Entre o Agora e o Nunca
Lá Pelo Fim da tarde, m e…
26
LÁ PELO FIM da tarde, m e sinto m elhor; não 100%, m as bem o suficiente para passear por Nova Orleans com Andrew num bonde, indo a alguns lugares que não conseguim os visitar ontem . Depois que consegui engolir uns ovos e duas torradas, pegam os o Bonde Riverfront até o Aquário das Am éricas Audubon e andam os por um túnel de 9 m etros com água e peixes ao nosso redor. Periquitos com eram na nossa m ão e visitam os m ostras da Floresta Am azônica. Alim entam os arraias e tiram os fotos com nossos celulares, daquelas bem bestas, com o braço esticado à frente, segurando o aparelho. Mais tarde olhei com m ais atenção as fotos que tiram os, com o nossas bochechas estavam apertadas j untas e o m odo com o sorríam os para a câm era, com o se fôssem os qualquer outro casal vivendo seu m elhor m om ento.
Qualquer outro casal... m as não som os um casal e m e dou conta de que precisei m e lem brar disso.
A realidade é um a bosta.
Mas não saber o que você quer tam bém é. Não, a verdade é que eu sei o que quero.
Não posso m ais m e forçar a duvidar disso, m as ainda tenho m edo. Tenho m edo de Andrew e do tipo de dor que ele poderia causar se um dia m e m agoasse, pois tenho a sensação que não seria do tipo que consigo aguentar. Já é insuportável e ele ainda nem m e m agoou.
Desta vez enfiei o pé na j aca m esm o, sem dúvida.
Quando a noite cai novam ente sobre Nova Orleans e os baladeiros j á saíram de suas tocas, Andrew m e faz atravessar o Mississippi num ferry e andar até um lugar cham ado Old Point Bar. Fico feliz por ter decidido voltar a calçar m eus chinelos de dedo pretos, em vez das sandálias de salto novas. Andrew m eio que insistiu nisso, especialm ente porque teríam os que andar.
— Nunca vou em bora de Nova Orleans sem dar um a passada aqui — ele diz, andando ao m eu lado, segurando m inha m ão.
— O que, então você é um frequentador assíduo?
— É, pode-se dizer que sim ; m as m inha assiduidade se resum e a um a ou duas vezes por ano. Já m e apresentei lá algum as vezes.
— Tocando violão? — presum o, olhando-o curiosa.
Um grupo de quatro pessoas vem da direção oposta e eu chego m ais perto de Andrew para dar passagem na calçada.
Ele tira sua m ão da m inha e a passa na m inha cintura por trás.
— Toco violão desde os 6 anos de idade. — Ele sorri para m im . — Com 6 anos, não era m uito bom , m as precisava com eçar de algum j eito. Não toquei nada que valesse a pena ouvir até fazer uns 10 anos.
Solto um suspiro, im pressionada.
— Jovem o suficiente pra ser um talento m usical, eu diria.
— Acho que sim ; eu era o “m úsico”, quando a gente era criança, e Aidan era o “arquiteto” (ele olha para m im ) porque costum ava construir coisas... um a vez construiu um a casa enorm e num a árvore na floresta. E Asher era o “j ogador de hóquei”. Meu pai adorava hóquei, quase m ais do que boxe (ele olha para m im de novo), m as não m ais.
Asher desistiu do hóquei depois de um ano... tinha só 13 anos (ele ri baixinho); papai queria que ele j ogasse m ais do que ele próprio. Asher só queria saber de m exer com eletrônica... tentou fazer contato com ETs com um a traquitana que m ontou com tranqueiras que achou pela casa depois de ver o film e Contato.
Nós dois rim os.
— E o seu irm ão? — Andrew pergunta. — Você m e contou que ele tá na prisão, m as com o era o relacionam ento de vocês antes disso?
Meu rosto fica discretam ente am argo.
— Cole era um irm ão m ais velho m aravilhoso até o fim do ginásio, quando com eçou a andar com o m arginal do bairro: Braxton Hixley , sem pre detestei esse cara. Bom , Cole e Braxton com eçaram a usar drogas e fazer todo tipo de doideira. Meu pai tentou interná-lo num lar pra j ovens problem áticos pra aj udá-lo, m as Cole fugiu e se m eteu em m ais encrenca ainda. Daí pra frente só piorou. — Olho para a frente quando m ais gente vem na nossa direção pela calçada. — E agora ele tá no lugar que m erece.
— Talvez ele volte a ser o irm ão m ais velho que você lem brava quando sair de lá.
— Talvez. — Dou de om bros, duvidando m uito.
Chegam os ao final da calçada e viram os a esquina da Patterson com a Olivier, e lá está o Old Point Bar, que de fora parece m ais um sobrado histórico com um anexo construído ao lado. Passam os por baixo do letreiro antigo e alongado, onde há algum as m esas e cadeiras de plástico do lado de fora, com várias pessoas fum ando e falando bem alto.
Ouço um a banda tocando lá dentro.
Depois que um casal sai, Andrew segura a porta aberta e pega na m inha m ão. O lugar não é grande, m as é aconchegante. Olho para o pé-direito alto, notando as m uitas fotografias, placas de carro, lum inosos de cervej a, faixas coloridas e anúncios antigos pendurados em cada centím etro das paredes. Vários ventiladores de teto baixos pendem do forro de m adeira. E à m inha direita está o bar, que, com o todo bar, tem um a TV na parede do fundo. Mesm o em m eio à pequena m ultidão de pessoas, um a m ulher que está trabalhando atrás do balcão levanta a m ão e parece acenar para Andrew.
