Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 28 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Desta Vez, Vamos de Chevelle. Andrew bateu…

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DESTA VEZ, VAMOS de Chevelle. Andrew bateu os olhos nas m inhas sandálias e entendeu que eu não conseguiria andar até Algiers calçando esses saltos, e ele não estava a fim de m e carregar e carregar o violão. Pegam os a rodovia em vez do ferry , cruzam os o Mississippi e chegam os ao anoitecer. Andar o resto do cam inho até o Old Point, com o fizem os da prim eira vez, teria sido m elhor, porque agora, à m edida que nos aproxim am os, sei que vam os chegar m uito rápido.

Estou com eçando a sentir náuseas.

Estacionam os na Olivier Street e saím os do carro. Meus pés ficam colados na estrada.

Andrew vem para o m eu lado e m e puxa para os seus braços, m e apertando delicadam ente.

— Não vou te obrigar a fazer isso — ele diz, m udando de ideia. Tenho certeza de que pareço prestes a botar para fora o alm oço tardio que com em os há pouco tem po.

Me afastando do seu peito, ele pega m eu rosto em suas m ãos e m e olha nos olhos.

— É sério, am or, sem brincadeira agora. Não quero que faça isso, nem m esm o por m im , se você não quer de j eito nenhum .

Balanço a cabeça, nervosa, e inspiro profundam ente; m eu rosto ainda está em suas m ãos.

— Não, eu consigo — digo, ainda balançando a cabeça, tentando concentrar m inha coragem . — Eu quero fazer.

Ele acaricia m inhas bochechas com seus polegares.

— Tem certeza?

— Tenho.

Andrew sorri para m im com aqueles olhos verdes que com eço a achar que estão m e enfeitiçando de algum a m aneira e pega a m inha m ão. Ele pega o violão do banco de trás e entram os j untos no Old Point.

— Parrish! — Carla exclam a de trás do balcão. Ela levanta a m ão e acena para que nos aproxim em os.

Ainda de m ãos dadas com igo, Andrew ziguezagueia em m eio à m ultidão na direção dela. A TV atrás da cabeça de Carla está passando com erciais; sua luz cria um brilho branco ao redor da m ulher.

— Ei, Carla — Andrew diz, se debruçando por cim a do balcão para abraçá-la —, Eddie tá aí hoj e?

Ela põe as m ãos na cintura e sorri para m im .

— Com certeza — diz —, ele tá por aí em algum lugar. Olá, Cam ry n, é bom te ver de novo.

Sorrio para ela em resposta.

— Você tam bém .

Andrew se senta num banco do bar e indica o banco ao lado. Eu m e sento, nervosa. Só consigo pensar em quanta gente há neste lugar. Meus olhos percorrem o salão desconfortavelm ente, vendo m uitas cabeças balançando e pessoas de pé, agora que a banda voltou a tocar. À m edida que a m úsica adquire força, Andrew e Carla praticam ente gritam um com o outro por cim a do balcão.

— Tem espaço pra gente hoj e? — Andrew pergunta.

Carla se debruça m ais para perto dele.

— Pra gente? — diz, m e olhando de relance. — Uau, vocês dois vão cantar? — Ela parece em polgada.

Meu coração acaba de abandonar seu posto e cair para os j oelhos.

Engulo em seco um nó de nervosism o olhando para os dois, m as outro se form a im ediatam ente em seu lugar.

Carla inclina a cabeça para o lado, e seu sorriso, j á enorm e, fica m ais carinhoso.

— Ah, querida, você vai fazer bonito, não precisa ficar nervosa; todos vão adorar você.

— Ela m exe atrás do balcão e pega um copo pequeno. Um hom em está sentado no balcão ao m eu lado, obviam ente um cliente assíduo, j á que não precisa nem pedir e Carla j á está servindo sua bebida.

Mas ela continua dando m ais atenção a nós dois.

— Tô tentando falar isso pra ela — Andrew diz —, m as é a prim eira vez dela, então preciso dar um desconto.

— A prim eira e últim a vez — corrij o.

Carla sorri secretam ente para Andrew e depois m e diz: — Bom , não sou a favor da violência, m as se alguém aqui te der trabalho m e cham a que eu j ogo da porta pra fora, do j eito que fazem nos film es. — Ela pisca para m im e se vira novam ente para Andrew.

— Olha lá o Eddie — ela diz, acenando na direção do palco.

Eddie está andando pela m ultidão, usando o m esm o tipo de roupa da últim a vez que o vi: cam isa branca, calça preta, sapatos pretos de verniz e um sorriso grande e enrugado.

— Olha só, Parrish! — Eddie diz, agarrando a m ão de Andrew e puxando-o para um abraço. Depois olha para m im . — Menina! Você tá igualzinha a um a capa de revista! — E

tam bém m e abraça. Ele cheira a uísque barato e cigarro, m as m e sinto reconfortada m esm o assim , por algum a razão.

Andrew está sorrindo de orelha a orelha.

— Cam ry n vai cantar com igo hoj e — diz, todo orgulhoso.

