Entre o Agora e o Nunca
Quando Vejo a Revista de sacanagem atrás…
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QUANDO VEJO A REVISTA de sacanagem atrás da privada, guardada tão casualm ente com o se fosse um a revista de m otociclism o, não consigo deixar de rir para m im m esm a.
Fico m e perguntando brevem ente se existe algum hom em no m undo que não usa pornografia, e então percebo com o a pergunta é idiota. Eu não posso falar nada; j á vi m inha cota de vídeos pornôs na internet.
Tom o um banho dem orado e quente, m e enxugo com a toalha de praia que Andrew m e deu e m e visto.
Não gosto daqui. Do apartam ento dele. Do Texas.
Em qualquer outra época e em outras circunstâncias, seria diferente, m as o que eu disse a ele naquela noite, quando param os na beira da estrada, continua sendo verdade.
Este lugar, tudo nele parece o fim . A m agia do nosso tem po j untos na estrada literalm ente quase evaporou com a chuva da sem ana passada. Não nossos sentim entos um pelo outro... não, eles são tão fortes que pensar no fim , de qualquer form a que sej a, está m e deixando m etaforicam ente de j oelhos. O que sentim os um pelo outro é... bem , é tudo o que nos resta. A estrada à nossa frente se foi. As paradas espontâneas, às vezes sem saber onde estam os, m as se lixando pra isso, se foram . Os m otéis e as pequenas coisas com o carne-seca, óleo Johnson’s e banho de espum a, tudo isso se foi. A trilha sonora do nosso tem po j untos, da nossa curta vida j untos, silenciou com o fim da últim a faixa do disco. Agora só consigo ouvir a vibração suave do silêncio saindo dos alto-falantes. Sinto que tudo o que quero é estender a m ão e tocar tudo de novo, m as m inha m ão não se m ove para apertar o botão.
E eu não consigo entender por quê.
Enxugo a lágrim a do m eu rosto, em purro m inhas em oções para os pulm ões e as prendo ali, respirando fundo, antes de abrir a porta do banheiro.
Ouço Andrew falando ao telefone quando passo pela sala de j antar: — Não fode com igo, Aidan. Não tô com saco pra essa m erda. É, e daí? Quem é você pra m e dizer o que fazer da m inha vida? Quê? Dá um tem po, m ano; ir a um enterro não é obrigatório. Por m im , prefiro nunca m ais ir a nenhum , a não ser que sej a o m eu. Não sei pra que serve um funeral, aliás; ir ver alguém que você gosta deitado num a porra dum a caixa, com pletam ente sem vida. Prefiro que a últim a vez que eu vej a alguém sej a ainda com vida. Não m e vem com essa, Aidan! Você sabe que é babaquice!
Não quero ficar num canto com o se estivesse bisbilhotando, m as tam bém não parece exatam ente adequado entrar lá ainda.
Entro assim m esm o. Ele está ficando bravo dem ais, só quero acalm á-lo. Assim que ele m e vê, baixa o tom zangado com Aidan e levanta as costas do sofá.
— Olha, preciso desligar — ele diz. — Já, j á liguei pra m am ãe. Sim . Tá, tudo bem , entendi. Até.
Ele desliga o celular e o deixa na m esa de carvalho de centro, ao lado de seu pé descalço.
Eu m e sento ao lado dele na outra alm ofada.
— Desculpa por isso — ele diz, dando tapinhas na m inha coxa e depois passando a m ão nela. — Ele nunca m ais vai m e deixar em paz.
Eu m e aproxim o, m e sento no colo de Andrew e ele m e puxa para seu peito, com o se eu fosse o que ele precisa para se acalm ar. Abraço o seu pescoço, cruzando os dedos ao redor do seu om bro. Me curvando, beij o o canto de sua boca.
— Cam ry n. — Ele m e olha nos olhos. — Escuta, tam bém não quero que isto sej a o fim — ele diz, com o se tivesse lido m eus pensam entos enquanto eu estava no banheiro, m om entos atrás.
De repente, Andrew m e levanta e m e faz sentar reta no seu colo, de frente para ele, com um a perna de cada lado e os j oelhos dobrados no sofá. Ele pega m inhas m ãos com as suas e m e olha com seriedade e intensidade nos olhos.
— E se a gente... — Ele desvia o olhar, ponderando profundam ente suas palavras, m as eu gostaria de saber se é porque ele quer dizer do j eito certo, ou talvez para não dizer nada.
— E se a gente o quê? — Tento m otivá-lo. Não quero que ele recue, não im porta o que sej a; quero que ele diga. Sinto um sopro renovado de esperança e não aguento deixar que passe. — Andrew?
