Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 22 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Talvez Possa Dar Certo com Cam ry…

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TALVEZ POSSA DAR CERTO com Cam ry n. Por que preciso m e torturar e m e privar do que m ais quero, quando este deveria ser o m om ento em que conquistei o direito de ter tudo o que desej ar? Talvez as coisas m udem e ela não sofra. Posso procurar Marsters de novo.

E se eu abrir m ão dela e nunca m ais a vir, e aí Marsters perceber que fez m erda?

Porra! Meras desculpas.

Cam ry n e eu vam os a m ais dois bares no Bairro Francês e ela consegue passar por m aior de 21 anos nos dois. Só em um pediram a identidade, e acho que com o o aniversário dela é em dezem bro, a garçonete resolveu deixar quieto.

Mas agora ela está bêbada e não sei se vai conseguir andar até o hotel.

— Vou cham ar um táxi — decido, sustentando-a ao m eu lado na calçada.

Casais e grupos de pessoas entram e saem do bar atrás de nós, alguns cam baleando da porta.

Estou com o braço firm e ao redor da cintura de Cam ry n. Ela levanta a m ão e segura m eu om bro pela frente; m al consegue m anter a cabeça erguida.

— Acho que um táxi é boa ideia — ela concorda, com olhos pesados.

Ela vai desm aiar ou vom itar logo. Só torço para que consiga esperar até voltarm os para o hotel.

O táxi nos deixa na frente do hotel e eu a aj udo a se levantar do banco de trás, e acabo carregando-a, porque ela m al consegue andar sozinha m ais. Eu a levo até o elevador com as pernas por cim a de um braço e a cabeça encostada no m eu peito. As pessoas estão olhando.

— Noite divertida? — Um hom em pergunta no elevador.

— É — respondo, balançando a cabeça —, nem todo m undo aguenta beber.

A sineta do elevador toca e o hom em sai depois que as portas se abrem . Mais dois andares e eu a carrego para os nossos quartos.

— Cadê a tua chave, gata?

— Na m inha bolsa — ela diz fracam ente.

Pelo m enos está falando coisa com coisa.

Sem colocá-la no chão, puxo a bolsa do braço dela e a abro. Norm alm ente, eu faria um a piadinha sobre as tranqueiras que ela carrega e perguntaria se algum a coisa ali dentro vai m e m order, m as sei que Cam ry n não está para brincadeiras. Está péssim a.

A noite vai ser longa.

A porta se fecha atrás de nós e eu a carrego até a cam a e a deito ali.

— Tô m e sentindo um a m erda — ela gem e.

— Eu sei, gata. Precisa dorm ir pra passar.

Tiro suas sandálias e deixo no chão.

— Acho que eu vou... — Ela põe a cabeça para fora da beirada da cam a e com eça a vom itar.

Estico o braço, pego a lata de lixo encostada no criado-m udo e consigo aparar a m aior parte, m as pelo j eito a arrum adeira vai ficar puta am anhã. Cam ry n vom ita tudo o que tinha no estôm ago, o que m e surpreende, porque com eu pouco hoj e. Ela para e deita a cabeça no travesseiro. Lágrim as causadas pela regurgitação escorrem dos cantos dos seus olhos. Ela tenta olhar para m im , m as sei que está zonza dem ais para enxergar.

— Tá tão quente aqui — balbucia.

— Tá — digo, e m e levanto para ligar o ar-condicionado no m áxim o. Depois vou para o banheiro, m olho um pano na água fria e torço. Volto para o quarto e m e sento ao lado dela na cam a, passando o pano em seu rosto.

— Desculpa — ela m urm ura. — Eu devia ter parado depois daquela vodca. Agora você tá lim pando m eu vôm ito.

Lim po um pouco m ais suas bochechas e a testa, afastando os fios soltos de cabelo grudados em seu rosto, e depois passo o pano úm ido na sua boca.

— Nada de desculpas — digo —, você se divertiu, e só isso im porta. — Sorrindo, acrescento: — Além disso, agora posso m e aproveitar com pletam ente de você.

Cam ry n tenta sorrir e bater no m eu braço, m as está fraca dem ais até para isso. Seu quase sorriso se transform a num a careta de angústia, e o suor aparece instantaneam ente em sua testa.

