Entre o Agora e o Nunca

J. A. Redmerski · Capítulo 14 de 33

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Entre o Agora e o Nunca

Quando Eu Conseguia m anter os olhos…

17

QUANDO EU CONSEGUIA m anter os olhos abertos por tem po suficiente, olhava para a chuva m artelando m eu rosto. Nunca tinha visto a chuva daquele j eito, olhando direto para o céu, e m esm o m e encolhendo m ais do que realm ente olhando, quando eu conseguia, era absolutam ente lindo. Com o se cada pingo se precipitando na m inha direção fosse separado dos m ilhares de outros e, por um m om ento suspenso no tem po, eu pudesse vislum brar todas as suas delicadas facetas. Eu via as nuvens cinzentas se m ovendo acim a de m im e sentia o carro balançar quando o vento dos veículos o atingia.

Eu trem ia, em bora estivesse quente o bastante para nadar. Mas nada do que eu via, sentia ou ouvia era m ais quente e fascinante do que a proxim idade de Andrew.

Grito e rio quando voltam os para dentro do carro, m inutos depois.

Bato a porta, e ele bate a dele em seguida.

— Tô congelando! — Rio e trem o, apertando os braços erguidos entre os seios, cruzando os dedos com força e apoiando o queixo neles.

Andrew, com um sorriso tão largo que cobre todo o seu rosto, estrem ece e liga a calefação.

Instintivam ente, tento esquecer que fiquei deitada sobre o braço dele, ou que ele o estendeu para que eu deitasse. Acho que ele tam bém tenta esquecer, ou ao m enos não deixar isso óbvio.

Ele esfrega as m ãos, tentando se aquecer com o calor que sai dos respiros de ventilação. Meus dentes estão batendo.

— Usar roupa m olhada é um saco — digo, com o queixo trem endo.

— É, tô contigo nisso — ele diz, puxando o cinto de segurança e afivelando-o.

Faço o m esm o, em bora, com o sem pre, depois de ficar no carro por m uito tem po, vou acabar m e desvencilhando dele para encontrar algum a outra posição confortável.

— Meus dedos dos pés estão enlam eados — ele com enta, olhando para os tênis.

Meu rosto todo desm orona. Ele ri e depois tira os tênis, j ogando-os no assoalho do banco de trás.

Decido fazer o m esm o porque, m esm o eu não querendo adm itir, m eus pés tam bém estão enlam eados.

— A gente precisa encontrar um lugar pra trocar de roupa — declaro.

Andrew põe o câm bio em drive e olha para m im .

— Tem o banco de trás — diz, sorrindo. — Não vou espiar, j uro. — Ele levanta as m ãos para enfatizar isso e depois segura o volante de novo, voltando para a estrada quando aparece um a brecha no trânsito.

Rio com desdém .

— Não, acho que vou esperar até a gente encontrar um lugar.

— Com o quiser.

Eu sei que ele iria olhar, com certeza. E, bem , isso nem iria m e incom odar m uito...

Os lim padores do para-brisa deslizam de um lado para o outro na velocidade m áxim a, e está chovendo tanto que m esm o assim é difícil enxergar a estrada adiante. Andrew deixa a calefação ligada até que o carro com eça a parecer um a sauna, e antes de desligá-la, verifica se j á estou aquecida.

— Então, Hotel California, é? — pergunta, sorrindo para m im com covinhas bem fundas. Ele aperta o botão de seleção de CDs até encontrar a canção. — Vam os ver o quanto você sabe.

Sua m ão volta para o volante.

A canção com eça com o sem pre lem brei, com aquela guitarra lam uriosa, lenta e perturbadora. Olham os um para o outro, deixando a m úsica se m over entre nós dois e nos atravessar, esperando a letra com eçar. Então, ao m esm o tem po, levantam os as m ãos com o que m arcando no ar um , dois, três no ritm o e com eçam os a cantar com Don Henley .