Andrew sorri para ela e acena com dois dedos em resposta, com o para dizer “daqui a pouco falo com você”.
Parece que todas as m esas estão ocupadas, e tem m uita gente dançando na pista. A banda que está tocando do outro lado do salão é m uito boa; blues rock ou algo do tipo.
Eu gosto. Um cara negro sentado num banquinho dedilha um a guitarra prateada e um branco canta com um violão preso ao om bro com um a alça. Um cara corpulento está na bateria, e há um teclado no palco, m as ninguém está tocando.
Fico surpresa quando olho para o chão e vej o um cachorro preto e descabelado m e olhando e abanando o rabo. Estendo a m ão e coço a orelha dele. Satisfeito, ele vai até o dono, que está sentado à m esa ao lado, e deita aos seus pés.
Depois de esperar alguns m inutos, Andrew nota três pessoas se levantando de um a m esa não m uito longe de onde a banda está tocando; ele m e puxa, vam os até lá e a ocupam os.
Ainda não m e recuperei totalm ente da ressaca e m inha cabeça não está com pletam ente sem dor, m as, surpreendentem ente, apesar do am biente ser barulhento, não está piorando m inha dor de cabeça.
— Ela não vai beber — Andrew diz gentilm ente para a m ulher que estava atrás do balcão, apontando para m im .
Ela abriu cam inho entre as pessoas e j á tinha chegado à nossa m esa quando m e sentei.
A m ulher, com o cabelo castanho m acio preso atrás das orelhas, parece ter 40 e poucos anos e está tão sorridente ao dar um abraço de urso em Andrew que com eço a m e perguntar se é tia ou prim a dele.
— Já faz dez m eses, Parrish — a m ulher diz, batendo nas costas dele com as duas m ãos. — Onde você se m eteu?
Depois sorri, olhando para m im .
— E quem é essa? — Ela olha para Andrew com ar brincalhão, m as detecto m ais algum a coisa em seu sorriso: está tirando conclusões, talvez.
Andrew pega a m inha m ão, e eu m e levanto para ser apresentada adequadam ente.
— Esta é Cam ry n — ele diz. — Cam ry n, esta é Carla; ela trabalha aqui há pelo m enos seis das m inhas lam entáveis apresentações.
Carla em purra o peito de Andrew, rindo, e olha de novo para m im .
— Não acredite nas m entiras dele — diz, apontando-o e erguendo as sobrancelhas —, esse garoto sabe cantar. — Ela pisca para m im e aperta a m inha m ão. — Prazer em te conhecer.
Tam bém sorrio para ela.
Cantar? Eu achava que ele só tocava aqui; não sabia que tam bém cantava. Acho que isso não m e surpreende. Ele j á provou que sabe cantar em Birm ingham , quando acertou aquela nota do “alibis” em Hotel California. E de vez em quando, no carro, ele esquecia que eu estava lá — ou não ligava — e soltava a voz em várias canções de rock clássico que saíam dos alto-falantes.
Mas eu não esperava que Andrew tocasse de verdade em algum lugar. Pena que ele não trouxe o violão; adoraria vê-lo se apresentar hoj e.
— É bom ver você de novo — Carla diz, e aponta para o cara negro no palco. — Eddie vai ficar contente que você está aqui.
Andrew balança a cabeça e sorri enquanto Carla atravessa novam ente a pequena m ultidão e volta para o bar.
— Quer tom ar um refrigerante, algum a coisa?
Recuso com um gesto.
— Não, tô legal.
Ele perm anece de pé, e quando a banda para de tocar, entendo por quê. O cara da guitarra prateada nota Andrew e sorri, encosta a guitarra na cadeira e se aproxim a. Eles se abraçam da m esm a form a que Carla o abraçou e eu m e levanto novam ente para ser apresentada, apertando a m ão de “Eddie”.
— Parrish! Você sum iu um tem pão — Eddie diz, com um forte sotaque caj un da região.
— Quanto tem po faz, um ano?
Carla tam bém tem um pouco de sotaque, m as não tanto quanto Eddie.
— Quase — Andrew diz, com um sorrisão.
Andrew parece m uito feliz de estar ali, com o se aquelas pessoas fossem parentes que ele não vê há m uito tem po, e com os quais nunca se desentendeu. Até seu sorriso está m ais gentil e acolhedor. Aliás, quando ele m e apresentou Carla e Eddie, seu sorriso ilum inou o salão. Me senti a garota que ele finalm ente decidiu trazer para casa e apresentar à fam ília, e pelos olhares dos dois quando Andrew m e apresentou, eles tam bém acharam isso.
— Vai tocar hoj e?
Me sento de novo e olho para Andrew, tão curiosa com a sua resposta quanto Eddie parece estar. Eddie tem aquela expressão de “não aceito ‘não’ com o resposta” em seu rosto sorridente, e as rugas ao redor dos seus olhos e boca afundam .
— Bom , eu não trouxe o violão desta vez.
— Ah — Eddie balança a cabeça —, você sabe que não tem problem a, tá querendo m e fazer de bobo? — Ele aponta para o palco. — Tá cheio de guitarra lá.
