Geriatria: Guia Prático
9 Quedas
Introdução
Não existe consenso quanto à definição de queda, mas pode-se descrevê-la como um deslocamento não intencional do corpo para um nível inferior ao da sua posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, implicando, ou não, lesão ou perda de consciência. Excluem-se dessa definição as quedas decorrentes de síncope, acidente vascular encefálico, convulsão, atropelamento, acidente em exercícios de alta performance e causas violentas.
Relevância
As quedas são eventos mórbidos que ocorrem com frequência na população idosa e que são pouco valorizados e nem sempre relatados pelos idosos e seus familiares, a não ser que provoquem lesões importantes.
A ocorrência de quedas é considerada uma síndrome geriátrica e um
problema de saúde pública. O risco aumenta linearmente com o avançar da idade em ambos os sexos, sendo mais alto entre as mulheres. A ocorrência é observada em um terço dos idosos que vivem na comunidade e em metade daqueles que vivem em instituições de longa permanência. Em 50% das vezes, observa-se recorrência, que constitui o acidente mais comum em idosos hospitalizados. Entre idosos da comunidade, aproximadamente 70% das quedas ocorrem no ambiente domiciliar; sendo assim, é muito importante fornecer orientações sobre rearranjo do ambiente com vistas à prevenção.
As quedas são, na verdade, eventos mórbidos multifatoriais, que causam
lesões, transtornos emocionais, declínio funcional e morte. As causas podem ser diagnosticadas e prevenidas, com consequente redução da morbidade, da mortalidade e dos custos financeiros.
As consequências físicas das quedas podem ser divididas em: fraturas,
contusões e feridas, hematomas, lesões neurológicas e sequelas de imobilização. As consequências psicológicas das quedas são englobadas sob a denominação “síndrome pós-queda”, que se caracteriza por: medo de cair, perda de autonomia pessoal e de autoestima, alteração nos hábitos de vida anteriores, atitude superprotetora de familiares e cuidadores, depressão e ansiedade.
Fatores de risco
A maioria das quedas resulta da interação de fatores relacionados com o indivíduo (intrínsecos) e de fatores do ambiente (extrínsecos). Os fatores intrínsecos incluem: idade, quedas anteriores, redução da acuidade visual, tontura, distúrbios do equilíbrio e da marcha, lesões do sistema nervoso, doenças do aparelho locomotor e comprometimento dos mecanismos reguladores da pressão arterial (barorreceptores), os quais predispõem hipotensão ortostática, distúrbio cognitivo, depressão e transtornos do sono.
A Tabela 9.1 lista mais detalhadamente esses fatores.
Os fatores extrínsecos relacionam-se com as condições do piso (p. ex.,
escorregadio), iluminação inapropriada, escada com degraus altos e estreitos e sem corrimão, calçados inadequados, tapetes dobrados ou soltos, barreiras físicas, cadeira, mesa, leito, banheiro, calçados e órteses mal adaptadas. Parece haver forte relação entre a ocorrência de quedas e o uso de benzodiazepínicos, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes e
antiarrítmicos de classe 1, entre outros (Tabela 9.2). O risco de quedas também é mais alto em indivíduos com internação recente em hospital, principalmente no primeiro mês após a alta.
A distribuição das causas difere entre idosos institucionalizados,
hospitalizados e os da comunidade. As quedas entre indivíduos que moram em instituições de longa permanência decorrem de distúrbios da marcha e do equilíbrio, vertigem e confusão mental. Uma meta-análise recente mostrou que a associação mais estreita entre quedas e a população idosa foi o histórico de quedas. Pessoas da comunidade tendem a cair por problemas no ambiente, seguidos de fraqueza e/ou distúrbios do equilíbrio e da marcha, tontura e/ou vertigem, alteração postural ou hipotensão ortostática, lesão do sistema nervoso central, síncope e outras causas. As quedas em ambiente hospitalar são 3 vezes mais comuns do que no ambiente domiciliar. Alteração do estado mental, uso de medicações (p. ex., sedativos e tranquilizantes), limitações da mobilidade, necessidade especial no uso do banheiro ou para eliminações são algumas das causas de queda entre os pacientes hospitalizados.
Tabela 9.1 Fatores de risco intrínsecos para quedas.
Sociodemográ cos Idade avançada, sexo feminino, ausência de cônjuge,
antecedente de queda, medo de cair
Condição clínica e funcional Alteração da marcha, problemas de mobilidade,
alteração da propriocepção e do equilíbrio, fraqueza
muscular, dor musculoesquelética, principalmente
quando generalizada, limitação funcional (AVDs),
diminuição da acuidade visual
Estado mental Deterioração cognitiva, depressão, transtornos do sono
Enfermidades Osteoartrose, osteoporose, doença de Parkinson,
diabetes, doenças cardíacas, doenças pulmonares,
incontinência urinária, vertigem, hipotensão
ortostática, de ciência de vitamina D
Uso de fármacos Polifarmácia, psicotrópicos
Atividade física excessiva Desequilíbrio
Tabela 9.2 Medicações que aumentam o risco de quedas.
Anticonvulsivantes
Anti-hipertensivos
Diuréticos
Anticolinérgicos
Ansiolíticos, hipnóticos, antipsicóticos
Benzodiazepínicos de curta ou longa ação
Anti-in amatórios não hormonais
Antidepressivos
Hipoglicemiantes
Antiarrítmicos
Avaliação do risco e prevenção de quedas
A conscientização, tanto pelos idosos como pela família e pela comunidade, de que cair não é um evento normativo da velhice e sim um sinal de alerta para que sejam implementadas mudanças em níveis individual e coletivo, é primordial para a prevenção de quedas.
O segundo pilar da prevenção de quedas trata da identificação dos
pacientes que correm risco de cair. Deve-se indagar os idosos sobre a ocorrência de quedas pelo menos 1 vez ao ano. Também se deve avaliá-los quanto a potenciais fatores de risco para quedas.
É importante separar os idosos com histórico de queda no último ano
daqueles que não caíram, denominados, a partir daqui, idosos caidores e idosos não caidores, respectivamente. Os idosos caidores podem ser divididos de acordo com a frequência com que as quedas ocorrem. Os caidores únicos são, em geral, aqueles que sofrem uma queda acidental, ou seja, um evento isolado que dificilmente voltará a se repetir e que decorre de uma causa extrínseca ao indivíduo, comumente devido à presença de um fator de risco danoso no ambiente ou a atitudes arriscadas. Por outro lado, os caidores recorrentes são aqueles que caíram duas ou mais vezes no último ano e em quem a queda expressa a presença de fatores etiológicos intrínsecos, já citados anteriormente.
Um screening de risco para quedas é um instrumento eficaz para
identificação de idosos com maior chance de vir a sofrer um evento. Deve ser realizado em todos os idosos admitidos em hospitais, em assistência domiciliar, em centros de reabilitação, instituições de longa e curta permanência e em unidades de acompanhamento ambulatorial.
