Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 12 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Camryn Fica Lindinha quando a torturo. Porque ela gosta.

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CAMRYN FICA LINDINHA quando a torturo. Porque ela gosta.

Não sei com o m e m eti nisto, m as o que sei é que por m ais que m inha consciência berre nos m eus ouvidos, dizendo para deixá-la em paz, não consigo. Não quero.

Já fom os longe dem ais.

Eu sei que eu deveria ter term inado tudo na rodoviária, com prado um a passagem aérea de prim eira classe para que ela se sentisse obrigada a usar, j á que custou tão caro, depois cham ado um táxi e m andado ela para o aeroporto.

Jam ais deveria ter perm itido que Cam saísse de lá com igo, porque agora sei que não vou conseguir abandoná-la. Preciso m ostrar a ela prim eiro. Agora é obrigatório. Preciso m ostrar tudo. Cam pode sofrer no final, depois que tudo for dito e feito, m as ao m enos vai poder voltar para a Carolina do Norte esperando algo m ais de sua vida.

Pego a caixa de sapatos das suas m ãos, fecho a tam pa e a coloco em cim a da m ochila aberta. Ela m e observa abrir a prim eira gaveta da côm oda, pescar algum as cuecas boxer e m eias lim pas e tam bém j ogá-las dentro da m ochila. Todos os m eus itens básicos de higiene pessoal estão na m ochila que ficou no carro, aquela que eu trouxe no ônibus.

Jogo a alça da m ochila sobre o om bro e olho para ela.

— Você tá pronta?

— Acho que sim — Cam ry n responde.

— Peraí, você acha? — pergunto, indo até ela. — Ou você tá pronta ou você não tá.

Ela sorri para m im com aqueles lindos olhos azuis cristalinos.

— Sim , tô pronta com certeza.

— Tá, m as por que a hesitação?

Ela balança a cabeça de leve para dizer que estou errado.

— Não foi hesitação — ela responde. — É que tudo isso é... estranho, sabe? Mas de um j eito bom .

Cam parece estar tentando desem baraçar algum a coisa em sua m ente. Obviam ente, deve estar com a cabeça bem cheia.

— Tem razão — concordo. — É m eio estranho, sim ... Tudo bem , é m uito estranho porque não é natural expandir as próprias fronteiras. — Olho para ela, obrigando-a a olhar nos m eus olhos. — Mas a ideia é essa m esm o.

Seu sorriso se ilum ina com o se m inhas palavras tivessem despertado algum a lem brança em sua m ente.

Ela balança a cabeça e diz, com ar divertido e ansioso: — Bom , então, o que a gente tá esperando?

Saím os para o corredor, e antes que com eçássem os a descer a escada, eu paro.

— Um m om ento.

Ela espera ali, no alto da escada, e eu volto, passo pelo m eu quarto e vou até o de Aidan. O dele é tão patético quanto o m eu. Vej o o violão dele encostado na parede do outro lado, vou até lá, pego o instrum ento pelo braço e trago com igo.

— Você toca violão? — Cam ry n pergunta, enquanto desço a escada.

— É, eu toco um pouco.

CAMRYN

ANDREW JOGA A MOCHILA no banco de trás, j unto com a outra, m enor, m inha m ala e m inha bolsa. Mas ele tom a um pouco m ais de cuidado com o violão, deitando-o sobre o assento. Entram os no carro preto antigo (com duas faixas brancas no m eio do capô) e fecham os as portas ao m esm o tem po.

Ele olha para m im .

Eu olho para ele.

Andrew enfia a chave na ignição e o m otor do Chevelle ruge.

Não acredito que vou fazer isso. Não que eu tenha m edo, estej a preocupada ou sinta que deveria parar agora m esm o e voltar para casa. Sinto que estou fazendo tudo certo; pela prim eira vez em m uito tem po, sinto que m inha vida está voltando aos eixos, só que seguindo um rum o bem diferente, cuj o destino eu desconheço. Não sei explicar... só que, bem , com o eu disse: sinto que está certo.

Andrew pisa no acelerador quando chegam os à ram pa de acesso e pegam os a 87, sentido sul.

Até que gosto de vê-lo dirigir, o m odo com o Andrew é tranquilo até para ultrapassar m otoristas m ais lentos. Não parece estar tentando se m ostrar quando ziguezagueia entre os carros; é com o se fosse um a atitude natural. Me surpreendo tentando olhar de relance, de vez em quando, para o braço direito m usculoso que segura o volante. E

quando m eus olhos correm cuidadosam ente pelo resto do seu corpo, im ediatam ente volto a pensar naquela tatuagem escondida sob a cam iseta azul-m arinho que cai tão bem nele.

Falam os sobre isto e aquilo por algum tem po; sobre com o o violão é de Aidan, e que ele provavelm ente vai explodir se descobrir que Andrew o levou. Andrew não se im porta.

— Ele roubou m inhas m eias um a vez — Andrew revelou.

— Suas m eias? — repito, fazendo um a careta. E ele m e olhou com um a expressão que dizia: “Ei! Meias, violão, desodorante — um pertence é um pertence.”