Cantam os com afinco, verso após verso, e às vezes revezam os, ele m e deixa cantar um verso e canta o seguinte. E quando o prim eiro refrão com eça, cantam os j untos a plenos pulm ões, praticam ente gritando a letra para o para-brisa. Sem icerram os os olhos, inclinam os a cabeça e eu finj o que não estou m orta de vergonha com m eu j eito de cantar. Então vem a segunda estrofe e nosso revezam ento com eça a ficar um pouco em bolado, m as nos divertim os m uito e só nos atrapalham os algum as vezes. E gritam os 1969! bem alto j untos. Então perdem os um pouco do entusiasm o pela cantoria e só deixam os a m úsica encher o carro. Mas quando o fam oso segundo refrão chega e a m úsica fica m ais lenta e perturbadora, ficam os sérios de novo e cantam os cada palavra j untos, olhando um para o outro. Andrew canta “alibis!” com tanta perfeição que m eus braços ficam arrepiados. E am bos “apunhalam os a fera” j untos, dando socos no ar e entrando no clim a da m úsica.

E foi assim a viagem sei lá para onde pelas horas seguintes.

Cantei tanto com ele que m inha garganta com eçou a doer.

Naturalm ente, era tudo rock clássico, ocasionalm ente com algum som do início dos anos 90: sobretudo Alice in Chains e Aerosm ith, e não m e incom odei nem um pouco com isso. Na verdade, adorei tudo, e adorei as lem branças que estavam se form ando na m inha m ente. Lem branças com Andrew.

Encontram os um a área de descanso à beira da estrada em Jackson, Tennessee, e tiram os o m áxim o proveito dela. Usam os os banheiros para trocar as roupas m olhadas, que vestíam os há m ais tem po do que tínham os percebido. Acho que nos divertim os tanto no carro, com m inha cantoria não exatam ente espetacular, e ele fingindo que adorava, que nos distraím os de todo o resto.

Andrew term ina de se vestir antes de m im e j á está esperando dentro do carro quando saio usando as únicas roupas lim pas que sobraram na m inha m ala: o shortinho branco e a cam iseta do tim e do colégio que gosto de usar para dorm ir. Só trouxe um sutiã, o que estava usando quando choveu, por isso ele ainda está com pletam ente úm ido. Mas eu o uso da m esm a form a, porque de j eito nenhum vou entrar naquele carro com Andrew sem sutiã.

— Eu não tô usando este shortinho pra te agradar — digo, apontando severam ente para ele ao entrar no carro. — Entendeu?

O canto de seus lábios se ergue num sorriso.

— Recado recebido — ele diz, escrevendo num a prancheta im aginária.

Levanto a bunda do assento e agarro o fundilho do m eu short, puxando-o só um pouco para que não fique enfiado na m inha virilha e cubra um pouco m ais de pele das m inhas coxas. Com eço a tirar m eus chinelos pretos, m as vej o com o o tapetinho do carro está enlam eado e decido ficar com eles. Ainda bem que os bancos são de couro.

— Vou ter que procurar m ais roupas — com ento.

Andrew está usando j eans de novo, suas botas Dr. Martens pretas e outra cam iseta cinza lisa, m ais clara do que a anterior. Com o tudo o m ais, fica ótim a nele, m as m eio que sinto falta de suas panturrilhas m usculosas e da tatuagem celta preta e cinza no tornozelo.

— Por que você só trouxe isso? — ele pergunta, conservando os olhos na estrada. — Não que eu estej a reclam ando, claro.

Sorrio para ele.

— Com o eu não sabia pra onde tava indo, achei que não ia querer ficar carregando um m onte de tralhas.

— Faz sentido.

O sol brilha no Tennessee, e agora rum am os para o sul. O outro lado da estrada está congestionado por causa de obras, e am bos expressam os o quanto estam os contentes de não estar “daquele lado da estrada”. Por fim , a luz do dia desaparece por trás do horizonte e o crepúsculo banha as plantações de arroz e algodão com um a névoa violeta; há sem pre algum tipo de plantação gigantesca dos dois lados da estrada, a perder de vista.

Chegam os em Birm ingham , Alabam a, pouco depois das 19h.

— Onde você quer com prar roupas? — Andrew pergunta, rodando devagar por um a rua cheia de sinais de trânsito e postos de gasolina.

Ergo o corpo do assento e olho ao redor, tentando encontrar entre os letreiros lum inosos algum lugar aceitável.

