Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 32 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

— Andrew? — Eu Chamo, rolando para…

37

— ANDREW? — EU CHAMO, rolando para o outro lado da cam a. Mais acordada, levanto a cabeça lentam ente e vej o que ele não está ali.

Sinto cheiro de bacon.

Penso na noite que tivem os e não consigo tirar o sorriso evidente do rosto. Me desvencilho dos lençóis, m e levanto e visto a calcinha e a cam iseta.

Andrew está de pé diante do fogão quando entro na cozinha.

— Am or, por que acordou tão cedo?

Ando até a geladeira e abro a porta, procurando qualquer coisa para m olhar a boca.

Preciso escovar os dentes, m as se ele está preparando o café da m anhã, não quero que o gosto fique esquisito por causa do crem e dental.

— Queria te levar café na cam a.

Ele dem orou alguns segundos a m ais para responder do que eu acharia norm al, e sua voz pareceu estranha. Tiro a cabeça da geladeira e olho para ele. Está parado ali, olhando para a frigideira.

— Am or, você tá bem ?

Deixo a porta da geladeira se fechar e não recebo nenhum a resposta.

Ele m al levanta a cabeça para m e olhar.

— Andrew?

Meu coração está batendo cada vez m ais rápido, em bora eu não saiba por quê.

Me aproxim o dele e ponho a m ão no seu braço. Ele levanta a cabeça e m e olha lentam ente.

— Andrew...

Num a espécie de câm era lenta cruel, as pernas de Andrew se dobram e seu corpo desaba no chão de cerâm ica branca, e a espátula que ele segurava cai j unto com ele, espirrando óleo quente. Tento segurá-lo, m as não consigo m antê-lo de pé. Tudo ainda está se m ovendo em câm era lenta: m eu grito, m inhas m ãos segurando seus om bros, sua cabeça batendo no assoalho. Mas então, quando todo o seu corpo com eça a trem er incontrolavelm ente em convulsão, a ação acelera e fica apavorante.

— ANDREW! MEU DEUS, ANDREW!

Quero aj udá-lo, m as seu corpo não para de se agitar. Vej o o branco dos seus olhos, e seu m axilar crispado num esgar horripilante. Seus m em bros estão im óveis e rij os.

Grito de novo, com lágrim as chovendo dos m eus olhos.

— Alguém m e aj uda! — E então volto a m im e corro até o celular m ais próxim o. O dele está sobre o balcão. Digito 911, e nos dois segundos que levam para atender, fecho o gás do fogão.

— Por favor! Ele tá em convulsão! Por favor, alguém m e aj uda!

— Moça, antes de m ais nada, se acalm e. Ele ainda está em convulsão?

— Sim !

Olho horrorizada para o corpo de Andrew se agitando no chão. Estou tão apavorada que sinto vontade de vom itar.

— Moça, quero que você tire de perto dele qualquer coisa com que ele possa se m achucar. Ele está usando óculos? Sua cabeça pode bater em algum m óvel ou obj eto?

— Não! M-m as ele bateu a cabeça quando caiu!

— Tudo bem , ache algum a coisa para pôr debaixo da cabeça dele, um a alm ofada, algo para evitar que ele bata de novo.

Olho ao m eu redor na cozinha prim eiro, m as não encontro nada, então corro freneticam ente para a sala de estar, pego um a alm ofadinha do sofá e trago de volta.

Solto o telefone tem po suficiente para enfiar a alm ofada por baixo de sua cabeça agitada.

Oh, não... m eu Deus, o que tá acontecendo com ele?!

Encosto o telefone no ouvido de novo.

— Tá, j á pus um a alm ofada debaixo da cabeça dele!

— Certo, m oça — a atendente do serviço de em ergência diz calm am ente —, há quanto tem po ele está em convulsão? Você sabe de algum problem a que ele tem que possa causar convulsões?

