Entre o Agora e o Nunca
— Você Tem que Fazer, Só pra…
33
— VOCÊ TEM QUE FAZER, SÓ pra ter certeza — Marsters disse, sentado em sua poltrona preta clichê, em sua sala clichê, usando um uniform e clichê.
— Não tenho que fazer nada — eu retruco, sentado do outro lado. — O que m ais resta dizer? O que m ais resta para se achar?
— Mas você...
— Não, quer saber? Vá se foder. — Levantei, em purrando a cadeira para trás e derrubando um a planta atrás de m im . — Não vou m ais m e suj eitar a essa m erda.
Saí batendo a porta da sala atrás de m im com tanta força que o vidro trem eu no caixilho.
— Andrew! Am or, acorda — ouço a voz de Cam ry n dizer. Abro os olhos. Ainda estou do lado do passageiro do carro. Me pergunto quanto tem po dorm i.
Eu m e levanto, estalo o pescoço dos dois lados e passo a m ão no rosto.
— Você tá bem ?
Está escuro. Vej o o olhar preocupado de Cam ry n m e encarando, até que ela é obrigada a olhar para a estrada.
— Tô — respondo, balançando a cabeça. — Tô bem . Acho que tive um pesadelo, m as nem lem bro o que foi — m into de novo.
— Você esm urrou o painel — ela diz, rindo um pouco. — Deu um soco do nada; levei um baita susto.
— Desculpa, am or. — Eu m e aproxim o sorrindo e beij o o seu rosto. — Há quanto tem po você tá dirigindo?
Ela olha para os núm eros brilhantes do relógio.
— Não sei, um as duas horas, acho.
Olho para um a placa e vej o que ela fez o que pedi e continuou na 90.
— Para ali. — Aponto para um a área plana ao lado da estrada.
Ela sai da estrada e vai para o asfalto trincado, pondo o câm bio em park. Com eço a m e levantar, m as ela segura m eu braço e m e detém .
— Peraí... Andrew.
Olho para Cam ry n. Ela desliga o m otor e solta o cinto de segurança.
— Vou dirigir um pouco e te deixar dorm ir.
— Eu sei — ela diz, m e olhando com ar som brio.
— O que foi?
Ela fecha as duas m ãos sobre o volante e se encosta no banco.
— Não sei m ais se quero ir pro Texas.
— Por que não?
Chego m ais perto dela.
Finalm ente, ela olha para m im .
— Porque e depois? — ela pergunta. — Parece que é o fim da linha. Você m ora lá. O
que m ais resta fazer?
Sei por que ela diz isso, e tenho sentido os m esm os tem ores em segredo j á há algum tem po.
— O que resta fazer é qualquer coisa que a gente queira fazer — respondo.
Eu m e viro no banco e seguro o queixo dela com a ponta dos dedos.
— Olha pra m im .
Ela olha. Vej o um anseio em seus olhos, algo assustado e torturado. Sei disso porque estou sentindo a m esm a coisa.
Engulo em seco, depois m e aproxim o e a beij o com cuidado.
— A gente pensa nisso quando chegar lá, tá?
Ela balança a cabeça relutantem ente. Tento forçar um sorriso, m as é difícil quando sei que não posso dar nenhum a das respostas que ela procura. Não posso dar as respostas que quero dar.
Cam ry n desliza sobre o assento e vai para o lado do passageiro, enquanto eu saio e dou a volta no carro.
Dois carros passam , cegando-nos com seus faróis altos. Fecho a porta e fico sentado por um m om ento. Cam ry n está olhando pela j anelinha, sem dúvida com pensam entos parecidos com os m eus: perdida, insegura e talvez até com m edo. Nunca senti com m ais ninguém um a ligação com o a que tenho com ela, e isso m e m ata aos poucos. Ao estender a m ão para virar a chave, paro com os dedos segurando o m etal. Suspiro profundam ente.
— A gente vai pelo cam inho m ais longo — digo baixinho, sem olhar para ela, e então o m otor ganha vida.
Percebo quando ela vira a cabeça para m e olhar.
Olho para ela.
— Se você quiser.
Um sorrisinho dá vida ao seu rosto novam ente. Ela balança a cabeça.
Aperto o botão para ligar o CD play er e o aparelho troca de CD. Bad Com pany com eça a tocar nos alto-falantes. Lem brando nosso acordo, vou m udar a m úsica, m as Cam ry n diz:
— Não, pode deixar — e seu sorriso fica ainda m ais m eigo.