Eu só ri, ainda achando aquilo ridículo, m as deixei passar sem discutir.

Tam bém tivem os um a conversa bem profunda sobre o m istério dos sapatos solitários j ogados nas estradas por todos os Estados Unidos.

— A nam orada ficou puta e tacou as coisas do nam orado pela j anela — Andrew sugeriu.

— É um a possibilidade — argum entei —, m as acho que m uitos são de caroneiros, porque a m aioria tá bem detonada.

Andrew m e olha sem j eito, com o que esperando o resto.

— Caroneiros?

Balancei a cabeça.

— Pois é, eles andam m uito, então im agino que os sapatos deles gastem rápido. O

cara tá lá andando, com os pés doendo, daí vê um sapato, provavelm ente j ogado pela nam orada puta da vida (aponto para ele, incorporando sua teoria), e com o aquele tá em m elhor estado, ele troca um dos que tá usando.

— Que teoria idiota — Andrew diz.

Minha boca se abre e expiro bruscam ente, ofendida.

— Pode acontecer sim , tá! — Rio e dou um soco no seu braço. Ele só sorri.

Ficam os falando disso um tem pão, bolando teorias cada vez m ais idiotas.

Nem lem bro quando foi a últim a vez que ri tanto.

Finalm ente, chegam os a Denver quase duas horas depois. É um a cidade tão linda, com as m ontanhas enorm es ao fundo, cuj os picos parecem nuvens brancas espalhadas pelo horizonte azul e lum inoso. Ainda é bem cedo, e o sol está brilhando com toda a força.

Quando chegam os ao centro da cidade, Andrew dim inui a velocidade para 60 km /h.

— Você tem que m e dizer pra que lado ir — ele afirm a, quando nos aproxim am os de m ais um a ram pa de acesso.

Ele olha para três direções, depois para m im .

Pega de surpresa, olho para cada rota, e quanto m ais perto chegam os de ter que tom ar um a decisão, m ais ele dim inui a velocidade.

Cinquenta e cinco quilôm etros por hora.

— O que vai ser? — Andrew insiste, com um a pitada de provocação nos olhos verdes brilhantes.

Estou tão nervosa! É com o se estivessem m e pedindo para escolher o fio a ser cortado para desarm ar um a bom ba.

— Não sei! — grito, m as m eus lábios estão abertos num sorriso largo e nervoso.

Trinta quilôm etros por hora. As pessoas estão buzinando para nós, e um cara num carro verm elho ultrapassa e faz um gesto obsceno.

Vinte e cinco quilôm etros por hora.

Ahhh! Não aguento essa expectativa! Sinto que quero cair na risada, m as o riso está preso na m inha garganta.

Biii! Biii! Vai se foder! Sai da frente, babaca!

Andrew não está nem aí para os insultos e não para de sorrir.

— Pra lá! — grito finalm ente, levantando a m ão e apontando a saída leste. Solto um a risada estridente e afundo m ais no banco para que ninguém m e vej a, de tão constrangida.

Andrew liga a seta esquerda e vai para essa faixa com facilidade, entrando entre dois outros carros. Passam os pelo sinal am arelo pouco antes de m udar para verm elho e em segundos estam os em outra estrada, e Andrew está pisando no acelerador. Não faço ideia de que direção vam os, só sei que estam os indo para o leste, m as aonde isso vai dar ainda é um m istério.

— Não foi tão difícil, foi? — ele pergunta, m e olhando com um sorrisão.

— Até que foi estim ulante — adm ito, e em seguida dou um a risada aguda. — Você deixou todo m undo puto.

Andrew dá de om bros.

— As pessoas estão sem pre com pressa dem ais. Se você respeita o lim ite de velocidade, corre o risco de ser linchado.

— Verdade — concordo, e olho para a frente através do para-brisa. — Mas preciso confessar: norm alm ente, sou um a dessas pessoas. — Fico envergonhada em adm itir.

— É, eu tam bém , às vezes.

Tudo fica quieto de repente, e é o prim eiro m om ento de silêncio que am bos notam os.

Me pergunto se ele está pensando a m esm a coisa que eu, curioso a m eu respeito e querendo fazer perguntas, com o estou curiosa sobre m uitas coisas nele. É um daqueles m om entos que são inevitáveis, e que quase sem pre m arcam a fase em que duas pessoas com eçam a se conhecer de verdade.

É m uito diferente de quando estávam os j untos no ônibus. Então achávam os que nosso tem po era lim itado, e que, com o nunca m ais nos veríam os, não havia m otivo para falar m uito do lado pessoal.

Mas as coisas m udaram , e agora só sobrou o pessoal.

— Me fala m ais da sua m elhor am iga, essa Natalie.

Mantenho os olhos na estrada por alguns longos segundos e respondo devagar, pois não sei ao certo de que parte devo falar.

— Bem , se é que ela ainda é sua m elhor am iga — Andrew acrescenta, de algum a form a percebendo a anim osidade.

Olho para ele.