— Eu-eu n-não sei, uns... dois m inutos, talvez, três no m áxim o. E não, nunca vi nada assim acontecendo com ele. Ele nunca m e contou de nenhum ... — A ficha com eça a cair: ele nunca m e contou. Todo tipo de coisa com eça a atacar m inha m ente, m e fazendo apenas perder a calm a de novo. — Por favor, m anda um a am bulância! Por favor!

Depressa! — Estou engasgando com as lágrim as.

O corpo de Andrew para de se agitar.

Antes que a atendente possa responder, digo:

— Ele parou! O-o que é que eu faço?

— Tá, m oça, quero que você vire o corpo dele de lado. Vam os m andar um a am bulância. Qual o endereço?

Enquanto o estou virando de lado, a pergunta m e im obiliza.

Eu... eu não sei a porra do endereço! Puta que pariu!

— Eu-eu não sei o... — Pulo de pé e corro até a pilha de correspondência sobre o balcão, descubro o endereço no prim eiro envelope e leio para ela.

— Um a am bulância está a cam inho. Quer continuar falando com igo até que ela chegue?

Não sei bem o que a atendente disse, ou se não disse nada, na verdade, e só im aginei, m as não respondo. Não consigo tirar os olhos de Andrew, deitado inconsciente no chão da cozinha.

— Ele tá inconsciente! Meu Deus, por que ele não acorda?! — Minha m ão desocupada está sobre m eus lábios.

— Isso não é incom um — ela diz, e finalm ente volto a prestar atenção em sua voz. — Quer continuar na linha até a am bulância chegar aí?

— ... Sim , por favor, não desliga. Por favor.

— Tudo bem , estou aqui — ela diz, e sua voz é m eu único consolo. Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo falar. Só consigo olhar para ele. Tenho m edo até de m e sentar no chão ao seu lado, e ele ter outra convulsão e eu estar no cam inho.

Minutos depois, ouço um a sirene uivando na rua.

— Acho que chegaram — digo ao telefone com voz distante.

Ainda não consigo olhar para nada, a não ser para Andrew.

Por que isso está acontecendo?

Batem à porta e finalm ente m e levanto e vou correndo abri-la para os param édicos.

Nem m e lem bro de ter largado o celular de Andrew no chão enquanto a atendente ainda estava na linha. Quando dou por m im , Andrew está sendo colocado num a m aca e am arrado.

— Qual o nom e dele? — um a voz pergunta, e tenho certeza que é de um dos param édicos, m as não consigo ver o rosto dele. Só o que vej o é o de Andrew, enquanto o em purram porta afora na m aca.

— Andrew Parrish — respondo baixinho.

Ouço vagam ente o param édico dizer o nom e do hospital para onde ele será levado. E

quando eles saem , fico parada ali, olhando para a porta, onde o vi pela últim a vez. Levo vários longos m inutos para voltar a m im , e a prim eira coisa que faço é pegar o celular dele e procurar o telefone de sua m ãe. Ouço-a chorar do outro lado quando conto o que aconteceu, e acho que ela derruba o telefone.

— Sra. Parrish? — Sinto as lágrim as queim ando m eus olhos. — Sra. Parrish? — Mas ela não responde m ais.

Finalm ente, visto um a roupa — nem sei o que vesti — pego a chave do carro de Andrew, m inha bolsa e saio correndo. Dirij o o Chevelle por alguns m inutos até m e dar conta de que não sei aonde estou indo, nem onde estou. Encontro um posto de gasolina, pergunto com o chegar ao hospital e eles m e inform am , m as m al consigo encontrar o cam inho sem m e perder. Minha cabeça não está funcionando bem .

Bato a porta do carro e corro para o pronto-socorro com a bolsa j ogada no om bro. Se caísse, eu não ia nem notar. A enferm eira da recepção digita no teclado para conseguir inform ações, m e aponta o cam inho e vou parar num a sala de espera. E estou totalm ente sozinha.

Acho que passou um a hora, m as posso estar errada. Um a hora. Cinco m inutos. Um a sem ana. Não faz diferença; a sensação seria a m esm a, para m im . Meu peito dói de tanto chorar. Já andei tanto de um lado para outro que com ecei a contar as suj eirinhas do carpete enquanto vou e volto.