Eddie arregala os olhos, que se tornam grandes bolas brancas cheias de em polgação, incrustadas no pano de fundo m arrom -escuro de sua pele. Isso deveria m e deixar m ais nervosa, com o quando Carla ficou sabendo, m as a presença de Eddie está aj udando a m e acalm ar, na verdade. Talvez eu devesse algem á-lo ao m eu pulso enquanto canto.

— Claro — Eddie diz com um sorrisão —, aposto que tua voz é tão bonita quanto o resto.

Eu fico bem verm elha.

— Então sobe lá! — Ele aponta para o palco. — Assim que eles acabarem essa m úsica!

Andrew pega a m inha m ão e m e puxa para o seu lado. Sinto que Eddie é com o outro pai para Andrew, e Andrew está feliz por ele gostar tanto de m im .

Eddie vai até o palco e ergue três dedos para nós.

— Mais três m inutos!

— Ai m eu Deus, tô tão nervosa!

É, Eddie devia ter ficado por perto.

A m ão de Andrew aperta a m inha. Ele se aproxim a do m eu ouvido.

— Lem bre-se do seguinte: toda essa gente tá só curtindo aqui; ninguém tá aqui pra te j ulgar; você não tá no Am erican Idol.

Respiro fundo para relaxar.

Ouvim os a banda term inando sua últim a canção e então a m úsica para, seguida pelo costum eiro som dos instrum entos sendo transportados, afinados ou batendo nas coisas ao serem carregados. Um a onda de vozes tagarelantes fica m ais forte sem a m úsica para abafá-la, tom ando conta do espaço com o um zum bido am plificado e irregular. Um a grossa nuvem de fum aça de cigarro faz o ar parecer abafado, j unto com todos os corpos esprem idos no recinto.

Quando Andrew vai m e puxar para o palco, m inhas m ãos com eçam a trem er e eu olho para baixo, notando que m inhas unhas estão cravadas na pele dos nós dos dedos dele.

Ele sorri com ternura e eu o acom panho.

— Tô legal? — sussurro para ele.

Se eu conseguir fazer isso sem ter um ataque de ansiedade, vou ficar surpresa.

— Am or, você tá perfeita.

Ele beij a a m inha testa e encosta o violão na bateria para posicionar o m icrofone.

— A gente vai usar o m esm o m icrofone — Andrew diz. — Mas vê se não m e dá um a cabeçada.

Estreito os olhos para ele.

— Não tem graça.

— Não tô fazendo graça — ele diz, rindo baixinho —, tô falando sério.

Várias pessoas da plateia j á estão olhando para nós, m as a m aioria está ocupada com outras coisas. Não posso fazer nada senão ficar ali de pé, e só isso j á está m e deixando m ais nervosa. Andrew pelo m enos pode se preocupar com o violão. Eu fico só rum inando os pensam entos na m inha cabeça.

— Você tá pronta? — ele pergunta ao m eu lado.

— Não, m as vam os acabar com isso de um a vez.

Olham os um para o outro e ele m exe a boca sem som : — Um . Dois. Três...

Cantam os j untos:

— Ooooh... oooh... oooh...oooh! — Pausa de um segundo. — Ooooh... oooh...

oooh...oooh!

Violão.

Dezenas de cabeças viram ao m esm o tem po, e o burburinho cessa com o um a torneira que se fecha.

Enquanto Andrew toca o prim eiro com passo e está se preparando para cantar a prim eira estrofe, estou tão apavorada por dentro que sinto que não consigo m over nada além dos olhos. Mas quanto m ais ele toca, m ais m eu corpo não consegue deixar de se m over no ritm o da m úsica.

Praticam ente todos os presentes j á estão balançando a cabeça, acom panhando o som .

Andrew com eça a cantar a prim eira estrofe.

E depois, brevem ente j untos de novo:

— Ooooh...

Então vem o refrão e nós dois cantam os a letra, e sei que vou ter que soltar um agudo em ...

Consegui!

Andrew sorri m uito para m im ao entrar direto na estrofe seguinte, j á dedilhando o violão sem errar um acorde, com o se soubesse tocar a canção desde criança.

A plateia está realm ente entrando na onda. Pessoas balançam a cabeça um as para as outras, com o quem diz: Eles são m uito bons, e sinto m eu rosto se ilum inar quando com eço a cantar m inha parte com Andrew de novo, e cada vez com m ais confiança. Estou m ovendo m eu corpo com m ais naturalidade no ritm o da m úsica agora, e acho que perdi quase com pletam ente o m edo, m as m eu solo... ai m eu Deus, agora vem o m eu solo...

Andrew m e olha nos olhos, com o se estivesse usando o olhar para se concentrar e ficar calm o enquanto toca o violão.

Ele para j unto com a m úsica e bate no corpo do violão antes do m eu prim eiro verso, dedilha a guitarra e para de novo, batendo no violão depois do segundo e assim por diante, até que canto m inha últim a nota e Andrew com eça a tocar a todo o volum e de novo enquanto m e diz num sussurro:

— Im pecável — e com eça a cantar de novo. Ele está sorrindo tanto. Eu tam bém .

Juntam os nossos rostos e soltam os a voz no m icrofone durante a parte m ais rápida.