— Não é m ais. Ela é m eio capacho do nam orado, por falta de um a explicação m elhor.

— Você tem um a explicação m elhor, tenho certeza — ele argum enta, voltando a olhar para a estrada. — Talvez apenas não queira explicar.

Tom o um a decisão.

— Não, quero explicar sim , na verdade.

Ele parece feliz com isso, m as m antém um a postura respeitosa.

— A gente se conhece desde o prim ário — com eço —, e eu achava que nada poderia destruir nossa am izade, m as tava tão enganada... — Balanço a cabeça, revoltada só de pensar nisso.

— Bem , o que aconteceu?

— Ela escolheu o nam orado em vez de m im .

Acho que ele esperava um a explicação m ais detalhada, e eu pretendia explicar m elhor, m as foi assim que saiu.

— Você que a obrigou a escolher? — ele pergunta, erguendo um pouco a sobrancelha.

Eu m e viro para olhar para ele.

— Não, não foi nada disso. — Dou um suspiro longo e profundo. — Dam on, o nam orado dela, ficou sozinho com igo um a noite e tentou m e beij ar e disse que tava a fim de m im . Quando dei por m im , Natalie tava m e cham ando de vaca m entirosa e dizendo que nunca m ais queria m e ver.

Andrew balança a cabeça com vigor, m ostrando que entende com pletam ente, agora.

— Um a garota insegura — ele com enta. — Deve estar com ele faz tem po, né?

— É, uns cinco anos.

— Essa sua m elhor am iga acredita em você, sabia?

Olho para ele, confusa.

Ele balança a cabeça.

— Acredita, sim ; pensa bem , ela te conhece praticam ente há um a vida. Você acha que ela ia j ogar fora um a am izade com o essa por não acreditar em você?

Continuo confusa.

— Mas ela fez isso — digo sim plesm ente. — Foi exatam ente o que ela fez.

— Não — Andrew discorda —, isso é só um a reação, Cam ry n. Ela não quer acreditar em você, m as nem tão no fundo sabe que é verdade. Só precisa de tem po pra pensar a respeito e ver o que realm ente aconteceu. A ficha dela vai cair.

— Bom , quando cair, posso não querer m ais nada com ela.

— Talvez — ele diz, dando seta para a direita e m udando de faixa —, m as você não m e parece ser esse tipo de pessoa.

— Que não perdoa? — digo.

Ele concorda com a cabeça.

Ultrapassam os um a carreta lenta e entram os na frente dela.

— Sei lá — digo, j á sem saber o que pensar —, não sou m ais com o eu era.

— Com o você era?

Tam bém não sei. Levo um segundo para encontrar um a m aneira de não falar de Ian.

— Eu era divertida, extrovertida e... — rio de repente, quando a lem brança faz cócegas na m inha m ente — ... e pulava pelada num lago gelado todo inverno.

O rosto lindo de Andrew se distorce por inteiro num sorriso curioso e cheio de energia.

— Uau — ele diz —, tô até vendo isso...

Dou outro soquinho no braço dele. Sem pre sorrindo. Ele finge que doeu, m as eu sei que não.

— Era um evento beneficente pro hospital da m inha cidade — explico —, eles faziam todo ano.

— Pelada? — Ele parece totalm ente confuso, à parte estar com o m aior sorrisão só de pensar nisso.

— Bem , não totalm ente pelada — digo —, m as só de top e shortinho naquela água gelada, é com o estar pelada.

— Cacete, preciso com eçar a participar de eventos beneficentes quando eu voltar — ele diz, batendo com a m ão no volante. — Não sabia o que eu tava perdendo.

Ele controla o sorriso um pouco e olha para m im de novo.

— E por que isso é um a coisa que você fazia?

Porque foi Ian que m e convenceu a fazer, e fiz j unto com ele por dois anos.

— Parei m ais ou m enos um ano atrás, é só um a dessas coisas que você para de fazer.

Tenho a sensação de que ele não acredita que esse sej a o único m otivo, por isso m udo de assunto para distraí-lo.

— E você? — pergunto, virando o corpo para lhe dar toda a m inha atenção. — Que tipo de loucura você j á fez?

Andrew franze os lábios, pensativo, olhando para a estrada. Ultrapassam os m ais um a carreta e entram os na frente dela tam bém . O trânsito está dim inuindo à m edida que nos afastam os da cidade.

— Já surfei em cim a do capô de um carro. Não foi bem um a loucura, foi m ais idiotice m esm o.

— É, m uita idiotice.

Ele estica o braço esquerdo e m ostra a parte interna do pulso.

— Caí daquela porra e abri um corte no pulso sei lá com o. — Olho para a cicatriz de 5

centím etros que segue da parte de baixo do polegar para o braço. — Rolei na estrada.

Rachei a cabeça. — Ele aponta para o lado direito da nuca. — Levei nove pontos aqui e m ais 16 no pulso. Nunca m ais faço isso.

— Bom , espero que não — digo severam ente, ainda tentando ver a cicatriz através do seu cabelo castanho.