Mais um a hora.

Esta sala de espera é tão incrivelm ente sem graça, com paredes m arrons e bancos m arrons bem dispostos em duas fileiras no m eio da sala. Num relógio no alto da parede, por cim a da porta, o ponteiro dos segundos gira e gira, e em bora sej a baixo dem ais para ouvir, m inha m ente acredita que consigo ouvi-lo. Há um a cafeteira e um a pia perto de m im . Um hom em — acho — acaba de entrar por um a porta lateral, encher um copinho de isopor e sair de novo.

Mais um a hora.

Minha cabeça dói. Meus lábios estão secos e rachados. Eu os lam bo constantem ente, o que só piora seu estado. Não vej o um a enferm eira passar por aqui há m uito tem po, e com eço a m e arrepender de não ter parado a últim a que vi antes que ela desaparecesse no corredor longo, estéril e ilum inado por lâm padas fluorescentes que sai da sala de espera.

Por que essa dem ora? O que está acontecendo?

Bato a testa na palm a da m ão, e quando vou pegar o celular de Andrew na m inha bolsa, ouço um a voz conhecida:

— Cam ry n?

Eu m e viro.

O irm ão m ais novo de Andrew, Asher, está entrando na sala.

Quero m e sentir aliviada por alguém finalm ente ter aparecido para falar com igo, para interrom per essa sensação de um nada profundo e doloroso, m as não consigo ficar aliviada, pois só posso esperar que ele m e conte algo terrível a respeito de Andrew.

Asher nem estava no Texas, até onde eu sei, e se ele apareceu aqui de repente, significa que pegou o prim eiro voo de onde quer que estivesse, e as pessoas só fazem isso quando algo ruim acontece.

— Asher? — digo, com as lágrim as prendendo m inha voz.

Nem hesito e corro para os seus braços. Ele m e abraça forte.

— Por favor, m e diz o que tá acontecendo? — pergunto, com lágrim as correndo novam ente dos m eus olhos. — O Andrew tá bem ?

Asher segura a m inha m ão e m e leva até um a cadeira, e m e sento ao lado dele, apertando m inha bolsa no colo, só para poder m e segurar em algum a coisa.

Asher é tão parecido com Andrew que m eu coração dói.

Ele sorri com ternura para m im .

— Ele tá bem agora — diz, e essa frase tão curta basta para encher todo o m eu corpo de energia. — Mas provavelm ente não vai continuar assim .

E com a m esm a rapidez, aquela energia esperançosa se esvai novam ente, levando com ela outras partes de m im : m eu coração, m inha alm a, aquele fiapo de esperança que m antive todo esse tem po, desde que tudo com eçou. O que Asher está dizendo... o que ele está tentando m e dizer?

Meu peito estrem ece com as lágrim as.

— Com o assim ? — Mal consigo dizer essas palavras.

Ele respira calm am ente.

— Há m ais ou m enos oito m eses — Asher diz com cuidado —, m eu irm ão ficou sabendo que tinha um tum or no cérebro...

Meu coração se foi. Minha respiração se foi.

Minha bolsa cai no chão, espalhando tudo, m as não consigo m e m over para pegá-la.

Não consigo m over... nada.

Sinto a m ão de Asher pegando a m inha.

— Por causa da doença do nosso pai, Andrew se recusou a fazer outros exam es. Ele tinha outra consulta com o dr. Marsters naquela m esm a sem ana, m as não quis ir. Mam ãe e Aidan tentaram de tudo para que ele fosse se consultar. Até onde eu sei, ele chegou a concordar, m as acabou não indo porque o estado de papai piorou.

— Não... — balanço a cabeça sem parar, sem querer acreditar no que ele está m e contando —, não... — Só quero expulsar as palavras dele da m inha cabeça.

— Por isso Andrew e Aidan brigavam tanto — Asher continua. — Aidan queria que ele fizesse o que precisava fazer, e Andrew, teim oso com o sem pre, brigava com Aidan toda vez.

