Geriatria: Guia Prático
7 Perda de Peso Involuntária
Introdução
A perda de peso involuntária (PPI) é um fenômeno comum entre os idosos, podendo ter uma incidência de cerca de 13% ao ano. Está relacionada com aumento da morbidade e da mortalidade, principalmente em idosos frágeis e naqueles recém-admitidos no hospital.
Vários mecanismos são sugeridos para explicar esses desfechos. Entre
eles, têm importância a perda de massa magra (que leva a declínio funcional e fraturas) e o aumento da resposta inflamatória, a concentração de citocinas e o declínio da imunidade.
A PPI caracteriza-se por perda de 5% do peso em 6 a 12 meses ou 10%
no período de 5 a 10 anos. Em idosos frágeis, perdas menores podem já ser significativas.
Etiologia As causas mais comuns de PPI são neoplasias, depressão e patologias gastrintestinais; todavia, inúmeros outros fatores podem estar envolvidos. Costuma-se dividir as causas em quatro grandes grupos: neuropsiquiátricas,
sociais, médicas e relacionadas com a idade (Tabela 7.1). Entretanto, em cerca de 1/4 dos casos não se identifica uma causa, apesar de extensa investigação.
Diminuição na ingestão alimentar, aceleração do metabolismo e
aumento da perda calórica são as principais alterações clínicas.
Na Tabela 7.2, estão os Nove Ds citados por Robbins em 1989, que
também podem auxiliar em uma rápida investigação etiológica.
Tabela 7.1 Causas de perda de peso involuntária em idosos.
Neuropsiquiátricas Síndrome demencial, depressão, luto, etilismo, anorexia ou
bulimia, fobias
Sociais Isolamento social, pobreza ou di culdade nanceira, morar
sozinho, baixo nível intelectual ou baixa escolaridade
Médicas Doenças sistêmicas: neoplasias, insu ciência cardíaca, doença
pulmonar obstrutiva crônica, hipertireoidismo, constipação
intestinal, úlcera por pressão, colelitíase, cirrose hepática
Diminuição na ingestão: disfagia, mau estado da dentição,
redução no apetite
Incapacidade funcional: alteração na mobilidade, quedas,
di culdade para manejar o alimento no prato
Efeitos colaterais de medicamentos
Relacionadas com a Diminuição do olfato e do paladar, saciedade precoce, anorexia
idade
Fonte: Robbins, 1989.
Tabela 7.2 Nove Ds da perda de peso involuntária em idosos.
Demência
Depressão
Doença (aguda ou crônica)
Disfagia
Disgeusia
Diarreia
Drogas (medicamentos)
Dentição
Disfunção (incapacidade funcional)
Fonte: Robbins, 1989.
Avaliação clínica
■ Investigar e confirmar, inicialmente, a ocorrência de perda de peso
(aferir diretamente o peso corporal, indagar familiares e cuidadores, avaliar se as roupas de uso habitual estão largas)
■ Utilizar, como auxílio, a miniavaliação nutricional para identificar o
risco nutricional
■ Realizar anamnese completa e exame físico detalhado (atentar para a
cavidade oral e o trato gastrintestinal, presença de massas palpáveis e
sinais de caquexia) direciona os passos para uma avaliação melhor
■ Revisar todas as medicações em uso, tendo em vista os frequentes
efeitos adversos que podem estar relacionados (Tabela 7.3)
■ Investigar se há presença de depressão por meio da escala de depressão
geriátrica (GDS) e dos critérios do DSM-5
■ Investigar alteração cognitiva por meio de testes de rastreio como o
miniexame do estado mental
■ Questionar o contexto social e familiar do paciente.
Tabela 7.3 Efeitos adversos de medicamentos que podem estar relacionados com a perda de peso.
Efeitos Medicamentos
Anorexia Amantadina, anfetaminas, antibióticos, anticonvulsivantes,
antipsicóticos, benzodiazepínicos, digoxina, levodopa,
metformina, opioides, inibidores seletivos da recaptação de
serotonina
Secura na boca Anticolinérgico, anti-histamínicos, clonidina, diuréticos de alça
Disgeusia/Disosmia Alopurinol, anfetaminas, IECA, antibióticos, anticolinérgicos,
anti-histamínicos, bloqueadores de canal de cálcio,
carbamazepina, hidralazina, hidroclortiazida, ferro, levodopa, lítio, metimazol, metformina, vasoconstritores nasais,
nitroglicerina, opioides, fenitoína, propranolol, selegilina,
espironolactona, estatinas, terbina na, tricíclicos
Disfagia Alendronato, antibióticos, anticolinérgicos, bifosfonatos, agentes
quimioterápicos, corticosteroides, levodopa, anti-in amatórios não esteroides, potássio, quinidina, teo lina
Náuseas/Vômitos Amantadina, antibióticos, bifosfonatos, digoxina, agonistas
dopaminérgicos, ferro, levodopa, metformina, metronidazol, nitroglicerina, opioides, fenitoína, inibidores seletivos da
recaptação de serotonina, estatinas, tricíclicos
IECA: inibidor da enzima conversora de angiotensina. Fonte: Shabbir, 2005.
Exames complementares
Os achados por meio da história clínica e do exame físico devem guiar os exames a serem solicitados. Não há evidência de que a solicitação ampla e indiscriminada de exames adicionais possa trazer benefício aos pacientes. A
Tabela 7.4 mostra um painel de exames que podem fazer parte da avaliação etiológica.