Andrew segura o volante com a outra m ão e pega a m inha, pondo seu dedo indicador sobre o m eu para m e guiar.

Chego m ais perto, deixando que ele m ova a m inha m ão.

— Foi bem ... aqui — ele diz, ao encontrar a cicatriz. — Tá sentindo?

Sua m ão solta a m inha, m as eu a olho por um m om ento.

Voltando a prestar atenção na cabeça dele, olho e corro o dedo por um a linha claram ente irregular no couro cabeludo, e separo seu cabelo curto com os dedos. A cicatriz tem uns 2 centím etros e m eio. Passo o dedo nela m ais um a vez e tiro a m ão relutantem ente.

— Você deve ter m uitas cicatrizes — digo.

Ele sorri.

— Não m uitas; tenho um a nas costas onde Aidan m e bateu com um a corrente de bicicleta, girando com o se fosse um chicote (faço um a careta e cerro os dentes). E

quando eu tinha 12 anos, tava levando Asher no guidão da m inha bicicleta. Bati num a pedra. A bicicleta virou pra frente e j ogou nós dois no concreto. — Ele aponta para o nariz. — Quebrei o nariz, m as Asher quebrou um braço e levou 14 pontos no cotovelo.

Mam ãe achou que a gente tinha batido num carro e tava m entindo só pra livrar a nossa cara.

Continuo olhando para o seu nariz perfeito; não vej o nenhum sinal de que j á tenha sido quebrado.

— Tenho um a cicatriz esquisita em form a de L no lado de dentro da coxa — Andrew continua, apontando o lugar. — Mas essa eu não vou te m ostrar. — Ele sorri e segura o volante com as duas m ãos.

Fico verm elha, porque bastaram m esm o dois segundos para com eçar a im aginá-lo tirando a calça para m e m ostrar.

— Ainda bem . — Rio, e m e apoio no painel para levantar um pouco m inha cam iseta da Sm urfette. Vej o que ele está m e olhando e isso m e dá um a sensação estranha na barriga, m as eu a ignoro. — Fui acam par um a vez — digo —, pulei de um as rochas na água e bati num a pedra, quase m e afoguei.

Andrew franze a testa e estica o braço, roçando os contornos da pequena cicatriz na m inha anca. Um arrepio sobe pela m inha espinha até a nuca, com o se algo gelado estivesse correndo no m eu sangue.

Ignoro isso tam bém , o m elhor que posso.

Deixo a cam iseta cair no lugar e m e encosto no banco.

— Bom , ainda bem que você não se afogou. — Seus olhos se enchem de ternura.

Sorrio para ele.

— É, ia ser péssim o.

— Com certeza.

15

ACORDO DEPOIS QUE ESCURECE, quando Andrew dim inui a velocidade para passar por um pedágio. Não sei quanto tem po dorm i, m as sinto que tive um a noite inteira de sono, apesar de estar encolhida no canto do banco do passageiro, com a cabeça encostada na porta. Eu deveria estar m assageando alguns m úsculos entrevados, com o fazia no ônibus, m as m e sinto bem .

— Onde a gente tá? — pergunto, cobrindo um bocej o com a m ão.

— No m eio do nada, em Wellington, Kansas — Andrew responde. — Você dorm iu bastante.

Term ino de erguer o corpo e deixo m eus olhos e o resto se acostum arem a estar acordados de novo. Andrew pega outra estrada.

— Acho que sim , m elhor do que dorm i no ônibus em toda a viagem da Carolina do Norte até o Wy om ing.

Olho para o display azul do som do carro: 22h14. Um a canção soa nos alto-falantes.

Me faz pensar em quando conheci Andrew no ônibus. Sorrio com igo m esm a, notando que ele fez questão de deixar a m úsica baixinha no carro enquanto eu dorm ia.

— E você? — pergunto, m e virando para ver seu rosto parcialm ente escondido pela escuridão. — Acho esquisito oferecer, porque o carro é do teu pai, m as posso dirigir, se precisar.

— Não, não precisa achar esquisito — ele diz. — É só um carro. É um a antiguidade preciosa e m eu pai te enforcaria se soubesse que você pegou no volante dele, m as eu deixo você dirigir, com certeza. — Mesm o nas som bras, vej o o lado direito da boca dele form ando um sorriso m aldoso.

— Bom , agora não sei m ais se eu quero.

— Meu pai tá m orrendo, lem bra? O que ele pode fazer?

— Isso não tem graça, Andrew.

Ele sabe que não. Tenho plena consciência do j ogo que Andrew está j ogando consigo m esm o, sem pre procurando qualquer coisa que o aj ude a lidar com o que está acontecendo, m as em vão. Só m e pergunto por quanto tem po m ais vai conseguir continuar assim . As piadinhas fora de hora vão acabar se esgotando, e ele não vai m ais saber o que fazer.

— Vam os parar no próxim o m otel — ele diz, pegando outra estrada. — Aí eu vou dorm ir um pouco.

Então ele m e olha de relance.

— Em quartos separados, claro.