Olho para a parede e digo:

— Por isso ele não queria ver o pai no hospital... — A revelação m e deixa ainda m ais atordoada.

— Sim — Asher diz em voz baixa —, e por isso, tam bém , ele não quis ir ao enterro.

Olho para Asher agora, com um olhar penetrante, m exendo m eus dedos sobre os lábios.

— Ele tem m edo. Tem m edo que a m esm a coisa aconteça com ele, que seu tum or sej a inoperável.

— Sim .

Me levanto da cadeira num salto, quebrando um batom com o pé.

— Mas e se não for tão grave? — digo freneticam ente. — Ele tá no hospital agora; eles podem fazer o que é preciso. — Com eço a m archar para a saída. — Vou obrigar Andrew a fazer esses testes. Vai fazer forçado! Ele vai m e ouvir!

Asher segura m eu braço. Eu m e viro.

— Pelo que estão verificando agora, as chances dele são m uito pequenas, Cam ry n.

Vou vom itar. Minhas bochechas parecem sentir m ilhares de agulhas quando m ais lágrim as abrem cam inho para a superfície. Minhas m ãos estão trem endo tam bém . Toda a porra do m eu corpo está trem endo!

Asher diz baixinho:

— Ele adiou dem ais.

Cubro o rosto com as m ãos e soluço nelas, m eu corpo inteiro se agitando, descontrolado. Sinto os braços de Asher m e apertando.

— Ele quer te ver.

Suas palavras m e fazem olhar para cim a.

— Já foi levado pra um quarto; vou te levar pra lá. Espera aqui m ais alguns m inutos, e quando m inha m ãe sair do quarto, a gente vai pra lá.

Não digo nada. Fico ali parada, sem palavras... m orrendo por dentro, é a pior dor que j á senti.

Asher m e olha m ais um a vez para se assegurar de que o ouvi bem , e então diz cautelosam ente:

— Volto j á pra te buscar. Espera aqui.

Asher sai, e para não cair, m e seguro na cadeira m ais próxim a e m e sento. Não consigo nem enxergar direito, as lágrim as estão queim ando m eus olhos, escorrendo pelas m inhas bochechas. Parece que alguém enfiou a m ão no m eu peito e arrancou m eu coração.

Não sei se vou conseguir vê-lo sem perder com pletam ente o j uízo.

Por que ele fez isso?!

Por que isso está acontecendo?!

Antes que eu fique com pletam ente louca e com ece a quebrar tudo ou bater nas coisas e m e m achucar, engatinho procurando m inha bolsa no chão. Nem notei que Asher recolheu tudo, devolveu dentro e deixou a bolsa na cadeira. Procuro m eu celular e ligo para Natalie.

— Alô?

— Natalie, eu-eu preciso que você faça um a coisa pra m im .

— Cam ... você tá chorando?

— Natalie, por favor, m e escuta.

— Tá, sim , eu tô aqui. O que aconteceu?

— Você é m inha m elhor am iga — digo —, e preciso que você venha pra Galveston.

Assim que puder. Você vem ? Preciso de você. Por favor.

— Meu Deus, Cam ry n, o que tá acontecendo? O que foi? Você tá bem ?

— Não aconteceu nada com igo, m as preciso de você aqui. Preciso de alguém , e só tenho você. Minha m ãe não vai en... Natalie, por favor!

— T-tudo bem — ela diz, com a voz cheia de preocupação. — Vou pegar o prim eiro voo. Eu vou pra aí. Não desgruda do celular.

Deixo a m ão cair para o lado, esm agando o celular no m eu punho, e olho para a parede pelo que parece um a eternidade até que a voz de Asher m e tira do transe. Olho para ele. Asher vem até m im e pega m inha m ão, sabendo que vou precisar disso. Minhas pernas parecem frágeis, com o se eu estivesse andando com próteses e não soubesse usá-las direito. Asher aperta m inha m ão tão forte. Saím os para o corredor ilum inado e vam os até um elevador.