A escala de risco de quedas de Downton é um instrumento de rápida
aplicação para o avaliador determinar o risco de quedas diante de sinais físicos e mentais apresentados pelo idoso que está sendo avaliado.
Pontuação igual ou superior a 3 indica alto risco de quedas (Tabela 9.3).
Não há um único teste físico-funcional que, aplicado isoladamente,
tenha o potencial de prever o risco de queda com boas sensibilidade e especificidade e bom valor preditivo. Assim, deve ser utilizado um conjunto de testes de mobilidade, força muscular, coordenação e marcha. Para isso, é importante que o profissional esteja apto não só a escolher apropriadamente o teste em termos dos objetivos, da população-alvo, dos recursos físicos e materiais e do tempo disponível, mas também a interpretar os resultados à luz de fatores como idade, comorbidades, cognição, humor, fatores pessoais e motivacionais, entre outros.
Para idosos da comunidade, são utilizados com maior frequência o
timed up and go test, o step test, o teste de sentar e levantar da cadeira e o short physical performance battery. Para idosos institucionalizados, recomenda-se o POMA Brasil e a escala de equilíbrio de Berg. Para avaliação da percepção de autoeficácia e medo de cair, é utilizada a falls eficacy scale, FES-I Brasil. A FES Simplificada é constituída por apenas
sete perguntas) (Tabela 9.4).O ponto de corte para se diferençarem idosos caidores de idosos não caidores é 23 pontos, e um escore superior a 31 pontos mostra associação a queda recorrente.
Tabela 9.3 Escala de risco de Downton.
Quedas Não 0
anteriores Sim 1
Medicamentos Nenhum 0
Tranquilizantes/sedantes 1
Diuréticos 1
Hipotensores (não diuréticos) 1
Antiparkinsonianos 1
Antidepressivos 1
Outros medicamentos 1
Nenhum 0
Dé cits Alterações visuais 1
sensoriais Alterações auditivas 1
Extremidades 1
Orientado 0
Estado mental
Desorientado 1
Normal 0
Segura com ajuda 1
Deambulação
Insegura com ou sem ajuda 1
Impossível 1
Total
Fonte: Downton, 1993.
Tabela 9.4 Escala de eficácia de quedas – Internacional – Brasil (FES-I-Brasil).
Gostaríamos de fazer algumas perguntas sobre a sua preocupação com a possibilidade de cair.
Por favor, responda imaginando como você normalmente faz cada atividade. Se você,
atualmente, não faz a atividade (p. ex., alguém vai às compras para você), responda de
maneira a mostrar como se sentiria em relação a quedas se tivesse que realizá-la. Para cada
uma das tarefas mostradas a seguir, por favor, marque o quadradinho que mais re ete a sua
opinião sobre quão preocupado você ca com a possibilidade de cair se você zesse tal
atividade.
Nem um
pouco Um pouco Muito preocupado preocupado preocupado Extremamente
Atividade 1 2 3 preocupado 4
1. Limpar a 1 2 3 4
casa (p. ex.,
passar pano,
aspirar ou
tirar a poeira)
2. Vestir ou 1 2 3 4
tirar a roupa
3. Preparar 1 2 3 4
refeições
simples
4. Tomar 1 2 3 4
banho
5. Fazer as 1 2 3 4
compras
6. Sentar ou 1 3 4
levantar de
uma cadeira
7. Subir ou 1 2 3 4
descer
escadas
8. Caminhar 1 2 3 4
pela
vizinhança
9. Pegar algo 1 2 3 4
acima de sua
cabeça ou do
chão
10. Atender 1 3 4
ao telefone
antes que
pare de tocar
11. Andar 1 2 3 4
sobre
superfície
escorregadia
(p. ex., chão
molhado)
12. Visitar um 1 2 3 4
amigo ou
parente
13. Andar em 1 2 3 4
lugares
cheios de
gente
14. Caminhar 1 2 3 4
sobre
superfície
irregular
(com pedras,
esburacada)
15. Subir ou 1 2 3 4
descer uma
ladeira
16. Ir a uma 1 2 3 4
atividade
social (p. ex.,
ato religioso,
reunião de
família ou
encontro no
clube)
Fonte: Camargos et al, 2010.
Testes de desempenho físico
■ Performance-oriented mobility assessment (POMA): mostrado nas
Tabelas 9.5 e 9.6, é um instrumento de avaliação funcional do equilíbrio e da marcha que avalia o desempenho em tarefas da vida diária. Consiste em uma escala de 22 perguntas, sendo 13 delas parte da avaliação de equilíbrio; as outras 9 questões avaliam a marcha. Tem o escore no teste de equilíbrio de 39 pontos, e 18 pontos de marcha, totalizando um escore total máximo de 57 pontos. O ponto de corte que representa risco de quedas para o POMA-Brasil ainda não foi descrito na literatura. A versão original (Tinneti Scale), que consiste em 14 questões, sendo 8 na escala de equilíbrio e 6 na escala de marcha, tendo escore total de 28 pontos, tem ponto de corte de 18; valores iguais ou inferiores indicam alto risco de queda, e valores entre 19 e 24 indicam moderado risco de queda
■ Timed up and go test: cronometra-se o tempo que o idoso leva para se
levantar de uma cadeira com braços, caminhar por 3 m, dar meia-volta, caminhar e se sentar na cadeira. Verifica-se, de acordo com o tempo gasto na tarefa, se o idoso é independente em atividades básicas da vida diária ou apresenta risco aumentado de quedas e dependência funcional. Admitem-se valores até 10 s para idosos saudáveis; de 11 a 20 s para idosos frágeis ou pacientes com alguma limitação física e baixo risco de quedas; tempo superior a 20 s para realização da tarefa sugere déficit
importante da mobilidade física e alto risco de quedas, sendo indicativo de necessidade de intervenção adequada, descrita adiante
■ Teste functional reach: o indivíduo se posiciona em pé, descalço, com o
punho estendido ao longo de uma fita métrica presa à parede, na altura do acrômio. Ele deve inclinar-se para a frente o máximo que conseguir sem perder o equilíbrio. O comprimento da movimentação do punho é medido por 3 vezes, e depois tira-se uma média. Distâncias inferiores a 15 cm indicam risco aumentado para quedas
■ Short physical performance battery: avalia a função da extremidade
distal. Inclui avaliação da capacidade de equilíbrio através de testes como: 1) posicionar os pés em paralelo, em tandem (um pé atrás do outro) e semitandem; o paciente deve ser capaz de ficar nessas posições por pelo menos 4 s; 2) tempo gasto para sentar e levantar de uma cadeira sem apoio por 5 vezes; 3) velocidade da marcha, medida através da velocidade da passada usual por uma distância de 4 metros.A velocidade da marcha tem associação com sobrevida em idosos: > 1,3 m/s indica excelente forma física; > 1 m/s indica idosos saudáveis, com menor risco de eventos adversos e melhor sobrevida;< 0,7 m/s indica maior risco de morte, hospitalização e quedas; < 0,6 m/s indica declínio funcional e cognitivo, institucionalização e morte; < 0,42 m/s indica dependência funcional e grave incapacidade para caminhar
■ Escala de Equilíbrio de Berg: mostrada na Tabela 9.7, é amplamente
usada para se determinar principalmente o risco de perda de independência e de quedas em idosos. Avalia o equilíbrio em 14 itens comuns à vida diária. O escore máximo é de 56 pontos, sendo < 45 pontos preditor de quedas em idosos. Pontuação de corte de 48 indica necessidade de reabilitação.
