Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 19 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Camryn Me Acorda na m anhã seguinte…

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CAMRYN ME ACORDA NA m anhã seguinte ao aj eitar sua cabeça no m eu colo, no banco da frente do carro.

— Onde a gente tá? — pergunta, se levantando; o sol brilha pelas j anelas do carro e bate na parte de dentro da porta do seu lado.

— Mais ou m enos a m eia hora de Nova Orleans — digo, estendendo a m ão para trás e esfregando um m úsculo em bolado nas m inhas costas.

Voltam os para a estrada ontem à noite depois de sair do cam po, e queríam os term inar de chegar a Nova Orleans, m as eu estava tão exausto que quase dorm i ao volante. Ela pegou no sono prim eiro. Aí parei no acostam ento, apoiei a cabeça no encosto e praticam ente desm aiei. Poderia ter dorm ido m ais confortavelm ente no banco de trás, sozinho, m as preferi acordar todo duro de m anhã, contanto que fosse ao lado dela.

Por falar em duro...

Esfrego os olhos e m e m exo um pouco para espreguiçar os m úsculos. E para deixar a parte da frente do m eu short folgada o bastante para que m inha ereção espalhafatosa não vire um tem a óbvio da nossa conversa.

Cam ry n se espreguiça, bocej a, levanta as pernas e apoia os pés descalços no painel, fazendo seu shortinho subir bem acim a das coxas.

Não é um a boa ideia logo de m anhã.

— Você devia estar cansado m esm o — ela diz, correndo os dedos pelo cabelo para desfazer a trança.

— É, se eu tentasse continuar dirigindo, a gente ia acabar abraçando um a árvore.

— Precisa com eçar a m e deixar dirigir um pouco, Andrew, senão...

— Senão o quê? — Dou um sorrisinho. — Você vai choram ingar, deitar a cabeça no m eu colo e dizer por favor?

— Funcionou ontem à noite, não funcionou?

Ela tem razão.

— Olha, não m e incom odo de você dirigir. — Olho para ela e dou a partida. — Prom eto que depois de Nova Orleans, pra onde quer que a gente vá, vou te deixar pegar um pouco na direção, tá?

Um sorriso doce de perdão ilum ina o seu rosto.

Volto para a estrada depois que um a van passa, e Cam ry n continua passando os dedos pelo cabelo. Então ela j oga o cabelo para trás e com eça a fazer um a trança m ais organizada sem precisar olhar, tão rápido que não entendo com o consegue fazer aquilo.

Mas m eus olhos continuam voltando para suas pernas nuas.

Preciso m esm o parar de fazer isso.

Me viro e olho pela j anela do m eu lado, e m eu olhar vai e volta entre a j anela e o para-brisa.

— A gente precisa achar um a lavanderia autom ática logo, tam bém — ela diz, prendendo o elástico na ponta de sua trança. — Minha roupa lim pa acabou.

Eu estava esperando um a oportunidade para “m e aj eitar”, e quando ela com eça a m exer na bolsa, aproveito.

— É verdade? — ela pergunta, m e olhando com um a m ão dentro da bolsa.

Afasto a m ão da m inha virilha, achando que consegui fazer parecer apenas que estava aj eitando o short para ficar m ais confortável, quando ela continua: — Que todo hom em tem um a ereção m onstro de m anhã?

Meus olhos ficam arregalados. Continuo olhando para a frente.

— Não toda m anhã — respondo, ainda tentando não olhar para ela.

— Quando, então, tipo só terça e sexta, algum a coisa assim ?

Sei que ela está sorrindo, m as m e recuso a confirm ar isso.

— Hoj e é terça ou sexta? — Cam ry n insiste, se divertindo com igo.

Finalm ente, olho para ela.

— É sexta — digo sim plesm ente.

Ela solta um suspiro perturbado.

— Não sou vadia nem nada — ela com enta, tirando as pernas do painel —, e sei que você tam bém não acha isso, j á que foi você que m eio que m e forçou a ser m ais aberta com a m inha sexualidade e com as coisas que eu quero... — Sua voz som e. É com o se ela estivesse esperando que eu confirm e o que acaba de dizer, com o se ainda estivesse preocupada com o que vou pensar dela.

Eu a olho nos olhos.

— Não, eu j am ais te acharia um a vadia, a m enos que você saísse dando pra um m onte de caras, m as aí eu iria pra cadeia, porque ia ter que encher todos eles de porrada...

m as, não, por que você tá dizendo isso?