Seus olhos verdes e intensos param sobre os m eus quando m inha voz o traz de volta ao m om ento.
— E se a gente fosse em bora j untos? — ele diz, e m eu coração com eça a bater m ais forte. — Não quero ficar aqui. E não tô dizendo isso por causa do m eu pai ou do m eu irm ão. Nada disso tem a ver com o que eu tô sentindo. Agora. Aqui com você. Com o que senti todo esse tem po, desde o dia em que te vi sentada sozinha naquele ônibus no Kansas. — Ele aperta m ais a m inha m ão. — Sei que você perdeu teu parceiro no crim e, m as... quero que você sej a a m inha parceira. Talvez a gente devesse viaj ar j untos pelo m undo, Cam ry n... Sei que não posso substituir teu ex...
Lágrim as correm dos m eus olhos.
Andrew interpreta isso m al. Sua m ão solta a m inha, e de repente ele não consegue m ais olhar para m im . Pego o seu rosto em m inhas m ãos, forçando seu olhar torturado.
— Andrew... — balanço a cabeça, com lágrim as escorrendo pelo rosto — ... sem pre foi você — sussurro com voz rouca. — Mesm o com Ian, eu sentia que faltava algum a coisa.
Te falei naquela noite no pasto; te falei que... — Minha voz som e. Sorrio e digo: — Você é m eu parceiro no crim e. Já sei disso há m uito tem po.
Beij o seus lábios.
— Não consigo pensar em nada neste m undo que eu queira m ais do que conhecer o m undo com você. Nosso lugar é na estrada. Juntos. É onde quero estar.
Seus olhos estão rasos d’água, m as ele deixa seu sorriso lum inoso afastar as lágrim as antes que caiam . E então esm aga m inha boca com a sua, os dois segurando o rosto um do outro com as m ãos. Seu beij o tira o m eu fôlego, m as eu só o beij o m ais, bebendo o m áxim o possível de seu hálito. E sem deixar de m e beij ar, suas m ãos soltam m eu rosto e ele aperta m eu corpo, m e colocando de pé com ele.
— Você precisa conhecer m inha m ãe hoj e — ele diz, exam inando m eu rosto, olhando profundam ente nos m eus olhos.
Enxugo o resto das m inhas lágrim as, fungando, e balanço a cabeça.
— Vou adorar conhecer tua m ãe.
— Ótim o — ele diz, afastando-m e do seu peito e m e pondo no chão. — Vou tom ar banho, vam os fazer um as coisas na cidade e depois visitá-la quando ela voltar do trabalho.
— Tá — concordo, sem tirar o sorriso do rosto.
Não conseguiria tirá-lo nem tentando.
Ele m e olha por um longo m om ento, com o se não quisesse se separar de m im nem o tem po de tom ar banho, seus olhos sorridentes tão radiantes com o os vi naquela noite depois da nossa apresentação no Old Point. Seu rosto transm ite todo tipo de coisa que alguém que está incrivelm ente feliz pode querer dizer, m as ele não diz nada.
Não precisa dizer.
Andrew finalm ente sai do quarto para tom ar banho e eu vou ver m inhas m ensagens de texto. Mam ãe ligou, finalm ente. Deixou um a m ensagem na caixa postal, contando tudo sobre seu cruzeiro nas Baham as, que acabou durando oito dias. Parece que ela está gostando de verdade desse Roger. Talvez eu precise passar em casa e ficar tem po suficiente para testar a personalidade dele no m eu radar antibabacas, verificar se ele não cegou m inha m ãe com algo que disfarça os sinais de alerta: m ais dinheiro que m eu pai, um corpo m ais sexy que o de Andrew — bom , isso não é m uito provável — ou o tam anho do... Não sei ao certo com o vou descobrir isso, a não ser perguntando diretam ente pra m inha m ãe. Não vai rolar.
Meu pai tam bém ligou. Disse que vai pra Grécia daqui a um m ês em viagem de negócios e perguntou se quero ir com ele. Eu adoraria, m as sinto m uito, papai, se eu for pra Grécia em algum m om ento do ano que vem , vai ser com Andrew. Sem pre fui a m enina do papai, m as todos precisam crescer um dia, e agora... agora sou a m enina do Andrew.
Afasto essas fantasias do m eu cérebro e volto a verificar as m ensagens. Natalie finalm ente ligou, em vez de ficar m ordendo a língua, m andando m ensagens. Sei que a esta altura ela está m ais do que m aluca para saber o que ando fazendo e com quem estou. Talvez eu j á a tenha torturado o suficiente.