Tabela 9.5 Avaliação de equilíbrio orientada pelo desempenho – Escala POMA-Brasil.
Manobra Categorias
Normal = 3 Adaptativa = 2 Anormal = 1
1. Equilíbrio Estável, rme Segura-se na Inclina-se,
sentado cadeira para se escorrega-se na
manter ereto cadeira
2. Levantar-se da Capaz de se Usa os braços (na Várias tentativas
cadeira levantar da cadeira cadeira ou no são necessárias ou
em um só dispositivo de não consegue se movimento, sem auxílio à levantar sem ajuda usar os braços deambulação) para de alguém
se empurrar ou
puxar, e/ou move-
se para a borda do
assento antes de
tentar levantar-se
3. Equilíbrio de pé Estável, sem se Estável, mas usa o Algum sinal de
imediato (primeiros segurar no dispositivo de instabilidade
3 a 5 s) dispositivo de auxílio à
auxílio à deambulação ou deambulação ou outro objeto para em qualquer objeto se apoiar, mas sem como forma de se agarrar apoio
4. Equilíbrio de pé Estável, capaz de Estável, mas não Qualquer sinal de
car de pé com os consegue manter instabilidade,
pés juntos, sem se os pés juntos independente de apoiar em objetos apoio ou de segurar
algum objeto
5. Equilíbrio com os Estável, sem se Estável, com os pés Qualquer sinal de
olhos fechados segurar em separados instabilidade ou
(com os pés o mais qualquer objeto e necessita se
aproximados com os pés juntos segurar em algum
possível) objeto
6. Equilíbrio ao Sem se agarrar em Passos são Qualquer sinal de
girar (360°) nada ou cambalear; descontínuos instabilidade ou se
os passos são (paciente apoia segura em algum contínuos (o giro é totalmente um pé objeto feito em um no solo antes de movimento levantar o outro) contínuo e suave)
7. Nudge test (com Estável, capaz de Necessita mover os Começa a cair ou o
o paciente de pé, resistir à pressão pés, mas é capaz de examinador tem de
com os pés o mais manter o equilíbrio ajudá-lo a
aproximados equilibrar-se
possível, o
examinador aplica
3 vezes uma
pressão leve e
uniforme no
esterno do paciente
(a manobra
demonstra a
capacidade de
resistir ao
deslocamento)
8. Virar o pescoço Capaz de virar a Capacidade Qualquer sinal ou
(pede-se que o cabeça pelo menos diminuída de virar sintoma de
paciente vire a até metade da ADM a cabeça de um instabilidade
cabeça de um lado de um lado para o lado para o outro quando vira a
para o outro e olhe outro, e capaz de ou estender o cabeça ou estende
para cima – de pé, inclinar a cabeça pescoço, mas sem o pescoço
com os pés o mais para trás para olhar se segurar,
aproximados o teto; sem cambalear ou
possível) cambalear ou se apresentar
segurar ou sem sintomas de sintomas de tontura leve, tontura leve, instabilidade ou instabilidade ou dor dor
9. Equilíbrio em Capaz de manter o Capaz de manter o Incapaz de manter
apoio unipodal apoio unipodal por apoio unipodal por o apoio unipodal
5 segundos sem 2 segundos sem apoio apoio
10. Extensão da Boa amplitude, Tenta estender, Não tenta ou não se
coluna (pede-se sem se apoiar nem mas o faz com a observa nenhuma
que o paciente se cambalear ADM diminuída, extensão, ou
incline para trás até em comparação a cambaleia ao
a maior amplitude pacientes da tentar
possível, sem se mesma idade, ou
segurar em objetos, necessita de apoio
se possível) para realizar a
extensão
11. Alcançar algo Capaz de retirar o Capaz de retirar o Incapaz ou instável
acima da cabeça objeto sem se objeto, mas
(solicita-se que o apoiar e sem se necessita de apoio
paciente retire um desequilibrar para se estabilizar
objeto de uma
prateleira alta o
su ciente para que
alongue o corpo ou
que na ponta dos
pés)
12. Inclinar-se para Capaz de se inclinar Capaz de pegar o Incapaz de se
a frente (solicita-se e pegar o objeto; é objeto e retornar à inclinar ou de se
que o paciente capaz de retornar à posição ereta em erguer depois de
pegue um pequeno posição ereta em uma única ter se inclinado, ou
objeto do chão, uma única tentativa, mas faz várias tentativas
como uma caneta) tentativa sem necessita do apoio para se erguer
precisar usar os dos braços ou de braços algum objeto
13. Sentar-se Capaz de sentar-se Necessita usar os Deixar-se cair na
em um único braços para se cadeira, ou não movimento suave sentar ou o calcula bem a
movimento não é distância (senta
suave fora do centro)
Somatório
ADM: Amplitude de movimento.
Tabela 9.6 Avaliação da marcha orientada pelo desempenho.
Componentes Normal = 2 Anormal = 1
14. Iniciação da marcha Começa a andar Hesita; várias tentativas;
(solicita-se que o paciente imediatamente sem iniciação da marcha não é
comece a andar em um hesitação visível; o um movimento suave
trajeto determinado) movimento de iniciação da
marcha é suave e uniforme
15. Altura do passo O pé do membro em O pé do membro em balanço
(começa-se observando balanço desprende-se do não se desprende
após os primeiros passos: chão completamente, mas completamente do chão;
um pé, depois o outro; a uma altura de 2,5 cm a 5 pode-se ouvir o arrastar do
observar de lado) cm pé ou o pé é muito elevado
do solo (< 2,5 > 5 cm)
16. Comprimento do passo Pelo menos o comprimento Comprimento do passo
(observa-se a distância do pé do indivíduo medido menor que o descrito para
entre o hálux do pé de pelo hálux do membro de condições normais
apoio e o calcanhar do pé apoio e o calcanhar do
elevado; observe de lado; membro de balanço (o
não julgue pelos primeiros comprimento do passo
ou últimos passos; observe geralmente é maior, mas o
um lado de cada vez) comprimento do pé oferece
base para observação)
17. Simetria do passo Comprimento do passo Comprimento do passo varia
(observe a porção central igual ou quase igual dos de um lado para outro; ou o
do trajeto, não os passos dois lados para a maioria paciente avança com o
iniciais ou nais; observe dos ciclos da marcha mesmo pé a cada passo
de lado; observe a distância
entre o calcanhar de cada
membro do balanço e o
hálux de cada membro
durante o apoio)
18. Continuidade do passo Começa elevando o Coloca toda a planta do pé
calcanhar de um dos pés (calcanhar e hálux) no chão
(hálux fora do chão) antes de começar a quando o calcanhar do desprender o outro; ou para
outro pé toca o chão completamente entre os
(choque de calcanhar); passos; ou o comprimento
nenhuma interrupção dos passos varia entre os
durante a passada; ciclos comprimento dos passos
igual na maioria dos ciclos
da marcha
19. Desvio da linha média Pé segue próximo a uma Pé desvia de um lado para
(observe de trás; observe linha reta à medida que o outro ou em uma direção
um pé durante várias paciente avança
passadas; observe em
relação a um ponto de
referência do chão, se
possível [p. ex., a junção da
cerâmica]; difícil avaliar se
o paciente zer uso de
andador)
20. Estabilidade do tronco Tronco não oscila; joelhos e Presença de qualquer uma
(observe de trás; coluna não são etidos; das características descritas
movimento lateral do braços não são abduzidos anteriormente
tronco pode ser padrão de no esforço de manter a
marcha normal, precisa ser estabilidade
diferenciado da
instabilidade)
21. Sustentação durante a Os pés devem quase se Pés separados durante os
marcha (observe de trás) tocar quando um passa passos (base alargada)
pelo outro
22. Virar durante a marcha Não cambaleia; vira-se Cambaleia; para antes de
continuamente enquanto iniciar a virada, ou passos
anda; passos são contínuos são descontínuos enquanto vira
Somatório
Escore total (Tabelas 9.5
e 9.6)
Fonte: Gomes, 2004.