Cam ry n fica verm elha, e j uro que levanta os om bros quase até as bochechas.

— Bom , eu só tava pensando... — Ela ainda não tem certeza de que quer contar, sej a o que for.

— O que foi que eu te falei, gata? Diz o que tá pensando.

Ela vira o queixo para o lado e m e olha com ternura.

— Bom , j á que você fez um a coisa por m im , achei que talvez eu pudesse fazer um a coisa por você. — Ela m uda de tom rapidam ente a seguir, com o se ainda estivesse preocupada com o que eu poderia pensar. — Tipo, sem com prom isso, claro. Vai ser com o se nunca tivesse acontecido.

Ah, m erda! Com o é que não antecipei isso?

— Não — nego instantaneam ente.

Ela parece se encolher.

Suavizo m eu rosto e m inha voz.

— Não posso te deixar fazer nada assim pra m im , tá?

— Por que não, cacete?

— Não posso e pronto... Meu Deus, você nem faz ideia do quanto eu quero, m as não posso.

— Isso é ridículo.

Ela está ficando seriam ente ofendida.

— Peraí... — ela m e olha inquisidoram ente, virando o rosto de lado — você tem algum “problem a” lá em baixo?

Meu queixo cai.

— Hum , não? — respondo, de olhos arregalados. — Puta que pariu, vou parar o carro e te m ostrar.

Ela j oga a cabeça para trás, ri e depois fica séria de novo.

— Bom , é que você se recusa a transar com igo, não m e deixa tocar um a pra você, e tive que te forçar a m e beij ar.

— Você não m e forçou.

— Tem razão — ela retruca —, eu te seduzi.

— Eu te beij ei porque quis — digo. — Quero fazer tudo com você, Cam ry n. Acredite!

Nestes poucos dias, j á im aginei a gente fazendo todas as posições do Kam a Sutra. Eu queria... — Noto que estou apertando tanto o volante que os nós dos m eus dedos estão brancos.

Ela parece m agoada, m as desta vez eu não cedo.

— Te falei — digo cuidadosam ente. — Não posso fazer nada disso com você, senão...

— Senão vou ter que deixar você m e possuir — ela term ina m inha frase, irritada —, tá, eu lem bro, m as o que isso significa, exatam ente: deixar você m e possuir de corpo e alm a?

Acho que Cam ry n sabe exatam ente o que significa, m as quer se certificar por si m esm a.

Peraí... ela está j ogando com igo; ou isso, ou então ainda não sabe o que quer, sexualm ente ou sob outros aspectos, e está tão confusa e relutante quanto eu.

CAMRYN

ELE PASSOU NO MEU teste. Eu seria m entirosa se dissesse que não quero transar com ele, ou lhe dar prazer de outras form as, com o ele fez com igo — quero m uito fazer tudo isso com ele. Mas, na verdade, queria ver se Andrew ia m order a isca. Não m ordeu.

E agora estou m orrendo de m edo dele.

Morro de m edo por causa do que sinto por ele. Não deveria sentir, e m e odeio por isso.

Eu disse que nunca m ais faria isso. Prom eti a m im m esm a que não...

Tentando recuperar um pouco da leveza norm al da nossa conversa, sorrio delicadam ente para ele. Tudo o que quero é cancelar a oferta que fiz e voltar com o estávam os antes que eu tocasse nesse assunto, só que com o conhecim ento que tenho agora: Andrew Parrish m e respeita e m e quer de m aneiras que acho que não posso ser sua.

Encolho os j oelhos, apoiando os pés no banco de couro. Não quero que ele responda à m inha últim a pergunta: o que significa deixar que ele m e possua de corpo e alm a?

Espero que esqueça que perguntei. Já sei o que significa, ou pelo m enos acho que sei: m e possuir é estar com ele da form a com o eu estava com Ian. Só que com Andrew, acredito sinceram ente que eu poderia m e apaixonar, m e apaixonar de verdade. Seria tão fácil. Já não aguento a ideia de ficar longe dele. Todos os rostos nas m inhas fantasias j á foram substituídos pelo de Andrew. E j á tem o o dia que nossa viagem term inar, quando ele tiver que voltar para Galveston ou Wy om ing e m e deixar para trás.

Por que isso m e apavora? E de onde veio de repente essa sensação revoltante no fundo do m eu estôm ago?

— Desculpa, gata, desculpa m esm o. Não queria te m agoar. De j eito nenhum .

Olho para ele e balanço a cabeça com veem ência.