— Quero te ouvir tocar — digo atrás dele.
Andrew olha para m im , indeciso.
— É sério. Tô pedindo. — Inclino a cabeça para um lado, sorrindo para ele.
— Hã-hã, essa garota tem aquele olhar, tem , sim . — Eddie sorri ao lado de Andrew.
Andrew entrega os pontos.
— Tá, m as só um a m úsica.
— Só um a, né? — Eddie segura o queixo enrugado e diz: — Se vai ser só um a, eu que vou escolher. — Ele aponta para si, logo acim a de sua cam isa branca. Um m aço de cigarros desponta do bolso esquerdo no peito.
Andrew balança a cabeça, concordando.
— Tá, você escolhe.
O sorriso de Eddie se alarga e ele m e olha com um a expressão suspeita.
— Um a pra derreter o coração das dam as, que nem você cantou da últim a vez.
— Rolling Stones? — Andrew pergunta.
— Hã-hã — Eddie diz. — Aquela m esm o, garoto.
— Qual aquela? — pergunto, apoiando o queixo na m ão fechada.
— Laugh, I Nearly Died — Andrew responde. — Acho que você não conhece.
E ele está certo. Balanço a cabeça devagar.
— Não conheço m esm o.
Eddie acena para Andrew, pedindo que ele o siga até o palco. Andrew se abaixa, m e surpreende com um selinho e se afasta da m esa.
Fico sentada, nervosa, m as em polgada, com os cotovelos apoiados na m esa. Tantas conversas acontecem ao m eu redor que tudo parece um zum bido contínuo flutuando no am biente. De vez em quando, ouço um copo ou um a garrafa de cervej a tilintando ao bater em outra ou num a m esa. O salão todo está na penum bra, ilum inado apenas pela luz dos num erosos lum inosos de m arcas de cervej a e das partes superiores das j anelas, que deixam entrar o luar e a luz de fora. De vez em quando, um clarão am arelo surge atrás do palco, à direita, quando pessoas entram e saem do que presum o serem os banheiros.
Andrew e Eddie chegam ao palco e com eçam a se preparar: Andrew pega outro banquinho de algum lugar atrás da bateria e o coloca no m eio do palco, bem na frente do m icrofone no pedestal. Eddie diz algum a coisa para o baterista — provavelm ente qual a canção que vão tocar — e o baterista assente com a cabeça. Outro hom em surge das som bras atrás do palco com m ais um a guitarra, ou talvez sej a um baixo; nunca prestei m uita atenção na diferença. Eddie entrega a Andrew um a guitarra preta, j á plugada num am plificador próxim o, e eles trocam palavras que não consigo ouvir. E então Andrew se senta no banquinho, apoiando um a bota na parte de baixo. Eddie se senta no dele depois.
Eles com eçam a aj ustar isto e afinar aquilo, e o baterista bate algum as vezes ao acaso nos pratos. Ouço estalos e apitos quando outro am plificador é ligado ou calibrado, e depois um tum -tum -tum quando Andrew bate com o polegar no m icrofone algum as vezes.
Meu estôm ago j á está cheio de borboletas, estou nervosa com o se fosse eu que estivesse prestes a cantar na frente de um m onte de desconhecidos. Mas as borboletas são principalm ente porque é Andrew. Ele m e olha de relance do palco, nossos olhares se cruzam e então o baterista com eça a tocar, batendo algum as vezes de leve nos pratos, no ritm o. E então Eddie com eça a tocar guitarra; um a m elodia lenta e contagiante que faz facilm ente a m aioria das pessoas em volta virarem a cabeça e notar que um a nova canção está com eçando — obviam ente, um a que todos j á ouviram e da qual nunca se cansam . Andrew toca alguns acordes j unto com Eddie, e j á sinto m eu corpo balançando suavem ente no ritm o da m úsica.
Quando Andrew com eça a cantar, parece que tenho um a m ola no pescoço. Paro de m e balançar e j ogo a cabeça para trás, sem conseguir acreditar no que estou ouvindo; um blues tão cativante. Ele fica de olhos fechados enquanto canta, sua cabeça balançando no ritm o quente e cheio de alm a da canção.
E quando com eça o refrão, Andrew tira o m eu fôlego...
Sinto m inhas costas pressionando um pouco o encosto da cadeira e m eus olhos se arregalando quando a m úsica sobe e a alm a de Andrew acom panha cada palavra. Sua expressão m uda a cada nota intensa, se acalm ando quando as notas se acalm am .
Ninguém m ais está conversando no bar. Não consigo desviar os olhos de Andrew para ver, m as posso sentir que a atm osfera m udou assim que ele com eçou aquele refrão tão forte, com um tim bre sexy que eu nem im aginava que ele tinha.
Na segunda estrofe, quando o ritm o dim inui novam ente, ele j á tem a atenção total de todas as pessoas no salão. Todos estão dançando e balançando ao m eu redor, casais aproxim ando seus quadris e lábios, porque não há outra coisa a fazer com essa canção.
Mas eu... só olho, sem ar, a distância, deixando a voz de Andrew percorrer cada canal e osso do m eu corpo. É com o um veneno irresistível: estou hipnotizada pelo que ele m e faz sentir, em bora possa destruir m inha alm a, m as eu o bebo assim m esm o.
