Geriatria: Guia Prático

Ana Beatriz Galhardi Di Tommaso · Capítulo 8 de 32

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Geriatria: Guia Prático

3 Distúrbios Cardiometabólicos | Hipertensão, Diabetes e Aterosclerose

Introdução

A incidência e a prevalência de doenças cardiovasculares (DCVs) aumentam com o envelhecimento, e comprovou-se que idade é fator de risco independente para DCVs como hipertensão arterial (HA) e aterosclerose.

Entre as manifestações clínicas das DCVs, estão infarto agudo do miocárdio

(IAM), acidentes cerebrovasculares (ACVs) acidente isquêmico transitório (AIT), comprometimento renal (albuminúria e doença renal crônica [DRC]) e doença arterial periférica.

As manifestações clínicas de tais doenças influeciam na morbidade e na

mortalidade e interferem na funcionalidade e na qualidade de vida da população idosa.

 

Peculiaridades da população idosa

Antes de estratificar riscos e estabelecer metas terapêuticas ou qual tratamento indicar, é preciso considerar diante de pacientes idosos:

A aplicação da avaliação geriátrica ampla (AGA), que consiste em testes

■ simples e bem direcionados para investigação da capacidade de realizar

tarefas do cotidiano tanto no campo físico como no cognitivo, dimensionando-se o status funcional de cada indivíduo

■ A funcionalidade, normalmente estabelecida por escalas, entre as quais

destacam-se a de atividades instrumentais de vida diária e a de atividades básicas de vida diária, que nos direcionam a investigação e os objetivos mais ou menos agressivos conforme o grau de dependência do idoso

■ A expectativa de vida, levando em consideração as comorbidades

estabelecidas e sua gravidade, além da cognição e seu declínio

■ A história medicamentosa e possível polifarmácia, já que a interação de

vários medicamentos pode acarretar efeitos adversos graves, como hipotensão, insuficiência orgânica (hepática e renal, principalmente) e declínio cognitivo.

 

Estratificação de risco cardiovascular

Existem várias fórmulas para estratificação de risco cardiovascular (RCV); a maioria deriva do estudo de Framingham, como a que será abordada a seguir – Risco cardiovascular global (RCV global).

Todas as fórmulas têm alguma limitação para avaliação de pacientes idosos,

especialmente os muito idosos.

A estratificação do RCV tem por objetivo direcionar o tratamento conforme

a classificação do risco, que pode ser alto, intermediário ou baixo.

O RCV global é dividido em três etapas:

■ Primeira etapa: determinar os indivíduos de alto risco cardiovascular (Tabela

3.1)

■ Segunda etapa: os indivíduos que não foram definidos como de alto risco

devem receber pontuação conforme os critérios definidos a seguir, separados

por sexo. Verifique nas Tabelas 3.2 e 3.3, os critérios para mulheres; nas 3.4 e 3.5, para homens; e na 3.6, a classificação global para ambos os sexos ■ Terceira etapa: os indivíduos classificados como de risco intermediário na

etapa anterior serão reclassificados como de alto risco se apresentarem pelo

menos um fator agravante de risco (Tabela 3.7).

 

Tabela 3.1 Critérios para classificação de alto risco cardiovascular.*

 

Doença aterosclerótica arterial coronariana, cerebrovascular ou obstrutiva periférica, com

manifestações clínicas (eventos cardiovasculares)

 

Aterosclerose na forma subclínica, signi cativa, documentada por metodologia diagnóstica

 

Procedimentos de revascularização arterial

 

Diabetes melito tipos 1 e 2

 

Doença renal crônica (DRC)

 

Hipercolesterolemia familiar (HF)

*Presença de um ou mais fatores.

 

Tabela 3.2 Pontuação de acordo com o risco cardiovascular global em mulheres.

 

PAS

Idade HDL- (não PAS

Pontos (anos) C CT tratada) (tratada) Tabagismo Diabetes

 

-3 < 120

 

-2 ≥ 60

 

-1 50 a

59

 

0 30 a 45 a < 120 a Não Não

34 49 160 129

1 35 a 160 130 a

44 a 139

199

 

2 35 a < 35 140 a 120 a 129

39 149

 

3 200 130 a 139 Sim

a

239

 

4 40 a 240 150 a Sim

44 a 159

279

 

5 45 a ≥ ≥ 160 140 a 149

49 280

 

6 150 a 159

 

7 50 a ≥ 160

54

 

8 55 a

59

 

9 60 a

64

 

10 65 a

69

 

11 70 a

74

 

12 ≥ 75

 

Pontos Total =

Somar os pontos de cada fator. CT: colesterol; PAS: pressão arterial sistêmica.

 

Tabela 3.3 Risco cardiovascular global em mulheres.*

 

Pontos Risco (%) Pontos Risco (%) Pontos Risco (%)

 

≤ -2 < 1 6 3,3 14 11,7

 

-1 1,0 7 3,9 15 13,7

 

0 1,2 8 4,5 16 15,9

 

1 1,5 9 5,3 17 18,5

 

2 1,7 10 6,3 18 21,6

 

3 2,0 11 7,3 19 24,8

 

4 2,4 12 8,6 20 28,5

 

5 2,8 13 10,0 21+ > 30

*Conforme a pontuação, classificar o risco em 10 anos.