Tabela 7.4 Exames complementares à investigação etiológica.
Hemograma
Função tireoidiana
Função renal
Função hepática
Enzimas hepáticas
Eletrólitos
Urina I
Radiogra a de tórax
Pesquisa de sangue oculto nas fezes
Endoscopia digestiva alta
Colonoscopia
Ultrassonogra a abdominal
Tratamento
O tratamento prioritário é voltado para a resolução da(s) causa(s) identificada(s). Na ausência de anormalidades com base na história clínica, no exame físico e nos exames complementares, recomenda-se reavaliação do paciente no intervalo de 1 a 6 meses.
Medicamentos que possam contribuir para o quadro de emagrecimento
devem, na medida do possível, ter seu uso suspenso ou alterado. Na Tabela
7.5 há medidas não farmacológicas que podem ser adotadas.
Tabela 7.5 Medidas não farmacológicas no manejo do paciente com perda de peso.
Minimizar restrições dietéticas
Otimizar o ganho energético:
■ Aumentar ingestão de alimentos calóricos na “melhor refeição do dia”
■ Fracionar as refeições
■ Permitir comidas favoritas, lanches e snacks
■ Prover nger food devido à facilidade de manejo até pelo próprio paciente
Otimizar o aspecto, a consistência e a variedade do alimento
Evitar alimentos que aumentem a produção de gases
Assegurar adequada saúde bucal
Fazer uso de suplementos nutricionais orais entre as refeições
Fazer as refeições na companhia de outras pessoas ou, se necessário, com assistência
Usar substâncias que melhorem o sabor dos alimentos
Praticar atividade física regular com exercícios que promovam ganho de musculatura pode
também aumentar o apetite
Fonte: Shabbir, 2005.
A via preferencial para administração de alimentos é a via oral, e toda a
abordagem terapêutica deve inicialmente ser direcionada para ter essa via como responsável pelo ganho de peso.
O uso de suplemento nutricional oral entre as refeições é uma estratégia
para que sejam alcançadas as necessidades nutricionais. Em pacientes com anorexia importante, pode-se recorrer aos suplementos hipercalóricos.
A nutrição enteral está indicada nos casos em que houve falha na
tentativa de ganho de peso pela via oral e o paciente não consegue ingerir a quantidade necessária de alimento (menos de 60% das necessidades energéticas), estando normal o funcionamento do trato gastrintestinal. Sempre se deve discutir com o próprio paciente e familiares sobre a instituição de vias alternativas de alimentação.
A nutrição parenteral está indicada nos casos em que a via enteral não
pode ser utilizada. Porém, implica maior custo e maior risco de complicações quando comparada à nutrição enteral.
Quanto ao tratamento farmacológico (megestrol, dronabinol, hormônio
do crescimento [GH], testosterona e oxandrolona), não há evidências suficientes para que seja utilizado. Os efeitos adversos são frequentes e,
muitas vezes, graves (Tabela 7.6).
A equipe multiprofissional tem papel importante, visto que muitas vezes
o tratamento é multifatorial.
Tabela 7.6 Efeitos adversos de medicamentos orexígenos.
Medicamento Efeitos
Megestrol Delirium, constipação intestinal, retenção de líquidos
Dronabinol Tontura, confusão mental, sonolência
Hormônio do crescimento (GH) Síndrome do túnel do carpo, cefaleia, artralgia,
mialgia e ginecomastia
Oxandrolona Insu ciência hepática
Adaptada de Huffmann, 2002.
Bibliografia
Bouras EP, Lange SM, Scolapio JS. Rational approach to patients with unintentional weight
loss. Mayo Clin Proc. 2001; 76:923.
Gaddey HL, Holder K. Unintentional weight loss in older adults. Am Fam Physician. 2014;
89(9):718-22.
Hagemeyer V, Rezende CHA. Nutrição e envelhecimento. In: Freitas E et al. Tratado de
geriatria e gerontologia. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p. 1031-45.
Hernandez JL et al. Involuntary weight loss without specific symptoms: a clinical prediction
score for malignant neoplasm. Q J Med, 2003; 96:649-55.
Huffmann GB. Evaluating and treating unintentional weight loss in the elderly. Am Fam
Physician. 2002; 65(4):640-50.
Metalidis C, Knockaert DC, Bobbaers H, Vanderschueren S. European Journal of Internal
Medicine. 2008; 19:345-49.
Moriguti JC, Moriguti EKU, Ferriolli E et al. Involuntary weight loss in elderly individuals:
assessment and treatment. São Paulo Med J/Ver Paul Med. 2011; 119(2):72-7.
Robbins LJ. Evaluation of weight loss in the elderly. Geriatrics. 1989; 44:31-4. Schilp J et al. Early determinants for the development of undernutrition in an older general
population: Longitudinal Aging Study Amsterdam. British Journal of Nutrition. 2011; 106:708-17.
Shabbir AMH, Greenwood C, Payette H. An approach to the management of unintentional
weight loss in elderly people. JAMC. 2005; 172(6):773-80.
Stajkovic S, Aitken EM, Leduc JH. Unintentional weight loss in older adults. CMAJ. 2011;
183(4).
Wallace JI. Malnutrition and enteral/parenteral alimentation. In: Halter J et al. Hazzard’s
geriatric medicine and gerontology. 6. ed. McGraw-Hill Professional, 2009. p.469-81.
OceanofPDF.com