Hum ... posso dar um aperitivo a ela.
Um sorriso m aldoso se abre no m eu rosto. Um aperitivo pode ser um a tortura ainda m aior, m as é m elhor do que nada.
Quando Andrew sai do chuveiro, andando pelo apartam ento com um a toalha úm ida no pescoço, eu o cham o na sala de estar. Ele fica ali, sem cam isa: a coisa m ais sexy que j á vi na vida, com água escorrendo pelo seu tanquinho bronzeado. Quero lam bê-lo, m as m e contenho pelo bem de Natalie.
— Am or, vem cá — digo, cham ando com um dedo —, quero m andar um a foto de nós dois pra Natalie. Ela tá m e perguntando de você desde Nova Orleans, m as ainda não falei nada pra ela, nem o teu nom e. Ela deixou um a m ensagem na caixa postal. — Com eço a apertar teclas no m eu celular.
Ele ri, enxugando a nuca com a toalha.
— O que ela disse?
— Tá a ponto de explodir, praticam ente. Quero m exer com a cabecinha dela.
As covinhas de Andrew ficam m ais fundas.
— Dem orou, eu tô dentro. — Ele desaba no sofá e m e puxa j unto.
Tiro algum as fotos de nós dois: um a com os dois só olhando para a câm era, outra dele m e dando um beij o estalado na bochecha e outra dele olhando para a câm era, sedutor, com a língua saindo do canto da boca, lam bendo o m eu rosto.
— Esta ficou perfeita — digo, escolhendo a terceira foto, em polgada. — Ela vai surtar.
Prepare-se; o Texas pode ser atingido pelo Furacão Natalie quando ela receber esta foto.
Andrew ri e m e deixa no sofá, m exendo no celular.
— Vou ficar pronto daqui a uns m inutos — ele diz, saindo da sala.
Anexo a foto à m ensagem e digito:
Aqui estam os, Nat, em Galveston, Texas : – )
E então aperto send. Ouço Andrew zanzando pelo apartam ento. Com eço a m e levantar para espiá-lo quando, m enos de um m inuto depois que m andei a foto, Natalie m e responde:
PQP! Vc tah dorm indo com Kellan Lutz?!?!!!!?
Caio na risada. Andrew aparece no canto, infelizm ente vestindo um a cam isa desta vez, prendendo a parte da frente no cinto. E ele j á trocou a berm uda por um j eans.
— Quê? Ela j á respondeu? — Ele parece achar certa graça.
— Já — digo, ainda rindo —, eu sabia que não ia dem orar.
Mais m ensagens com eçam a aparecer em sequência rápida, com o se um a m áquina as estivesse disparando na outra ponta:
Cam , PQP, ele é um FILÉ, cacete! Que porra???
Me liga. Tipo JÁ!!!!!!!!!!
CAMNRYN MARTYBETH BENNETT! É m elhor tu m e ligar!!
Tô m ordendo aqui!!!
Eu quis dizer MORDENDO
GRRR!!!!!
PORRA DE CORRETOR ORTOGRÁFICO! Odeio esta bosta de celular.
MORRENDO, não m ordendo!!
Não consigo parar de sorrir. Andrew aparece atrás de m im e tira o celular da m inha m ão.
Ele ri lendo as tontices dela.
— Essa garota é alfabetizada? — ele pergunta. — Quem é Kellan Lutz, cacete? Ele é feio? — Andrew m e olha com um a ponta de m edo nos olhos.
Não... hãã, pra feio ele não serve.
— É só um ator — tento explicar. — E não, não é. Nem esquenta, Natalie sem pre, m as sem pre com para todo m undo com algum fam oso, geralm ente exagerando m uito. — Pego o celular de volta enquanto ele está parcialm ente absorto pela m inha explicação e o deixo no sofá. — Nós duas fom os colegas de Shay Mitchell e Hay den Panettiere, Megan Fox foi a rainha do baile, e Chris Hem sworth, o rei. — Estalo a língua. — E tinha a arqui-inim iga de Natalie, um a líder de torcida que tentou roubar Dam on dela no colegial; Natalie dizia que ela era a versão vadia de Nina Dobrev; nenhum deles se parecia m uito com nenhum desses fam osos, não m uito, pelo m enos. Natalie é... esquisita.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Bom , ela é um a figura, j á deu pra ver.
Ainda ouvindo m eu celular vibrando sobre o sofá, eu o ignoro e ando até Andrew, passando os braços em sua cintura.