Fico feliz por ele ter pensado nisso tão rápido. A gente até pode estar viaj ando constrangedoram ente sozinhos pelos EUA, m as acho que não conseguiria dorm ir no m esm o quarto que ele.

— Ótim o — digo, esticando os braços à m inha frente com os dedos cruzados. — Preciso tom ar um banho e escovar os dentes por m ais ou m enos um a hora.

— Não vou discordar disso — ele brinca.

— Ei, teu hálito tam bém não tá essa m aravilha toda.

— Eu sei — Andrew adm ite, cobrindo a boca com a m ão e expirando nela. — Parece até que com i aquela caçarola de m erda que a m inha tia faz todo ano no Dia de Ação de Graças.

Rio alto.

— Péssim a escolha de palavras — digo. — Caçarola de m erda? É de m erda m esm o? — Sinto vontade de vom itar.

Andrew tam bém ri.

— Olha, podia até ser. Am o a tia Deana de paixão, m as a m ulher não foi abençoada com dotes culinários.

— Parece a m inha m ãe.

— Deve ser ruinzão — ele com enta, olhando para m im . — Ser criada na base do m acarrão instantâneo e Hot Pockets.

Balanço a cabeça.

— Não, eu aprendi a cozinhar. Não com o porcarias, lem bra?

O rosto sorridente de Andrew é ilum inado pela luz suave dos postes ao longo da rua.

— Ah, é — ele diz —, a srta. Bolinhos de Arroz não quer saber de ham búrgueres sangrentos, nem de fritas gordurosas.

Faço cara de noj o, rej eitando sua teoria dos bolinhos de arroz.

Minutos depois, entram os no estacionam ento de um pequeno m otel de dois andares; do tipo com quartos que dão para um a área aberta, e não para um corredor. Saím os e esticam os as pernas — Andrew alonga pernas, braços, pescoço, praticam ente o corpo todo — e pegam os as m alas no banco de trás. Ele deixa o violão.

— Tranca a porta — ele pede, apontando.

Entram os no saguão que cheira a sacos de aspirador de pó e café.

— Dois quartos de solteiro adj acentes, se tiver — Andrew diz, tirando a carteira do bolso de trás.

Ponho a bolsa na frente do corpo e pego m inha carteira de zíper.

— Eu pago o m eu quarto.

— Não, pode deixar.

— É sério, m e deixa pagar.

— Já falei que não, tá? Guarda essa carteira.

Obedeço relutantem ente.

A m ulher de m eia-idade com o cabelo grisalho preso num coque m alfeito nos olha com expressão neutra. Ela volta a tam borilar no teclado para ver quais os quartos disponíveis.

— Fum antes ou não fum antes? — ela pergunta, olhando para Andrew.

Noto que os olhos dela descem pelos braços m usculosos de Andrew enquanto ele pega o cartão de crédito.

— Não fum antes.

Tap, tap, tap. Clic, clic, clic. Mexe no teclado, m exe no m ouse.

— Os únicos quartos de solteiro adj acentes que tenho são um de fum ante e outro de não fum ante.

— Podem ser esses — ele diz, entregando o cartão.

Ela o pega dos dedos dele, e o tem po todo observa cada m ovim ento que a m ão de Andrew faz até sum ir de vista atrás do balcão.

Vadia.

Depois que pagam os e recebem os as chaves, saím os de novo e Andrew pega o violão no carro.

— Eu devia ter perguntado antes de a gente chegar aqui — ele com enta enquanto o sigo —, m as se você tá com fom e, posso sair e trazer algum a coisa.

— Não, tô legal. Obrigada.

— Tem certeza? — Ele olha para m im .

— Tenho, tô sem fom e nenhum a, m as se depois eu ficar, posso com prar algum a coisa na m áquina.

Andrew enfia o cartão na fechadura da prim eira porta e um a luz verde aparece. Ele abre a porta em seguida.

— Mas tudo o que tem naquele negócio é puro açúcar e gordura — diz, lem brando nossas conversas anteriores sobre com er porcarias.

Entram os no quarto de decoração m onótona, com um a cam a de solteiro encostada num a cabeceira de m adeira presa à parede. A colcha é m arrom , feia e m e deixa apavorada. O quarto cheira a lim peza e parece decente, m as nunca dorm i num m otel sem antes tirar a colcha da cam a. Não há com o saber o que vive nela, ou quando foi lavada pela últim a vez.

Andrew inspira profundam ente, sentindo o cheiro do quarto.

— Este é o de não fum antes — decide, olhando ao redor, com o se o estivesse inspecionando. — Você fica com ele. — Ele apoia o violão na parede e entra no pequeno banheiro, acende a luz, testa o exaustor, depois vai para a j anela do outro lado da cam a e testa o ar-condicionado, afinal, estam os no m eio de j ulho. Em seguida, vai até a cam a, puxa cuidadosam ente o edredom e exam ina os lençóis e travesseiros.

— O que você tá procurando?

Ele diz, sem m e olhar:

— Quero ver se tá lim po; não quero você dorm indo em cim a de nenhum a noj eira.

Fico bem verm elha e m e viro antes que ele perceba.

