Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 13 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Isso que Eu cham o de frustração…

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ISSO QUE EU cham o de frustração sexual m atutina. Tudo bem , vou ter que pegar leve, senão ela vai com eçar a achar que eu estou aqui de bobeira para tentar m e dar bem . Se fosse em outra época, com outra garota qualquer, eu j á estaria levantando da cam a para j ogar a cam isinha na privada, m as com Cam ry n é diferente. É duro (com trocadilho), m as vou ter que tentar parar de paquerá-la. Esta é um a viagem im portante para nós dois. Só tenho um a chance de fazer isso certo, e não quero fazer m erda nem fodendo.

— Então, o que vem a seguir na nossa viagem espontânea? — ela pergunta.

— Prim eiro o café da m anhã — explico, pegando m inhas m ochilas do chão —, m as acho que não seria espontânea se eu tivesse um plano.

Ela pega o celular da m esa ao lado da cam a, verifica se tem novas m ensagens de texto e ligações e depois o j oga na bolsa.

Saím os.

Eis que surge a Cam ry n teim osa e reclam ona: — Por favor, Andrew; não consigo com er nesses lugares — ela diz do banco do passageiro.

A cidade é pequena, e quase todos os restaurantes são de fast-food ou ainda estão fechados.

— Tô falando sério — ela insiste, fazendo um bico tão bonitinho que quero segurar seu rosto com as duas m ãos e lam bê-lo, só para ela gritar e fingir que é a coisa m ais noj enta do m undo. — A m enos que você queira um a com panheira de viagem irritante, com um a hora de enj oo, dor de estôm ago e gem idos, não m e faça com er esses troços, especialm ente de m anhã tão cedo.

Jogo a cabeça para trás e aperto os lábios, olhando para ela.

— Você tá exagerando, vai.

Com eço a achar que ela não está.

Cam ry n balança a cabeça, apoia o cotovelo na porta do carro e o polegar nos dentes da frente.

— Não, é sério; toda vez que com o fast-food, eu passo m al. Não tô tentando dificultar tua vida, pode acreditar; é um problem a sem pre que vou pra qualquer lugar com a m inha m ãe ou com a Natalie. Elas precisam ficar dando voltas pra achar um lugar pra com er que não vai m e deixar na pior.

Bom , então ela está dizendo a verdade.

— Tudo bem , com certeza não quero que você passe m al — rio baixinho —, então vam os rodar um pouco m ais e procurar outra coisa no cam inho. Vão ter m ais lugares abertos daqui a um as horas.

— Obrigada. — Ela sorri com doçura.

Disponha sem pre...

Duas horas e m eia depois, estam os em Owasso, Oklahom a.

Cam ry n olha para o grande logotipo am arelo e preto da Waffle House, tão conhecido por todos os am ericanos, e acho que ela está decidindo se quer com er ali ou não.

— Na verdade, só tem um lugar bom m esm o pra tom ar café da m anhã — explico, parando num a vaga —, especialm ente no Sul. Tem um a Waffle House em cada esquina por aqui, que nem a Starbucks lá no Norte.

Ela faz que sim .

— Acho que eu consigo encarar... Tem salada lá?

— Olha só, eu concordei em não te obrigar a com er um a porcaria gordurosa — inclino a cabeça para o lado e viro o corpo no assento —, m as salada j á é dem ais.

Ela faz um bico, m orde a bochecha por dentro e finalm ente diz, balançando a cabeça: — Tá, não vou com er salada, m as saiba que um a salada pode ter frango e um m onte de coisas gostosas, que alguém com o você provavelm ente nem considerou.

— Não. Portanto, desista — afirm o resolutam ente, e depois j ogo a cabeça para trás, devagar. — Vam os lá, j á esperei dem ais pra com er. Tô m orrendo de fom e. E fico m al-hum orado quando tô com fom e.

— Você j á é m al-hum orado — ela resm unga.

Eu a seguro pelo braço e a puxo para perto de m im . Ela tenta esconder o rosto, que está ficando verm elho.