Tabela 9.7 Escala de equilíbrio de Berg – versão brasileira.
1. De posição sentada para posição (4) Capaz de levantar-se sem utilizar as mãos e
em pé. Instrução: Por favor, estabilizar-se independentemente
levante-se. Tente não usar as mãos
(3) Capaz de levantar-se independentemente
para se apoiar
utilizando as mãos
(2) Capaz de levantar-se utilizando as mãos após
diversas tentativas
(1) Necessita de ajuda mínima para levantar-se ou
estabilizar-se
(0) Necessita de ajuda moderada ou máxima para
levantar-se
2. Permanecer em pé sem apoio. (4) Capaz de permanecer em pé com segurança por 2
Instrução: Por favor, que em pé min
por 2 min sem se apoiar.
(3) Capaz de permanecer em pé por 2 min com
Se o paciente for capaz de supervisão
permanecer em pé por 2 min
(2) Capaz de permanecer em pé por 30 s sem apoio
sem apoio, atribua o número
(1) Necessita de várias tentativas para permanecer em
pé por 30 s sem apoio
total de pontos ao item n o 3.
(0) Incapaz de permanecer em pé por 30 s sem apoio
Continue com o item no 4
3. Permanecer sentado sem apoio (4) Capaz de permanecer sentado com segurança e
nas costas, mas com os pés com rmeza por 2 min
apoiados no chão ou em um
(3) Capaz de permanecer sentado por 2 min sob
banquinho.
supervisão
Instrução: Por favor, que sentado
(2) Capaz de permanecer sentado por 30 s
sem apoiar as costas com os braços
cruzados por 2 min (1) Capaz de permanecer sentado por 10 s
(0) Incapaz de permanecer sentado sem apoio durante
10 s
4. De posição em pé para (4) Senta-se com segurança com uso mínimo das
posição sentada. Instruções: mãos Por favor, sente-se
(3) Controla a descida utilizando as mãos
(2) Utiliza a parte posterior das pernas contra a cadeira
para controlar a descida
(1) Senta-se independentemente, mas tem descida
sem controle
(0) Necessita de ajuda para sentar-se
5. Transferências Arrume as (4) Capaz de transferir-se com segurança com uso
cadeiras perpendicularmente ou mínimo das mãos
uma de frente para a outra, para
(3) Capaz de transferir-se com segurança com o uso
uma transferência em pivô.
das mãos
Instrução: peça ao paciente que se (2) Capaz de transferir-se seguindo orientações verbais
trans ra de uma cadeira com e/ou supervisão
apoio de braço para uma sem
(1) Necessita de uma pessoa para ajudar
apoio de braço, e vice-versa.
(0) Necessita de duas pessoas para ajudar ou
supervisionar, para realizar a tarefa com segurança
6. Permanecer em pé sem apoio, (4) Capaz de permanecer em pé por 10 s com
com os olhos fechados. Instruções: segurança
Por favor, que em pé e feche os
(3) Capaz de permanecer em pé por 10 s com
olhos por 10 s
supervisão
(2) Capaz de permanecer em pé por 3 s
(1) Incapaz de permanecer com os olhos fechados
durante 3 s, mas mantém-se em pé
(0) Necessita de ajuda para não cair
7. Permanecer em pé sem apoio (4) Capaz de posicionar os pés juntos
com os pés juntos. Instruções: independentemente e permanecer por 1 min com
Junte os pés e que em pé sem se segurança
apoiar
(3) Capaz de posicionar os pés juntos
independentemente e permanecer por 1 min com
supervisão
(2) Capaz de posicionar os pés juntos
independentemente e permanecer por 30 s
(1) Necessita de ajuda para posicionar-se, mas
consegue permanecer com os pés juntos durante 15 s
(0) Necessita de ajuda para posicionar-se e é incapaz
de permanecer nessa posição por 15 s
8. Alcançar a frente com o braço (4) Pode avançar à frente mais de 25 cm com
estendido permanecendo em pé. segurança
Instrução: Levante o braço a 90o.
(3) Pode avançar à frente mais de 12,5 cm com
Estique os dedos e tente alcançar,
segurança
à frente, o mais longe possível
(2) Pode avançar à frente mais de 5 cm com segurança
(1) Pode avançar à frente, mas necessita de supervisão
(0) Perde o equilíbrio na tentativa, ou necessita de
apoio externo
9. Pegar um objeto do chão a (4) Capaz de pegar o chinelo com facilidade e
partir de uma posição em pé. segurança
Instruções: Pegue o sapato ou
(3) Capaz de pegar o chinelo, mas necessita de
chinelo que está na frente dos seus
supervisão
pés
(2) Incapaz de pegá-lo, mas se estica até car a 2 a 5
cm do chinelo e mantém o equilíbrio
independentemente
(1) Incapaz de pegá-lo, necessitando de supervisão
enquanto está tentando
(0) Incapaz de tentar, ou necessita de ajuda para não
perder o equilíbrio ou cair
10. Virar-se e olhar para trás por (4) Olha para trás de ambos os lados com uma boa
cima dos ombros direito e distribuição do peso
esquerdo enquanto permanece
(3) Olha para trás somente de um lado; o lado
em pé.
