Entre o Agora e o Nunca
O Dia em que tudo m udou foi ontem .
5
O DIA EM que tudo m udou foi ontem .
Aquele form igam ento no cérebro m e forçou a m e levantar. E eu m e levantei. Mandou que eu calçasse os sapatos, arrum asse um a pequena m ala esportiva com o indispensável e pegasse a m inha bolsa. E eu fiz tudo isso.
Não havia lógica nem senso de propósito algum , a não ser saber que eu precisava fazer algum a coisa diferente do que estava fazendo, ou não conseguiria sobreviver. Ou acabaria com o m eus pais.
Sem pre achei que a depressão fosse algo supervalorizado, pelo m odo com o as pessoas usam essa palavra a toda hora (com o aquele palavrão que com eça com A que eu nunca m ais vou dizer pra nenhum cara enquanto eu viver). Quando eu estava no colégio, as m eninas m uitas vezes com entavam que estavam “deprim idas” e que a m ãe as levava para um analista para tom ar rem édios, e aí elas se reuniam para experim entar os com prim idos um as das outras. Depressão, para m im , significava três palavras: tristeza, tristeza e tristeza. Eu via aqueles com erciais idiotas com figuras de desenho anim ado se arrastando com um a nuvenzinha preta sem pre chovendo na cabeça e pensava com o as pessoas exageravam com esse lance de depressão. Eu sinto pena das pessoas. Sem pre senti. Jam ais gostei de ver alguém sofrendo, m as adm ito que quando alguém falava em depressão, eu revirava os olhos e ia cuidar da m inha vida.
Mal sabia eu que a depressão é um a doença grave.
Aquelas garotas na escola não faziam ideia do que realm ente significa estar deprim ida.
Não é só questão de tristeza. Na verdade, a tristeza tem bem pouco a ver. Depressão é dor em sua form a m ais pura, e eu faria qualquer coisa para conseguir sentir algum a em oção de novo. Qualquer em oção. A dor m achuca, m as com um a dor tão poderosa que você não consegue sentir m ais nada, é aí que você com eça a achar que está enlouquecendo.
Me incom oda im ensam ente perceber que a últim a vez que chorei de verdade foi naquele dia na escola, quando fiquei sabendo que Ian tinha m orrido no acidente. Foi nos braços de Dam on que chorei. Dam on, logo ele.
Mas aquela foi a últim a vez que derram ei um a lágrim a, e foi há pouco m ais de um ano.
Depois disso, sim plesm ente não consegui m ais. Nem com o divórcio dos m eus pais, nem quando Cole foi condenado, nem quando Dam on m ostrou sua verdadeira face, nem quando Natalie m e apunhalou pelas costas. Fico pensando que qualquer dia desses vou desabar e chorar até encharcar o m eu travesseiro. Eu deveria estar vom itando de tanto chorar.
Mas esse dia nunca chega e eu continuo sem sentir nada.
A não ser essa vontade de m e libertar de tudo. Esse form igam ento que, em bora vago e fraco, m e im pele a obedecer. Não sei por que, não sei explicar, m as ele está lá e não consigo deixar de dar ouvidos a ele.
Passei a m aior parte da noite na rodoviária, sentada ali, esperando que o form igam ento m e dissesse o que fazer.
E então fui até a bilheteria.
— Pois não? — a m ulher perguntou com voz neutra.
Pensei por um segundo e falei:
— Tô indo ver m inha irm ã em Idaho, porque ela acaba de ter um bebê.
Ela olhou para m im , m eio sem j eito, e adm ito que tam bém fiquei sem j eito. Não tenho irm ã e nunca estive em Idaho, m as foi a prim eira m entira que m e veio à m ente. E ela estava com endo um a batata assada. A batata estava lá, atrás do balcão, num pratinho engordurado e cheio de m olho tártaro. Portanto, naturalm ente, Idaho, a fam osa terra das batatas, foi o prim eiro estado em que pensei. Tanto faz aonde eu decida ir, na verdade, porque sim plesm ente não m e im porta.