— Tem certeza que quer fazer isso com igo?
Ele m e olha nos olhos, pondo suas m ãos nas m inhas bochechas.
— Nunca tive m ais certeza de algum a coisa na m inha vida, Cam ry n.
E então ele com eça a andar de um lado para outro.
— Sem pre senti um ... um ... — Seus olhos estão intensos, concentrados — ... um buraco... tipo, não era um buraco vazio, sem pre tinha algum a coisa dentro dele, m as nunca era a coisa certa. Nunca se encaixava. Fiz faculdade por um tem po, até que um dia falei pra m im m esm o: Andrew, que porra você tá fazendo aqui? E aí caiu a ficha: eu não estava lá porque era o que eu queria, estava lá porque era o que as pessoas esperavam , até pessoas que não conheço, a sociedade. É o que as pessoas fazem . Elas crescem , vão pra faculdade, arrum am um em prego e fazem a m esm a coisa todo dia pelo resto da vida, até que ficam velhas e m orrem , com o você explicou naquela noite, quando m e contou teus planos com teu ex. — Ele m ove a m ão direita com o se estivesse dando um tapa no ar. — A m aioria das pessoas nunca vê nada além do lugar onde cresceu. — Ele está andando m ais rápido, parando de vez em quando para enfatizar um a palavra ou um a ideia im portante. Mal olha para m im ; parece estar dizendo essas coisas m ais para si próprio, com o se um rio de respostas que ele procurou a vida toda estivesse finalm ente inundando sua m ente, e ele estivesse tentando absorver todas de um a vez. — Nunca fiquei feliz fazendo nada...
Finalm ente, ele olha para m im .
— E aí conheci você... e foi com o se algum a coisa disparasse na m inha cabeça, ou acordasse, n-não sei, m as... — Ele para na m inha frente de novo. Quero chorar, m as não choro. — Mas eu sabia que, fosse o que fosse, era o certo. Encaixava. Você se encaixa.
Fico na ponta dos pés e beij o seus lábios. Há tantas coisas que quero dizer, m as estou esm agada por todas elas e não consigo escolher.
— Acho que preciso fazer a m esm a pergunta pra você — ele diz. — Tem certeza que você quer fazer isso?
Meus olhos sorriem para ele com ternura.
— Andrew, isso não é nem um a pergunta — respondo. — Sim !
Andrew abre um sorriso tão brilhante para m im que seus olhos verdes diabolicam ente sexy cintilam .
— Então é oficial — ele diz —, vam os partir am anhã. Tenho um dinheiro no banco que vai dar pra gente se virar por uns tem pos.
Balanço a cabeça, sorrio e digo:
— O dinheiro que tenho no banco não foi ganho com o m eu trabalho, e por causa disso sem pre gastei com m oderação, m as pra fazer isso vou usar cada centavo, e quando ele acabar...
— Antes que o nosso dinheiro fique perto de acabar — ele interrom pe —, a gente vai trabalhar na estrada, com o você falou antes. Podem os tocar em clubes, bares e feiras-livres. — Ele ri alto com a ideia, m as está falando sério. — E a gente pode até trabalhar em bares e restaurantes, cozinhando, lavando louça e servindo m esas e... sei lá, m as vam os pensar em algum a coisa.
Tudo parece um sonho louco que fugiu do controle, m as nenhum dos dois se im porta.
Estam os vivendo o m om ento.
— É, trabalhar antes que o dinheiro acabe é um plano m elhor, com certeza — concordo, ficando verm elha. — Não quero virar m endiga, dorm ir atrás de caçam bas de lixo ou ficar parada num a esquina com um a plaquinha dizendo: Trabalho em Troca de Com ida.
Andrew ri e aperta m eus om bros com as m ãos.
— Não, a gente nunca vai chegar a esse ponto. Vam os trabalhar sem pre, m as não por m uito tem po num lugar só, e nunca fazendo a m esm a coisa toda vez.
Olho nos seus olhos por um m om ento e passo os braços no seu pescoço, beij ando-o apaixonadam ente.
Então ele pega a chave.
— Vem — diz, j ogando a cabeça para trás e estendendo a m ão para m im . Eu a seguro.
— Vam os com eçar pelo princípio: preciso dar um a olhada na m inha m áquina. Ela deve estar sentindo a m inha falta!
Revistas de sacanagem e um carro tratado com o um a m ulher!
Balanço a cabeça, rindo baixinho, enquanto ele m e puxa para a porta. Pego m inha bolsa do chão e nós saím os.