Adoro o cheiro da Waffle House; é o cheiro da liberdade, de estar na estrada e saber que 90% das pessoas com endo ao seu redor tam bém estão. Motoristas de cam inhão, m ochileiros, bebuns — aqueles que não levam a vida m onótona e escravizada da sociedade.

O restaurante está quase cheio. Cam ry n e eu conseguim os um a m esa perto do grill e o m ais longe possível das altas vidraças. Há um a j ukebox obrigatória — um sím bolo da cultura das Waffle Houses — perto de um a daquelas j anelas.

A garçonete nos recebe com um sorriso, um bloco de anotações num a m ão e um a caneta pronta para escrever, com a ponta apoiada no papel.

— Posso trazer café pra vocês?

Olho para Cam ry n, que j á está correndo os olhos pelo cardápio sobre a m esa.

— Vou tom ar um chá doce — ela diz.

A garçonete anota e olha de novo para m im .

— Café.

Ela balança a cabeça e vai preparar nossas bebidas.

— Parece que tem um as coisas boas aqui — Cam ry n com enta, olhando o cardápio com um a bochecha apoiada na m ão fechada. Seu dedo indicador corre pelo plástico e para na pequena seção das saladas. — Viu? Olha só — ela olha para m im —, tem salada de frango grelhado e salada de frango com m açã e noz-pecã.

Não resisto a esse olhar esperançoso dela.

Eu entrego os pontos. Totalm ente.

— Pode pedir o que quiser — autorizo, com um a expressão de ternura. — Sério, não vou reclam ar.

Cam ry n pisca duas vezes, um pouco atordoada por eu ter cedido tão facilm ente, e então seus olhos parecem sorrir para m im . Ela fecha o cardápio e o coloca no suporte sobre a m esa enquanto a garçonete volta com nossas bebidas.

— Vão pedir agora? — ela pergunta, depois de deixar as bebidas na nossa frente. A ponta de sua caneta, com o se nunca saísse do lugar, ainda está encostada no bloco, pronta para ser usada.

— Vou querer a om elete fiesta — Cam ry n diz, e vej o um sorrisinho em seu rosto quando ela m e olha.

— Com torradas ou pão? — a garçonete pergunta.

— Pão.

— Com crem e de m ilho, batata ou tom ate?

— Batata.

A garçonete term ina de anotar o pedido de Cam ry n e se vira para m im .

Penso por um segundo e então digo:

— Vou querer a salada de frango com m açã e noz-pecã.

O sorriso de Cam ry n desaparece im ediatam ente e seu rosto fica im óvel. Pisco para ela e guardo o cardápio no m esm o suporte.

— Tá vivendo perigosam ente, hein? — a garçonete brinca.

Ela arranca a prim eira folha do bloquinho.

— Só por hoj e — respondo, e ela balança a cabeça e vai em bora.

— Que porra...? — Cam ry n diz, estendendo as m ãos com as palm as para cim a. Ela não consegue decidir se deve sorrir ou m e olhar, sem graça, então acaba fazendo um pouco dos dois.

— Acho que se você tá disposta a com er um a coisa só por m inha causa, posso fazer o m esm o por você.

— Ah, é? Mas acho que essa salada não vai ser suficiente pra você.

— E eu acho que você tá certa — concordo —, m as o que é j usto é j usto.

Ela faz um a cara levem ente incrédula e se recosta no banco.

— Não vai ser tão j usto se eu tiver que ficar ouvindo você reclam ar que tá com fom e quando a gente voltar pra estrada. Você m esm o disse que a fom e te deixa de m au hum or.

Não consigo realm ente ficar de m au hum or com Cam ry n, m as ela tem razão: a salada não vai bastar para m im . E alface m e dá gases — com certeza ela vai odiar viaj ar com igo se eu com er essa porra. Mas eu consigo. Só espero conseguir com er tudo sem m e entregar, deixando escapar algum a das m il reclam ações que j á estão na ponta da m inha língua.