Pensei: quando eu chegar em Idaho, vou com prar outra passagem pra algum outro lugar. Talvez eu vá pra Califórnia. Ou Washington. Ou talvez eu vá pro sul ver com o é o Texas. Sem pre im aginei o Texas com o um a im ensa paisagem de poeira, bares de beira da estrada e chapéus de caubói. E as pessoas no Texas são supostam ente m eio fodonas ou algo do tipo. Talvez m e pisoteiem com suas botas de caubói.
Eu nem vou sentir. Não sinto m ais nada, lem bra?
Isso tudo foi ontem , quando decidi sim plesm ente levantar e sair andando, m e libertar de tudo. Sem pre quis fazer isso, m e libertar, m as nunca im aginei que aconteceria assim .
Ian e eu, antes que ele m orresse, planej am os nossa vida de form a fora do convencional.
Queríam os passar longe de qualquer cam inho previsível, qualquer rota que nos transform asse nos m esm os robôs da sociedade que acordam na m esm a hora toda m anhã e repetem o dia de ontem . Queríam os viaj ar com o m ochileiros pelo m undo — por isso falei dessa ideia com Natalie naquele dia no café. Talvez parte de m im esperasse que ela tivesse a m esm a paixão que Ian e eu tínham os, e aí ela iria com igo, m as com o tudo o m ais na m inha vida, as coisas não aconteceram exatam ente com o eu esperava.
— Posso sentar aqui? — um a senhora pergunta, de pé no corredor do ônibus, com um a bolsa verde-lim ão apertada contra o peito.
— Claro, à vontade — respondo, sorrindo fracam ente. Não estou com vontade nenhum a de sorrir, m as a últim a coisa que quero é lhe dar um m otivo para achar que sou um a j ovem alm a perturbada precisando de um a boa dose de conselhos de velhinha.
Ela se esprem e na poltrona ao lado da m inha, depois de guardar sua m ala de viagem no com partim ento superior. É m eio gordinha, m as não é desaj eitada. E cheira bem .
— Você parece j ovem — ela diz. — Pra onde tá indo?
— Idaho.
— É m esm o? — Ela sorri para m im , revelando rugas profundas em volta da boca. — Deve ser pra visitar parentes, acho que ninguém vai passar férias lá.
— É. Vou visitar m inha irm ã.
Ela m eio que faz um bico, balançando a cabeça, com o se estivesse arquivando m inhas respostas. Então com eça a procurar algum a coisa na bolsa.
Olho pela j anela alta de acrílico ao m eu lado e vej o os passageiros entrando e saindo dos outros ônibus. É m eio-dia, e estou em Mem phis no m om ento. Dorm i a m aior parte do cam inho à noite — bem , tentei dorm ir, m as só conseguia tirar um as sonecas até que um a lom bada ou a dor no pescoço e nas costas m e acordassem do sono cheio de cãibras.
Nunca estive em Mem phis, m as devo dizer que esta rodoviária m e deixa nervosa. Vi um as pessoas bem m al-encaradas andando por aí.
— Bem , eu tô indo pra Montana — a m ulher diz, pondo um com prim idinho branco na boca. — Norm alm ente vou de trem , m as decidi m udar o cam inho desta vez. Ver um as paisagens novas.
— A senhora deve viaj ar bastante — com ento, olhando para ela.
— Não m uito — ela responde. — Só um a vez por ano pra visitar m inha m ãe. Ela tem 98 anos.
— Uau.
— É, a m ulher é teim osa feito um touro. Já teve câncer cinco vezes e continua viva.
Ganha dele toda vez.
Sorrio para ela com sim patia.
— Mas, se você não se incom odar — ela m uda de assunto, afundando na poltrona e encostando a cabeça —, preciso tirar um a soneca bem dem orada. Não preguei o olho no últim o ônibus, o m otorista ficava costurando na estrada. — Ela aponta para cim a. — Tom a cuidado nesses ônibus. Você encontra tudo quanto é tipo de gente esquisita, e os m otoristas norm alm ente estão com o sono atrasado. Precisa ficar de olho, aj udá-los a não pegar no sono conversando com eles, senão você pode ir parar na beira da estrada, de cabeça pra baixo num m onte de ferragens.