— Não m e m agoou. Por favor, não pense que m e m agoou.

Continuo:

— Andrew, a verdade é... — Respiro fundo. Agora ele tem dificuldade em m anter os olhos na estrada. — ... A verdade é que eu... bom , pra com eçar, não vou m entir e dizer que te dar prazer não é algo que eu faria. Eu faria, sim . Mas quero que saiba que fico feliz por você ter recusado.

Acho que ele entende. Posso ver no seu rosto.

Andrew sorri delicadam ente e estende a m ão para m im . Eu a pego, m e aproxim o e ele passa o braço sobre m eu om bro. Viro o queixo para cim a para olhá-lo e seguro sua coxa.

Ele é tão lindo para m im ...

— Você m e dá m edo — digo finalm ente.

Minha confissão desencadeia um a tênue reação em seus olhos.

— Eu falei que nunca faria isto; você precisa entender. Prom eti a m im m esm a que nunca m ais ia m e aproxim ar de alguém .

Sinto o braço dele enrij ecendo ao redor do m eu, e seu coração acelera; ele bate rápido perto do m eu pescoço.

Então um sorriso se espalha por sua boca e ele diz: — Tá apaixonada por m im , Cam ry n Bennett?

Fico superverm elha e com prim o os lábios num a linha dura, apertando m ais m eu rosto em seu peito rij o.

— Ainda não — digo com um sorriso na voz —, m as tô chegando lá.

— Você é um a bela dum a m entirosa — ele diz, apertando um pouco m ais m eu braço.

Ele beij a o m eu cabelo.

— É, eu sei — digo, com o m esm o tom de troça na m inha voz que ele usou na sua, e então m inha voz som e. — Eu sei...

Tenho o m eu prim eiro vislum bre de Nova Orleans ao longe: o lago Pontchartrain e depois a paisagem espraiada de chalés, sobrados e bangalôs. Estou assom brada com tudo: do estádio Superdom e, que sem pre vou ser capaz de reconhecer depois de vê-lo tanto no noticiário na época do furacão Katrina, aos carvalhos gigantes e frondosos que são apavorantes, lindos e velhos, até as pessoas passeando pelas ruas do Bairro Francês, em bora eu ache que a m aioria é turista.

E enquanto rodam os, fico hipnotizada pelos terraços tão fam iliares que se estendem por toda a fachada de m uitos dos sobrados. São exatam ente com o aparecem na TV, só que não estam os no Mardi Gras, e ninguém está m ostrando os peitos, nem j ogando colares de contas dos terraços.

Andrew sorri para m im , vendo o quanto estou em polgada por estar ali.

— Já tô adorando — digo, m e enroscando nele depois de praticam ente apertar a bochecha no vidro, adm irando tudo por vários m inutos.

— É um a cidade ótim a. — Ele sorri, orgulhoso; m e pergunto quão bem ele conhece o lugar.

— Tento vir pra cá todo ano — ele diz —, em geral no Mardi Gras, m as é bom em qualquer época do ano, acho.

— Ah, então costum a vir pra cá quando tem peitinhos. — Eu pisco para ele.

— Culpado! — Andrew diz, tirando as duas m ãos do volante e levantando-as num gesto de confissão.

Ocupam os dois quartos no Holiday Inn, de onde dá para ir a pé até a fam osa Bourbon Street. Quase sugeri que ele pedisse um quarto só com duas cam as, desta vez, m as m e controlei. Não, Cam ry n, você só está alim entando o desej o. Não durm a no m esm o quarto que ele. Pare com isso enquanto pode.

E por um m om ento, enquanto estávam os lado a lado no balcão da recepção, quando o recepcionista perguntou em que podia “nos aj udar”, Andrew ficou parado e tive um a sensação bem estranha com isso. Mas acabam os pegando quartos adj acentes, com o sem pre.

Vou para o m eu e ele para o seu. Olham os um para o outro no corredor, com os cartões-chave na m ão.

— Vou pro chuveiro — ele diz, com o violão num a m ão —, m as quando você estiver pronta, vem e m e avisa.

Balanço a cabeça e sorrim os um para o outro antes de desaparecerm os em nossos respectivos quartos.

Nem cinco m inutos depois, ouço m eu celular vibrando dentro da bolsa. Certa de que é m inha m ãe, eu o pego e estou pronta para atender e dizer que ainda estou viva e m e divertindo, m as vej o que não é ela.

É Natalie.

Minha m ão fica paralisada ao redor do telefone enquanto olho para a tela brilhante.