Andrew aponta para a frente.

— Tem um Walm art ali.

— Acho que serve — respondo, e ele vira à esquerda no sem áforo e entram os no estacionam ento.

Saím os do carro, e a prim eira coisa que faço é puxar m inha calcinha de dentro da bunda.

— Precisa de aj uda?

— Não! — respondo rindo.

Andam os j untos no m eio do m ar de carros do estacionam ento, m eus chinelos batendo nos calcanhares. Me encolho na hora, sabendo que devo estar ridícula com um a trança suj a e em paçocada sobre o om bro e usando este shortinho m inúsculo que fica entrando na m inha bunda. Nada m ais de m aquiagem depois que a cerim ônia de com unhão com a chuva lavou tudo. Mantenho os olhos no chão branco reluzente enquanto andam os pela loj a e evito cruzar olhares com os outros.

Vam os prim eiro para a seção de roupa fem inina e eu pego algum as coisas sim ples: outro short de algodão, curtinho tam bém , m as não enfiado na bunda com o o que estou usando, e algum as cam isetas fofas com gola em V e estam pas aleatórias. Contenho o m eu desej o de visitar a parte de roupas íntim as. Acho que por enquanto vou m e virar com o que tenho.

Depois sigo Andrew para a área perto da farm ácia, onde ficam as vitam inas, rem édios para resfriado, pastas de dente, essas coisas.

Vam os direto para a gôndola dos aparelhos e crem es de barbear.

— Não faço a barba há um a sem ana — Andrew diz, esfregando o princípio de barba que está crescendo em seu rosto há alguns dias.

Acho sexy , m as ele fica sexy com ou sem barba, por isso não reclam o.

E por que eu reclam aria?

Pego um a em balagem de aparelhos de barbear tam bém , e um tubo dourado de crem e de depilação. Na gôndola seguinte, pego um vidro pequeno de enxaguante bucal, porque enxaguante bucal nunca é dem ais. Aj eito m inha bolsa no outro om bro quando os itens com eçam a lotar o m eu braço. Passam os por m ais um a gôndola e eu pego xam pu e condicionador da prateleira, tentando equilibrá-los j unto com as outras coisas, m as Andrew tira os frascos da m inha m ão e os carrega. Ele pega o enxaguante bucal tam bém .

Vam os para a parte dos m edicam entos, onde um casal de m eia-idade está parado na frente dos xaropes para tosse, lendo os rótulos.

Andrew diz casualm ente, sem baixar a voz: — Am or, você achou o rem édio pra candidíase?

Arregalo os olhos e fico im óvel na frente do Ty lenol.

Andrew pega um a caixinha de Advil da prateleira.

O casal finge que não ouviu o que ele disse, m as sei que eles escutaram .

— Mas você tem certeza que tá coçando por causa disso? — ele continua, e o calor no m eu rosto está literalm ente m e derretendo.

Desta vez, o casal olha discretam ente.

Andrew sorri feito um babaca do outro lado, fingindo ler os rótulos.

Quero esm urrá-lo, m as em vez disso, entro na brincadeira.

— Achei sim , querido — respondo tão casualm ente quanto ele. — E você? Perguntou se eles têm cam isinha tam anho PP?

A m ulher vira a cabeça e olha diretam ente para ele, de alto a baixo, e depois para m im , antes de voltar a ler o rótulo.

Andrew não se abala; por algum a razão, eu sabia que ele não se abalaria. Apenas sorri para m im , adorando cada segundo.

— É tudo um tam anho só, am or — retruca. — Já falei que vai servir m elhor quando você conseguir deixá-lo duro de verdade.

Um barulho de cuspir escapa dos m eus lábios, seguido por um a gargalhada.

O casal se afasta da gôndola.

— Você é tão m au! — sussurro para ele entre os dentes, ainda rindo. O tubo de crem e de depilação cai ruidosam ente do m eu braço e m e abaixo para pegar.

— Você tam bém não é tão inocente.

Andrew pega um a bisnaga de pom ada antibiótica com a m esm a m ão do Advil e vam os para o caixa. Ele j oga dois pacotes de stick de carne-seca e um a caixinha de Tic Tac sobre a esteira da caixa registradora. Pego um frasco de antisséptico para as m ãos, um tubinho de m anteiga de cacau e um pacote de stick de carne para m im .