Isso vai ser interessante.

Alguns m inutos depois, a garçonete traz a com ida de Cam ry n e põe m eu prato de blasfêm ia diante de m im . Ela reabastece nossas bebidas, pergunta se precisam os de m ais algum a coisa e volta a atender os outros clientes.

Cam ry n j á está m e exam inando.

Ela olha para o seu prato, põe o pão do lado oposto das batatas e gira o prato, segurando a borda, para deixar a om elete ao seu alcance. Eu pego o garfo e m exo um pouco na salada, fingindo, com o Cam ry n, que a estou preparando.

Nós nos entreolham os e ficam os em silêncio, cada um esperando que o outro diga algum a coisa. Ela franze os lábios. Eu tam bém .

— Quer trocar? — ela pergunta.

— Quero — aceito sem hesitação, e deslizam os os pratos sobre a m esa um para o outro.

O alívio se espalha nos nossos rostos.

Não é o prato que eu pediria, m as é m elhor que alface.

Na m etade da refeição — bem , na m etade para ela; eu j á term inei a m inha — peço um a fatia de torta de chocolate e m ais café. E ficam os falando da ex-m elhor am iga dela, Natalie, e de com o essa Natalie é um a bissexual espalhafatosa com peitões. Ao m enos é isso que estou entendendo, pela descrição que Cam ry n faz dela.

— E o que aconteceu depois do incidente no banheiro? — pergunto, m ordendo m inha torta.

— Nunca m ais entrei num banheiro público com ela depois disso — Cam ry n conclui. — Aquela garota não tem vergonha na cara.

— Ela parece divertida — com ento.

Cam ry n parece pensativa.

— Ela era.

Eu a estudo discretam ente. Está perdida em algum a lem brança, cutucando o últim o pedaço de frango de sua salada com o garfo. Meu garfo tilinta contra o prato quando tom o um a decisão e o solto. Lim po a boca com o guardanapo e m e levanto.

— Aonde você vai? — Ela olha para m im .

Apenas sorrio e vou até a j ukebox perto da j anela. Enfio um a m oeda e corro os olhos pelos títulos, finalm ente escolhendo um a canção e apertando os botões. Raisins In My Toast, um dos clássicos presentes em todas as j ukeboxes de todas as Waffle Houses, com eça a tocar enquanto estou voltando.

As três garçonetes e o cozinheiro m e fuzilam com olhares im placáveis. Eu sim plesm ente sorrio.

O corpo todo de Cam ry n está travado no lugar. Suas costas estão rígidas, o branco dos seus olhos brilha para m im , e quando com eço a m exer a boca form ando a letra da canção estilo anos 50, ela afunda m uito no assento, com o rosto verm elho com o nunca vi.

Volto para o m eu lugar, m exendo os quadris enquanto m e sento.

— Ai m eu Deus, Andrew, por favor, não canta isso tam bém !

Estou m e esforçando ao m áxim o para não rir, m as canto a letra da m úsica com um sorriso gigante grudado na cara. Cam ry n cobre o rosto com as m ãos, e seus om brinhos, cobertos pela fina blusa branca, sobem e descem enquanto ela reprim e as gargalhadas.

Estalo os dedos no ritm o da m úsica com o se eu estivesse usando brilhantina, e quando com eça a voz aguda, eu a im ito, com a cara toda contorcida por um a em oção exagerada.

E canto as notas m ais graves tam bém , apoiando o queixo no peito com a expressão bem séria. Não paro de estalar os dedos. Quanto m ais a canção avança, com m ais em oção eu canto. No m eio dela, Cam ry n não consegue m ais se segurar. Ri tanto sem abrir a boca que seus olhos ficam cheios d’água.

Ela j á afundou tanto no assento, a essa altura, que seu queixo está quase encostando na m esa.