Por que ela tinha que dizer isso? Em purro para trás a lem brança do acidente de Ian, estranham ente parecido com as palavras dela, e apenas balanço a cabeça.
Ela fecha os olhos, m as aí volta a abrir e m e olha m ais um a vez.
— Mas na verdade é com as pessoas que você precisa tom ar cuidado. Nunca sabe quem vai encontrar ou o que o velho sr. Destino preparou pra você.
— Vou m e lem brar disso — garanto. — Obrigada.
O Tennessee passa pela m inha j anela num borrão. A noite cai e acabo pegando no sono tam bém . Não tenho nenhum sonho; não sonho m ais desde que Ian m orreu, m as provavelm ente é m elhor assim . Os sonhos poderiam m e causar algum a em oção, e eu parei com a em oção. Estou com eçando a m e acostum ar com essa sensação de não ligar para coisa algum a. À parte alguns habitantes m al-encarados de rodoviária, não tenho m ais m edo de praticam ente nada. Acho que quando você não está nem aí pra nada, o m edo m eio que perde as porras das garras.
Eu tam bém não costum ava falar tanto palavrão antes.
A velhinha e eu nos separam os em St. Louis e sigo viagem até o Kansas com as duas poltronas só para m im , finalm ente conseguindo deitar atravessada nas duas, em vez de sentada, com a cara am assada na j anela.
Tudo é m uito igual. De casa até o Missouri, parece que as únicas coisas que m udam são as placas dos carros e as placas dando boas-vindas aos viaj antes a cada estado, m as depois que você passa por elas, é só m ais árvores e m ais estrada. Em cada estado, sem pre tem um carro enguiçado no acostam ento. Sem pre tem alguém pedindo carona e um cara de regata carregando um galão de gasolina da sua picape até a saída m ais próxim a, onde todos os postos de com bustível e lanchonetes se aglom eram . E sem pre, sem pre tem um sapato solitário no acostam ento em algum lugar. Não sei com o é que esses sapatos vão parar na estrada. Você nunca vê um a calça ou um a cam isa, e só de vez em quando algum a coisa com o um chapéu ou um par de óculos. Só os sapatos solitários. Qual é a desses sapatos?
Um a viagem de ônibus é com o estar em outro m undo.
Todo m undo sabe, quando em barca, que vai passar um bom tem po ali. Bastante tem po. O ônibus é apertado. Norm alm ente, as pessoas estão tão am ontoadas que você consegue sentir todas as colônias e desodorantes e os vários tipos de sabão em pó e am aciante que as pessoas usam . E, infelizm ente, tam bém consegue sentir o cheiro das pessoas que não usam nenhum a colônia ou desodorante, e cuj as roupas j á estão precisando de um a lavagem há vários dias.
Até agora, a viagem não tem sido tão ruim . Só m e incom odo quando preciso com partilhar o espaço com alguém .
Há um a espera de duas horas pelo m eu próxim o ônibus, por isso abro cam inho pela rodoviária sem ilotada no Kansas, procurando um lugar para sentar não m uito perto de ninguém . Todas as rodoviárias têm o m esm o cheiro, sobretudo de com bustível, que está com eçando a m e deixar um pouco enj oada. Eu m e m exo no assento de plástico duro, tentando ficar confortável, m as é im possível. Há alguns telefones públicos ali perto e eu penso por um m om ento em com o os telefones públicos ficaram obsoletos hoj e em dia.
Instintivam ente, procuro m eu celular dentro da bolsa, só para m e certificar de que está ali.
As duas horas se arrastam interm inavelm ente, e quando m eu próxim o ônibus afinal encosta na rodoviária, estou no prim eiro grupinho de pessoas que se levantam e form am fila. Pelo m enos as poltronas do ônibus são estofadas e vou poder ter um pouco de conforto de novo.