contrário demonstra menor distribuição do peso
Instrução: Vire-se para olhar
(2) Vira somente para os lados, mas mantém o
diretamente atrás de você por
equilíbrio
cima do ombro esquerdo sem tirar
os pés do chão. Faça o mesmo por (1) Necessita de supervisão para virar
cima do ombro direito (0) Necessita de ajuda para não perder o equilíbrio ou
cair
11. Girar 360° Instrução: gire-se (4) Capaz de girar 360° com segurança em 4 s ou
completamente ao redor de si menos
mesmo (pausa). Gire-se
(3) Capaz de girar 360° com segurança somente para
completamente ao redor de si
um lado em 4 s ou menos
mesmo em sentido contrário
(2) Capaz de girar 360° com segurança, mas
lentamente
(1) Necessita de supervisão próxima ou orientações
verbais
(0) Necessita de ajuda enquanto gira
12. Posicionar os pés (4) Capaz de permanecer em pé independentemente e
alternadamente no degrau ou com segurança, completando oito movimentos em 20
banquinho enquanto permanece s
em pé sem apoio. Instrução: Toque
(3) Capaz de permanecer em pé independentemente e
cada pé alternadamente no
completar oito movimentos em mais de 20 s
degrau ou banquinho. Continue
até que cada pé tenha tocado o (2) Capaz de completar quatro movimentos sem ajuda
degrau ou banquinho 4 vezes (1) Capaz de completar mais de dois movimentos com
o mínimo de ajuda
(0) Incapaz de tentar, ou necessita de ajuda para não
cair
13. Permanecer em pé sem apoio (4) Capaz de colocar um pé imediatamente à frente do
com um pé à frente. outro independentemente e permanecer por 30 s
Instrução: Coloque um pé
(3) Capaz de colocar um pé pouco mais à frente do
diretamente à frente do outro na
outro e levemente para o lado independentemente e
mesma linha; se você achar que
permanecer por 30 s
não irá conseguir, coloque um pé
pouco mais à frente do outro pé e (2) Capaz de dar um pequeno passo
levemente para o lado independentemente e permanecer por 30 s
(1) Necessita de ajuda para dar o passo, mas
permanece por 15 s
(0) Perde o equilíbrio ao tentar dar um passo ou car
de pé
14. Permanecer em pé sobre uma (4) Capaz de levantar uma perna independentemente
perna. Instrução: Fique em pé e permanecer por mais de 10 s
sobre uma perna o máximo que
você puder sem se segurar
(3) Capaz de levantar uma perna independentemente
e permanecer por 5 a 10 s
(2) Capaz de levantar uma perna independentemente
e permanecer por mais de 3 s
(1) Tenta levantar uma perna, mas é incapaz de
permanecer por 3 s, embora permaneça em pé
independentemente
(0) Incapaz de tentar, ou necessita de ajuda para não
cair
Fonte: Brazilian Journal of Medical and Biological Research, 2004.
A partir do levantamento da ocorrência de queda no último ano e da
suspeita de alterações da marcha ou do equilíbrio, é necessária uma avaliação sistematizada por meio de instrumentos contidos em uma avaliação geriátrico-gerontológica abrangente ou ainda por meio de instrumentos para avaliação de risco, já descritos. A avaliação multifatorial do risco de cair, seguida de intervenções multidimensionais específicas que são focadas em reduzir fatores de risco modificáveis presentes, foi considerada a estratégia mais eficaz para prevenção de quedas. As intervenções para prevenção de quedas são mais eficazes se forem direcionadas a idosos de alto risco de cair e que vivem na comunidade. A
Figura 9.1 apresenta um algoritmo de prevenção de quedas, e a Tabela 9.8 traz uma sugestão de roteiro para a investigação do evento de queda.
Figura 9.1 Algoritmo de prevenção de quedas.
Tabela 9.8 Roteiro sugerido para investigação do evento de queda.
O(A) senhor(a) caiu no último ano? Tente lembrar-se com atenção de qualquer ocasião em que
o senhor tenha perdido o equilíbrio, tropeçado, escorregado ou até mesmo caído sentado.
Quantas vezes o senhor caiu no último ano? Não tenha vergonha nem que preocupado em
me contar. Qualquer tombo é importante, mesmo aquele em que o senhor não tenha se
machucado.
Houve alguma consequência, como fratura, luxação, traumatismo craniano ou escoriação,
contusão, corte?
Houve necessidade de procurar um médico ou serviço de emergência em um hospital?
O senhor restringiu suas atividades habituais por causa da queda? Quais atividades o senhor
deixou de fazer?
Se a resposta for a rmativa: o senhor o fez por dor, insegurança, medo, di culdade para andar,
ou por outro motivo?
Agora vamos falar sobre sua última queda
O senhor sabe precisar quando ocorreu?
A queda aconteceu de dia ou de noite?
O evento ocorreu após a refeição?
Em que lugar aconteceu a queda?
O senhor cou desacordado (houve perda da consciência)?
Que movimentos o senhor estava fazendo no momento da queda (andando, levantando-se da
cadeira, inclinando-se, virando-se etc.)?
Que atividade o senhor estava realizando no momento da queda (tomando banho, andando
até o banheiro, voltando para o quarto, subindo no banquinho, calçando o chinelo, descendo
do ônibus, entre outras)?
Como a queda ocorreu? O senhor se desequilibrou, os joelhos falsearam, sentiu-se fraco
subitamente, sentiu-se tonto?
Que parte do corpo bateu primeiro no chão ou em uma peça da mobília?
O senhor estava usando óculos ou aparelho auditivo (quando se aplicar)?
Como estava se sentindo antes de cair (na semana anterior)? Houve alguma modi cação na
sua saúde, como fraqueza generalizada, cansaço, apatia, falta de ar, problemas de memória,
febre, taquicardia, dor no peito etc.?
Houve alguma modi cação na medicação usada habitualmente? Algum medicamento novo foi
introduzido ou retirado? Fez uso de alguma medicação por conta própria?
No último ano, o senhor esteve hospitalizado?
O senhor diria que tem tido maior di culdade para andar dentro de casa, vestir-se, tomar
banho, andar fora de casa, ir ao banheiro em tempo, tomar remédios na hora certa?
Fonte: Vigilância e Prevenção de Quedas em Pessoas Idosas – Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, 2010.
Abordagem do idoso caidor
Uma avaliação criteriosa do paciente que sofreu uma queda é essencial para determinação da causa, das circunstâncias e dos mecanismos da queda, o que permite estabelecer estratégias para prevenção de novos episódios. Os caidores recorrentes e aqueles com risco de cair devem ser submetidos a avaliação clínica, durante a qual devem ser destacados os seguintes aspectos:
■ Na obtenção do histórico: indagar sobre doenças agudas; condições do
ambiente em que o idoso vive; história de quedas anteriores e atividade
que estava sendo praticada no momento da queda; onde e quando a queda ocorreu; pródromos como vertigem, pré-síncope ou desequilíbrio; simultaneidade de perda da consciência; tempo decorrido até a recuperação da consciência; uso de medicamentos relacionados com o risco de quedas; ingestão de bebidas alcoólicas; e existência de incontinência urinária
■ No exame físico: sinais vitais (com aferição da pressão na posição
supina e em ortostatismo); estado de hidratação e de nutrição; acuidade visual e auditiva; função cognitiva; características do aparelho cardiovascular; função musculoesquelética, com atenção aos pés (calos, cravos, deformidades, ausência de sensibilidade, tipo de calçado); alterações neurológicas, com ênfase na coordenação, no tônus muscular, na propriocepção, no equilíbrio e na marcha.