35
NOSSA PRIMEIRA PARADA é o lugar onde Andrew deixou seu Cam aro 1969, e eu vej o m eu prim eiro texano estereotipado quando param os na oficina onde Andrew aparentem ente costum ava trabalhar.
— Cê sabe que eu te dem iti, né? — diz um hom em alto de chapéu e botas pretas de caubói, saindo para nos receber. Ele estava dentro da oficina, falando com outro hom em que tem m ais cara de m ecânico.
Ele aperta a m ão de Andrew e o puxa para um abraço de m acho, batendo em suas costas.
— Sei, sim — Andrew diz, batendo nas dele —, m as tive que fazer o que eu tinha que fazer.
Andrew se vira para m im .
— Billy , esta é m inha nam orada, Cam ry n. Cam ry n, este é m eu ex-chefe, Billy Frank.
Meu coração pulou quando ele m e cham ou de sua nam orada. Ouvir isso com certeza teve um efeito m aior sobre m im do que eu im aginava que poderia ter.
Billy estende um a m ão suj a de óleo e calej ada e eu a aperto sem hesitação.
— Prazer em conhecer você. — Sorrio.
Ele sorri tam bém ; seus dentes são tortos e am arelados, provavelm ente por m uitos anos de vício em café e cigarro.
— Mas que belezinha — Billy diz, sorrindo para Andrew. — Eu tam bém largava m eu em prego por um a garota assim . — Ele dá um soco am igável no braço de Andrew.
Voltando a m e olhar, ele pergunta: — Ele tá te tratando direito? Esse m oleque tem um a língua, que se ele m order m orre envenenado.
Rio baixinho e digo:
— É, a língua dele é fogo. Mas ele m e trata m aravilhosam ente.
Os olhos de Andrew sorriem para m im ao m eu lado.
— Bom , se ele te der trabalho, j á sabe onde m e encontrar. Ninguém aqui consegue botar esse cara nos eixos com o eu. — Ele sorri para Andrew.
— Obrigada, vou m e lem brar disso.
Deixam os Billy Frank, atravessam os a oficina e saím os por um a porta lateral que leva a um a área cercada onde ficam os carros. Sei im ediatam ente qual é o de Andrew, em bora j am ais o tenha visto, a não ser cam uflado no tronco da árvore da tatuagem dele.
É o m ais bonito de todos. Cinza-escuro com duas faixas pretas no m eio do capô. É bem parecido com o Chevelle do pai dele. Andam os por um labirinto de carros e ele abre a porta do m otorista, depois de verificar a lataria dos dois lados, da frente até a traseira.
— Se ela não estivesse precisando de alguns consertos quando decidi não ir de avião pra Wy om ing — Andrew diz, correndo os dedos pela porta —, eu teria ido dirigindo, em vez de pegar aquele ônibus.
— Bom , não quero falar m al da tua garota aqui — digo, sorrindo e dando tapinhas no capô —, m as fico feliz por ela não ter podido te levar.
Andrew m e olha com o rosto ilum inado, da m esm a form a que o vej o cada vez m ais todo dia.
— Tam bém fico feliz — ele diz.
Por um breve m om ento, penso onde nós dois estaríam os agora se isso tivesse acontecido, se nunca tivéssem os nos conhecido. Mas um m om ento breve j á é tem po dem ais, porque pensam entos assim m e em brulham o estôm ago. Não consigo im aginar não tê-lo conhecido. Nem quero.
— Então a gente vai nesse, não no Chevelle?
Andrew m orde a bochecha por dentro, pensativo. Ele fica na frente da porta aberta, com a palm a da m ão no teto do carro, dá um tapinha leve e olha para m im .
— O que você acha? O que você prefere, gata?
É m inha vez de m order a bochecha por dentro contem plativam ente. Eu não achava que seria eu a decidir. Chego m ais perto do carro e olho para dentro, verifico os bancos esportivos de couro e... bem , é a única coisa que verifico.
— Sinceram ente? — pergunto, cruzando os braços.
Ele balança a cabeça.
Olho para o Cam aro novam ente, ponderando a questão.
— Eu m eio que gosto do Chevelle — digo. — Adoro este carro, é m uito irado, m as acho que tô m ais acostum ada com o outro. — Para reforçar m eu argum ento, aponto para os bancos. — E com o vou deitar a cabeça no teu colo, ou dorm ir na frente, com bancos assim ?
Andrew sorri delicadam ente e acaricia o teto do carro, com o que para lhe garantir que não é nada pessoal. Ele dá m ais um tapinha e fecha a porta.