— Preciso m e acalm ar — digo em voz alta, m ais para m im m esm a do que para Asher.

Tiro m inha m ão da dele, passo no rosto e corro os dedos pelo cabelo no alto da m inha cabeça. — Não posso ficar histérica na frente dele. A últim a coisa que ele precisa agora é ficar tentando m e acalm ar.

Asher não diz nada. Não olho para ele. Vej o nossa im agem refletida na porta do elevador, distorcida e sem cor. Noto que os núm eros no elevador indicam que subim os dois andares, e então ele para. A porta se abre. Fico ali parada, de início, com m edo de sair, m as então respiro bem fundo e enxugo os olhos de novo.

Andam os para o m eio do corredor, até um quarto com um a grande porta de m adeira que está sem iaberta. Asher abre com pletam ente a porta, m as eu olho para o chão, para a linha invisível que m e separa, no corredor, de Andrew, dentro do quarto, e estou com tanto m edo de cruzá-la. Sinto que quando eu o fizer, verei que tudo isso é real e que não tem volta m esm o. Fecho os olhos com força e contenho um a nova onda de lágrim as, respirando profundam ente, com a bolsa nos punhos cerrados.

E então abro os olhos quando a m ãe de Andrew aparece.

Seu rosto suave está esgotado pela em oção, com o sei que o m eu tam bém deve estar.

Seu cabelo está desgrenhado. Suas pálpebras estão inchadas. Mas ela consegue sorrir am orosam ente para m im , tocando m eu om bro com delicadeza.

— Que bom que você está aqui, Cam ry n.

E então ela sai do quarto, de m ãos dadas com Asher.

Olho para eles por um breve m om ento enquanto se afastam pelo corredor, m as suas silhuetas parecem se confundir com o resto.

Da porta, olho para dentro do quarto e vej o o pé da cam a onde sei que Andrew está deitado.

Entro no quarto.

— Am or, vem cá — Andrew diz ao m e ver.

De início fico im óvel no lugar, m as quando olho nos seus olhos, naqueles olhos verdes inesquecíveis que têm tanto poder sobre m im , largo a bolsa no chão e corro para a cam a.

38

PRATICAMENTE DESABO SOBRE seu corpo e em seus braços. Ele m e abraça tão forte, em bora não tão forte quanto quero. Quero que ele m e m ate esm agada e nunca m ais m e solte, que m e leve j unto com ele. Mas Andrew ainda está fraco. Posso perceber que o que ele está enfrentando o está esgotando rapidam ente.

Andrew segura m eu rosto com as m ãos, afasta o cabelo dos m eus olhos e enxuga com beij os as lágrim as que m e esforcei tanto para esconder para o bem dele, para que ele não tivesse que gastar nada de suas forças com igo. Mas o coração tem vontade própria e sem pre consegue o que quer, especialm ente quando está m orrendo.

— Eu sinto m uito — ele diz num a voz dolorosa e desesperada, com m eu rosto ainda em suas m ãos. — Eu não podia te contar, Cam ry n... não queria que nosso tem po j untos fosse diferente de com o foi.

Lágrim as caem dos m eus olhos, pingando em seus dedos e escorrendo pelos seus pulsos.

— Espero que você não...

— Não, Andrew... — eu engulo algum as lágrim as — ... eu entendo você; não precisa explicar. Ainda bem que você não m e contou...

Andrew parece surpreso, m as feliz. Ele puxa o m eu rosto e beij a m eus lábios.

— Você tem razão — digo. — Se você tivesse m e contado, nosso tem po j untos teria sido sinistro e... eu-eu não sei, m as teria sido diferente, e não suporto im aginá-lo diferente; m as, Andrew, eu queria que você tivesse m e contado só por um m otivo: eu ia fazer qualquer coisa, qualquer coisa pra te levar pra um hospital antes. — Minha voz com eça a ficar m ais alta quando a triste verdade das m inhas palavras m e m achuca ao dizê-las. — Você poderia ter...

Andrew balança a cabeça.

— Am or, j á era tarde dem ais.