O m otorista, vestido de azul-m arinho e cinza-escuro do pescoço para baixo, pega m inha passagem e rasga o canhoto, m e devolvendo a outra parte. Eu a guardo bem dentro da m ala e subo no ônibus, procurando dos dois lados para achar a poltrona que parece a certa. Escolho um a na j anelinha, perto dos fundos, e instantaneam ente m e sinto m elhor quando m eu corpo se acom oda no conforto do estofam ento. Suspiro e seguro a m ala perto da barriga, cruzando os braços sobre ela. Mais ou m enos dez m inutos depois, o m otorista decide que todos os passageiros daquele trecho j á em barcaram . Desta vez são poucas pessoas e, graças a Deus, nada de crianças gritando ou casais sem noção que não entendem com o aquele rala-rala de línguas é noj ento para os outros. Nada errado em se beij ar em público — Ian e eu fazíam os isso sem pre —, m as quando a coisa está perto de virar um film e pornô, aí é um pouco dem ais.
O m otorista com eça a fechar as portas, m as aí puxa a alavanca de volta e elas rangem , se abrindo novam ente. Um cara entra carregando um a m ochila preta no om bro.
Alto, cabelo castanho curto e estiloso, usando um a cam iseta azul-m arinho colada ao corpo e um sorriso m eio torto que pode ser genuinam ente gentil ou só de autoconfiança.
— Obrigado — ele diz para o m otorista, daquele j eito tranquilo.
Em bora haj a m uitos lugares vazios para ele escolher, faço questão de deixar m inha m ala na poltrona ao lado da m inha, só para o caso de ele decidir que aquela é a certa para ele. Não é m uito provável, eu sei, m as sou um a garota precavida. As portas rangem se fechando de novo enquanto o cara anda pelo corredor e se aproxim a de m im . Olho para a revista que encontrei na rodoviária e com eço a ler um a m atéria sobre Brad e Angelina.
Suspiro aliviada quando ele passa reto e ocupa o par de poltronas vazias atrás de m im .
Até que enfim , um ônibus m eio vazio onde talvez eu possa dorm ir profundam ente. Isso é tudo o que eu quero. Quanto m ais tem po fico acordada, m ais penso em todas as coisas nas quais não quero pensar. Não sei o que estou fazendo ou aonde estou indo, m as sei que quero fazer sej a lá o que for de verdade, e quero chegar logo.
Pego no sono depois de um a hora olhando pela j anela.
A m úsica abafada vindo de fones de ouvido no últim o volum e atrás de m im m e acorda, depois que j á escureceu.
Prim eiro fico parada ali, esperando que talvez ele vej a o alto da m inha cabeça com pletam ente acordada por cim a do encosto da poltrona e decida abaixar o volum e.
Mas ele não faz isso.
Eu m e curvo para a frente, esfregando um m úsculo do pescoço, dolorido por ter dorm ido em cim a do braço, e então m e viro para olhar para o cara. Ele está dorm indo?
Com o alguém pode dorm ir com m úsica tão alta nos ouvidos? O ônibus está um breu, exceto pelos poucos fachos das luzes de leitura acim a das poltronas, ilum inando livros e revistas, e as luzinhas verdes e azuis lá na frente, no painel do m otorista. O suj eito sentado atrás de m im está m ergulhado na escuridão, m as consigo ver um lado do rosto dele à luz do luar.
Fico olhando para ele por um segundo, e então m e aj oelho na poltrona e m e debruço por cim a do encosto, esticando o braço e batendo na perna dele.
Ele não se m exe. Bato m ais forte. Ele se espreguiça e abre lentam ente os olhos, m e vendo com a barriga apoiada no encosto da poltrona.
Ele tira os fones dos ouvidos, deixando a m úsica fluir dos pequenos alto-falantes.
— Dá pra abaixar isso um pouco?
— Você tava ouvindo? — ele pergunta.
Levanto um a sobrancelha e digo:
— Hãã, sim , tá alto pra caram ba.
Ele dá de om bros, m exe no botão do volum e do MP3 e a m úsica desaparece.
— Obrigada — digo, e deslizo de volta para a m inha poltrona.
Não m e deito de lado nas poltronas em posição fetal desta vez, m as encosto na lateral do ônibus e apoio a cabeça na j anela. Cruzo os braços e fecho os olhos.
— Ei.