E Andrew m antém os olhos fechados com o se precisasse bloquear a luz ao seu redor para sentir a m úsica. E quando vem o segundo refrão, ele se entrega ainda m ais, quase a ponto de se levantar do banquinho, m as fica ali, com o pescoço esticado para o m icrofone e cada em oção passional m arcando-lhe o rosto enquanto canta e toca a guitarra em seu colo.
Eddie, o baterista e o baixista com eçam a cantar dois versos com Andrew, e a plateia tam bém canta baixinho.
Na terceira estrofe, quero chorar, m as não consigo. É com o se o choro estivesse ali, dorm ente, no fundo do m eu estôm ago, m as quisesse m e torturar.
Laugh, I Nearly Died...
Andrew canta e canta, tão apaixonadam ente que eu quase m orro, m eu coração batendo cada vez m ais rápido. E então a banda com eça a cantar de novo e a m úsica fica m ais lenta, só com a bateria; batidas profundas e ásperas do bum bo que sinto sob m eus pés, vindo do chão. E a plateia bate os pés j unto com o bum bo e com eça a cantar o refrão repetitivo. Todos batem palm as um a vez ao m esm o tem po, rasgando o ar quando suas m ãos se j untam . Mais um a vez. E Andrew canta: — Yeah-Yeah! — E a canção term ina abruptam ente.
Surgem gritos, assobios, m uitos “aí” e alguns “puta m erda”. Calafrios percorrem m inha espinha e se espalham pelo resto do m eu corpo.
Laugh, I Nearly Died... Nunca m ais vou esquecer essa m úsica, enquanto eu viver.
Com o ele pode ser real?
Estou esperando o azar entrar em ação a qualquer m om ento, ou acordar no banco de trás do carro de Dam on, com Natalie debruçada em cim a de m im , dizendo que Blake m e dopou no Underground.
Andrew apoia a guitarra em prestada no banquinho, vai apertar a m ão de Eddie, depois a do baterista, e por últim o a do baixista. Eddie o acom panha até o m eio do cam inho da nossa m esa, m as se detém , pisca para m im e volta ao palco. Gosto m uito de Eddie. Há algo de honesto, bom e espiritual nesse hom em .
Andrew não consegue andar até a nossa m esa sem que algum as pessoas da plateia o parem para apertar sua m ão e provavelm ente lhe dizer o quanto gostaram da apresentação. Ele agradece e, lenta m as resolutam ente, continua a se aproxim ar de m im .
Vej o algum as m ulheres olhando para ele com um pouco m ais do que adm iração.
— Quem é você? — pergunto, m eio que para provocá-lo.
Andrew fica um pouco verm elho e puxa um a cadeira vazia para se sentar na m inha frente.
— Você é dem ais, Andrew. Eu nem im aginava.
— Obrigado, gata.
Ele é m uito m odesto. Eu achava que ele fosse brincar com igo, m e cham ando de sua tiete e m e pedindo para acom panhá-lo até os fundos do prédio ou algo assim . Mas Andrew parece realm ente não querer falar do seu talento, com o se isso não o deixasse à vontade. Ou será que elogios de verdade o deixam pouco à vontade?
— É sério — digo —, eu queria saber cantar assim .
Isso o faz reagir, m as só um pouco.
— Claro que você sabe — ele diz.
Jogo a cabeça para trás e balanço num a negativa exagerada.
— Não-não-não-não — respondo, para desencoraj ar quaisquer ideias dele. — Não sei cantar m uito bem . Acho que não sou um lixo total, m as com certeza não fui feita pra cantar em cim a de um palco.
— Por que não? — Carla traz um a cervej a para ele, sorri para m im e volta a atender os outros clientes. — Tem m edo do palco?
Ele encosta o gargalo nos lábios e j oga a cabeça para trás.
— Bom , nunca pensei em cantar, a não ser ouvindo som no carro, Andrew. — Eu m e encosto na cadeira. — Nunca alim entei a ideia o suficiente pra descobrir se tenho m edo do palco.
Andrew dá de om bros e tom a outro gole antes de deixar a cervej a na m esa.
— Bom , só pra você saber, eu acho tua voz bonita. Te ouvi cantando no carro.
Eu reviro os olhos e cruzo os braços.
— Obrigada, m as é fácil dar a im pressão de cantar bem quando a gente tá cantando j unto com outra voz. Se você m e ouvir só com a m úsica, provavelm ente vai querer tapar os ouvidos.
Me debruçando para a frente, acrescento:
— Com o é que eu virei o assunto da conversa, afinal? — Aperto os olhos de brincadeira para ele. — É de você que a gente deveria falar, com o aprendeu a cantar assim ?
— Influências, acho — ele diz. — Mas ninguém canta com o Jagger.
— Ah, eu discordo — digo, erguendo o queixo. — Por que, Jagger é teu ídolo m usical ou algo assim ? — pergunto, m eio de brincadeira, e ele sorri calorosam ente.
— Ele tá ali, entre as m inhas influências, m as, não, m eu ídolo m usical é um pouco m ais velho do que ele.
Há algo secreto e profundo se escondendo nos olhos dele.
— Quem ? — pergunto, com pletam ente absorta.
Sem avisar, Andrew salta para a frente e m e segura pela cintura, m e pondo no seu colo, de frente para ele. Fico um pouco chocada, m as sem repelir o gesto. Ele m e olha nos olhos, sentada ali no seu colo.
