apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a m inha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? — Estou tentando falar bem sério. Estou m esm o. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está m eio que m e forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.
Ele faz um bico, pensativo.
— Com pletam ente entendido — concorda, em bora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.
Eu concordo com a cabeça.
— Ótim o. — Me sinto m elhor por ter deixado isso claro.
— O que m ais? — ele pergunta.
Por um segundo, esqueci a outra regra básica.
— Tá, a núm ero dois é: nada de Bad Com pany .
Ele parece levem ente arrasado.
— Que raio de regra é essa?
— É m inha regra e pronto — digo com um sorrisinho. — Algum problem a? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vej o nada de errado na m inha condiçãozinha m inúscula. — Abro m eu polegar e indicador um centím etro para m ostrar quão m inúscula.
— Bom , não gostei dessa regra — ele resm unga. — Bad Com pany é um a ótim a banda, por que tanto ódio?
Ele parece m agoado. Acho isso bonitinho.
Estufo os lábios.
— Sinceridade? — Acho que vou m e arrepender disto.
— Sinceridade, claro — ele diz, cruzando os braços. — Desem bucha.
— Eles cantam dem ais sobre o am or. É piegas.
Andrew ri alto de novo e eu com eço a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.
— Parece que alguém aqui está am arrga — Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.
É, m e arrependi.
Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em m eu rosto que confirm e que ele acertou na m osca sua avaliação a m eu respeito. Ao m enos no tocante ao m eu ex infiel, Christian. Com ele, é am argura. Com Ian, é um a dor cruel e inalterada.
— Bom , a gente vai consertar isso tam bém — ele com enta casualm ente.
Volto a olhar para ele.
— Hãã, obrigada, dr. Phil, m as não preciso de aj uda com isso.
Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser “consertada”?
— É? — ele vira o queixo, parecendo curioso.
— É — digo. — Sem falar que isso m eio que infringiria m inha regra básica núm ero um .
Ele pisca e sorri.
— Ah, você autom aticam ente presum iu que eu ia m e oferecer com o cobaia? — Seus om bros se agitam com um a risada discreta.
Ai!
Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.
— Bom , espero que não — com ento, piscando. — Você não faz m eu tipo.
Ah, sim , roubei a bola; acho que ele se assustou agora!
— E o que eu tenho de errado? — Andrew pergunta, m as j á não acredito nem um pouco que m eu com entário tenha sido ofensivo. Norm alm ente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.
Viro o corpo com pletam ente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria m entindo descaradam ente se dissesse que não gosto do que vej o. Ainda não encontrei nada nele que não faça m eu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de nam orar nem de am or, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradam ente.
Ela iria colocá-lo no m eio dos peitos.
— Não tem nada de “errado” em você — adm ito. — Mas é que eu acabo ficando com ...
caras m ais m ansos.
Pela terceira vez, Andrew j oga a cabeça para trás e ri.
— Mansos? — Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algum as vezes e acrescenta: — É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo m ais m anso.
— Ele levanta um dedo, com o se fosse apresentar um argum ento. — Mas a coisa m ais interessante é você dizer que “acaba ficando” com eles. O que você acha que isso significa?
Com o é que ele roubou a bola de m im ? Eu nem vi.
Espero que Andrew dê a resposta, m esm o a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, m as há algo m uito m ais m eigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zom baria de sem pre.
Ele não diz nada.
— Eu-eu não sei — digo distraidam ente, e então olho para ele. — Por que isso precisa ter algum significado, afinal?
Ele balança a cabeça de leve, m as se lim ita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionam ento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem m esm o carros antigos.
Andrew paga a corrida e nós saím os.
— Boa noite pra você, cara — ele diz, acenando, quando o taxista vai em bora.
Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partim os no Chevelle, pensando no que ele disse, m as esqueço o assunto quando param os na frente da casa im aculada do pai dele.
— Uau — exclam o, boquiaberta, enquanto saio do carro. — É m uita casa.
Ele fecha a porta do seu lado.
— É, m eu pai tem um a em presa grande de construção e proj etos — ele explica casualm ente. — Vem , não quero ficar m uito tem po aqui, Aidan pode aparecer.
Ando com ele pelo cam inho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e im pecável que não posso im aginar o pai dele m orando ali. O pai de Andrew parece um hom em sim ples, não alguém tão m aterialista quanto a m inha m ãe.
Mam ãe desm aiaria num a casa assim .
Andrew procura um a chave e a enfia na fechadura.
Ela estala e se abre.
— Não quero ser enxerida, m as por que teu pai ia querer m orar num a casa desse tam anho?
O saguão cheira a potpourri de canela.
— Que nada, isso é coisa da ex-m ulher, não foi lance dele não. — Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. — Ela é legal; Linda, aquela que ele m encionou no hospital; m as não conseguiu conviver com o m eu pai, e eu não posso culpá-la.
— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.
Andrew balança a cabeça enquanto subim os a escada.