Devo atender ou não? Bom , m elhor decidir logo.

— Alô?

— Cam ? — Natalie diz cuidadosam ente do outro lado.

Ainda não consigo dizer um a palavra. Não sei se passou tem po suficiente para que eu finj a que não vou perdoar, ou se devo ser legal.

— Você tá aí? — ela pergunta, quando não digo m ais nada.

— Tô, Nat, tô aqui.

Ela suspira e solta aquele gem ido esquisito, choram ingoso, com o sem pre faz quando está nervosa com algo que vai dizer ou fazer.

— Sou um a puta dum a vaca — ela diz. — Sei disso, e sou péssim a am iga e deveria estar rastej ando aos teus pés pra pedir perdão, m as eu... Bom , o plano era esse, m as tua m ãe disse que você tá na... Virgínia? O que você tá fazendo na Virgínia?

Caio na cam a e tiro os chinelos.

— Não tô na Virgínia — respondo —, m as não conta pra m inha m ãe, nem pra ninguém .

— Então onde você tá? Onde pode ter passado m ais de um a sem ana?

Uau, só passou um a sem ana? Parece que j á estou na estrada com Andrew pelo m enos há um m ês.

— Tô em Nova Orleans, m as é um a longa história.

— Hum , alô, am iga? — ela diz sarcasticam ente. — Eu tenho m uito tem po.

Me irritando rapidam ente com ela, suspiro e digo: — Natalie, foi você que m e ligou. E se bem m e lem bro, foi você que m e cham ou de vaca m entirosa e não acreditou em m im quando contei o que Dam on fez. Desculpa, m as acho que voltarm os a ser m elhores am igas e fingir que nada aconteceu não é o m elhor, neste m om ento.

— Eu sei, você tem razão, desculpa. — Natalie fica em silêncio para organizar as ideias e ouço um a lata de refrigerante sendo aberta. Ela tom a um gole. — Não duvidei de você, Cam , só tava m uito m agoada. Dam on é um babaca. Term inei com ele.

— Por quê? Porque flagrou o cara te chifrando, em vez de acreditar na tua m elhor am iga desde o prim ário quando ela te falou que ele era um cachorro?

— Mereço ouvir isso — ela diz —, m as não, não houve flagrante. Só percebi que tava sentindo falta da m inha m elhor am iga e que com eti o pior crim e contra o Código das Melhores Am igas. Acabei dando um a prensa em Dam on, e claro que ele m entiu, m as fiquei insistindo porque queria que ele adm itisse. Não porque precisasse de confirm ação, m as só... Cam , eu só queria que ele m e contasse a verdade. Queria que partisse dele.

Ouço a dor na voz dela. Sei que está falando sério e pretendo perdoá-la com pletam ente, m as não estou preparada para dizer a ela que a perdoo o suficiente para contar sobre Andrew. Não sei o que está acontecendo, m as é com o se a única pessoa que existisse neste m om ento no m eu m undo fosse Andrew. Am o Natalie de paixão, m as não estou preparada para contar a ela ainda. Não estou preparada para com partilhá-lo com Natalie. Ela tem um a m ania de... vulgarizar um a experiência, se é que se pode dizer isso.

— Olha, Nat — digo —, não te odeio e quero te perdoar, m as vai levar um tem po; você m e m agoou de verdade.

— Entendo — ela responde, m as detecto a decepção em sua voz tam bém . Natalie sem pre foi um a garota im paciente, gosta de recom pensas instantâneas.

— Bom , com o você tá? — ela pergunta. — Não consigo im aginar por que você fugiria logo pra Nova Orleans... Não tem furacões nesta época do ano?

Ouço o chuveiro no quarto de Andrew.

— Tô ótim a — digo, pensando em Andrew. — Pra dizer a verdade, Nat, nunca m e senti tão viva e feliz quanto nesta últim a sem ana.

— Ai, m eu Deus... tem gato na j ogada! Você tá com um cara, não tá? Cam ry n Mary beth Bennett, sua vaca dos infernos, é m elhor não esconder nada de m im !

É exatam ente isso que quero dizer quando falo de vulgarizar a experiência.

— Com o é o nom e dele? — Natalie faz um som alto de surpresa, com o se a resposta para os m istérios do m undo tivesse acabado de cair no colo dela. — Vocês transaram ! Ele é gostoso?