— Cam ry n?
Sorrio para ele, só im aginando por que está fazendo isso.
— Que é? — Inclino a cabeça para um lado devagar; m inhas m ãos estão sobre o peito dele.
Um pensam ento parece relam pear pelo seu rosto e ele não responde.
— Que foi? — pergunto, m ais curiosa agora.
Sinto suas m ãos na m inha cintura, e então ele se curva e roça os lábios nos m eus.
Meus olhos se fecham , absorvendo o seu toque. Sinto que poderia beij á-lo, m as não sei ao certo se devo.
Meus olhos se abrem de novo quando ele afasta os lábios.
— O que você tem , Andrew?
Ele sorri, e isso literalm ente m e aquece por dentro.
— Nada — diz, batendo delicadam ente com as m ãos abertas nas m inhas coxas, e voltando num instante a ser o Andrew brincalhão e não tão sério. — Só queria te pôr no m eu colo. — Ele sorri m aliciosam ente.
Com eço a rebolar para m e desvencilhar — não de verdade — e ele passa os braços na m inha cintura e m e segura ali. A única vez que m e tira do colo o resto da noite é quando preciso ir ao banheiro, e ele fica de pé na porta, esperando por m im . Ficam os no Old Point ouvindo Eddie e a banda tocar blues e blues rock e até algum as canções de j azz antigo antes de voltar para o hotel, depois das 23h.
27
DE VOLTA AO HOTEL, Andrew fica no m eu quarto tem po suficiente para assistir a um film e. Conversam os por m uito tem po e pude sentir a relutância entre nós dois: ele queria m e dizer algo, tanto quanto eu queria lhe dizer coisas.
Acho que som os parecidos dem ais, e por isso, nenhum dos dois cruzou essa fronteira.
O que nos im pede? Talvez sej a eu; talvez o que existe entre nós não possa seguir adiante até que ele se dê conta de que eu sei que é isso que quero. Ou pode ser apenas que ele tam bém não tenha certeza de nada.
Mas com o duas pessoas que sentem inegavelm ente m ais do que atração um a pela outra podem não ceder? Estam os j untos na estrada há quase duas sem anas.
Com partilham os segredos íntim os e ficam os íntim os, sob certos aspectos. Dorm im os lado a lado e nos tocam os, no entanto, aqui estam os, de lados opostos de um a grossa parede de vidro. Estendem os as m ãos e encostam os os dedos no vidro, olham os nos olhos um do outro e sabem os o que querem os, m as a porra do vidro não cede. Ou isso é um a disciplina inviolável, ou é tortura autoim posta, pura e sim ples.
— Não que eu estej a com pressa de ir em bora — digo quando Andrew se prepara para voltar ao seu quarto —, m as quanto tem po a gente vai ficar em Nova Orleans?
Ele pega o celular do criado-m udo e olha rapidam ente para a tela, antes de fechar a m ão sobre ele.
— Os quartos estão pagos até quinta — ele diz —, m as você que sabe; a gente pode ir em bora am anhã ou ficar m ais, se você quiser.
Estufo os lábios, sorrindo, fingindo ponderar profundam ente a decisão, batendo o indicador na bochecha.
— Não sei — declaro, m e levantando da cam a. — Até que gosto daqui, m as a gente ainda precisa ir pro Texas.
Andrew m e olha, curioso.
— É? Então ainda tá a fim de ir pro Texas, hein?
Balanço a cabeça devagar, ponderando de verdade, desta vez.
— É — respondo, distante —, acho que tô. Com ecei querendo ir pro Texas... — E então as palavras talvez tudo vá term inar no Texas entram na m inha m ente e m eu rosto fica triste de repente.
Andrew beij a m inha testa e sorri.
— A gente se vê de m anhã.
E eu o deixo ir, porque aquela parede de vidro é grossa e m e intim ida dem ais para que eu o alcance e o segure.
Horas depois, nas trevas da alta m adrugada, quando a m aioria das pessoas está dorm indo, acordo de repente e m e sento no m eio da cam a. Não sei bem o que m e acordou, m as parece ter sido um barulho alto. Quando m inha m ente clareia, corro os olhos pelo quarto escuro com o breu, esperando m eus olhos se aj ustarem à escuridão e verificando se algum a coisa caiu no chão. Me levanto e ando pelo quarto, abrindo só um a fresta das cortinas para deixar entrar m ais luz. Olho para o banheiro, a TV e finalm ente a parede. Andrew. Agora com eço a entender: acho que o barulho que ouvi veio do quarto dele, bem atrás da m inha cabeça.
Visto m eu short branco de algodão por cim a da calcinha, pego m inha chave-cartão e a cópia que ele m e deu, do seu quarto, e ando descalça pelo corredor ilum inado.
Levanto a m ão fechada e bato à porta, prim eiro de leve.
— Andrew?
Nenhum a resposta.
Bato novam ente com um pouco m ais de força e o cham o, m as não chega nenhum a resposta. Depois de um a pausa, passo a cópia da chave na porta e a abro silenciosam ente, para o caso de ele estar dorm indo.
Andrew está sentado na beira da cam a com os cotovelos apoiados nos j oelhos e as m ãos j untas, no m eio das pernas. Suas costas estão curvadas para a frente em arco, e sua cabeça, tão baixa que ele só pode estar olhando para o chão acarpetado.