Será que ela se lem bra daquela prim eira noite em que nos conhecem os no ônibus, quando perguntei o título de algum a canção do Bad Com pany ? Ela disse Ready For Love.
E eu falei: “Você tá m esm o?” Na hora, eu não sabia por que disse isso, m as agora percebo que não estava tão errado, no fim das contas. Estranho que essa m úsica estej a tocando agora.
Viaj am os pela m aior parte do sul do estado da Louisiana e ficam os na 82 até chegar ao Texas. Cam ry n está toda sorrisos de m anhã — apesar de estar no Texas —, e vê-la assim só m e faz sorrir tam bém . Estam os dirigindo com as j anelas abertas, e ela está com os pés descalços para fora há um a hora; só o que consigo ver pelo retrovisor quando tento enxergar o trânsito são suas belas unhas pintadas.
— Não é um a viagem de carro se você não põe os pés pra fora da j anela na estrada!
— ela grita por cim a da m úsica e do vento atravessando o carro. Seu cabelo está preso num a trança só, desta vez, m as o vento fica em purrando os fios soltos ao redor do seu rosto.
— Tem razão — concordo, apertando o acelerador —, e num a viagem de carro de verdade, você tam bém precisa fazer sacanagem com um cam inhoneiro.
O cabelo de Cam ry n cobre seu rosto de novo quando ela vira a cabeça.
— Hã?
Eu sorrio.
— É. — Tam borilo com os dedos no volante no ritm o da m úsica. — É obrigatório. Você não sabia? Precisa fazer um a destas três coisas: prim eira — eu levanto um dedo: — Mostrar a bunda pra um deles.
Ela arregala os olhos azuis.
— Segunda: a gente tem que passar do lado de um enquanto você finge que tá se m asturbando.
Ela arregala os olhos ainda m ais e seu queixo cai.
— Ou terceira: sim plesm ente faça assim com o braço — levanto e abaixo o braço com o punho erguido — pra ele tocar a buzina.
O alívio tom a conta do rosto dela.
— Tá — ela diz com um sorriso m isterioso no canto dos lábios. — Na próxim a oportunidade, vou consum ar esta viagem de carro fazendo sacanagem com um cam inhoneiro — ela diz isso de form a indiscutível.
Dez m inutos depois, nossa vítim a — bom , está m ais pra felizardo; afinal, é Cam ry n que vai m exer com ele — surge à frente. Estam os num longo trecho de estrada reta que corta um a paisagem plana e sem árvores dos dois lados. Alcançam os a carreta e m antem os um a velocidade constante de 100 quilôm etros por hora atrás dele. Cam ry n, usando aquele shortinho branco m inúsculo de algodão que eu adoro tanto, tira as pernas de cim a do banco e põe os pés no assoalho. Ela está com um sorriso m alicioso, e eu estou ficando m eio excitado.
— Tá pronta? — pergunto, abaixando um pouco a m úsica.
Cam ry n balança a cabeça e eu olho pelos retrovisores prim eiro, depois à frente na m ão contrária para ver se nenhum carro está vindo dos dois lados.
Quando saio de trás da carreta e vou para a outra pista, Cam ry n enfia a m ão direita dentro do short.
Fico de pau duro na hora.
Eu tinha certeza que ela ia só fazer o gesto de buzinar!
Sorrio com m alícia para ela, com todo tipo de pensam ento pervertido rodopiando no cérebro, e ela sorri em resposta. Piso m ais no acelerador e vou aum entando gradualm ente a velocidade até alcançarm os a j anela do m otorista da carreta.
Meu Deus do céu...
A m ão de Cam ry n se m exe suave m as visivelm ente por baixo do tecido fino do short; o indicador e o polegar da m ão esquerda estão enfiados por dentro do elástico, baixando-o o suficiente para desnudar sua barriga. Ela encosta a cabeça no banco e puxa o short um pouco m ais para baixo. Estou quase distraído dem ais para m anter os olhos na estrada.
Ela m orde o lábio inferior e m exe os dedos furiosam ente dentro do short. Com eço a achar que ela não está fingindo coisa nenhum a. Meu pau está tão duro que poderia cortar um diam ante.
A carreta tam bém está m antendo o ritm o. Distraído com Cam ry n, não percebi que m eu pé estava relaxando aos poucos no acelerador, e quando a nossa velocidade caiu um pouco, a carreta tam bém reduziu.