Os testes diagnósticos são fundamentais e abrangem:
■ Exames laboratoriais: hemograma completo, dosagem de eletrólitos,
função renal e hepática, hormônios tireoidianos, vitamina B12, 25-OH vitamina D
■ Densitometria óssea: para todas as mulheres com mais de 65 anos e
homens com mais de 70 anos
■ Ecocardiograma: para aqueles com condições cardíacas que
prejudiquem o fluxo sanguíneo para o cérebro
■ Exames de imagem: neuroimagem, caso tenha havido traumatismo
craniano ou se houver novo achado de déficit focal ao exame físico, ou se houver suspeita de processo expansivo no sistema nervoso central; exame de imagem da coluna para descartar a presença de processo de espondilose cervical ou estenose lombar em pacientes com alteração da marcha ou ao exame neurológico, ou que apresentem espasticidade de membros inferiores ou hiper-reflexia
■ Avaliação de arritmia: apenas se houver suspeita clínica de alterações
(p. ex., história de eventos cardíacos ou alteração ao eletrocardiograma)
Dosagem sérica de anticonvulsivantes, antiarrítmicos, antidepressivos
■ tricíclicos, ácido acetilsalicílico (se o uso for em altas doses).
Outro fator fundamental é avaliação da marcha, do equilíbrio e da
mobilidade. Deve-se verificar:
■ Marcha: observar a marcha (base de sustentação, tamanho da passada,
velocidade, simetria) e a maneira como o paciente senta e levanta da cadeira, com atenção à estabilidade ao se virar. Timed up and go test; POMA
■ Equilíbrio: pedir que o paciente coloque os pés paralelos, em
semitandem, em tandem. Functional reach; POMA; escala de equilíbrio de Berg
■ Mobilidade: observar se há facilidade de uso e adequação do dispositivo
de auxílio à marcha (p. ex., bengala, andador) ou assistência pessoal (familiar, cuidador), se há algum constrangimento por usar, ou que impeça o uso desses dispositivos; avaliar o calçado
■ Atividades básicas da vida diária (ABVDs) e atividades instrumentais
da vida diária (AIVD).
É importante dar orientação sobre como levantar-se após uma queda
dentro de casa, pois existe uma forma mais apropriada para evitar lesão maior do que a já existente. O paciente deve se virar com cuidado e caminhar, apoiando-se nos joelhos e nas mãos (engatinhar), até uma cadeira ou um sofá mais próximo. Evitar tempo prolongado no solo para que não sobrevenham complicações como rabdomiólise e insuficiência renal.
Intervenções
Programas de intervenção multifatorial são efetivos para redução de quedas em idosos. Tais programas geralmente incluem exercício físico, além de pelo menos outra das seguintes estratégias: correção da visão e dos riscos presentes no ambiente, tratamento da hipotensão ortostática, revisão de medicamentos e aconselhamento sobre prevenção de quedas.
Prática de atividade física
É aconselhável pelo menos 30 min de atividade física por dia, seja de forma contínua ou acumulada durante todo o dia. Existem algumas orientações básicas que podem ser feitas, como: usar a escada em vez do elevador, não ficar muito tempo em frente à televisão ou do computador, brincar com os netos, caminhar, pedalar, fazer Tai Chi, dança e alongamento. Estudos mostram que exercícios voltados para treino de força e equilíbrio, marcha e coordenação são efetivos para prevenção de quedas. Devem ser iniciados com cautela, pois podem aumentar a taxa de queda em idosos com mobilidade limitada e que não estejam acostumados a praticar atividade física. Em relação ao pilates, uma meta-análise recente concluiu que a atividade pode melhorar o equilíbrio, um importante fator de risco para quedas em idosos. Entretanto, os estudos são limitados para se concluir sobre o impacto do pilates sobre o potencial de quedas.
Cuidados com os pés
Secar bem a região entre os dedos; hidratar os pés com óleo vegetal ou hidratante; evitar o acúmulo de hidratante entre os dedos; cortar as unhas em linha reta e nunca cortar os cantos, para não encravar, e, se possível, consultar um podólogo; usar meias de algodão diariamente, do lado avesso, pois a costura pode ferir os pés; evitar extremos de temperatura nos pés.
Calçados adequados
Evitar saltos altos, chinelos frouxos e solas escorregadias. Os idosos devem medir o tamanho dos pés cada vez que forem comprar um novo calçado. Evitar cadarços e nunca andar somente de meia. O uso de uma calçadeira facilita a colocação dos sapatos, sem necessidade de o idoso se abaixar tanto.
Tratamento adequado das doenças crônicas
O tratamento adequado de doenças crônicas como osteoartrose (e outras causas de dor), osteoporose, doença de Parkinson, depressão, ansiedade, demência, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e acidente vascular cerebral (AVC) são fundamentais para o cuidado do idoso caidor.
Tratamento de déficits visuais
Recomendar acompanhamento oftalmológico anual. Estudos mostram que a primeira cirurgia para correção de catarata é efetiva para prevenção de quedas.
Ingesta de cálcio e vitamina D
Se a ingesta diária de cálcio for inferior a 1.200 mg, deve haver suplementação. A concentração sérica de vitamina D deve ser superior a 30 ng/dℓ; caso contrário, deve haver suplementação mínima de 800 UI/dia.
Medicações
Revisão periódica das medicações utilizadas, mantendo o uso quando realmente for necessário e na mínima dose eficaz possível, principalmente aquelas diretamente relacionadas com risco aumentado de quedas.