— Então a gente vai de Chevelle — diz. — Mais tarde venho buscar esta caranga e deixar em casa.
Andrew m e leva para com er fora e para alguns lugares variados que ele gosta de frequentar em Galveston Island. E então, depois do horário de pico, recebe um telefonem a da sua m ãe.
— Tô nervosa — digo do lado do passageiro, quando nos aproxim am os da casa dela.
Ele franze as sobrancelhas, m e olhando de alto a baixo, e diz: — Não precisa; m inha m ãe vai adorar você. — Ele volta a olhar para a estrada. — Ela não é um a daquelas peruas de nariz em pinado que acham que m ulher nenhum a serve pro filho delas.
— Que alívio.
— E até se fosse — ele diz, sorrindo para m im —, ia adorar você do m esm o j eito.
Dobro as m ãos no colo e sorrio. Não im porta; ele pode dizer quanto quiser que ela é um doce, não vai aj udar nada a acalm ar essa sensação nervosa no m eu estôm ago.
— Você vai contar pra ela? — pergunto.
Ele olha para m im .
— O que, que a gente vai em bora?
— É.
Ele balança a cabeça.
— Vou contar, senão ela vai se preocupar tanto com igo que vai precisar fazer terapia.
— O que você acha que ela vai dizer?
Andrew dá um a risadinha.
— Eu tô com 25 anos, gata. Moro sozinho desde os 19. Ela vai ficar bem .
— Bom , só tô falando... sabe... do m otivo de você ir em bora e do que a gente pretende fazer exatam ente. — Desvio o olhar para o para-brisa. — Não é com o fazer as m alas e se m udar pra outra cidade; até m inha m ãe aguentaria essa notícia. Mas se eu contasse pra ela que pretendo viaj ar pra todo lugar e que vou fazer isso com um cara que conheci num ônibus, provavelm ente ela ia ficar m eio bolada.
— Provavelm ente? — Andrew pergunta. — Tipo, se você contar?
Olho para ele.
— Não, eu vou contar, com certeza. Com o você, tam bém acho que ela precisa saber...
m as, Andrew, você entendeu o que eu quis dizer.
— Entendi, sim , gata — ele diz, dando seta para a esquerda e virando num sem áforo.
— E você tá certa; não é exatam ente norm al. — Então ele abre um sorrisão para m im , e isso instantaneam ente m e faz sorrir tam bém . — Mas esse não é um dos m otivos pra gente querer fazer isso? Porque não é norm al?
— É, sim .
— Claro que o m aior m otivo é quem vai m e acom panhar — ele acrescenta.
Eu fico verm elha.
Mais duas quadras de casas aconchegantes e suburbanas e calçadas brancas com crianças pedalando suas bicicletinhas e chegam os à entrada da casa da m ãe de Andrew.
É um a casa térrea, com um belo j ardim florido ao redor de toda a fachada, e dois arbustos verdej antes dos dois lados da calçada que vão até a porta. O Chevelle ronrona ao entrar, parando atrás de um carro de fam ília branco de quatro portas, estacionado dentro da garagem escancarada. Eu m e olho rapidam ente no retrovisor para m e certificar de que não estou com m eleca no nariz ou alface nos dentes, do sanduíche de frango que com i, e Andrew dá a volta e abre a porta para m im .
— Ah, saquei — brinco com ele. — Você só abre a porta do carro pra m im quando a m am ãe pode estar olhando.
Ele estende a m ão e faz um a reverência dram ática.
— Vou abrir a porta pra você de agora em diante, se você gosta dessas coisas, m ilady ... m as... — ponho m inha m ão na dele, sorrindo para o espetáculo — ... não pensei que você fosse desse tipo.
— Ah, é? — digo, com um sotaque britânico horrível, erguendo m ais o queixo. — E que tipo pensou que eu fosse, sr. Parrish?
Ele fecha a porta e passa o braço pelo m eu, m antendo as costas eretas e o queixo erguido.
— Pensei que você fosse do tipo que tá se lixando, contanto que a porta abra quando você quer sair.
Eu rio.
— Bom , você acertou — digo, e m e encosto no om bro dele enquanto vam os para a porta dentro da garagem .
A porta se abre para a cozinha e o cheiro de carne de panela. Eu penso: ela j á teve tem po pra fazer carne de panela? Mas então vej o a panela elétrica com tim er sobre o balcão. Andrew dá a volta no balcão com igo e entra na sala de estar, quando um a bela m ulher de cabelo grisalho surge de um corredor.
