Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 8 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Não Acredito que ela m encionou m…

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NÃO ACREDITO QUE ela m encionou m eu pai. Não que eu estej a puto, m as fico surpreso por ela parecer realm ente querer saber. Até por ela lem brar. Ela não com eçou a fazer perguntas sobre qual o m eu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou verm elha e fez cara de idiota enquanto tocava m inhas tatuagens, usando-as com o um a desculpa para m e tocar. Broxante dem ais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar — facilita as coisas —, m as por algum a razão fiquei m uito feliz por Cam ry n não ter feito isso.

Quem é essa garota, caram ba?

E por que é que estou pensando nessas coisas?

Ela pega no sono na m inha frente com a cabeça encostada na j anela. Resisto ao desej o de ficar olhando para ela, notando com o parece delicada e inocente, o que m e deixa m uito m ais prim itivo, m ais protetor.

O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar j untos na últim a rodoviária. Na sua visão m asculina, ele provavelm ente a vê com o m eu “território” agora, m inha propriedade. E isso é bom , porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vam os viaj ar j untos até Wy om ing, e isso m e deixa preocupado pra caralho. Espero que o hom em tom e outro ônibus antes que Cam ry n e eu precisem os nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver — torço m uito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wy om ing.

Ele não vai para Idaho. Eu m ato o filho da puta prim eiro.

Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O hom em está dorm indo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Um a m ulher está sentada ao lado dele na j anela, m as é velha dem ais para cham ar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelm ente m uito novinhas. Dá vontade de vom itar só de pensar no que ele j á pode ter feito com algum a outra garota.

Apesar de o ônibus norm alm ente ser barulhento, com o assobio do vento contra o m etal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o m otorzão roncando enquanto em purra a enorm e carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto um a viagem de ônibus pode ser.

Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no m odo aleatório. O que vai ser? O

que vai ser? Sem pre deixo a prim eira m úsica determ inar o clim a. Tenho m ais de trezentas faixas neste troço. Trezentos clim as diferentes. Mas acho que m eu MP3 é viciado, porque a prim eira m úsica quase sem pre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou algum a do Eagles.

Espero pela prim eira m úsica sem olhar o aparelho, com o se fosse um j ogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosm ith.

Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que m eu dedo está apertando o botão para abaixar o volum e. Porque não quero acordar Cam ry n.

Abro os olhos e m e viro para ela, vendo com o Cam segura a m ala tão apertado que deve ter consciência da bagagem m esm o no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe algum a coisa que possa m e revelar m ais a respeito dela. Quem sabe algum a coisa que possa m e revelar a verdade a respeito dela.

Mas não im porta. Não vou m ais conhecê-la depois do Wy om ing, e ela provavelm ente não vai lem brar m ais nem m eu nom e. Mas sei que é m elhor assim . Tenho bagagem dem ais, e m esm o com o am igo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desej aria isso pra ninguém .

A voz suave e m elodiosa de Steven Ty ler m e em bala até que eu fico m eio adorm ecido.

Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.

— Cara, fala sério — ouço um a voz dizer.

Algo está fazendo força contra m eu om bro. Acordo e vej o Cam ry n m e em purrando com seus bracinhos. Na verdade é m eio engraçado, aquela cara am assada dela de m anhã, e por m ais força que ela faça, m eu corpo é pesado dem ais para ela conseguir m e tirar do lugar.

— Foi m al — respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto m inha nuca dura com o um pedaço de pau. Eu não queria que m inha cabeça fosse parar em cim a do braço dela, m as não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar.

Bem , tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo m uita força para não sorrir.

Vou aj udá-la um pouco.

Abro um sorrisão para ela.

— Você acha isso engraçado? — ela reclam a, com a boca sem iaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.

— Sim , eu acho m esm o. — Meu sorriso aum enta e finalm ente o dela tam bém se abre suavem ente em seu rosto. — Mas foi m al, desculpa. Sério. — E estou falando sério m esm o.

Ela aperta um olho e m e olha de lado, avaliando m inha sinceridade, o que tam bém é um a graça.