Um a voz uivante e rouca sai da j anela da carreta: — Puta que pariu! Vai m e m atar do coração, neném ! U-huu! — Ele toca sua buzina ensurdecedora, excitado.
Sentindo um acesso de possessividade, reduzo de 100 para 70 quilôm etros por hora e volto para trás do cam inhão. Bem a tem po, porque um a van estava vindo na outra pista.
Olho para Cam ry n, sabendo que m eu olhar deve estar tresloucado. Ela tira a m ão de dentro do short e sorri para m im .
— Eu não esperava isso!
— Foi por isso que eu fiz — ela diz, voltando a apoiar os pés na porta do carro e obstruindo o retrovisor com os dedos dos pés.
— Você tava... se m asturbando de verdade?
A velocidade baixou de 70 para 60. Meu coração está disparado no peito.
— Tava, sim — ela diz —, m as não pro cam inhoneiro.
Seu sorriso se aprofunda quando ela tira alguns fios de cabelo que se aloj aram entre seus lábios. Não consigo deixar de olhar para aqueles lábios, estudando-os, querendo beij á-los e m ordê-los.
— Bom , não que eu estej a reclam ando — digo, tentando prestar atenção na estrada e não m atar a nós dois —, m as agora tô com ... um problem inha.
O olhar de Cam ry n para no m eu colo e ela olha para o m eu rosto de novo, inclinando a cabeça para um lado com um a expressão de m alícia e sedução. Então ela desliza no banco para perto de m im e enche a m ão no m eio das m inhas pernas. Agora m eu coração está quicando nas costelas. Estou com os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante com as duas m ãos. Ela beij a m eu pescoço, m eu m axilar e passa os lábios na m inha orelha. Arrepios m e estupram .
Ela com eça a abrir o zíper da m inha berm uda.
— Você m e aj udou com m eus “problem as” — sussurra no m eu ouvido, m ordendo m eu pescoço de novo. — É j usto que eu retribua o favor.
Cam ry n olha para m im .
Eu só balanço a cabeça feito um idiota porque não consigo pensar com a cabeça de cim a tem po suficiente para form ar um a frase, no m om ento.
Aperto m ais as costas contra o assento quando ela pega o m eu com prim ento na m ão e põe sua cabeça entre a m inha barriga e o volante. Meu corpo estrem ece um pouco quando sinto sua língua serpentear para lam bê-lo. Ai m eu Deus... Ai m eu Deus... Não sei com o vou dirigir...
Quando ela m e enfia no fundo de sua garganta, eu trem o, m inha cabeça vai um pouco para trás, ainda tentando m anter os olhos na estrada, e m eu queixo cai. Agora só estou segurando o volante com a m ão esquerda; enquanto ela m e chupa com força e rápido, m inha m ão direita largou o volante e está segurando sua nuca, seu cabelo m isturado aos m eus dedos crispados.
A velocidade aum entou de 65 para 80 km /h.
Quando chego a 95 km /h, m inhas pernas estão trem endo e eu não consigo enxergar.
Seguro o volante com as duas m ãos de novo, tentando m anter algum controle sobre algum a coisa, especialm ente a porcaria do carro, e solto um grito e gem o quando gozo.
Consegui não m atar a gente na estrada depois do boquete avassalador de Cam ry n.
Chegam os a Galveston de m anhã e ela continua capotada no banco, com as pernas parcialm ente estendidas no assoalho. Não m e dou ao trabalho de acordá-la ainda.
Prim eiro passo devagar pela casa da m inha m ãe, notando que seu carro não está na garagem , o que significa que ela está trabalhando no banco hoj e. Para m atar o tem po, faço o cam inho m ais com prido até m eu apartam ento, passando pela 53rd. Cam ry n não dorm iu m uito a noite passada, m as acho que o carro andando m ais devagar do que o norm al bastou para acordá-la. Ela com eça a se espreguiçar antes que eu entre no estacionam ento do m eu condom ínio, na Park com a Cedar Lawn.
Cam ry n levanta sua linda cabeça loura do banco, e quando vej o o rosto dela, um a risada escapa dos m eus lábios.
Ela inclina a cabeça j á bastante bagunçada pelo sono para um lado e resm unga: — Qual é a graça?
— Gata, eu tentei não te deixar dorm ir assim .
Cam ry n estica o pescoço, se aproxim a do retrovisor e revira os olhos ao ver as três longas m arcas das costuras do banco num a das bochechas, indo até a orelha. Ela cutuca as m arcas ao espelho.