— Que bom que você chegou — ela diz, abraçando-o forte, praticam ente esm agando-o com seu corpinho. Andrew deve ser uns 8 centím etros m ais alto que ela. Mas vej o a quem ele puxou os olhos verdes e as covinhas.
Ela sorri para m im do j eito m ais acolhedor do m undo e, para m inha surpresa, m e abraça tam bém . Retribuo o abraço, apertando m eus braços na vertical nas costas dela.
— Você deve ser Cam ry n — ela diz. — Sinto que j á conheço você.
Isso m e parece estranho. Eu nem sabia que ela existia até hoj e. Olho disfarçadam ente para Andrew e seus lábios se curvam num sorriso furtivo. Acho que ele teve m uitas oportunidades de falar de m im enquanto estávam os na estrada, especialm ente antes de ficarm os no m esm o quarto, m as o que m ais m e surpreende é saber que ele falou tanto de m im para ela.
— Prazer em conhecê-la, senhora... — Arregalo os olhos quando m e viro para Andrew para inform á-lo que vou chutar sua canela m ais tarde, por ele não ter m e dito o nom e da m ãe dele antes. Aperto os lábios, furiosa, m as ele continua apenas sorrindo.
— Pode m e cham ar de Marna — ela diz, abaixando os braços e segurando m inhas m ãos. Ela levanta m inhas m ãos com as dela, sem pre m e olhando com aquele sorriso radiante. — Vocês j á j antaram ? — ela pergunta, olhando para Andrew e depois para m im .
— Sim , m ãe, a gente com eu algum a coisa m ais cedo.
— Ah, m as vocês precisam com er. Fiz carne de panela e um a caçarola de vagem . — Ela solta só um a das m inhas m ãos, m antendo a outra delicadam ente apertada na sua, e a sigo para outra sala, onde um a TV gigante está m ontada em cim a de um a lareira. — Podem sentar que vou fazer um prato pra vocês.
— Mãe, ela não tá com fom e, pode acreditar.
Andrew aparece atrás de nós.
Minha cabeça j á está rodando um pouco. Ela sabe de m im , aparentem ente o suficiente para sentir que j á m e conhece. É tão gentil e cheia de sorrisos com o se j á m e am asse.
Sem falar que segurou m inha m ão, não a de Andrew, para m e levar pela casa. Será que perdi algum a coisa, ou ela é a pessoa m ais doce e de personalidade m ais encantadora do planeta? Bem , sej a com o for, sinto o m esm o por ela.
Ela m e olha e inclina a cabeça para um lado, esperando que eu diga algo. Fico um pouco constrangida, porque não quero m agoá-la, e digo: — Obrigada pelo convite, m as acho que não consigo com er nada agora.
Seu sorriso se abranda.
— Bom , então que tal um a bebida?
— Perfeito; tem chá?
— Claro — ela diz. — Com açúcar, sem , sabor lim ão, pêssego, fram boesa?
— Só com açúcar está ótim o, obrigada.
Eu m e sento na alm ofada do m eio do sofá cor de vinho.
— Querido, você quer o quê?
— O m esm o de Cam ry n.
Andrew se senta ao m eu lado, e antes de sair e voltar para a cozinha, ela nos olha por um m om ento, sorrindo, com o se estivesse pensando algum a coisa em silêncio. E então desaparece.
Eu m e viro rapidam ente para Andrew e cochicho: — O que você falou de m im pra ela?
Andrew sorri.
— Nada de m ais — ele diz, tentando parecer casual, m as sem conseguir. — Só que conheci um a garota doce e inim aginavelm ente sexy , boca-suj a e que tem um a pintinha na parte de dentro da coxa esquerda.
Dou um tapa na perna dele. Seu sorriso só aum enta.
— Não, gata — ele diz, falando sério agora —, só falei pra ela que te conheci no ônibus e que a gente tá j unto desde então. — Ele passa a m ão na m inha coxa para m e reconfortar.
— Parece que ela gosta dem ais de m im pra você ter contado só isso.
Andrew dá discretam ente de om bros, e então sua m ãe volta para a sala com dois copos de chá. Ela os coloca à nossa frente na m esinha de centro. O vidro dos copos é decorado com pequenos girassóis am arelos.
— Obrigada — digo e tom o um gole, pousando o copo de volta delicadam ente. Procuro um descanso de copo sobre a m esinha para apoiá-lo, m as não há nenhum .
Ela se senta na poltrona que faz j ogo com o sofá à nossa frente.
— Andrew falou que você é da Carolina do Norte.