Olho para a m inha direita e vej o seu celular no chão, com o vidro quebrado. Entendo im ediatam ente que ele deve tê-lo j ogado contra a parede.
— Andrew? O que foi? — pergunto, m e aproxim ando devagar, não porque tenha m edo dele, m as porque tenho m edo por ele.
As cortinas estão totalm ente abertas, deixando o luar entrar e inundar o quarto todo e o corpo sem inu de Andrew com um brilho cinza-azulado. Ele está usando só um a cueca boxer. Me aproxim o dele e corro as m ãos pelos seus braços até as m ãos, fechando delicadam ente m eus dedos sobre elas.
— Pode m e contar — digo, m as j á sei o que é.
Ele não m e olha, m as fecha as m ãos sobre m eus dedos.
Meu coração está se partindo...
Me aproxim o m ais, ficando no m eio de suas pernas, e ele não hesita em abraçar apertado o m eu corpo. Sentindo m eu peito trem er quando absorvo a dor dele, passo os braços ao redor de sua cabeça e a puxo para a m inha barriga.
— Eu sinto m uito, am or — digo com voz trêm ula; lágrim as correm pelo m eu rosto, m as tento m anter a com postura com o posso. Seguro sua cabeça delicadam ente e ele aperta m ais a testa contra o m eu ventre. — Tô aqui, Andrew — digo com cuidado.
E ele chora baixinho encostado em m im . Não em ite um som , m as sinto seu corpo trem endo suavem ente contra o m eu. Seu pai m orreu e ele está se perm itindo lam entar, com o deveria. Andrew m e segura assim por um tem po enorm e, seus braços m e apertando com força quando as piores ondas de dor o atravessam , e eu o abraço m ais, com as m ãos m ergulhadas no seu cabelo.
Finalm ente, ele levanta a cabeça e olha para m im . Tudo o que quero é tirar aquela dor do seu rosto. No m om ento, é a única coisa que m e im porta no m undo. Só quero fazer essa dor passar.
Andrew m e puxa para a cam a com ele pela cintura e m e abraça ali, com seus braços rij os e toda a extensão da parte de trás do m eu corpo apertada contra a frente do dele.
Mais um a hora passa e vej o a lua ir de um lugar a outro no céu. Andrew não diz um a palavra, e não quero puxar assunto porque sei que ele precisa deste m om ento, e se nenhum dos dois nunca m ais falar, posso aceitar, contanto que fiquem os assim .
Duas pessoas incapazes de chorar finalm ente choram j untas, e se o m undo acabasse hoj e, estaríam os realizados.
O prim eiro sol da m anhã com eça a afugentar o luar, e, por algum tem po, os dois estão escondidos na m esm a grande extensão do céu, de form a que nenhum dos dois dom ina o outro. A atm osfera está banhada em violeta-escuro e cinza com m anchas rosa, até que o sol finalm ente prevalece e acorda o nosso lado do m undo.
Rolo para o outro lado, ficando de frente para Andrew. Ele tam bém ainda está acordado. Sorrio suavem ente, e ele é receptivo quando m e curvo para beij ar seus lábios com delicadeza. Ele roça m inha face com as costas da m ão e então toca a m inha boca, seu polegar m al encostando no m eio do m eu lábio inferior antes de se afastar. Me aproxim o e ele aperta a m inha m ão, segurando-a no m eio de nossos corpos colados.
Seus lindos olhos verdes sorriem para m im com ternura, e então ele solta a m inha m ão e passa o braço na m inha cintura, m e puxando tão para perto que posso sentir o calor do seu hálito no m eu queixo quando ele respira.
Sei que ele não quer falar do pai, e m encioná-lo pode estragar este m om ento, por isso evito. Por m ais que eu queira e por m ais que eu ache que ele precisa falar a respeito para aj udar no seu luto, vou esperar. Ele precisa de tem po.
Levanto m inha m ão livre e passo o dedo pelo contorno da tatuagem no seu braço direito. E então m eus dedos correm delicadam ente para suas costelas.
— Posso ver? — sussurro.
Ele sabe que estou falando da tatuagem de Eurídice no lado esquerdo do seu corpo, que ainda está por baixo, encostado na cam a.
Andrew m e olha, m as seu rosto é indecifrável. Seus olhos vagam por um longo m om ento antes que ele se levante da cam a e se vire para o outro lado, deixando a tatuagem visível. Ele se deita de lado, com o antes, e m e puxa um pouco m ais para perto, tirando depois o braço de cim a das costelas. Ergo o corpo para ver m elhor e corro os dedos pelo desenho intrincado, que é tão bonito e realístico. A cabeça da m ulher com eça uns 5 centím etros abaixo do braço de Andrew, e seus pés descalços chegam ao m eio da anca escultural, alguns centím etros sobre a barriga dele. Ela está vestindo um a túnica branca longa, esvoaçante e translúcida, colada ao corpo com o se um vento forte estivesse soprando. Ondas do tecido esvoaçam para trás e ao redor dela no vento invisível.
Ela está de pé num rochedo, olhando para baixo com um braço erguido delicadam ente para trás.
Mas aí o desenho fica esquisito.