Quando a canção term ina — para alívio dos funcionários — recebo as palm as solitárias da senhora sentada à m esa atrás de Cam ry n. Ninguém m ais liga, m as, pela expressão de Cam ry n, é com o se todos no restaurante estivessem olhando e rindo de nós. Hilariante. E

ela fica tão lindinha quando está constrangida.

Apoio os cotovelos na m esa e estendo os braços por cim a do tam po, j untando as m ãos.

— Ah, até que não foi tão ruim , foi? — provoco com um sorrisinho.

Cam ry n passa a ponta do dedo sob os dois olhos para lim par o borrão preto que ela sabe instintivam ente que se form ou. Mais algum as risadas ainda agitam seu peito antes que se acalm e.

— Você tam bém não tem vergonha na cara — ela diz, rindo m ais um a vez.

— Foi constrangedor, m as acho que eu tava precisando disso. — Cam ry n tira os sapatos e põe os pés sobre o banco da frente do carro.

Estam os na estrada de novo, seguindo apenas a orientação do dedo de Cam ry n.

Seguim os para o leste na 44; pelo j eito, vam os atravessar a parte de baixo do Missouri.

— Fico feliz em poder aj udar.

Estico o braço e ligo o som .

— Ah, não — ela provoca. — Pra que m om ento distante dos anos 70 será que vam os voltar desta vez?

Inclino a cabeça e sorrio para ela.

— Esta m úsica é legal — defendo, aum entando um pouco o volum e e tam borilando com os polegares no volante.

— É, j á conheço — ela adm ite, apoiando a cabeça no encosto. — Way ward Son.

— Quase isso — digo —, Carry On Way ward Son.

— Se tava quase certo, não precisava m e corrigir. — Ela finge estar ofendida, m as não convence m uito.

— E de que banda é? — pergunto para testá-la.

Ela faz um a careta para m im .

— Não sei!

— Kansas — eu conto, com um a sobrancelha intelectualm ente levantada. — Um a das m inhas favoritas.

— Você diz isso de todas. — Ela franze os lábios e pisca algum as vezes.

— Pode ser — confesso —, m as, na real, as m úsicas do Kansas têm m uita em oção.

Dust in the Wind, por exem plo; não consigo pensar num a m úsica m ais adequada pra m orte. Porque de algum j eito, ela m e faz parar de ter m edo de m orrer.

— Parar de ter m edo de m orrer? — Cam exclam a, incrédula.

— É, acho que sim . É com o se Steve Walsh fosse o Ceifador, e estivesse te dizendo que não há o que tem er. Cacete, se eu pudesse escolher um a m úsica pra ouvir na hora da m orte, essa seria a prim eira da play list.

Cam ry n parece desanim ada.

— Isso é um pouco m órbido dem ais pra m im .

— Se você encarar desse j eito, acho que é.

Ela está virada para m im , agora, com as duas pernas sobre o assento, os j oelhos dobrados, e o om bro e a cabeça encostados no banco. Com aquela trança dourada que a faz parecer tão m ais suave sem pre j ogada sobre o om bro direito.

— Hotel California — diz. — Eagles.

Olho para ela. Estou im pressionado.

— Esse é um clássico que eu gosto.

Isso m e faz sorrir.

— É m esm o? Essa canção é ótim a; de arrepiar... Me faz m eio que sentir que tô num daqueles velhos film es de terror em preto e branco. Boa escolha.

Estou m uito im pressionado, na verdade.

Tam borilo com os polegares m ais um pouco no volante acom panhando Carry On Way ward Son, e então ouço um pou! alto e um flap-flap-flap-flop-flap-flop constante, até que eu desvio lentam ente para o lado e paro no acostam ento.

Cam ry n j á apoiou novam ente os pés descalços no assoalho do carro e está olhando em volta, tentando descobrir de onde veio o barulho.

— O pneu furou? — ela pergunta, m as é m ais com o se dissesse: “Que legal, o pneu furou!”

— Furou — respondo, pondo o câm bio em park e desligando o m otor. — Ainda bem que tem um estepe no porta-m alas.

— É um daqueles m inipneus feios?