Ahan... foi só isso que ele contou, o caram ba! Posso sentir que ele está rindo por dentro; consigo até ouvir. Ele sabe que não posso fuzilá-lo com o olhar, nem lhe dar um tapão, nem fazer nada que norm alm ente eu faria. Apenas sorrio com o se ele não estivesse sentado ao m eu lado.
— Sim — respondo. — Nasci em New Bern, m as m orei quase a vida toda em Raleigh.
— Eu tom o outro gole.
Marna cruza as pernas e dobra as m ãos com anéis no colo. Suas j oias são sim ples, só dois aneizinhos em cada m ão, brincos pequenos de ouro e um colar com binando por cim a dos botões de sua blusa branca.
— Minha irm ã m ais velha m orou em Raleigh por 16 anos antes de voltar pro Texas, o estado de vocês é lindo.
Apenas concordo com a cabeça e sorrio. Acho que era um assunto só para quebrar o gelo, porque fica um silêncio em baraçoso no ar agora, e noto que ela olha m uitas vezes de relance para Andrew. E ele não diz nada. O silêncio está m e dando um a sensação estranha, com o se eu fosse a única pessoa presente que não sabe o que os outros estão pensando.
— Então, Cam ry n — Marna diz, tirando os olhos de Andrew —, aonde você estava indo quando conheceu Andrew?
Que legal; eu não esperava isso. Não quero m entir, m as a verdade não é exatam ente algo que possa ser m encionado casualm ente ao tom ar chá com alguém que você acaba de conhecer.
Andrew tom a um grande gole de chá e põe o copo sobre a m esa.
— Ela tava m ais ou m enos no m esm o barco que eu — ele responde por m im , e fico m uda com o choque. — Eu tava fazendo hora na estrada, Cam ry n tava a cam inho do nada, e por coincidência fom os parar no m esm o lugar.
Os olhos de Marna se ilum inam de curiosidade. Ela inclina o queixo para um lado, olha prim eiro para m im , depois de novo para Andrew, depois para nós dois. Há algo m eigo, m as m uito m isterioso em seu rosto, e não o ceticism o confuso que eu esperava.
— Bom , Cam ry n, quero que saiba que fico m uito feliz que vocês tenham se conhecido.
Parece que sua com panhia aj udou Andrew a enfrentar m om entos m uito difíceis.
Seu sorriso lum inoso perde um pouco o brilho depois desse com entário, e de soslaio percebo que Andrew a olha cautelosam ente. Pelo j eito ela j á falou o suficiente, ou talvez ele tem a que ela vá dizer algum a coisa constrangedora na m inha frente.
Me sentindo um pouco desconfortável por ser a única que obviam ente não tem todas as inform ações, forço um sorrisinho só para o benefício da m ãe de Andrew.
— Bem , a gente se aj udou m uito, pra ser sincera — digo, sorrindo m ais agora, porque estou dizendo a verdade.
Marna bate de leve nas coxas com as palm as das m ãos, abre um sorriso feliz e se levanta.
— Preciso dar um telefonem a — ela diz, gesticulando. — Esqueci com pletam ente de avisar Asher sobre a m oto que ele quer com prar do sr. Sanders. Melhor ligar pra ele antes que eu m e esqueça de novo; m e deem licença um m inutinho.
Seus olhos pousam discretam ente em Andrew antes que ela saia da sala. Eu vi, com certeza nenhum dos dois acha que não sei que m ais algum a coisa está acontecendo que eu obviam ente não tenho com o saber. Não sei se ela não gostou de m im e está disfarçando para não deixar Andrew constrangido, ou se é algo com pletam ente diferente.
Isso está m e deixando louca, e não estou m ais tão calm a quanto fiquei ao conhecê-la.
E para confirm ar, alguns segundos depois que ela sai da sala, Andrew se levanta.
— O que tá acontecendo? — pergunto baixinho.
Andrew olha para m im e sinto que ele sabe que não vou ignorar isso eternam ente. Ele tem plena consciência de que fui m ais observadora do que ele gostaria que eu fosse.
Seus olhos exam inam m eu rosto, m as ele não sorri, apenas m e olha com o alguém olha para um a pessoa antes de se despedir dela. Então ele se curva e m e beij a.
— Não tá acontecendo nada, gata — ele diz, decidindo agora ser o Andrew sorridente e brincalhão que conheço tão bem , m as não engulo isso.
Sei que ele está m entindo, e de j eito nenhum vou deixar passar. Vou relevar por enquanto, enquanto estam os aqui, m as depois é outra história.
— Volto j á — ele diz, e sai por onde sua m ãe saiu.
ANDREW