— Oh, não. — Ela levanta o corpo da cam a. — Preciso ir pro banheiro — diz, se segurando em m im para tentar se levantar, por isso a aj udo.

Eu a levo até o banheiro, onde ela praticam ente se j oga sobre a privada, segurando a porcelana com as duas m ãos. Suas costas se arqueiam para cim a e para baixo e ela com eça a regurgitar a seco e chorar m ais.

— Você devia ter com ido aquele filé com igo, gata. — Fico de pé atrás dela, segurando suas tranças para que não sej am atingidas pelo bom bardeio, e m antenho o pano úm ido apertado contra a sua nuca. Sofro por ela, vendo seu corpo se agitar violentam ente assim , sem botar para fora quase nada. Sei que a garganta, peito e estôm ago dela vão doer depois disso.

Quando term ina, Cam ry n se deita no piso frio.

Tento aj udá-la a levantar, m as ela protesta fracam ente.

— Não, por favor... quero ficar deitada aqui; o chão tá fresquinho.

Seu fôlego está curto, e sua pele levem ente bronzeada está pálida e doentia com o a de um paciente de pneum onia. Pego um pano lim po, m olho e continuo lim pando seu rosto, pescoço e om bros nus. Depois abro sua calça e a tiro cuidadosam ente, aliviando a barriga e as pernas da pressão do j eans apertado.

— Calm a, não vou te m olestar — digo em tom de brincadeira, m as desta vez ela não responde.

Ela praticam ente desm aia deitada de lado, com o rosto encostado no chão.

Sei que se eu a carregar agora, ela provavelm ente vai acordar e ter ânsia de novo, m as não quero deixá-la assim , deitada perto da privada. Por isso m e deito ao lado dela e passo o pano em sua testa, braços e om bros por horas, até que finalm ente adorm eço com ela.

Nunca pensei que um dia eu dorm iria intencionalm ente no chão de um banheiro ao lado de um a privada, sóbrio, m as falei sério quando disse que dorm iria com ela em qualquer lugar.

CAMRYN

A PORTA DO MEU quarto se abre. A luz do sol brilha através de um a fina abertura na cortina, do outro lado da cam a. Me encolho com o um a vam pira, apertando os olhos e virando o rosto. Levo um segundo para perceber que estou deitada na cam a usando o top sem alças da noite passada e m inha calcinha violeta. A cam a foi despida de tudo, a não ser o lençol no qual estou deitada e o lençol de cim a, que parece ter sido lavado recentem ente. Acho que vom itei no outro; Andrew deve ter pegado este com a arrum adeira.

— Tá se sentindo m elhor? — Andrew pergunta, entrando no quarto com um balde de gelo num a m ão e um a pilha de copos descartáveis e um a garrafa de Sprite na outra.

Ele se senta ao m eu lado e deixa as coisas sobre o criado-m udo, abrindo a Sprite.

Minha cabeça está latej ando e ainda sinto que posso vom itar a qualquer m om ento.

Odeio ficar de ressaca. Prefiro cair de bêbada e quebrar o nariz ou algo do tipo a enfrentar um a ressaca desta m agnitude. Já tive um a assim ; é tão ruim que não é m uito diferente de intoxicação por álcool. Ao m enos de acordo com Natalie, que j á teve um a vez e a descreveu com o “Satanás em pessoa cagando na tua cabeça na m anhã seguinte”.

— Nem um pouco — respondo finalm ente, e m inhas palavras desencadeiam um a dor na nuca e atrás das orelhas. Fecho os olhos com força quando com eço a ver tudo dobrado.

— Você tá péssim a, gata — Andrew diz, e então sinto um pano fresco passando no m eu pescoço.

— Pode fechar aquela cortina? Por favor?

Ele se levanta im ediatam ente e o ouço andando, e depois o som do tecido grosso sendo puxado para fechar a abertura. Encolho as pernas nuas até o peito, puxando tam bém o lençol para ficar parcialm ente coberta, e m e deito em posição fetal sobre a m aciez do travesseiro.

Andrew tira um copo descartável da em balagem e ouço o gelo estalando nele em seguida. Ele derram a Sprite sobre o gelo e aí o ouço abrindo um frasco de com prim idos.

— Tom a — ele diz, e sinto a cam a se m over quando ele se senta de novo e apoia o braço na m inha perna.