Correção dos fatores de risco no ambiente
Muitas quedas podem ser evitadas se a casa for um ambiente mais seguro. Para isso, algumas orientações a serem dadas são:
■ Fixar tapetes soltos com tachas ou apoio antiderrapante; remover do
caminho caixas, jornais, fios elétricos e de computador etc. e manter boa iluminação (abajur ao lado da cama, luz noturna no quarto, no banheiro e no corredor, lanternas sempre à mão para casos de necessidade)
■ No banheiro: aumentar a altura do vaso sanitário e instalar barras de
apoio laterais e paralelas ao vaso; substituir boxe de vidro por cortina; utilizar tapete antiderrapante e instalar barras de apoio nas paredes. Caso haja dificuldade de se abaixar durante o banho, utilizar uma cadeira de plástico firme e resistente
■ No quarto: evitar cama muito baixa ou colchão muito macio; colocar
uma lâmpada, um telefone e uma lanterna perto da cama; os armários devem ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como boa iluminação interna para facilitar a localização dos pertences; dentro dos armários, arrumar as roupas em lugares de fácil acesso, evitando os locais mais altos; instalar algum tipo de iluminação ao longo do caminho da cama até o banheiro; não deixar o chão do quarto bagunçado
■ Na cozinha: remover os tapetes, que promovem escorregões; limpar
imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derramados no chão; armazenar comida, louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance; as estantes devem estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário; não subir em cadeiras ou caixas para alcançarar mários que estejam no alto; no piso, utilizar cera que, após a aplicação, não deixe o piso escorregadio; a bancada da pia deve estar a 80 a 90 cm do chão para permitir uma posição mais confortável ao se trabalhar
■ Na escada: não deixar malas, caixas ou qualquer tipo de bagunça nos
degraus; interruptores de luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da escada. Uma opção é instalar
detectores de movimento, que fornecerão iluminação automaticamente; a iluminação deve possibilitar a visualização desde o início até o fim da escada, assim como das áreas de desembarque; remover os tapetes que estejam no início ou no fim da escada. Caso opte por aplicar carpete fixo na escada, selecionar um que tenha cor sólida (sem desenhos ou muitas formas), que não impeça a visualização nítida das bordas dos degraus; colocar tiras adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus; instalar corrimão por toda a extensão da escada e em ambos os lados. Os corrimãos devem estar a uma altura de 76 cm acima da escada
■ Na sala e no corredor: organizar os móveis de maneira a deixar o
caminho livre para que se possa circular sem ter que ficar se desviando muito; manter mesas de centro, porta-revistas, descansos de pé e plantas fora da área de passagem; instalar interruptores de luz na entrada das dependências, a fim de que não haja necessidade de andar no escuro até que se consiga ligar a luz. Interruptores que brilham no escuro podem ser úteis; deixar sempre o caminho livre de obstáculos; manter fios de telefone, fios elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito, mas nunca debaixo de tapetes; não deixar extensões cruzarem o caminho; reorganizar a distribuição dos móveis; colocar nas áreas livres tapetes com fita adesiva de dupla face ou com a parte de baixo não deslizante; não sentar em cadeira ou sofá muito baixos. Consertar imediatamente as áreas em que o carpete esteja desgastado; remover peitoril de porta maior que 1,3 m.
A Tabela 9.9 lista os fatores que contribuem para quedas e as sugestões
de intervenções para cada um deles. A Figura 9.2 traz um algoritmo para abordagem de quedas de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde, (OPAS, 2002).
Tabela 9.9 Fatores de risco e intervenções sugeridas.
Fator que contribui para risco de Intervenções sugeridas
quedas
Medicações
Uso de benzodiazepínicos, sedativos Considerar agentes com menor risco de
hipnóticos, antidepressivos ou antipsicóticos quedas
Desmamar e descontinuar medicações,
quando possível
Orientar medidas não farmacológicas para
transtornos do sono
Informar sobre uso apropriado das
medicações e eventos adversos
Mudança recente na dose ou no número de Revisar as medicações e reduzir o número e
medicações prescritas, OU uso de mais de a dose de todas, quando possível.
quatro medicações, OU uso de outras
Monitorar a resposta às mudanças de
medicações associadas a risco aumentado de
medicações e dosagens
quedas
Fatores relacionados com a mobilidade
Presença de riscos no ambiente (p. ex., altura Melhorar iluminação, especialmente à noite
imprópria da cama, piso irregular, ausência
Remover riscos do chão, como carpetes
de barras de segurança, baixa luminosidade)
escorregadios
Providenciar móveis mais seguros (p. ex.,
corrigir altura, maior estabilidade)
Instalar estruturas de sustentação,
especialmente no banheiro (p. ex., grades,
barras de segurança, elevar altura do vaso
sanitário)
Usar tapetes antiderrapantes
Problemas de marcha, equilíbrio ou Encaminhar para sioterapia para avaliação
habilidades de transferência global e reabilitação e para treino e uso de
dispositivo de marcha
Treino de marcha
Exercícios de equilíbrio e força
Se é capaz de equilibrar-se em um pé só,
encaminhar para Tai Chi, dança, ioga ou
reeducação postural
Orientar quanto a habilidades de
transferência
Prescrever dispositivos de marcha
apropriados
Orientar quanto ao uso de calçados
adequados (p. ex., confortáveis, não
escorregadios, salto baixo, área de contato
larga)
Prejuízo de força de membros superiores ou Exercícios de fortalecimento (p. ex., faixas de
inferiores ou amplitude de movimento ou borracha)
propriocepção Treino de resistência 2 a 3 vezes/semana
com 10 repetições com total amplitude de
movimento, depois aumentar resistência
Praticar Tai Chi
Fisioterapia
Fatores médicos
Doença de Parkinson, osteoartrose, sintomas Otimizar terapêutica
depressivos, dé cit cognitivo,
Monitorar progressão da doença e impacto
hipersensibilidade de seio carotídeo, outras
na mobilidade e os prejuízos
condições que aumentem o risco de quedas
Determinar necessidade de dispositivo de
marcha
Orientar mesa de cabeceira se noctúria
Orientar marca-passo para pacientes que
apresentam hipersensibilidade do seio
carotídeo devido a síncope
Hipotensão postural: queda na pressão Revisar medicações potencialmente
arterial (PA) sistólica ≥ 20 mmHg (ou ≥ responsáveis e ajustar dose ou mudar para
20%) com ou sem sintomas, após 3 min de um agente menos hipotensor; evitar
mudança de posição deitada para ortostática vasodilatadores e diuréticos, se possível
Orientar atitudes que diminuam os efeitos
(p. ex., levantar-se lentamente da posição
sentada ou de decúbito, exercícios de
dorsi exão de tornozelos e mãos antes de se
levantar, elevar a cabeceira da cama), barras
de segurança no banheiro
Prescrever meias elásticas de média
compressão
Liberar a ingesta de sal, se apropriado
Café (1 xícara) ou cafeína (100 mg às
refeições) para hipotensão pós-prandial
Considerar medicação para aumentar a PA
(se hipertensão, insu ciência cardíaca e
hipopotassemia não graves):
udrocortisona, 0,1 mg 1 a 3 vezes/dia;
piridostigmina, 60 mg/dia
Comprometimento visual ou auditivo Correção de refração
Correção de catarata
Boa iluminação
Avaliação de segurança no ambiente em que
o paciente vive e/ou transita
Remoção de cerume; avaliação auditiva com
indicação de prótese, se necessário
Evitar medicamentos ototóxicos
Adaptada de Reuben et al., 2011.
Figura 9.2 Algoritmo para abordagem de quedas proposto pela OPAS, 2002. Considerações finais
As medidas preventivas objetivam evitar traumatismos e seus efeitos. Isso poderá ser alcançado a partir de: diagnóstico e prevenção das condições com potencial de provocar quedas; prevenção e tratamento da osteoporose; e melhora do estado geral, incluindo a agilidade e a força muscular. Os programas de prevenção realizados na comunidade e em instituições de longa permanência são eficazes para reduzir os episódios de queda. O objetivo fundamental deve ser maximizar o estado funcional e diminuir o risco de lesão. Para isso, o profissional ou a equipe de saúde devem identificar e tratar as doenças envolvidas, melhorar o apoio social e as condições do ambiente.
A velocidade da marcha deve ser monitorada rotineiramente, pois um
declínio pode indicar um novo problema de saúde que requer avaliação. A velocidade da marcha pode ser usada como um instrumento de estratificação de risco para cirurgias e quimioterapia.