— Uau, isso dói — diz.
— Você tá linda, m esm o com listras. — Eu rio e ela não consegue deixar de sorrir.
— Bom , chegam os — digo finalm ente, parando num a vaga e desligando o m otor, depois deixando as m ãos ao lado do corpo.
O carro está constrangedoram ente silencioso. Em bora nem eu nem ela j am ais tenham os realm ente dito que nossa viagem term inaria no Texas, ou que as coisas entre nós iriam m udar, é com o se am bos pudéssem os sentir isso.
A única diferença entre nós é que... só eu sei por que vão m udar.
Cam ry n está perfeitam ente im óvel e em silêncio no seu lado, com as m ãos dobradas no colo.
— Vam os entrar — digo, para quebrar o silêncio.
Ela força um sorriso para m im e abre a porta.
— Uau, isto aqui parece m ais um a república estudantil do que um condom ínio de apartam entos. — Ela põe a m ochila e a bolsa no om bro, olhando para o prédio antigo e os carvalhos gigantes espalhados pela paisagem .
— Era um hospital dos Fuzileiros Navais na década de 1930 — digo, tirando m inhas m ochilas do porta-m alas.
Cam ry n pega o violão de Aidan do banco de trás.
Andam os por um a calçada branca com o giz e cheia de curvas e chegam os ao m eu apartam ento de um quarto no térreo. Achando a chave certa, abro a porta da grande sala de estar. O cheiro de casa fechada m e atinge assim que entram os; não é um fedor, só um cheiro de lugar vazio.
Deixo m inhas m ochilas no chão.
Cam ry n fica parada ali, de início, exam inando o lugar.
— Pode deixar suas coisas onde quiser, gata.
Vou até o sofá e pego o j eans que está j ogado no encosto, depois um a cueca e um a cam iseta da poltrona e da espreguiçadeira do conj unto.
— Este apartam ento é m uito legal — ela com enta, olhando ao redor.
Finalm ente, ela larga suas coisas no chão e apoia o violão de Aidan no encosto do sofá.
— Não é grande coisa com o apartam ento de solteiro — digo, indo para a sala de j antar —, m as gosto daqui, e queria m esm o m orar perto da praia.
— Não m ora com ninguém ? — ela pergunta, m e seguindo.
Balanço a cabeça, vou para a cozinha e abro a geladeira; as várias garrafas e potes na porta tilintam uns contra os outros.
— Não m ais. Meu am igo Heath m orou com igo por uns três m eses quando m e m udei pra cá, m as acabou indo pra Dallas m orar com a noiva.
Antes de fechar a geladeira, pego um a garrafa de dois litros de Ginger Ale.
— Quer tam bém ? — Seguro a garrafa e m ostro para ela. — Viu? Eu tenho algum a coisa além de refrigerante e cervej a na geladeira, e você viu que não passei aqui antes pra colocar.
Ela sorri com doçura e diz:
— Obrigada, m as não tô com sede agora. Você com prou isso pra quê? Ressaca, enj oo?
Sorrio para ela e tom o um gole do gargalo. Ela não fica horrorizada com o eu esperava que ficaria.
— É, você m e pegou — adm ito, tam pando a garrafa. — Se quiser tom ar banho — digo, saindo da cozinha e apontando para o corredor —, o banheiro fica logo ali; vou ligar pra m inha m ãe pra ela não ficar preocupada e dar um a arrum ada aqui antes de tom ar banho.
Minha planta j á deve ter m orrido.
Cam ry n parece um pouco surpresa.
— Você tem um a planta?
Eu sorrio.
— Tenho, o nom e dela é Georgia.
Suas sobrancelhas se erguem um pouco m ais.
Eu rio baixinho e a beij o de leve nos lábios.
Enquanto Cam ry n está no chuveiro, vasculho cada centím etro visível do m eu apartam ento à procura de qualquer coisa incrim inatória: m eias noj entas, encardidas (achei um a no pé da cam a), cam isinhas (tenho um a caixa cheia no criado-m udo — eu a enfio no fundo do balde de lixo), em balagens abertas de cam isinha (duas no cesto de lixo do m eu quarto), m ais roupa suj a e um a revista de sacanagem (Puta m erda! Tá atrás da privada — sem dúvida ela j á viu).
Depois, lavo os poucos pratos suj os que deixei na pia antes de viaj ar e m e sento na sala para ligar para a m inha m ãe.
CAMRYN