Abro os olhos, m as não m exo a cabeça.
— Você j á tá dorm indo?
Desencosto a cabeça da j anela e vej o que o suj eito está debruçado em cim a de m im .
— Eu literalm ente acabei de fechar os olhos — com ento. — Com o poderia j á estar dorm indo?
— Bom , sei lá — ele cochicha. — Meu avô conseguia dorm ir dois segundos depois que fechava os olhos.
— Seu avô era narcoléptico?
Um a pausa.
— Que eu saiba, não.
Uau, que saia j usta.
— O que é que você quer? — pergunto, falando baixinho com o ele.
— Nada — ele diz, sorrindo. — Só queria saber se você j á tava dorm indo.
— Pra quê?
— Pra poder aum entar o volum e de novo.
Penso nisso por um segundo, descruzo os braços e m e endireito na poltrona, m e virando para olhá-lo.
— Você quer esperar que eu durm a pra poder aum entar o volum e e m e acordar outra vez? — Estou achando difícil de entender.
Ele abre um sorriso torto.
— Você dorm iu três horas assim e não acordou — ele explica. — Então acho que não foi a m úsica que te acordou, deve ter sido outra coisa.
Minhas sobrancelhas se j untam .
— Não, hãã, tenho certeza absoluta que foi a m úsica.
— Tá — ele concorda, escorregando na poltrona e sum indo de vista.
Espero alguns segundos antes de fechar os olhos para ver se m ais algum a coisa esquisita vai acontecer, e quando nada acontece, volto a afundar na Terra sem Sonhos.
6
O SOL BRILHANDO pela j anela do ônibus m e acorda na m anhã seguinte. Ergo o corpo para ver m elhor, m e perguntando se a paisagem teria m udado, m as não m udou. E então noto a m úsica explodindo dos fones de ouvido atrás de m im . Olho discretam ente por cim a do encosto, esperando vê-lo dorm indo profundam ente, m as ele m e olha e sorri com o quem diz: “Não falei?”
Reviro os olhos e volto a m e sentar, puxando a m ala para o m eu colo e m exendo nela.
Com eço a m e arrepender de não ter trazido algum a coisa para ocupar a m ente. Um livro.
Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e com eço literalm ente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estam os, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, com eço a prestar m ais atenção na m úsica atrás de m im .
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin’ Love j orra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem , m esm o quem não gosta m uito do Bad Com pany . Não odeio rock clássico, m as prefiro coisas m ais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticam ente encostando no m eu om bro. Meu corpo estrem ece e faço um gesto com o se estivesse espantando um inseto que pousou em cim a de m im .
— Que porra...? — digo, olhando para o suj eito debruçado em cim a de m im novam ente.
— Você parece entediada — ele diz. — Te em presto, se quiser. Pode não ser teu tipo de m úsica, m as vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo um a trem enda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, m as não — digo, m e virando.
— Por que não?
— Bem , pra com eçar — retruco —, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que noj o.
— E daí?
— Com o assim , e daí? — Acho que estou fazendo um a careta até pior. — Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele form a duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom — ele responde, puxando os fones de volta —, você disse “pra com eçar”; só achei que podia haver algum outro m otivo.
— Uau — exclam o, chocada —, você é inacreditável.
— Obrigado. — Ele sorri e eu vej o seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo com o um elogio, m as algo m e diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na m inha m ala, j á sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, m as é m elhor do que lidar com esse m aluco.
Ele se j oga na poltrona vazia ao m eu lado assim que outro passageiro passa a cam inho do banheiro.
Fico m eio que congelada, com um a m ão enfiada na m ala, sem m e m exer. Mesm o olhando para ele, preciso m e recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele m exe em sua m ochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico um edecido, abre e desdobra o lencinho. Ele lim pa os fones cuidadosam ente e os oferece para m im .
— Com o novos — anuncia, esperando que eu os aceite.
Com o ele realm ente parece estar apenas tentando ser sim pático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. — Fico surpresa em ver com o superei rápido o lance de ele se sentar ao m eu lado sem pedir.
— É m elhor não pegar m esm o — ele diz, guardando o MP3 na m ochila. — Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem .
Tudo bem , j á levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Prim eiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim . Adm ito que isso de ficar sem pre tentando chocar tá cansando um pouco, m as tem um as coisas dela que eu gosto.
— É m úsica de m erda e você sabe — ele afirm a, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a m ochila no chão e afunda na poltrona, apoiando um a bota nas costas da poltrona da frente, m as as pernas dele são tão com pridas que aquilo m e parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com j eito de sapatos de operário. Dr.
Martens, acho. Droga. Ian sem pre usava botas assim . Desvio o olhar, sem clim a para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para m im , com a cabeça confortavelm ente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom m esm o é rock clássico — ele continua, sério, e olha para a frente. — Zeppelin, Stones, Journey , Foreigner. — Ele j oga a cabeça para o lado para m e encarar de novo. — Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota — digo, m as m udo de tom quando m e dou conta de que não m e lem bro de m uitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentem ente que não sou. — Eu gosto de... Bad Com pany .
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nom e de um a m úsica do Bad Com pany que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lem brar qualquer canção do Bad Com pany além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse suj eito e dizer as palavras: I Feel Like Makin’ Love.1
Ele espera pacientem ente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love2 — exclam o, porque só consigo lem brar m ais essa.
— Você tá m esm o? — ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre m ais no seu rosto.
— Nada — ele desconversa, desviando o olhar.
Fico verm elha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha — digo —, dá licença? Eu m eio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zom baria nos olhos.
— Claro — ele responde, se levantando. — Mas se quiser m eu MP3 em prestado, j á sabe onde ele tá.
Sorrio discretam ente, aliviada acim a de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada — digo, grata m esm o assim .
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz: — Pra onde você tá indo m esm o?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se ilum inar quando ele sorri.
— Bom , eu tô indo pro Wy om ing, então, pelo j eito, vam os tom ar m ais alguns ônibus j untos. — E seu rosto sorridente desaparece atrás de m im .
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços m usculosos e as m açãs do rosto esculpidas, as covinhas e o m odo com o aquela porra de sorriso idiota m e faz ficar olhando pra ele m esm o quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada — é só um estranho qualquer num ônibus a cam inho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim . E m esm o se ele não fosse um estranho, m esm o se o conhecesse há seis m eses, eu não iria querer. De j eito nenhum . Nunca m ais.
A viagem interm inável pelo Kansas parece dem orar m ais do que devia. Acho que nunca pensei m uito em com o os estados são grandes. Você olha para um m apa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de form atos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no m apa, e viaj ar sem pre de avião aj uda a alim entar a ilusão de que o estado m ais próxim o fica só a um a hora de viagem . Mais um a hora e m eia e m inhas costas e a bunda j á estão duras com o carne velha. Fico m e m exendo na poltrona, tentando achar algum j eito m enos dolorido de sentar, m as isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou com eçando a m e arrepender da m inha fuga, porque viaj ar de ônibus é um saco.
Ouço o sistem a do som do ônibus apitando, e depois a voz do m otorista: — Vam os fazer um a parada daqui a cinco m inutos — anuncia. — Vocês terão 15
m inutos para com er algum a coisa antes de seguirm os viagem . Quinze m inutos. Não vou esperar ninguém . Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. — O alto-falante se cala.
O aviso faz todos se m exerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas — nada com o a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entram os num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre um a loj a de conveniência, um lava-rápido e um a lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor m esm o antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem m uito.
Saím os do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os m eus pés e a brisa suave no m eu rosto. Não m e im porta que esta parada fique no m eio do nada, nem que as bom bas de gasolina sej am tão antigas que m e dão m edo de im aginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não sej a esprem ida dentro daquele ônibus. Praticam ente deslizo (com o um a gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionam ento até o restaurante. Prim eiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à m inha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre um a porção grande de batata frita e um m ilk-shake de baunilha — nunca fui m uito fã de fast-food. E, finalm ente, quando saio do restaurante levando um m ilk-shake de baunilha, vej o o cara do ônibus sentado na gram a entre os pátios. Seus j oelhos estão dobrados e ele está com endo um ham búrguer. Não olho para ele quando passo perto, m as pelo j eito isso não basta para im pedi-lo de m e incom odar.