É importante salientar que a predisposição para quedas, com potencial
traumatismo craniano, raramente é uma contraindicação ao uso de anticoagulantes por idosos com fibrilação atrial. Mesmo para quem faz uso desses fármacos, o risco de hematoma subdural é tão baixo que seria necessário que pessoas com risco médio de acidente vascular encefálico cardioembólico caíssem aproximadamente 300 vezes em 1 ano para que os riscos da anticoagulação ultrapassassem seus benefícios.
As medidas preventivas incluem: orientações aos pacientes e aos
familiares sobre o risco de quedas e suas consequências; segurança do ambiente em que o paciente vive e transita; estilo de vida (dieta, exercício físico); avaliação geriátrica global periódica com atenção a função cognitiva, transtornos de humor, capacidade de realizar as atividades da vida diária e condições sociais; racionalização da prescrição e correção da polifarmácia; avaliação oftalmológica anual; avaliação nutricional; indicação de fisioterapia e de exercício físico; correção de fatores de risco no ambiente; e medidas de promoção de saúde, com atenção à prevenção e ao tratamento da osteoporose.
Bibliografia
American Geriatrics Society, British Geriatric Society. Summary of the updated American
Geriatrics Society/British Geriatrics Society clinical practice guideline for prevention of falls in older persons. Journal of American Geriatric Society (JAGS). 2011; 59:148-57.
American Geriatrics Society, British Geriatrics Society and American Academy of
Orthopaedic Surgeons Panel on Falls Prevention. Guideline for the prevention of falls in older people. JAGS. 2001; 49:664-72.
American Geriatrics Society Workgroup on vitamin D supplementation for older adults.
Recommendations abstracted from the American Geriatrics Society Consensus statement on vitamin D for prevention of falls and their consequences. 2013.
Barbosa AM, Oliveira CL. Prevalência de quedas, fatores de risco e nível de atividade física
em idosos institucionalizados. RBCEH. Brasil, Passo Fundo, RS. 2012; 9(1):57-70.
Barker AL, Bird ML, Talevski J. Effect of Pilates exercise for improving balance in older
adults: a systematic review with meta-analysis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. Abril. 2015; 96(4):715-23.
Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde; Instituto Nacional de Traumatologia e
Ortopedia. Queda de Idosos. 2009.
Buksman S, Vilela ALS, Pereira SRM, Lino VS, Santos VH; Sociedade Brasileira de
Geriatria e Gerontologia. Quedas em Idosos: Prevenção. Projeto Diretrizes – Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. 2008.
Camargos FFO, Dias RC, Dias JMD, Freire MTF. Adaptação transcultural e avaliação das
propriedades psicométricas da Falls Efficacy Scale – International em idosos brasileiros (FES-I-Brasil). Rev Bras Fisioter. 2010; 14(3).
Centro de Estudos Ortopédicos do HSPE; Governo do Estado de São Paulo. Manual de
Prevenção de Quedas da Pessoa Idosa. [Data desconhecida.]
Centro de Referência do Idoso – CRI Norte; CRI IPGG; Universidade Cidade de S. Paulo;
HC-FMUSP; IAMSPE, Centro de Vigilância Epidemiológica; Programa São Paulo Amigo do Idoso; Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Saúde. Cair de maduro é só para fruta – Manual de Prevenção de Quedas em Idosos. [Data desconhecida.]
De andrea S, Bravi F, Turati F et al. Risk factors for falls in older people in nursing homes
and hospitals. A systematic review and meta-analysis. Archives of Gerontology and Geriatrics. 2013; 56(3):407-5.
Disciplinas de Reumatologia e Geriatria, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal
de São Paulo. Brazilian version of the Berg Balance Scale. Brazilian Journal of Medical and Biological Research. 2004; 37:1411-21.
Ganz DA, Bao Y, Shekelle PG, Rubenstein LZ. Will my patient fall? JAMA. 2007; 297(1):77-
86.
Gomes GC. Tradução, adaptação transcultural e exame das propriedades de medida da
escala Performance-Oriented Mobility Assessment (POMA) para uma amostragem de idosos brasileiros institucionalizados. Mestrado em Gerontologia. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, 2004.
Hanley A, Silke C, Murphy J. Community-based health efforts for the prevention of falls in
the elderly. Clinical Interventions in Aging. 2011; 6:19-25.
Júnior CMP, Heckman MF. Distúrbios da postura, marcha e quedas. In: Freitas IV et al.
Tratado de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p. 1062-74.
Karuka AH, Silva JAMG, Navega MT. Analysis agreement of assessment tools of body
balance in the elderly. Rev Bras Fisioter. 2011; 15(6).
Kiel DP. Falls in older persons: Risk factors and patient evaluation. In: UpToDate, Basow,
DS (ed.). UpToDate, Waltham, MA, 2011.
Kiel DP. Falls: Prevention in community-dwelling older persons. In: UpToDate, 2015. Kiel DP. Prevention of falls and complications of falls in older persons. In: UpToDate, Basow
DS (ed.). UpToDate, Waltham, MA, 2011.
King MB. Falls. In: Halter JB et al. Hazzard’s geriatric medicine and gerontology.: McGraw-
Hill Companies, 2009. p. 659-69.
Leveille SG, Bean J, Bandeen-Roche K et al. Musculoskeletal pain and risk for falls in older
disabled women living in the community. Journal of American Geriatric Society (JAGS). 2002; 50:671-8.
Maciel A. Quedas em idosos, um problema de saúde pública desconhecido pela
comunidade e negligenciado por muitos profissionais da saúde e por autoridades sanitárias brasileiras. Artigo de Revisão. Rev Med Minas Gerais. 2010; 20(4): 554-7.
Reuben RB, Herr KA, Pacala JT th et al . Falls. Geriatrics at your fingertips. 13 ed. New York:
The American Geriatrics Society, 2011. p. 98-102.
Rowe RJ. Fall prevention: core characteristics and practical interventions. Home Health
Care Management and Practice. 2011; 23(1):20-6.
Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Vigilância e prevenção de quedas em
idosos. Louvison MCP, Rosa TEC (eds.). São Paulo: SES/SP, 2010.
Studenski S et al. Gait speed and survival in older adults. JAMA. 2011; 305(1):50-8. Tinetti ME. Performance-oriented assessment of mobility problems in elderly patients.
Journal of American Geriatrics Society. 1986; 34:119-26.
Tinetti ME. Preventing falls in elderly persons. N Engl J Med. 2003; 348(1):42-9. Wu G. Evaluation of effectiveness of Tai Chi for improving balance and preventing falls in
the older population – a review. Journal of American Geriatric Society (JAGS). 2002; 50:746-54.
Zuzarte FCC, Iartelli I, Silveira JG. Quedas: abordagem no ambiente hospitalar. In: Neto JT,
Pintarelli VL, Yamatto TH et al. À beira do leito. Geriatria e gerontologia na prática hospitalar. Barueri, SP: Manole, 2007. p. 147-54.
OceanofPDF.com