— Woooh... ooooh... ooooh!

O violão fica m ais lento e cantam os o últim o refrão j untos, baixinho, e ele m e beij a na boca depois que am bos dizem os:

— ... soul... — E a canção acaba.

A plateia explode em aplausos e gritos. Ouço até um cara dizendo: — Mais um ! — De algum lugar ao fundo.

Andrew m e puxa para perto e m e beij a de novo, apertando os lábios com força nos m eus na frente de todos.

— Caram ba, am or, você foi dem ais! — Seus olhos estão brilhando, todo o seu rosto está ilum inado por eles.

— Não acredito que consegui! — Estou praticam ente gritando com ele, porque as vozes ao nosso redor estão m uito altas.

Estou arrepiada da cabeça aos pés.

— Quer cantar de novo? — ele pergunta.

Engulo em seco.

— Não, não tô pronta! Mas fico feliz por ter cantado um a vez!

— Tô tão orgulhoso de você!

Alguns caras m ais velhos se aproxim am , segurando cervej as. O barbudo diz: — Você tem que dançar com igo! — Ele ergue os braços e faz um a dancinha em baraçosa.

Fico verm elha e vej o os olhos de Andrew sorrindo.

— Mas não tem m úsica! — digo para o hom em .

— Não tem o cacete! — Ele aponta para alguém do outro lado do salão, e alguns segundos depois a j ukebox perto da m áquina de venda autom ática e de um j ogo de fliperam a com eça a tocar.

Estou tão em polgada por ter conseguido cantar a m úsica no palco que isso, e tam bém o sentim ento de culpa caso eu recusasse, torna obrigatório dançar com esse cara.

Olho m ais um a vez para Andrew e ele pisca para m im .

O barbudo pega a m inha m ão, segura-a acim a da m inha cabeça e eu rodopio instintivam ente. Danço com ele duas m úsicas antes de Andrew “m e salvar” entrando suavem ente no m eio de nós e apertando ao m áxim o m eu corpo contra o seu, m exendo os quadris encostados nos m eus. Suas m ãos estão na m inha cintura. Dançam os e tagarelam os com várias pessoas e até j ogam os dardos com Carla antes de finalm ente ir em bora, depois da m eia-noite.

No cam inho de volta, Andrew m e olha e diz:

— E então, com o se sente? — Seus lábios form am um sorriso experiente.

— Você tinha razão — respondo. — Me sinto... sei lá, diferente, m as de um j eito bom ; nunca pensei que eu fosse fazer um a coisa dessas.

— Bom , fico feliz por você ter feito. — Ele sorri com ternura.

Solto m eu cinto de segurança e vou para perto de Andrew. Ele passa o braço em volta de m im .

— E então, que tal am anhã à noite?

— Hã?

— Quer cantar am anhã à noite?

— Não, acho que não consigo...

— Tá, tudo bem — ele diz, esfregando m eu braço. — Um a vez j á é m ais do que eu esperava, então não vou ficar te enchendo.

— Não — digo, erguendo o corpo e m e virando para olhá-lo. — Sabe de um a coisa? Eu quero, sim . Quero cantar de novo.

Seu queixo recua num m ovim ento de surpresa.

— Sério?

— Sério, sim . — Abro um sorriso cheio de dentes.

Ele faz o m esm o.

— Tudo bem — diz, batendo de leve no volante —, vam os cantar am anhã.

Andrew m e leva de volta para o hotel e transam os no chuveiro antes de irm os para a cam a.

Ficam os em Nova Orleans m ais duas sem anas, tocando no Old Point e depois passando por vários outros bares e clubes por toda a cidade. Um m ês atrás, cantar e m e apresentar ao vivo em clubes estava tão no final da lista de coisas que eu conseguia m e im aginar fazendo que pareceria ridículo, m as de repente, lá estava eu cantando a plenos pulm ões Barton Hollow e algum as outras canções nas quais eu podia ficar na som bra de Andrew e não ser o centro das atenções. Mas todos nos adoravam . Tantas pessoas nos paravam depois de cada apresentação, apertavam nossas m ãos e perguntavam se podíam os cantar esta ou aquela m úsica, m as Andrew sem pre recusava. Ainda fico nervosa dem ais com esse negócio para conseguir atender a pedidos. E para m inha estarrecedora surpresa, m ais de um desconhecido pediu m eu autógrafo e um a foto ao m eu lado. Deviam estar sim plesm ente m uito bêbados. Resolvi acreditar nisso, porque qualquer outra coisa seria esquisita dem ais.

No final daquelas duas sem anas, Andrew tinha um a nova banda favorita para acrescentar à sua lista. Ele adora The Civil Wars tanto quanto eu. E noite passada, nossa últim a noite em Nova Orleans, ficam os deitados j untos, cantando Poison & Wine j unto com o celular ao lado da cam a... e... por m eio dessa letra, acho que dissem os coisas que queríam os dizer um ao outro...

Acho que dissem os...

Chorei baixinho até dorm ir em seus braços.

Eu m orri e fui para o céu. Sim ... acho que finalm ente m orri.

ANDREW