Viro a cabeça e estico os braços para m e espreguiçar, e isso m e faz bocej ar.

— Que noj o! — ela diz, e essa palavra não m e surpreende nem um pouco. — Teu bafo tá com cheiro de bunda.

Um a risada curta e volúvel acom panha m inhas palavras: — Cacete, m ulher, com o é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?

Isso cala a sua boca. Rio de novo e m exo na m inha m ochila, depois de j ogar o MP3

dentro dela. Abro o m eu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Cam ry n está m e olhando com cara de noj o enquanto faço tudo isso, m as era o que eu queria.

O resto do ônibus parece ter acordado antes de m im . Fico surpreso por ter dorm ido tanto e sem acordar pelo m enos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.

Meu relógio diz que são 9h02.

— Onde a gente tá, afinal? — pergunto, olhando pela grande j anela ao lado de Cam ry n, procurando algum a placa na estrada.

— A um as quatro horas de Denver — ela responde. — O m otorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez m inutos.

— Que bom — com ento, esticando um a perna no corredor. — Preciso andar um pouco.

Tô todo duro.

Vej o que ela sorri, m as vira o rosto para a j anela. Todo duro. Certo, então ela tam bém tem m ente poluída. Rio só de pensar nisso.

O lugar da próxim a parada não é m uito diferente das últim as, com um a série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realm ente m e fez considerar se devo com er num a delas ou não, quando norm alm ente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa m elhor para com er quando tenho opção, ou porque sei que ela vai m e dar bronca.

Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?

Claro que ela está. Droga.

Saím os do ônibus em fila, Cam ry n na m inha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e m e olhando, apertando os lábios.

— Bom , se você é tão esperta — digo, parecendo um m oleque do prim ário, adm ito —, então vam os ver se consegue achar algum a coisa saudável pra com er, e que não tenha gosto de borracha com m olho de m erda, num lugar com o este.

Um sorriso ergue um lado de sua boca.

— Com binado — diz, aceitando o desafio.

Entro atrás dela na gigantesca loj a de conveniência, e ela vai prim eiro para as geladeiras de bebidas. Com o aquela loura daquele gam e show (não sei qual deles porque não vej o nenhum gam e show, m as todo m undo conhece essa loura), Cam ry n gesticula diante das portas de vidro da geladeira, com o se estivesse m e revelando o m undo dos sucos de fruta e água m ineral pela prim eira vez.

— Com eçam os com um a variedade de sucos, com o você pode ver — ela anuncia, com voz de apresentadora. — Qualquer um destes é m elhor do que refrigerante. Pode escolher.

— Detesto suco.

— Deixa de ser criança. Tem um m onte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tom ar.

Ela recua dois passos para que eu vej a as dezenas de garrafas de água m ineral com sabor na porta seguinte.

— E tam bém tem água — ela sugere —, m as não im agino alguém com o você tom ando um a água m ineral chique.

— Não, é babaca dem ais. — Na verdade, não tenho problem a nenhum com água m ineral, m as estou gostando desse j oguinho.

Ela sorri, m as tenta se m anter séria.

Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto m eu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.

Suspiro profundam ente e m e aproxim o, correndo os olhos pelas várias m arcas e sabores e m isturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm m orango ou kiwi, ou m orango e kiwi. Detesto os dois.

Finalm ente, abro a porta de vidro e m e contento com o bom e velho suco de laranj a.

Ela torce um pouco o nariz.

— Que foi? — pergunto, ainda segurando a porta aberta.

— Suco de laranj a não é tão bom pra acom panhar com ida.

Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.

— Quando escolho algum a coisa, você diz que não serve. — Quero rir, m as estou tentando fazê-la se sentir culpada.

E acho que está funcionando.

Ela franze a testa.

— Bom , é que... bom , isso aí é m ais um a dose de vitam ina C pra viagem , na verdade.

Só vai te deixar com m ais sede.

Ela parece m esm o preocupada por ter m e ofendido, e isso m e afeta da form a m ais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.

Ela abre um sorriso diabólico.

Ah, ela é boa...

CAMRYN