— Não fala isso! Agora ainda não é tarde dem ais! Você ainda tá aqui, ainda há um a chance.

Ele sorri com ternura e suas m ãos finalm ente soltam m eu rosto, voltando para os lados do seu corpo, sobre o cobertor branco do hospital que o cobre. Um cateter sai das costas de sua m ão e vai para um a m áquina.

— Tô sendo realista, Cam ry n. Eles j á m e falaram que m inhas chances não são boas.

— Mas ainda existe um a chance — discordo, segurando m ais lágrim as e querendo poder desligá-las apertando um botão. — Um a pequena chance é m elhor do que chance nenhum a.

— Se eu deixar que m e operem .

Sinto que levei um tapa na cara.

— Com o assim , se?

Seus olhos desviam dos m eus.

Seguro o seu queixo com firm eza, fazendo-o virar e m e olhar.

— Não tem nada de “se”, Andrew, você não pode estar falando sério.

Andrew estende a m ão e abre espaço na cam a. Ele m e convida a deitar ao seu lado, e quando m e encolho para deitar, passa um braço por cim a de m im e m e puxa para perto.

— Se eu não tivesse conhecido você — ele diz, olhando nos m eus olhos, a centím etros dos dele —, nunca ia fazer isso. Se você não estivesse aqui com igo agora, eu não ia querer. Ia achar um desperdício de dinheiro e de tem po que só daria um a falsa esperança pra m inha fam ília, atrasando o inevitável.

— Mas você vai deixar que eles te operem — digo, desconfiada, em bora sej a m ais um a pergunta.

Ele roça m inha bochecha com o polegar.

— Eu faço qualquer coisa por você, Cam ry n Bennett. Não im porta o que sej a, não im porta... peça o que quiser que eu faço. Sem exceções.

Soluços sacodem m eu peito.

Antes que eu possa dizer m ais nada, Andrew passa a m ão no m eu rosto, afastando o m eu cabelo. Ele m e olha profundam ente nos olhos.

— Eu vou deixar.

Esm ago m inha boca sobre a dele e nos beij am os febrilm ente.

— Não posso te perder — digo. — A gente tem a estrada à nossa frente. Você é m eu parceiro no crim e. — Forço um sorriso em m eio às m inhas lágrim as.

Ele beij a a m inha testa.

Ficam os deitados j untos por um tem pinho, falando da cirurgia e dos exam es que ainda precisam ser feitos, e eu digo que não vou sair do lado dele. Vou ficar ali com ele pelo tem po que for preciso. E ficam os falando e falando dos lugares que querem os visitar, e ele com eça a lem brar canções que quer que eu aprenda para poderm os cantá-las j untos na estrada. Nunca estive tão disposta a cantar com ele quanto estou agora. Eu toparia enfrentar Celine Dion ou um a cantora de ópera — não m e im porta. Eu toparia. O público todo com certeza sairia correndo e gritando, m as eu toparia. Um a enferm eira vem ver com o ele está, e Andrew recupera um pouco de sua personalidade brincalhona e m exe com ela, dizendo que ela podia se deitar conosco se quisesse fazer algo a três.

A enferm eira apenas sorriu, revirando os olhos, e continuou com seu trabalho. Ela se sentiu bonita e poderosa, e era só isso que ele queria.

Por um m om ento, enquanto estou deitada naquela cam a com Andrew, é com o quando estávam os na estrada. Não pensam os em doença ou m orte e não choram os. Só conversam os e rim os e de vez em quando ele tenta m e tocar em todos os lugares certos.

Eu dou risadinhas e afasto suas m ãos, pois sinto que estou fazendo algo errado. Que ele deveria estar descansando.

Finalm ente, eu cedo e deixo. Porque ele é persistente. E, claro, irresistível. Deixo que ele m e toque por baixo do cobertor, e depois faço o m esm o por ele com a m ão.

Depois de m ais um a hora, m e levanto da cam a.

— Gata, qual o problem a?

— Problem a nenhum — digo sorrindo, e então tiro a calça e a cam iseta.