— Tá ficando coraj osa, hein? — Andrew diz sobre o stick.

Sorrio para ele e ponho o separador de com pras de plástico cinza entre as coisas dele e as m inhas.

— Não — respondo. — Adoro stick de carne-seca. Se fosse radioativa, eu com eria m esm o assim .

Ele apenas sorri, m as depois tenta dizer à caixa que as coisas dele e as m inhas estão “j untas”, ao tirar o cartão de crédito da carteira.

— Não, de novo não — discuto, apoiando o braço na esteira perto do separador de com pras. Olho para a caixa e balanço a cabeça, desafiando-a a som ar m inhas com pras com as dele. — Eu pago as m inhas. — Seus olhos vêm e vão entre m im e Andrew rapidam ente, com o se ela estivesse esperando um a réplica.

Quando ele com eça a discutir, viro o queixo com expressão séria e digo: — Eu pago m inhas coisas e acabou. Conform e-se.

Ele m eio que revira os olhos e desiste, passando o cartão na m aquininha.

Quando voltam os para o carro, Andrew abre um dos seus pacotes de stick de carne-seca e põe um pedaço na boca.

— Tem certeza que não quer que eu dirij a um pouco? — pergunto.

Ele balança a cabeça, m astigando com força o stick.

— Vam os parar em outro m otel e pernoitar.

Ele engole, põe m ais um pedaço na boca, engata a m archa e vam os em bora.

Encontram os um m otel a alguns quilôm etros da cidade, pegam os as com pras e levam os para nossos quartos lado a lado. Este tem um carpete xadrez verde com cortinas pesadas com binando, no m esm o tom verde-escuro, e um a colcha floral da m esm a cor.

Ligo a televisão im ediatam ente, só para dar um pouco de luz e anim ação à atm osfera som bria e m elancólica.

Andrew pagou os quartos de novo, usando com o desculpa o fato de eu ter “ganhado a parada” com m inhas com pras no Walm art.

Ele verifica o quarto prim eiro, com o da últim a vez, e depois desaba na espreguiçadeira perto da j anela.

Largo m inhas coisas no chão, arranco a colcha da cam a e a j ogo num canto, perto da parede.

— Tem algum a coisa nela? — Andrew pergunta, se refestelando na espreguiçadeira e esticando as pernas.

Ele parece exausto.

— Não, é que eu tenho m edo dessas coisas. — Me sento na cam a e j ogo longe m eus chinelos, erguendo as pernas e cruzando-as, com o na ioga. Coloco as m ãos no colo porque ainda estou usando o shortinho branco e m e sinto um pouco exposta dem ais assim , de j oelhos abertos.

— Você falou com o você não sabia pra onde tava indo — Andrew diz.

Olho para cim a e levo um segundo para entender do que ele está falando, do m otivo que dei no carro para não ter trazido m uita roupa. Ele j unta os dedos, apoiando as m ãos abertas na barriga.

Levo um m om ento para responder, em bora a resposta sej a vaga: — É, eu não sabia.

Andrew ergue as costas da poltrona e se curva para a frente, apoiando os braços nas coxas, com as m ãos abaixo dos j oelhos. Ele inclina a cabeça, m e olhando de lado. Sei que vam os ter um a daquelas conversas em que não consigo prever se vou aceitar ou m e esquivar de suas perguntas. Tudo depende do quanto ele for bom em tirar as respostas de m im .

— Não sou especialista nessas coisas — ele com eça —, m as não vej o você partindo sozinha desse j eito, de ônibus, ainda por cim a, com um a bolsa, um a m alinha e nenhum a ideia do seu destino, só porque sua m elhor am iga te apunhalou pelas costas.

Ele tem razão. Não fui em bora por causa de Natalie, nem de Dam on; eles só faziam parte do contexto.

— Não, não foi por causa dela.

— Por que foi, então?