Eu rio.

— Não, tenho um pneu em tam anho natural lá dentro, com roda e tudo, e te garanto que vai ficar igualzinho aos outros três.

Ela parece um pouco aliviada, até que percebe que estou gozando com a sua cara, e então m ostra a língua e fica vesga para m im . Não sei por que isso m e dá vontade de transar com ela no banco de trás, m as cada louco com suas m anias, acho.

Ponho a m ão na m açaneta e ela volta a dobrar as pernas sobre o banco.

— Por que você tá ficando toda confortável aí?

Ela pisca.

— Com o assim ?

— Calça os sapatos — digo, acenando para eles no assoalho do carro —, levanta essa bunda daí e vem m e aj udar.

Ela arregala os olhos e fica parada, com o que esperando que eu ria e diga que estou só brincando.

— Eu-eu não sei trocar pneu — ela diz, ao perceber que não é brincadeira.

— Você sabe trocar pneu — corrij o, e isso a deixa ainda m ais atordoada. — Já viu com o se faz m ilhares de vezes ao vivo e nos film es; pode acreditar, você sabe; todo m undo sabe.

— Nunca troquei um pneu na m inha vida. — Ela só falta fazer beicinho.

— Bom , hoj e você vai trocar — digo sorrindo, abrindo m inha porta só alguns centím etros para que um a carreta que se aproxim a não a arranque.

Depois de m ais alguns segundos de incredulidade, Cam ry n enfia os pés nos tênis e fecha a porta do carro atrás de si.

— Vem cá. — Faço um gesto para ela, que m e acom panha até a traseira do carro.

Aponto para o pneu furado, o traseiro direito. — Se fosse um dos pneus do lado da estrada, você ia se livrar dessa.

— Vai m esm o m e fazer trocar um pneu?

Achei que j á tivéssem os resolvido isso.

— Sim , gata, vou m esm o fazer você trocar um pneu.

— Mas no carro você disse que eu ia aj udar, não fazer todo o trabalho.

Balanço a cabeça.

— Bom , tecnicam ente, você vai m e aj udar, m as... vem cá de um a vez.

Ela dá a volta no porta-m alas, eu tiro o estepe de dentro e apoio no asfalto.

— Agora pega o m acaco e a chave de roda no porta-m alas e traz aqui.

Cam ry n faz o que eu m ando, resm ungando baixinho algum a coisa sobre suj ar as m ãos com a “nhaca preta”. Controlo m inha intensa vontade de rir dela enquanto rolo o pneu para perto do furado e o deito ao lado. Mais um a carreta passa velozm ente; o vento balança um pouco o carro.

— Isto é perigoso — ela reclam a, largando o m acaco e a chave de roda aos m eus pés.

— E se um carro sair da estrada e atropelar a gente? Você não vê os Vídeos Incríveis?

Puta m erda! Ela tam bém assiste?

— Na verdade, vej o, sim — digo —, agora vem cá e vam os fazer isso logo. Se for você que estiver agachada, escondida do trânsito pelo carro, vai ser m enos provável que alguém atropele a gente.

— Por que m enos provável? — Ela franze as sobrancelhas.

— Bom , se você estivesse de pé, toda sexy e tal, acho que eu tam bém ia ficar olhando pra você e sair da estrada.

Cam ry n revira os olhos exageradam ente e se curva para pegar a chave de roda.

— Ui! — ela grunhe, tentando afrouxar as porcas. — Tá apertado dem ais, cacete!

Afrouxo para ela, m as deixo que term ine de desatarraxar as porcas, m antendo os olhos no trânsito sem deixar transparecer que estou ficando nervoso. Se eu estiver vigiando, fica m ais fácil agarrá-la e sairm os do cam inho do que se fosse ela de olho nos carros.

A seguir vem o m acaco; eu a aj udo, m ostrando com o girar para abri-lo e qual o m elhor lugar para fixá-lo, m as até que isso ela j á parecia saber sem m inha aj uda. A princípio ela se atrapalha com a m anivela, m as pega o j eito rapidam ente e levanta um pouco o carro.