— Natalie, por favor. — Fecho os olhos e finj o que ela é um a m ulher m adura de 20

anos, não alguém que ainda não saiu do colégio. — Não vou falar dessas coisas com você agora, tá? Me dá só alguns dias que eu ligo e conto com o estão as coisas, m as por favor...

— Com binado! — ela diz, concordando, m as não tem desconfiôm etro para perceber que precisa controlar um pouco seu entusiasm o. — Desde que você estej a bem e não m e odeie, eu aceito.

— Obrigada.

Finalm ente, ela se recupera do delírio fofoqueiro libidinoso.

— Desculpa m esm o, Cam . Nunca vou pedir isso o suficiente.

— Eu sei. Acredito em você. E, quando eu ligar, você tam bém vai poder m e contar o que aconteceu com Dam on. Se quiser.

— Tá — ela diz —, ótim o.

— A gente se fala... ah, Nat?

— Sim ?

— Que bom que você ligou. Senti m uito tua falta.

— Eu tam bém .

Desligam os e fico olhando para o telefone por um m inuto, até que paro de pensar em Natalie e volto a pensar em Andrew.

É com o eu disse: todos os rostos nas m inhas fantasias se tornaram o de Andrew.

Tom o banho e visto um j eans que, apesar de ainda não ter sido lavado, não está fedendo, então acho que serve, por enquanto. Mas se eu não lavar m inhas roupas logo, vou acabar entrando em outra loj a de departam entos e com prando outras. Ainda bem que eu trouxe um a dúzia de calcinhas lim pas na m ochila.

Com eço a aplicar a m aquiagem e fazer as coisas de sem pre, m as aí apoio os dedos na pia do banheiro e m e olho no espelho, tentando ver o que Andrew vê. Ele j á m e viu quase no pior estado possível: sem m aquiagem , com olheiras depois de ficar acordada tanto tem po na estrada, com m au hálito, descabelada — sorrio pensando nisso, e então o im agino de pé atrás de m im , agora m esm o, no espelho. Vej o sua boca enterrada na curva do m eu pescoço e seus braços rij os m e abraçando por trás, seus dedos apertando m inhas costelas.

Um a batida na porta m e acorda da fantasia.

— Tá pronta? — Andrew pergunta quando abro a porta.

Ele entra no quarto.

— Aonde a gente vai, afinal? — pergunto, voltando para o banheiro, onde está m inha m aquiagem . — E eu preciso de roupas lim pas. É sério.

Ele entra atrás de m im , e isso m e choca um pouco, porque é quase igual à fantasia que tive um m om ento atrás. Com eço a passar o rím el, m e debruçando sobre a pia para perto do espelho. Aperto o olho esquerdo enquanto aplico o rím el no direito e Andrew fica olhando m inha bunda. Não está sendo nada discreto. Ele quer que eu o vej a sendo m au. Reviro os olhos para ele e continuo aplicando o rím el, agora no outro olho.

— Tem um a lavanderia no 12º andar — ele diz.

Andrew passa os braços na m inha cintura e m e olha no espelho com um sorriso diabólico e o lábio inferior preso entre os dentes.

Eu m e viro.

— Então a gente vai lá prim eiro — digo.

— Quê? — Ele parece decepcionado. — Não, eu quero sair, andar pela cidade, tom ar cervej a, ver um as bandas tocar. Não quero lavar roupa.

— Ah, para de choram ingar — respondo, m e virando para o espelho e tirando o batom da m ala. — Não são nem duas da tarde, não m e diga que você é daqueles caras que tom am cervej a no café da m anhã.

Ele faz um a careta e aperta a palm a da m ão no coração, fingindo estar m agoado.

— De j eito nenhum ! Eu espero pelo m enos até o alm oço.

Balanço a cabeça e o em purro para fora do banheiro, m esm o com o sorrisão cheio de dentes e as covinhas, e fecho a porta, deixando-o do outro lado.

— Pra que você fez isso? — ele pergunta através da porta.

— Preciso fazer xixi!

— Mas eu não ia olhar!

— Vai pegar sua roupa suj a, Andrew!

— Mas...

— Agora, Andrew! Se não, nada de sair hoj e!

Posso im aginá-lo fazendo beicinho, em bora, naturalm ente, ele não estej a fazendo isso. O filho da m ãe está sorrindo tanto que quase abre um buraco na porta.

— Tá bom ! — Ele se rende, e em seguida ouço a porta do quarto abrindo e fechando atrás dele.

Quando term ino no banheiro, j unto toda a m inha roupa suj a, enfio na m ala e calço os chinelos.