 

Tabela 3.4 Pontuação de acordo com o risco cardiovascular global em homens.

 

PAS

Idade HDL- (não PAS

Pontos (anos) C CT tratada) (tratada) Tabagismo Diabetes

 

-2 ≥ 60 < 120

-1 50 a

59

 

0 30 a 45 a < 120 a < 120 Não Não

34 49 160 129

 

1 35 a 160 130 a

44 a 139

199

 

2 35 a < 35 200 140 a 120 a 129

39 a 159

239

 

3 240 ≥ 160 130 a 139 Sim

a

279

 

4 ≥ 140 a 159 Sim

280

 

5 40 a ≥ 160

44

 

6 45 a

49

 

7

 

8 50 a

54

 

9

10 55 a

59

 

11 60 a

64

 

12 65 a

69

 

13

 

14 70 a

74

 

15+ ≥ 75

 

Pontos Total =

Somar os pontos de cada fator. CT: colesterol; PAS: pressão arterial sistêmica.

 

Tabela 3.5 Risco cardiovascular global em homens.*

 

Pontos Risco (%) Pontos Risco (%) Pontos Risco (%)

 

≤ -3 ou < 1 5 3,9 13 15,6

menos

 

-2 1,1 6 4,7 14 18,4

 

-1 1,4 7 5,6 15 21,6

 

0 1,6 8 6,7 16 25,3

 

1 1,9 9 7,9 17 29,4

 

2 2,3 10 9,4 18+ > 30 IDF: International Diabetes Federation.

3 2,8 11 11,2 – –

 

4 3,3 12 13,2 – –

*Conforme a pontuação, classificar o risco em 10 anos.

 

Tabela 3.6 Classificação de risco global em homens e mulheres.

 

Classi cação %

 

Baixo < 5 em homens e mulheres

 

Intermediário ≥ 5 e ≤ 10 em mulheres

≥ 5 e ≤ 20 em homens

 

Alto > 10 em mulheres

> 20 em homens

 

Tabela 3.7 Fatores agravantes de risco cardiovascular.

 

História familiar de doença arterial coronariana prematura (parente de primeiro grau do sexo

masculino < 55 anos, ou do sexo feminino < 65 anos)

 

Critérios para síndrome metabólica de acordo com a IDF

 

Microalbuminúria (30 a 300 µg/min) ou macroalbuminúria (> 300 µg/min)

 

Hipertro a ventricular esquerda

 

Proteína C reativa de alta sensibilidade > 2 mg/dℓ

 

Espessura íntima-média de carótidas > 1,00

 

Escore de cálcio coronário > 100, ou > percentil 75 para idade ou sexo

 

Índice tornozelo-braquial (ITB) < 0,9

 

Metas terapêuticas

Como mencionado anteriormente, para idosos, mais do que para qualquer outro grupo, a terapêutica deve ser individualizada, levando-se em consideração as várias peculiaridades dessa população etária, destacando-se:

■ Funcionalidade

■ Expectativa de vida

■ Cognição

■ Suporte social

■ Comorbidades associadas

■ Polifarmácia.

De modo geral, utilizam-se, para um idoso saudável ou com poucas

comorbidades controladas, as mesmas metas estabelecidas para um adulto.

As Tabelas 3.8 a 3.10 listam as metas para controle da hipertensão arterial

sistêmica (HAS) e as metas glicêmicas e lipídicas conforme as características do indivíduo.

 

Tabela 3.8 Metas para controle da hipertensão arterial sistêmica.

 

Categoria Considerar

 

Idosos < 80 anos < 140/90 mmHg

 

Idosos > 80 anos com cognição e < 150/90 mmHg

funcionalidade preservadas

 

Idosos frágeis, com várias comorbidades e Decisão terapêutica individualizada

expectativa de vida limitada

 

Tabela 3.9 Metas glicêmicas.

Características do idoso Glicemia pré- Glicemia ao HbA1c

prandial deitar

 

Saudável, sem comorbidades graves, 90 a 130 mg/dℓ 90 a 150 mg/ℓ < 7,5%

status funcional e cognitivo

preservados

 

Várias comorbidades, com 90 a 150 mg/dℓ 100 a 180 < 8,0%

comprometimento funcional e mg/dℓ

cognitivo leve a moderado

 

Comorbidades graves, com 100 a 180 110 a 200 < 8,5%

comprometimento funcional e mg/dℓ mg/dℓ

cognitivo importante e expectativa

de vida limitada

 

Tabela 3.10 Metas lipídicas.