Dou um a m anj ada na bunda dela porque eu seria um idiota, ou gay , se não fizesse isso.

E então, do nada, sem nem som bra de um relâm pago para avisar, com eça a chover com o se alguém tivesse aberto um a torneira no céu.

Cam ry n grita que está ficando encharcada e isso a distrai do pneu com pletam ente. Ela se levanta num salto e com eça a correr para a porta do carro, m as para quando se dá conta de que não deve entrar no carro levantado pelo m acaco.

— Andrew! — Ela está com pletam ente encharcada, com as m ãos na cabeça, com o se isso realm ente fosse aj udá-la a se proteger da chuva.

Eu estou rolando de rir.

— Andrew!

Ela está ridiculam ente furiosa.

Eu a seguro pelos om bros e digo, com a chuva batendo no m eu rosto: — Eu term ino de trocar o pneu. — É difícil ficar sério. E eu não fico.

Em poucos m inutos, o estepe está aparafusado e eu j ogo o pneu furado, j unto com o m acaco e a chave de roda, no porta-m alas.

— Peraí! — digo, quando Cam ry n faz m enção de entrar no carro, agora que é seguro.

Ela para. Está trem endo na chuva, seu corpo todo encharcado. Bato a tam pa do porta-m alas e m e aproxim o dela, sentindo m eus pés chafurdando na água dentro dos tênis porque não estou usando m eias, e sorrio para ela, esperando que ela sorria tam bém .

— É só chuva.

Ela cede um pouquinho, sem dúvida buscando m ais brincadeiras de encoraj am ento da m inha parte.

— Vem cá. — Estendo a m ão e ela a segura.

— Que é? — pergunta tim idam ente.

Sua trança está pesada com a água; os poucos fios m acios sem pre ao redor do seu rosto estão grudados na testa e de um lado do pescoço. Eu a levo para o porta-m alas e subo nele. Ela fica ali, com a chuva escorrendo continuam ente pelo seu corpo. Estendo a m ão de novo, e com hesitação Cam ry n a tom a e eu a puxo para cim a da traseira do carro. Ela sobe no teto com igo, o tem po todo m e olhando com o se eu fosse um louco irresistível.

— Deita — digo por cim a do barulho alto da chuva torrencial, deitando de costas no teto, com os pés em cim a do para-brisa.

Sem questionar ou protestar — em bora am bas as coisas estej am m eio que escritas no seu sem blante — ela se deita ao m eu lado.

— Isto é loucura! — grita. — Você é louco.

Ela deve gostar de loucos, porque com eço a sentir que quer estar ali em cim a com igo.

Descartando aquele m eu plano inicial, que diz que preciso m e controlar quando estou perto dela, estendo m eu braço esquerdo, e ela instintivam ente deita a cabeça nele.

Engulo em seco. Não esperava m esm o isso. Mas fico feliz que ela tenha feito.

— Agora abre os olhos e olha pra cim a — falo, eu m esm o j á olhando para o céu.

Um cam inhão m enor passa rapidam ente, seguido por alguns carros, m as nós nem notam os. Mais um a carreta passa e o vento balança um pouco o carro, m as tam bém não dam os im portância a isso.

De início, ela faz caretas quando a chuva entra em seus olhos, m as obedece, de vez em quando piscando e tentando esconder o rosto no m eu peito para protegê-lo da chuva, o tem po todo rindo baixinho. Ela se obriga a olhar diretam ente para cim a, m as desta vez fecha os olhos e deixa a boca entreaberta. Olho para seus lábios, para a chuva que escorre em fios sobre eles, para seus sorrisos e sobressaltos quando os pingos entram na sua garganta. Para seus om bros que se erguem quando ela tenta esconder o rosto, sorrindo e gargalhando, ensopada.

Olho tanto para ela que esqueço com pletam ente que está chovendo.

CAMRYN