— Mais oito m inutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha — ele com enta. — Vai m esm o passar esse tem po precioso lá dentro?
Paro perto de um a arvorezinha ainda am arrada a um a vareta no chão com um a tira de tecido rosa.
— São só oito m inutos — digo. — Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá um a m ordidona no ham búrguer, m astiga e engole.
— Im agina se você estivesse enterrada viva — ele insiste, tom ando um gole de refrigerante. — Não ia levar m uito tem po pra m orrer sufocada. Se te achassem oito m inutos antes, caram ba, até um m inuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi — adm ito.
— Não tenho nenhum a doença contagiosa — ele continua, dando outra m ordida.
Acho que fui m eio babaca m esm o. Claro que de certa form a ele m ereceu, m as não está sendo desagradável nem nada, então não há m otivo para m anter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inim igo nesta viagem , se eu puder evitar.
— Tanto faz — digo, e m e sento na gram a na frente dele.
— Por que Idaho? — ele pergunta, em bora estej a olhando m ais para a sua com ida e ao seu redor do que diretam ente para m im .
— Vou visitar m inha irm ã — m into. — Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wy om ing? — pergunto, tentando desviar o assunto de m im .
— Vou visitar m eu pai — o cara m e conta. — Ele tá m orrendo. Tem um tum or inoperável no cérebro. — Ele dá m ais um a m ordida. O que acabou de m e contar não parece perturbá-lo m uito.
— Oh...
— Não se preocupe — ele m e tranquiliza, desta vez m e olhando por um m om ento. — Todo m undo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente tam bém não ficar. — Ele sorri e olha para m im de novo. — Na verdade, ele falou que tira do testam ento quem com eçar com essa m erda de chorar.
Tom o um pouco do m eu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele tom a m ais um gole.
— Qual o seu nom e? — pergunta, deixando o copo sobre a gram a.
Fico pensando se devo dizer m eu verdadeiro nom e.
— Cam — digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam ?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Cam ry n — adm ito. Penso que, com todas as m entiras que vou ter que lem brar, é m elhor pelo m enos dizer m eu nom e verdadeiro. É um a inform ação tão sem im portância que não vou precisar ficar m e lem brando de ocultar.
— O m eu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretam ente, nem um pouco a fim de dizer que m eu sobrenom e é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o prim eiro nom e.
Enquanto ele term ina o ham búrguer e m astiga algum as batatas fritas, eu o estudo disfarçadam ente e noto tatuagens aparecendo sob as duas m angas da cam iseta. Ele não deve ter m ais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem ? — Mesm o assim , pareceu um a pergunta pessoal dem ais. Espero que ele não a interprete com o algo que não existe.
— Vinte e cinco — ele diz. — E você?
— Vinte.
Ele m e olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom , m uito prazer, Cam ry n, apelido Cam , 20 anos, a cam inho de Idaho pra ver a irm ã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem , m as m eu rosto não. Vai levar um tem po antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a im pressão errada. Ao m enos desse j eito posso ser educada e gentil, m as não educada a ponto de ir parar no porta-m alas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wy om ing? — pergunto, tom ando m ais um gole do m eu shake.
Ele balança a cabeça um a vez.
— Sou, nasci lá, m as m eus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se m udou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu estej a pagando a língua por toda a m inha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao m enos não do j eito estereotipado que todos im aginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar m eu pai. E você?
E agora, m entir ou não m entir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo m eu pai para obter inform ações. Contanto que eu evite dar 1) m eu sobrenom e, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até m inha casa — caso um dia eu volte para lá — e m e fazer term inar no porta-m alas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o m áxim o possível da verdade vai ser bem m ais fácil do que tentar inventar m entiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lem brar tudo m ais tarde. Vai ser um a viagem m uito longa, e com o ele disse, vam os pegar vários ônibus j untos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte — digo.
Ele m e olha de alto a baixo.
— Bom , você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e com o deve ser um a garota da Carolina do Norte?