— Meio cedo pra dorm ir — ele diz, se afastando da cam a e pegando o violão de novo.

— Mas a viagem m e cansou bastante.

— Bom , tecnicam ente, você não dorm e desde que a gente desceu do ônibus em Chey enne.

Deixo m inha bolsa e a m ala no pé da cam a.

— Verdade — Andrew diz. — Isso significa que tô acordado há um as 18 horas.

Caram ba, eu nem tinha percebido.

— Culpa do cansaço.

Ele vai até a porta e põe a m ão na m açaneta prateada, abrindo-a de novo. Fico ali, ao pé da cam a. É um m om ento em baraçoso, m as não dura m uito.

— Bom , a gente se vê de m anhã — ele diz da entrada. — Tô aqui do lado, no 110; pode ligar, bater na porta ou na parede se precisar de m im . — No seu rosto há só gentileza e sinceridade.

Concordo com a cabeça, sorrindo em resposta.

— Então boa noite — ele se despede.

— Noite.

E Andrew sai, fechando devagar a porta atrás de si.

Depois de pensar nele distraidam ente por um segundo, caio em m im e m exo dentro da m inha m ala. Vai ser m eu prim eiro banho em alguns longos dias. Estou babando só de pensar. Tiro da m ala um a calcinha lim pa, m eu short branco de algodão favorito e um a cam isetinha do tim e da universidade com listras rosa e azuis nas m angas. Depois acho m inha escova de dentes, a pasta e o Listerine e entro no banheiro levando tudo. Fico nua, arrancando alegrem ente as roupas suj as e j ogando-as num a pilha no chão. Me olho no espelho. Ai m eu Deus, tô horrorosa! Minha m aquiagem saiu quase toda; m al sobrou um pouco de rím el. Mais fios de cabelo louro se soltaram da trança e estão em bolados num ninho de rato do lado da m inha cabeça.

Não acredito que eu estava viaj ando com Andrew nesse estado.

Puxo o elástico da trança para soltar o resto do cabelo e passo os dedos através dele, desem baraçando-o. Escovo os dentes prim eiro e fico com a boca cheia de Listerine de m enta até bem depois de parar de arder.

O chuveiro parece o paraíso. Fico debaixo do j ato por um a eternidade, deixando a água quase pelando bater no m eu corpo até que eu não aguente m ais, e o calor com eça a m e fazer adorm ecer de pé m esm o. Lavo tudo. Duas vezes. Só porque posso e porque j á faz um tem pão. Por fim , m e depilo, feliz em m e livrar dos pelos noj entos que estavam com eçando a crescer nas m inhas pernas. E, finalm ente, fecho as torneiras que rangem e pego a toalha branca do m otel, dobrada obsessivam ente sobre o suporte atrás da privada.

Ouço o chuveiro funcionando no quarto ao lado e m e surpreendo prestando atenção no barulho. Im agino Andrew lá, só tom ando banho, nada sexual nem pervertido, em bora pensar em algo assim não seria nada difícil. Penso só nele de m aneira geral, no que estam os fazendo e por quê. Penso no seu pai e m eu coração dói de novo só de lem brar o quanto Andrew está sofrendo, e com o m e sinto im potente na hora de aj udá-lo.

Finalm ente, m e obrigo a pensar de novo em m im , na m inha vida e nos m eus problem as, que na verdade perdem de longe para os de Andrew.

Espero que eu nunca sej a obrigada a lhe contar sobre m inhas dificuldades e todas as coisas que m e levaram a fazer aquela viagem de ônibus, porque vou m e sentir tão ridícula e egoísta. Meus problem as não são nada, com parados com os dele.

Deito na cam a com o cabelo m olhado, penteando com os dedos. Ligo a TV — não estou nada cansada, j á que dorm i a m aior parte do cam inho desde Denver — e vou m udando de canal, finalm ente deixando num film e qualquer com Jet Li. Mas é m ais para servir de ruído de fundo do que para qualquer outra coisa.

Mam ãe ligou quatro vezes e deixou quatro recados.

Ainda nada de Natalie.

— Com o vão as coisas na Virgínia? — Minha m ãe diz no m eu ouvido. — Espero que estej a se divertindo m uito.

— Tô, tá tudo ótim o. Com o você tá?

Ela ri do outro lado da linha e aquilo instintivam ente m e causa repulsa. Tem um hom em com ela. Que noj o, espero que ela não estej a falando com igo na cam a, pelada, com um cara lam bendo o seu pescoço.

— Estou bem , querida — ela responde. — Continuo saindo com Roger, vam os fazer aquele cruzeiro no fim de sem ana que vem .

— Que bom , m ãe.

Ela dá outra risadinha.

Eu torço o nariz.

— Bom , querida, preciso desligar (Para, Roger). — Ela ri de novo. Desse j eito vou vom itar. — Só queria saber com o você estava. Por favor, m e ligue am anhã a qualquer hora, e m e m antenha inform ada, certo?

— Tá, m ãe, eu ligo. Te am o.