Ele está sorrindo de orelha a orelha. Eu sabia que as engrenagens pervertidas da cabeça dele com eçariam a rodar antes de qualquer coisa.

— Por m ais que eu fosse adorar transar com você num quarto de hospital — digo, voltando a m e deitar —, isso não vai acontecer; você vai precisar de todas as suas forças pra cirurgia. — Eu transaria com ele nessa cam a num a boa, m as no m om ento não estou pensando em sexo.

Andrew m e olha, curioso, quando m e deito novam ente ao lado dele só de calcinha e sutiã e m e aninho em seu corpo, com o antes. Por baixo do cobertor, ele só está usando um a calça fina do hospital. Aperto bem o m eu peito contra o seu e enrosco m inhas pernas nas dele. Nossos corpos estão perfeitam ente alinhados, nossas costelas se tocando.

— O que você vai fazer? — ele pergunta, ficando m ais curioso e im paciente, m as adorando cada segundo.

Eu m exo m eu braço livre e traço sua tatuagem de Eurídice com os dedos. Ele observa com atenção. E quando m eu dedo indicador encontra o cotovelo de Eurídice, onde a tinta term ina, eu o passo na m inha pele para continuar o desenho.

— Quero ser tua Eurídice, se você deixar.

Seu rosto se ilum ina e suas covinhas ficam m ais fundas.

— Quero fazer a outra m etade — continuo, tocando seus lábios com m eus dedos, agora. — Quero desenhar Orfeu nas m inhas costelas e reunir os dois.

Ele está em choque. Posso ver isso nos seus olhos brilhantes.

— Am or, não precisa fazer isso; nas costelas dói pra cacete.

— Mas eu quero fazer, e não m e im porta quanto vai doer.

Seus olhos ficam cheios d’água quando ele olha para m im , e então sua boca cobre a m inha e nossas línguas dançam j untas por um longo m om ento cheio de am or.

— Eu adoraria isso — ele sussurra nos m eus lábios.

Eu o beij o de leve e sussurro em resposta:

— Depois da cirurgia, quando você estiver bem o suficiente, a gente vai.

Ele balança a cabeça.

— É, Gus vai precisar m esm o que eu estej a lá pra alinhar a tua tatuagem com a m inha; ele riu da m inha cara quando m andei fazer esta.

Eu sorrio.

— Riu, é?

— Sim . — Andrew dá um a risadinha. — Me acusou de ser um rom ântico incurável e am eaçou contar pros m eus am igos. Respondi que ele era igualzinho ao m eu pai e m andei calar a boca. Gus é um cara legal, e um trem endo tatuador.

— Tô vendo.

Andrew passa os dedos no m eu cabelo, sem pre penteando-o para trás. E enquanto m e olha, exam inando m eu rosto, m e pergunto o que está passando pela sua cabeça. Seu sorriso lindo desapareceu, e ele parece m ais concentrado e cauteloso.

— Cam ry n, quero que você estej a preparada.

— Não com eça...

— Não, am or, você precisa fazer isso por m im — ele diz, com preocupação no olhar. — Você não pode ter 100% de certeza de que vou sobreviver. Não pode fazer isso.

— Andrew, por favor. Para.

Ele põe quatro dedos sobre m eus lábios, m e calando. Já estou chorando de novo. Ele está tentando ser o m ais suave possível com a verdade, contendo suas próprias lágrim as e em oções até m elhor do que eu consigo. É ele que pode m orrer, e sou eu que estou sem forças. Isso m e deixa furiosa, m as não posso fazer nada além de chorar e ficar puta com igo m esm a.

— Só m e prom ete que vai continuar dizendo a si m esm a que eu posso m orrer.

— Não posso pensar um a coisa dessas!

Ele m e abraça m ais forte.

— Prom ete.

Cerro os dentes, sentindo m eu m axilar rangendo dentro das bochechas. Meu nariz e m eus olhos ardem e queim am .