— Você é m uito literal — ele diz sorrindo.
— E você m e deixa m eio confusa.
— Nem — ele diz num rosnado inofensivo e bem -hum orado —, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam um a parada assim . Tipo, se você perguntar praquele cara se esse j eans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você m e perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas norm ais deixa as pessoas desorientadas.
— É m esm o? — Não estou nem um pouco m ais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nom e dele. Sim plesm ente continuo a olhá-lo com o se ele fosse doido e eu estivesse m eio intrigada por isso.
— Mesm o — ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, m as ele não continua.
— Você é m uito bizarro — resm ungo.
— Bom , você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse j eans te deixa gorda.
Sinto m eu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... — Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: — Eu sei que este j eans não m e deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicam ente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele tom a m ais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a m ão.
— Parece que nossos oito m inutos acabaram .
Talvez sej a por ainda estar com pletam ente confusa com toda essa conversa, m as aceito sua m ão e ele m e aj uda a levantar.
— Viu? — ele diz, m e olhando um a vez e soltando m inha m ão. — Olha só quanta coisa descobrim os um sobre o outro em apenas oito m inutos, Cam ry n.
Ando ao lado dele, m as m antenho um a certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante m e aborrecem , ou se estou achando tudo isso m ais estim ulante do que m inha m ente quer adm itir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na últim a rodoviária em cim a do m eu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo.
Andrew tam bém voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das m inhas. Fico feliz que ele não tenha confundido m inha disposição de conversar com um a autorização para se aboletar na poltrona ao m eu lado.
Horas se passam e não conversam os m ais. Eu penso m uito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Cam ry n — ouço Andrew dizer da poltrona atrás de m im . — Talvez am anhã você m e conte quem é Nat.
Eu m e levanto bruscam ente e olho por cim a do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calm a, garota — ele diz, levantando a cabeça da m ochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. — Você fala dorm indo. — Ele ri baixinho. — Te ouvi reclam ando de alguém cham ado Nat ontem à noite, falando de xam pu ou algum a porra assim . — Noto que ele está de om bros encolhidos, m esm o com as pernas esticadas por cim a da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dorm indo. Perfeito. Por que será que m am ãe nunca m e contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e m e dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim , e apenas não m e lem bro m ais.
— Boa noite, Andrew — digo, e escorrego para baixo, tam bém tentando achar um a posição confortável. Pondero rapidam ente em com o Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar m e deitar da m esm a form a. Já tinha pensado em tentar dorm ir assim , m as não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se im portar, por isso afofo m inha m ala de roupas e a coloco debaixo da m inha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, com o Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há m uito tem po.
O m otorista, anunciando que vam os chegar em Garden City daqui a dez m inutos, m e acorda na m anhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences — o m otorista avisa pelo sistem a de som — e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viaj ar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontrem os novam ente.
Parecia com pletam ente ensaiado e sem em oção, m as aí pensei que provavelm ente eu tam bém falaria assim , se tivesse que dizer a m esm a coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de m e levantar, pegando m inha m ala do banco e abrindo-a para procurar a passagem . Eu a encontro am assada entre um j eans e m inha cam iseta vintage dos Sm urfs, desdobro-a e consulto m inha próxim a conexão. Parece que Denver fica a seis horas e m eia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho?
Francam ente. Com tantos lugares no m apa, escolhi m eu destino baseada num a batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada m e esperando quando chegar lá. A não ser m ais viagens. Caram ba, eu podia usar o cartão de crédito de um a vez e com prar um a passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, m as sei que ainda não posso voltar.
Sim plesm ente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, m e vej o tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, m as não consigo ver nada.
— Você tá acordado? — pergunto, levantando o queixo para que ele m e ouça lá atrás.
Ele não responde e m e levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a m úsica escapando dos fones, desta vez.
Andrew m e nota e sorri, erguendo a m ão e balançando o indicador, com o que para dizer bom -dia. Tam bém m exo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada j á foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e m e olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
1 Estou a fim de fazer am or. (N. da T.)
2 Pronta para o am or. (N. da T.)
ANDREW
Alguns dias antes...