Desligam os e eu deixo o celular cair na cam a na m inha frente. Depois m e j ogo nos travesseiros, im ediatam ente pensando em Andrew no quarto ao lado. Ele pode estar com a cabeça encostada nesta m esm a parede. Mexo nos canais da TV m ais um pouco até passar por todos pelo m enos um as cinco vezes, e aí desisto.

Me afundo m ais e olho para o quarto.

O som de Andrew tocando violão m e deixa alerta, e m e levanto devagar dos travesseiros para ouvir m elhor. É um a m elodia suave, um a coisa entre vaga e lam entosa.

E então, quando vem o refrão, o ritm o acelera só um pouco, m as volta a ser um lam ento no com passo seguinte. É absolutam ente linda.

Ouço-o tocar pelos 15 m inutos seguintes, e depois vem o silêncio. Desliguei a TV

quando o ouvi, e agora o único som é o do pinga-pinga da pia do banheiro e ocasionalm ente algum carro no estacionam ento do m otel.

Pego no sono e o sonho volta:

Naquela m anhã, não recebi a costum eira sequência de m ensagens de texto de Ian antes de levantar. Tentei ligar para o celular dele, m as só tocou e tocou e a caixa postal não atendeu. E Ian não estava na escola quando cheguei.

Todos estavam m e encarando enquanto eu andava pelos corredores. Alguns não conseguiam m e olhar nos olhos. Jennifer Parsons caiu no choro quando passei por ela perto dos arm ários, e outro grupo de garotas, líderes de torcida, em pinaram o nariz e m e olharam com o se eu tivesse algum a doença contagiosa. Eu não sabia o que estava acontecendo, m as parecia ter entrado num universo alternativo esquisito. Ninguém m e dirigia a palavra, m as era bem óbvio que todos naquela escola sabiam de algo que eu não sabia. E era algo ruim . Nunca tive nenhum inim igo, a não ser algum as líderes de torcida que de vez em quando sentiam invej a de m im porque Ian m e am ava e não dava bola para elas. Fazer o quê? Ian Walsh era m ais gato que o astro do tim e de futebol, e ninguém se im portava, nem m esm o Em ily Derting, a garota m ais rica do Colégio Millbrook, com o fato de ele não ter m uita grana e ainda ir para a escola de carona com os pais.

Ela o queria m esm o assim .

Todas queriam .

Fui até m eu arm ário, esperando ver Natalie logo, pois talvez ela pudesse m e contar o que estava acontecendo. Fiquei perto do m eu arm ário m ais tem po do que de costum e, esperando algum sinal dela. Foi Dam on que m e encontrou e m e contou o que havia acontecido. Ele m e levou para um canto, ao lado do átrio onde ficavam os bebedouros.

Meu coração m artelava dentro do peito. Eu sabia que algo estava errado desde que acordei, antes m esm o de m e dar conta de que não tinha recebido nenhum a m ensagem de texto de Ian. Eu m e sentia... deslocada. Era com o se eu j á soubesse...

— Cam ry n — Dam on com eçou, e entendi na hora a gravidade do que ele ia m e contar, porque ele e Natalie só m e cham am de “Cam ”. — Ian sofreu um acidente de carro ontem à noite...

Senti m eu fôlego faltar e levei as duas m ãos à boca. Lágrim as estavam ardendo na m inha garganta e correndo dos m eus olhos.

— Ele m orreu hoj e de m anhã no hospital. — Dam on estava se esforçando tanto para m e contar, m as a dor no seu rosto era inconfundível.

Fiquei olhando para Dam on pelo que pareceu um a eternidade antes de não conseguir m ais ficar de pé sozinha e desabar nos braços dele.

Chorei e chorei até passar m al, e finalm ente Natalie nos encontrou e os dois m e levaram para a enferm aria.

Acordo do pesadelo suando, m eu coração batendo feito louco. Jogo o lençol para longe e m e sento no m eio da cam a com os j oelhos dobrados, passando as m ãos na cabeça e soltando um longo suspiro. Eu tinha parado de ter esse sonho há m uito tem po. Aliás, é o últim o sonho de que m e lem bro. Por que ele voltou?

Batidas fortes na porta do m eu quarto m e fazem acordar sobressaltada.

— LEVANTE E SORRIA, FLOR DO DIA! — Andrew diz harm oniosam ente do outro lado.

Nem lem bro quando peguei no sono de novo depois do sonho. O sol está brilhando por um a fresta das cortinas, banhando o carpete m arrom logo abaixo da j anela. Eu m e levanto da cam a e j ogo o cabelo despenteado para trás, tirando-o do rosto, e vou abrir a porta antes que Andrew acorde o m otel inteiro.

Ele arregala os olhos quando abro a porta.

— Porra, garota — exclam a, m e olhando de alto a baixo —, o que você tá tentando fazer com igo?

Olho para m im m esm a, ainda tentando term inar de acordar, e m e dou conta de que estou usando só o m icrosshortinho branco de algodão e a cam iseta do tim e da escola sem sutiã. Meu Deus, m eus m am ilos parecem dois faróis acesos por baixo da cam iseta!