Eurídice está com o outro braço esticado, m as a tinta term ina no seu cotovelo. Outro braço foi acrescentado do outro lado, m as não é dela; parece ser de outra pessoa, é m ais m ásculo. Partes do tecido tam bém aparecem fora de lugar na im agem , sopradas pelo vento, com o a roupa dela. E logo abaixo, apoiado no m esm o rochedo, está um pé com um a panturrilha m usculosa, m as a tinta acaba logo abaixo do j oelho.
Corro os dedos sobre cada centím etro da tatuagem , hipnotizada por sua beleza, m as ao m esm o tem po tentando entender sua com plexidade, e por que estão faltando partes.
Olho para Andrew e ele diz:
— Você m e perguntou ontem quem é m eu ídolo m usical, e a resposta é Orfeu; m eio esquisito, eu sei, m as sem pre adorei a história de Orfeu e Eurídice, especialm ente a versão contada por Apolônio de Rodes, e ela m eio que ficou dentro de m im .
Sorrio suavem ente e olho m ais um a vez para a tatuagem ; m eus dedos ainda estão sobre suas costelas.
— Já ouvi falar de Orfeu, m as não de Eurídice. — Sinto um pouco de vergonha por não conhecer a história deles, especialm ente porque ela parece ser tão im portante para Andrew.
Ele com eça a explicar:
— A habilidade m usical de Orfeu era incom parável, por ele ser filho de um a m usa, e quando ele tocava sua lira ou cantava, todo ser vivo parava para ouvir. Não havia m úsico m elhor do que ele, m as seu am or por Eurídice era até m ais forte do que seu talento; Orfeu faria qualquer coisa por ela. Eles se casaram , m as logo depois do casam ento, Eurídice foi picada por um a víbora e m orreu. Arrasado pela dor, Orfeu desceu ao inferno, determ inado a trazê-la de volta.
Enquanto Andrew conta essa história, não consigo deixar de ser egoísta e m e im aginar no lugar de Eurídice. Com Andrew no lugar de Orfeu. Até com paro com aquele m om ento bobinho no pasto, naquela noite com Andrew, quando a cobra subiu no nosso cobertor.
Tão egoísta e idiota da m inha parte pensar assim , m as não consigo evitar...
— No inferno, Orfeu tocou sua lira e cantou, e todos ali ficaram encantados com ele e se aj oelharam de tanta em oção. E assim , deixaram Eurídice aos cuidados de Orfeu, m as som ente com um a condição: Orfeu não podia olhar para trás para Eurídice nem por um m om ento enquanto voltavam para a superfície do m undo. — Andrew faz um a pausa. — Mas a cam inho da superfície, ele não conseguiu vencer esse desej o, essa necessidade de se virar para se certificar de que Eurídice ainda estava atrás dele.
— Ele olhou pra trás — digo.
Andrew balança a cabeça tristem ente.
— Sim , olhou um m om ento antes do que deveria e viu Eurídice na luz fraca do alto da caverna. Eles estenderam as m ãos um para o outro, e antes que pudessem se tocar, ela desapareceu na escuridão do inferno e ele nunca m ais a viu.
Engulo m inhas em oções e fico olhando para o rosto de Andrew, arrebatada. Ele não está m e olhando, m as parece perdido em pensam entos, olhando além de m im .
E então ele sai do transe.
— Muita gente faz tatuagens profundas, cheias de significado — ele diz, m e olhando de novo. — Esta é só a m inha.
Olho para a tatuagem de novo e depois para os seus olhos, lem brando um a coisa que seu pai disse naquela noite em Wy om ing.
— Andrew, o que teu pai quis dizer quando falou aquilo no hospital?
Seus olhos se abrandam e ele desvia o olhar por um instante. Depois abaixa o braço e segura a m inha m ão, passando o polegar pelos m eus dedos.
— Você escutou? — pergunta, sorrindo tranquilam ente.
— É, escutei.
Andrew beij a m eus dedos e solta a m inha m ão.
— Ele ficava m e enchendo com isso — diz. — Fiz a tatuagem , contei pro Aidan o que ela significava e por que não tava tecnicam ente com pleta, e aí ele contou pro papai. — Andrew revira os olhos. — Nunca m ais m e deixaram em paz, pode ter certeza. Nos últim os dois anos, m eu pai tirou m uito sarro de m im , m as eu sei que ele só tava sendo ele m esm o: o cara fortão que não chora e não acredita em em oções. Mas um a vez ele m e falou, quando Aidan e Asher não tavam perto, que por m ais “florzinha” que fosse o significado da m inha tatuagem , ele entendia. Papai m e falou assim (Andrew gira harm oniosam ente os dedos no ar): “Filho, espero que você ache sua Eurídice um dia.
Contanto que ela não te faça virar um m aricas, espero que você ache.”
Tento conter um sorrisinho, m as ele vê e sorri tam bém .
— Mas por que tá incom pleta? — pergunto, olhando-a de novo, tirando seu braço de cim a. — E o que ela significa exatam ente?
Andrew suspira, em bora soubesse o tem po todo que eu ia fazer essas perguntas. Fico com a sensação de que ele estava torcendo para que eu deixasse passar batido.
Sem chance.
De repente, Andrew se levanta da cam a e m e faz sentar com ele. Fecha os dedos na barra do m eu top e com eça a tirá-lo do m eu corpo. Sem questionar, ergo os braços enquanto ele tira m inha cam iseta, e fico nua da cintura para cim a diante dele. Só um a pequena parte de m im se sente constrangida, e instintivam ente m eu om bro se encolhe, com o que para cobrir m inha nudez com sua som bra.