Finalm ente digo:

— ... Prom eto — e isso esm aga m eu coração. — Mas você precisa m e prom eter que vai sair dessa — digo, apertando a cabeça sob o queixo dele de novo. — Não consigo ficar sem você, Andrew. Você deve saber que não consigo.

— Eu sei, m eu am or... eu sei.

Silêncio.

— Você canta pra m im ? — ele pergunta.

— O que você quer que eu cante?

— Dust in the Wind — ele responde.

— Não. Não vou cantar essa m úsica. Nunca m ais m e peça isso. Nunca.

Seus braços se apertam ao m eu redor.

— Então canta qualquer um a — ele sussurra —, só quero ouvir tua voz.

E assim , com eço a cantar Poison & Wine, a m esm a que cantam os j untos em Nova Orleans quando ficam os deitados nos braços um do outro naquela noite. Ele canta com igo algum as estrofes, m as posso ver o quanto está fraco por dentro, porque m al consegue alcançar as notas.

Adorm ecem os nos braços um do outro.

— Preciso fazer uns exam es — ouço um a voz dizendo acim a da cam a.

Abro os olhos e vej o a enferm eira do sexo a três parada ao lado da cam a.

Andrew tam bém acorda.

Já é de tardinha, e posso ver pela j anela que vai escurecer logo.

— É m elhor você se vestir — diz a enferm eira, com um sorriso com preensivo.

Ela deve achar que Andrew e eu fizem os de tudo aqui em algum m om ento, considerando que estou sem inua.

Saio da cam a e m e visto enquanto a enferm eira verifica os sinais de Andrew e parece prepará-lo para sair do quarto com ela. Há um a cadeira de rodas perto do pé da cam a.

— Que tipo de exam es? — Andrew pergunta com voz fraca.

A fraqueza da sua voz m e faz olhar. Ele não parece bem . Parece... desorientado.

— Andrew? — Volto para perto da cam a.

Cautelosam ente, ele levanta um a m ão para m e afastar.

— Não, am or. Tô bem , só um pouco zonzo. Tentando acordar.

A enferm eira m e olha, e em bora elas sej am treinadas para parecer calm as e não deixar transparecer suas verdadeiras preocupações no rosto, posso ver nos seus olhos: ela sabe que algum a coisa não está certa.

Ela força um sorriso e dá a volta para aj udá-lo a se sentar, tirando o soro do cam inho.

— Vou levá-lo por um a ou duas horas, talvez m ais, pra fazer uns exam es — ela diz. — É m elhor você ir com er algum a coisa, esticar as pernas e voltar depois.

— Mas eu-eu não quero sair de perto dele.

— Faz o que ela tá dizendo — Andrew balbucia, e quanto m ais o ouço tentando falar, m ais m edo sinto. — Quero que você vá com er. — Ele consegue virar a cabeça para m e olhar, desta vez, e aponta um dedo, sério. — Mas nada de filé — exige, brincando. — Você ainda m e deve um j antar, lem bra? Quando eu sair daqui, é a prim eira coisa que a gente vai fazer.

Ele consegue um sorriso de m im , com o pretendia, m as é tênue.

— Tá — concordo, balançando a cabeça com relutância. — Volto daqui a algum as horas e te espero.

Vou para perto dele e o beij o. Ele m e olha profundam ente nos olhos quando m e afasto. Só consigo ver dor em seus olhos. Dor e exaustão. Mas ele tenta ser forte, e um sorrisinho puxa um canto de sua boca. Ele se senta na cadeira de rodas e m e olha um a vez, antes que a enferm eira o em purre para fora do quarto.

Minha respiração fica presa.

Sinto que quero gritar para ele que o am o, m as não digo nada. Eu o am o com todas as forças, m as lá no fundo sinto que, se eu disser isso, se finalm ente adm itir isso em voz alta, tudo vai desm oronar. Talvez, se eu m antiver isso dentro de m im , se nunca disser essas palavras, nossa história nunca term ine. Dizer aquelas três palavras pode ser um início, m as para m im e Andrew, tem o que sej a o fim .