— Não, não foi assim . Sim plesm ente é difícil conviver com o m eu pai. — Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do j eans.
Dou um a olhadinha na bunda de Andrew naquele j eans enquanto ele sobe a escada na m inha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida m e estapeio m entalm ente.
— Este é o m eu quarto. — Entram os no prim eiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece m ais um depósito com algum as caixas bem em pilhadas contra um a parede bege, alguns equipam entos de m usculação e um a estátua indígena esquisita no canto, parcialm ente em brulhada em plástico. Andrew vai até o am plo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no m eio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa dem ais.
— Você disse que “é” o teu quarto?
— É — ele diz de dentro do closet —, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir m orar aqui.
Chego m ais perto do closet e o vej o m exendo em roupas penduradas com o penduro as m inhas.
— Vej o que você tam bém tem TOC.
Ele m e olha interrogativam ente.
Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.
— Ah, não, não m esm o — ele explica. — A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô m e lixando se m inha roupa tá no cabide, m uito m enos arrum ada pela cor, é m uita... peraí... — Ele se afasta das cam isas e m e olha de lado. — Você faz isso com a tua roupa? — Ele corre o dedo horizontalm ente pelas cam isas.
— Faço — confesso, m as m e sinto esquisita adm itindo isso para ele —, gosto das m inhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.
Andrew ri e volta a m exer nas cam isas. Sem olhar m uito para elas, puxa algum as e alguns j eans dos cabides e j oga tudo sobre o braço.
— Não é estressante? — ele indaga.
— O quê? Deixar m inha roupa organizadinha?
Andrew sorri e j oga o pequeno m onte de roupas nos m eus braços.
Olho para elas, sem graça, e novam ente para ele.
— Deixa pra lá — ele desconversa, e aponta para trás de m im . — Pode guardar isso na m ochila pendurada no banco de exercícios?
— Claro — digo, e as levo para lá.
Prim eiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a m ochila que está pendurada no apoio dos halteres.
— Então, pra onde a gente vai prim eiro? — pergunto, dobrando a prim eira cam isa da pilha.
Ele ainda está fuçando no closet.
— Não, não — ele diz lá de dentro; sua voz chega m eio abafada —, nada de planej am ento, Cam ry n. Vam os só pegar o carro e rodar. Nada de m apas, nem planos, nem ... — Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está m ais clara. — O que você tá fazendo?
Ergo o olhar, com a segunda cam isa da pilha j á m eio dobrada.
— Dobrando suas cam isas.
Ouço um tum -tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na m inha direção. Quando chega, m e olha com o se eu tivesse feito algo errado e tira a cam isa dobrada das m inhas m ãos.
— Não sej a tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na m ochila.
Ele faz isso para m im , com o se quisesse m e m ostrar com o é fácil.
Não sei o que cham a m ais m inha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na m inha barriga quando ele m e cham ou de “gata”.
Dou de om bros e deixo que ele guarde as roupas do j eito dele.
— A roupa que você usa não im porta m uito, na verdade — ele continua, voltando para o closet. — Só o que im porta é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.
Ele j oga o par de tênis preto para m im , um de cada vez, e eu pego.
— Enfia isso tam bém , se não se im porta.
Faço exatam ente o que ele diz, literalm ente socando o tênis na m ochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.
— Sabe o que eu acho sexy num a garota?
Ele está de pé, com um braço m usculoso bem acim a da cabeça, m exendo num as caixas na prateleira m ais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da cam isa.
— Hum , não sei — digo. — Garotas que vestem roupas am arrotadas? — Torço o nariz.
— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa — ele responde, pegando um a caixa de sapatos.
Ele sai do closet carregando a caixa na palm a da m ão.
— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-m e-lixando é sexy .
— Entendi — digo. — Você é um desses caras que desprezam m aquiagem , perfum e, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.
Ele m e entrega a caixa de sapatos e, com o fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.
Andrew sorri.
— Não, não odeio, só acho que o sim ples é sexy .
— O que você quer que eu faça com isso?
Bato na tam pa da caixa com o dedo.
— Abra.
Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para m e m otivar.
Levanto a tam pa verm elha e vej o um m onte de CDs nas capas originais de plástico.
— Meu pai era preguiçoso dem ais pra instalar um MP3 no carro — ele com eça — e na estrada nem sem pre o rádio pega bem ; às vezes não dá pra achar nenhum a estação decente.
Ele tira a caixa de sapatos das m inhas m ãos.
— Esta vai ser nossa play list oficial. — Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.
Eu, nem tanto. Faço um a careta e torço um canto da boca am argam ente.
Está tudo lá, todas as bandas que ele m encionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas m úsicas vez ou outra por causa dos m eus pais. Mas se alguém m e perguntasse o nom e desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelm ente não saberia.
— Que legal — com ento sarcasticam ente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.
Seu sorriso só aum enta. Acho que ele adora m e torturar.
ANDREW