Cruzo os braços no peito e tento não olhar nos olhos de Andrew quando ele entra no quarto.

— Eu ia falar pra você se vestir — ele continua, sorrindo de orelha a orelha e carregando suas m ochilas e o violão —, m as, tipo, pode ir assim m esm o, se quiser.

Balanço a cabeça, escondendo o sorriso que está se abrindo no m eu rosto.

Ele se j oga na poltrona perto da j anela e deixa suas coisas no chão. Está usando berm uda cargo m arrom , cam iseta cinza-escuro e aqueles tênis baixos de corrida com m eias sem cano, ou sem m eia nenhum a. Olho para a tatuagem no seu tornozelo; parece algum tipo de desenho celta redondo, bem em cim a do osso. E ele tem m esm o pernas de corredor; suas panturrilhas têm m úsculos grossos e rij os.

— Peraí que eu vou m e aprontar — digo, indo até m inha m ala, que está sobre o gaveteiro longo onde fica a TV, no outro canto.

— Quanto tem po vai levar? — ele pergunta, e detecto um tom inquisidor em sua voz.

Lem brando o que ele disse na casa do pai, penso antes de responder e pondero m inhas opções: dem oro m eus costum eiros trinta m inutos ou entrego os pontos e visto qualquer coisa?

Ele m e aj uda com o dilem a:

— Você tem dois m inutos.

— Dois m inutos? — protesto.

Andrew balança a cabeça, sorrindo.

— Você ouviu. Dois m inutos. — Ele ergue e m exe dois dedos. — Topou fazer tudo que eu m andar, lem bra?

— É, m as achei que ia ser algum a doideira, tipo m ostrar a bunda pra alguém na estrada ou com er baratas.

Ele ergue um a sobrancelha e encolhe o queixo, com o se eu tivesse acabado de j ogar duas ideias no seu colo.

— Na hora certa, você vai m ostrar a bunda pra alguém na estrada e com er um a barata, a gente faz isso depois.

O que foi que eu fiz, cacete?

Jogo a cabeça para trás, contrariada e m ortificada, e ponho as m ãos na cintura.

— Hã, de j eito nenhum ... — Noto que seu sorriso está m ais para “adolescente m alandro” agora e, olhando para baixo, percebo que m eus braços não estão m ais cobrindo m eus m am ilos, que erguem orgulhosam ente o tecido fino da m inha cam iseta.

Eu bufo e fico de boca aberta. — Andrew!

Ele baixa a cabeça fingindo vergonha, m as só fica parecendo m ais safado, m e olhando cabisbaixo assim .

Ele é tão gostoso, porra...

— Ei, é você que prefere ficar reclam ando das m inhas regras básicas em vez de proteger tuas crianças... Já vou avisando, m eus olhos têm vontade própria.

— Ah, tá. Aposto que não são a única parte do teu corpo que tem vontade própria. — Dou um sorrisinho e pego m inha m ala, ando descalça até o banheiro e fecho a porta.

Estou sorrindo com o um a daquelas fotos bregas de book dos anos 80 quando m e olho no espelho.

Tá, dois m inutos. Literalm ente m ergulho no sutiã e no j eans apertado, dando pulinhos para fazê-lo deslizar sobre a m inha bunda. Zíper. Botão. Escovar bem os dentes. Um gole rápido de Listerine. Bochecha. Gargarej a. Cospe. Pentear o cabelo em bolado e j ogá-lo num a trança desarrum ada sobre o om bro direito. Um pouco de base e um a cam adinha de pó. Rím el preto, porque o rím el é a peça m ais im portante do arsenal de m aquiagem .

Batonzi...

BAM! BAM! BAM!

— Teus dois m inutos acabaram !

Passo o batom assim m esm o e tiro o excesso com um pedaço de papel higiênico.

Posso sentir que ele está sorrindo do outro lado da porta do banheiro, e quando a abro, um segundo depois, vej o que acertei. Ele está com os dois braços erguidos, apoiados no batente. Seu tanquinho rij o está parcialm ente à m ostra com a cam iseta assim , bem levantada. Um a trilha de pelos com eça logo abaixo do seu um bigo e desce até a cintura da berm uda.

— Viu só? Olha pra você! — Ele assobia, bloqueando a passagem , m as com certeza não é para m im que estou olhando. — O sim ples é sexy .

Abro cam inho em purrando-o, encontrando a oportunidade perfeita para pôr as m ãos no seu peito, e ele m e deixa passar.

— Não sabia que eu tava tentando ficar sexy pra você — digo de costas, j ogando m inhas roupas de dorm ir na m ala.

— Uau, olha isso — ele continua —, sim ples, sexy e desorganizada. Tô orgulhoso!

Nem tinha percebido. Enfiei as roupas na m ala sem nem pensar em tentar arrum á-las.

Não sou um “caso clínico” de TOC; sou só um a dessas pessoas que usam o term o por causa de alguns hábitos m etódicos. Mas dobrar m inhas roupas e tentar ser organizada é algo que faço desde que tinha 11 anos.

ANDREW