Não quero falar disso; pelo m enos acho que não quero. Parte de m im sente que posso contar qualquer coisa para Andrew, e eu m eio que quero contar, m as outra parte está m e m andando tom ar cuidado. Não esqueci que os problem as de Andrew são m ais graves que os m eus, e m e sentiria idiota, chorona e egoísta contando qualquer coisa para ele.

Olho para a TV em vez de olhar para Andrew, e finj o estar levem ente interessada.

Ele fica de pé.

— Deve ter sido algum a coisa bem grave — insiste, se aproxim ando —, e quero que você m e conte.

Bem grave? Que legal, agora ele com plicou a situação; m esm o se eu contasse, pelo m enos antes não achava que ele esperava ouvir algo terrível. Agora que sei que ele espera, sinto que deveria inventar algum a coisa.

Não invento, é claro.

Sinto a cam a se m exer quando Andrew se senta ao m eu lado. Ainda não consigo olhar para ele; m eus olhos continuam grudados na TV. Meu estôm ago está revirado pela culpa e tam bém por algum a outra coisa, um form igam ento, quando penso no quanto ele está próxim o. Mas sobretudo pela culpa.

— Já deixei você ficar sem m e contar nada faz um bom tem po — Andrew argum enta.

Ele apoia os cotovelos nas coxas de novo e se senta com o havia se sentado na espreguiçadeira, com as m ãos unidas no m eio das pernas. — Um a hora você precisa m e contar.

Olho para ele e digo:

— Não é nada com parado com o que você tá passando. — E paro por aí, m e virando para a TV de novo.

Por favor, não pergunta m ais nada, Andrew. Contar é o que eu m ais quero, porque de algum a form a sei que você vai conseguir entender tudo, que você pode resolver tudo — o que é que eu tô dizendo? — Por favor, não m e pergunta m ais nada...

— Você tá com parando? — ele diz, despertando m inha curiosidade. — Então você acha que, com o m eu pai tá m orrendo, os m otivos que levaram você a fazer o que fez não são im portantes? — ele fala com o se essa sim ples ideia j á fosse absurda.

— Isso m esm o — digo —, é exatam ente o que eu acho.

Suas sobrancelhas se j untam e ele olha um pouco para a TV antes de se virar para m im .

— Bom , isso é um a puta babaquice — afirm a com convicção.

Viro a cabeça bruscam ente.

Ele continua:

— Sabe, sem pre detestei esta frase: Tem gente em situação pior que a sua ; se você encarar com o um a com petição, claro, é sem pre m elhor viver de seguro-desem prego do que ficar cego, m as não é um concurso, caralho. Certo?

Ele está m e perguntando porque quer saber o que eu acho? Ou é o j eito dele de m e dizer com o as coisas são, esperando que eu entenda?

Apenas balanço a cabeça.

— Dor é dor, gata. — Cada vez que Andrew m e cham a de “gata”, presto m ais atenção nisso do que em qualquer outra coisa que ele diz. — Só porque o problem a de um a pessoa é m enos traum ático que o de outra, não significa que deva doer m enos.

Acho que é um bom argum ento, m as m e sinto egoísta m esm o assim .

Andrew toca o m eu pulso e eu olho para ele, para o m odo com o seus dedos m ásculos se fecham sobre o osso na base da m inha m ão. Quero beij á-lo; a vontade dentro de m im chegou à superfície, m as engulo em seco e a forço para o fundo do m eu estôm ago, que está trem endo por conta própria há vários segundos.

Tiro m inha m ão e m e levanto da cam a.

— Cam ry n, olha, eu não quis dizer nada com isso. Só tava tentando...

— Eu sei — m urm uro, cruzando os braços e ficando de costas para ele. Com certeza é um daqueles m om entos “não é você, sou eu”, m as não vou j ogar esse chavão no colo dele.

Sinto que ele fica de pé, e então m e viro devagar e o vej o pegando suas m ochilas e o violão encostado na parede.

Ele vai até a porta.

Quero segurá-lo aqui, m as não consigo.

— Vou te deixar dorm ir um pouco — ele diz baixinho.

Balanço a cabeça, m as não digo nada, porque tem o que, se eu falar, m inha m ente vai trair m inha boca e vou m e afundar m ais ainda nesta situação perigosa com Andrew, que está ficando m ais evidente a cada dia que passam os j untos.