 

Nível de risco Meta primária: LDL-C (mg/dℓ) Meta secundária (mg/dℓ)

 

Alto LDL-C < 70 ou redução de mais de Colesterol não HDL < 100

50%

 

Intermediário LDL-C < 100 ou redução de 30 a 50% Colesterol não HDL< 130

 

Baixo Meta individualizada ou redução de Meta individualizada

30% do LDL-C

 

Terapia não farmacológica

A terapia não farmacológica é o tratamento inicial de escolha para as doenças metabólicas, e não há diferença para um indivíduo com mais de 60 anos. Entretanto, pessoas dessa faixa etária estão sujeitas a maior risco de desnutrição, perda proteica e sarcopenia. Por isso, recomenda-se um acompanhamento multidisciplinar, com enfoque nutricional, fisioterápico e psicológico.

Essa terapia inclui:

■ Controle de peso

■ Atividade física regular que inclua exercícios resistidos e aeróbicos ■ Redução da ingesta de sal, açúcares simples, álcool e gorduras,

principalmente as saturadas, trans e colesterol

■ Dieta rica em vegetais

■ Cessação do tabagismo.

 

Terapia farmacológica

A terapia farmacológica tem como objetivo atingir o alvo proposto nas metas terapêuticas comentadas anteriormente.

Com idosos, deve-se sempre individualizar cada caso, levando em conta as

interações medicamentosas, a tolerância individual a cada medicamento e seus efeitos adversos no que concerne à interferência na qualidade de vida.

 

Terapia farmacológica da hipertensão arterial sistêmica

A escolha da classe de anti-hipertensivo deve ser direcionada para as

comorbidades adjacentes (Tabela 3.11).

 

Tabela 3.11 Medicações para hipertensão arterial sistêmica.

 

Classe de fármaco Preferir em: Evitar em:

 

Diuréticos tiazídicos ICC, osteoporose, hipertensão Incontinência urinária,

sistólica isolada (HSI) prostatismo, gota

 

IECA e antagonistas da Ag ICC, IAM ou AVC prévios, DM, IRC grave, estenose de artéria

II nefropatia, hipertro a de VE renal bilateral

 

Antagonistas dos canais Insu ciência arterial periférica, ICC (exceto anlodipino e

de cálcio insu ciência coronariana felodipino)

sintomática, HSI

 

Betabloqueadores ICC, insu ciência coronariana, Bradiarritmia, broncospasmo,

taquiarritmia, migrânea, insu ciência arterial periférica

tremor essencial, grave hipertireoidismo

 

Alfabloqueadores Prostatismo Pouco utilizados. Cuidado

adicional em hipotensão

ortostática

AVC: acidente vascular cerebral; ICC: insuficiência cardíaca congestiva; IECA: inibidores da enzima conversora de angiotensina; VE: ventrículo esquerdo; IRC: insuficiência renal crônica; Ag II: angiotensina II.

 

Terapia farmacológica do diabetes melito

Ao estabelecer a terapia farmacológica do diabetes melito em paciente idoso, atentamos para alguns hipoglicemiantes orais que são mais utilizados nesse

grupo de pacientes, respeitando as peculiaridades (Tabela 3.12).

 

Terapia farmacológica para controle do colesterol

O tratamento é feito basicamente com estatinas, guiado pela meta de controlar o colesterol LDL (LDL-C). As estatinas de alta potência são as de escolha para controle mais intenso do LDL-C em idosos de alto RCV.

A preferência por um ou outro fármaco deve ser individualizada, levando-se

em conta a facilidade de acesso ao medicamento, os efeitos adversos e as interações farmacológicas.

O tratamento complementar com outros fármacos (p. ex., ezetimiba e

fibrato) pode ser necessário a fim de que se atinja a meta secundária de controle do colesterol não HDL e de triglicerídeos.

 

Tabela 3.12 Medicações para diabetes melito.

Classe de

fármaco Fármaco(s) Ações Vantagens Desvantagens

 

Biguanidas Metformina Redução da Não aumenta o Efeitos

síntese e da peso; não gastrintestinais absorção de causa (diarreia, cólica glicose; hipoglicemia; abdominal); aumento da reduz eventos e risco de acidose ação da mortalidade láctica; insulina cardiovascular de ciência de

vitamina B12

 

Sulfonilureias de Glibenclamida; Aumento da Geralmente Hipoglicemia;

segunda geração glipizida; secreção de bem toleradas ganho de peso;

glicazida; insulina possível glimepirida aumento de

eventos

cardiovascular

 

Meglitinidas Repaglinida; Aumento de – Hipoglicemia;

nateglinida curta duração ganho de peso

da secreção de

insulina

 

Tiazolidinedionas Pioglitazona; Aumento da Não causam Ganho de peso;

(glitazonas) rosiglitazona sensibilidade hipoglicemia; edema; ICC;

periférica à aumento do fraturas ósseas; insulina HDL-C; redução aumento do

de LDL-C triglicerídeos Weber MA, Schiffrin EL, White WB et al. Clinical practice guidelines for the management of

Inibidores do Sitagliptina; Aumento da Não causam Relatos

DDP4 vildagliptina; concentração hipoglicemia; ocasionais de

saxagliptina; da GLP1; não interferem urticária e linagliptina aumento da no peso edema; casos

secreção de de pancreatite;

insulina; segurança a redução da longo prazo secreção de não conhecida

glucagon

 

Bibliografia

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