Andrew m e faz deitar de novo e m e puxa tão para perto que m eus seios nus ficam esm agados entre nossos corpos. Guiando m eus braços ao redor de si com o os seus estão ao m eu redor, ele m e abraça m ais apertado, enroscando nossas pernas nuas. Nossas costelas estão se tocando, m eu corpo encaixado no dele com o duas peças de um quebra-cabeça.
E de repente com eço a entender...
— Minha Eurídice é só m etade da tatuagem — ele diz, e seus olhos descem para o lugar da tatuagem em relação ao m eu corpo ao seu lado. — Pensei que um dia, se m e casasse, m inha garota podia fazer a outra m etade e unir os dois.
Meu coração está na garganta. Tento engoli-lo de volta, m as está preso ali, inchado e quente.
— Mas é loucura, eu sei — ele diz, e sinto seus braços com eçando a m e soltar.
Eu o aperto m ais forte, segurando-o ali.
— Não é loucura — digo, m inha voz grave e séria. — E não é coisa de florzinha; Andrew, é lindo. Você é lindo...
Um a em oção solitária que não consigo identificar cruza o seu rosto.
Então ele se levanta, e relutantem ente eu perm ito.
Ele pega a berm uda de lona m arrom -escura do chão perto da cam a e a veste.
Ainda um pouco atordoada pela rapidez com que ele se levantou e por que, levo um m om ento m ais antes de vestir m eu top de novo.
— Bom , acho que talvez m eu pai é que tava certo — ele diz, de pé diante da j anela, olhando para a cidade de Nova Orleans lá em baixo. — Ele sabia das coisas e usava aquele papo furado de hom em -não-chora pra disfarçar.
— Pra disfarçar o quê?
Chego perto dele por trás, m as desta vez não o toco. Andrew está inatingível, no sentido de que estou com eçando a achar que ele não m e quer aqui. Não é desinteresse nem dim inuição da atração, m as algum a outra coisa...
Ele responde sem se virar:
— Que nada dura pra sem pre. — Ele hesita, ainda olhando pela j anela, com os braços cruzados sobre o peito. — É m elhor evitar a em oção do que cair na conversa dela e virar escravo dela, e com o nada dura pra sem pre, no fim , tudo o que um dia foi bom sem pre acaba doendo pra cacete.
Suas palavras m e cortam com o facas.
Toda parte de m im que foi m udada durante m eu tem po com Andrew e todas as m uralhas que derrubei por ele acabam de se erguer de novo ao m eu redor.
Porque ele está certo e eu sei que ele está certo, porra.
Foi essa lógica que m e im pediu de entrar totalm ente no m undo dele todo esse tem po.
E em questão de segundos, a verdade de suas palavras m e deixou novam ente subm issa a essa lógica.
Decido não pensar nisso. Há um problem a bem m ais im portante que o m eu, agora, então m e esforço para não tratá-lo diferente.
— Você... precisa ir ao enterro do seu pai, então...
Andrew vira o corpo, com os olhos cheios de determ inação.
— Não, eu não vou pro enterro.
Ele veste um a cam iseta lim pa sobre seus m úsculos abdom inais.
— Mas, Andrew... você tem que ir. — Minhas sobrancelhas se j untam na m inha testa.
— Você nunca vai se perdoar se perder o enterro.
Vej o seu m axilar se m ovendo com o se ele estivesse rangendo os dentes. Ele desvia o olhar e se senta no pé da cam a, se curvando e enfiando os pés sem m eias em suas sapatilhas baixas de corrida, sem se dar ao trabalho de soltar o cadarço.
Ele fica de pé.
Só posso ficar ali no m eio do quarto, incrédula. Sinto que deveria saber o que dizer para fazê-lo m udar de ideia sobre o funeral, m as m eu coração m e diz que essa é um a discussão que não vou ganhar.
— Preciso fazer um a coisa — ele diz, enfiando a chave do carro no bolso da berm uda.
— Volto logo, tá?
Antes que eu possa responder, ele se aproxim a, segura m inha cabeça com as duas m ãos e se curva, encostando a testa na m inha. Eu só o olho nos olhos, vendo tanta dor, conflito e indecisão no m eio de um a tem pestade de outras coisas que não consigo nem com eçar a identificar.
— Você vai ficar bem ? — ele pergunta baixinho, com o rosto a centím etros do m eu.
Eu m e afasto, olho para ele e balanço a cabeça.
— Vou, sim — digo.
Mas é só o que consigo dizer. Estou tão dividida e indecisa quanto ele parece estar.
Mas tam bém estou sofrendo. Sinto que algo está acontecendo entre nós, m as está nos afastando, não nos aproxim ando, com o toda a viagem nos aproxim ou até agora. E isso m e assusta.
Eu entendo a lógica. Minhas m uralhas estão erguidas de novo. Mas isso m e assusta m ais do que qualquer coisa que j á vivi.
Andrew m e deixa parada ali, olhando-o sair do quarto.
É a prim eira vez, desde que voltou para m e salvar naquela rodoviária, que ele m e deixa. Estivem os j untos, praticam ente inseparáveis, todo esse tem po, e agora... assim que ele saiu por aquela porta, senti que nunca m ais vou vê-lo.
ANDREW