Abro os olhos lentam ente. Um canudo j á está no copo, para que eu não precise levantar dem ais a cabeça para tom ar um gole. Pego três com prim idos de Advil da palm a da m ão de Andrew e os coloco na boca, tom ando só Sprite suficiente para engoli-los.

— Por favor, m e diz que não fiz nem falei nada totalm ente hum ilhante nos bares ontem .

Só consigo olhar para ele com os olhos sem icerrados.

Percebo que ele sorri.

— Na verdade você fez, sim — Andrew diz, e m eu coração fica apertado. — Falou pra um cara que era casada com igo e feliz, e que a gente ia ter quatro filhos, ou talvez cinco, não lem bro; e depois um a m enina com eçou a m e paquerar e você levantou e com eçou a falar um m onte, arm ou o m aior barraco. Foi engraçadão.

Agora acho que vou vom itar m esm o.

— Andrew, é m elhor que você estej a m entindo; que vergonha!

Minha dor de cabeça piora. Eu não achava que pudesse piorar.

Eu o ouço rindo baixinho e abro um pouco m ais os olhos para ver seu rosto m ais claram ente.

— Tô m entindo, sim , gata. — Ele põe o pano úm ido na m inha testa. — Na verdade, até que você se com portou bem , m esm o no cam inho pra cá. — Noto que ele olha para o m eu corpo. — Desculpa, precisei tirar tua roupa; bom , pessoalm ente, gostei da oportunidade, m as foi senso de dever. Era necessário, sabe. — Ele finge estar sério agora, e não consigo deixar de sorrir.

Fecho os olhos e durm o m ais algum as horas, até que a arrum adeira bate à porta.

Eu queria saber se Andrew saiu de perto de m im por m uito tem po.

— Pode entrar, vou levá-la pro m eu quarto aqui ao lado pra senhora poder lim par.

Um a senhora com cabelo m al tingido de ruivo entra no quarto, usando uniform e de arrum adeira. Andrew se aproxim a da cam a.

— Vem , gata — diz, m e pegando no colo com o lençol ainda enrolado nas pernas —, vam os deixar a m oça lim par.

Acho que eu conseguiria andar sozinha, m as não vou reclam ar. Até que gosto de onde estou, no m om ento.

Quando passam os pela m inha bolsa, estendo a m ão para pegá-la e Andrew para, pega a bolsa para m im e a leva j unto. Encosto a cabeça no peito dele e passo os braços ao redor do seu pescoço.

Ele para na porta e olha para a arrum adeira.

— Desculpa pela suj eira perto da cam a. — Ele acena com a cabeça naquela direção, com um sorriso constrangido. — Vai ganhar um a boa gorj eta por isso.

Ele sai com igo e m e leva para o seu quarto.

A prim eira coisa que Andrew faz é fechar as cortinas, depois de m e deitar sobre o seu travesseiro.

— Espero que você estej a m elhor até à noite — diz, andando pelo quarto com o se estivesse procurando algum a coisa.

— O que tem à noite?

— Mais um bar — ele responde.

Ele acha o MP3 perto da espreguiçadeira ao lado da j anela e o coloca na m esinha da TV, ao lado da sua m ochila.

Solto um gem ido de protesto.

— Ah, não, Andrew, m e recuso a ir pra outro bar hoj e. Nunca m ais vou beber enquanto eu viver.

Vej o seu sorriso do outro lado do quarto.

— Todo m undo diz isso — ele declara. — E eu não te deixaria beber hoj e, nem se você quisesse. Precisa pelo m enos de um a noite entre ressacas, senão j á pode fazer sua inscrição nos Alcoólicos Anônim os.

— Bom , tom ara que eu m e sinta bem o suficiente pra fazer qualquer coisa além de ficar na cam a o dia todo, m as as perspectivas não parecem m uito boas, no m om ento.

— Tá, você precisa com er, isso é obrigatório. Por m ais que agora você provavelm ente fique enj oada só de pensar em com ida, se não com er nada, vai se sentir um a m erda o dia todo.

— Tem razão — digo, sentindo náuseas —, eu fico enj oada só de pensar.

— Ovos m exidos com torradas — ele diz, voltando para perto de m im —, algum a coisa leve, você j á sabe com o é.

— É, eu j á sei com o é — respondo com voz neutra, desej ando poder sim plesm ente estalar os dedos e m e sentir m elhor.