Geriatria: Guia Prático
1 Avaliação da Capacidade Funcional
Introdução
O envelhecimento populacional vem ocorrendo com ampla diversidade de perfis, variando do idoso frágil ao ativo, bem-sucedido.
Todos almejam um envelhecimento com boas condições de saúde e boa
qualidade de vida. A definição atual de saúde abrange o bem-estar físico, mental e social, que possibilita aos indivíduos identificar e realizar suas aspirações e satisfazer suas necessidades. A saúde não é definida pela ausência de doenças, e sim pelo grau de preservação da capacidade funcional, que depende da autonomia e independência do indivíduo e interfere em sua qualidade de vida.
Alguns conceitos importantes para esse tema são:
■ Capacidade funcional: capacidade de manter as habilidades físicas e
mentais necessárias para uma vida independente e autônoma ■ Autonomia: capacidade de gerir a própria vida, tomando decisões e
alcançando objetivos determinados
■ Independência: capacidade de realizar tarefas rotineiras sem auxílio,
como limpar o quarto ou caminhar.
O conceito de independência depende da capacidade física e cognitiva
para a realização das atividades básicas da vida diária (ABVDs), necessárias para o autocuidado, e das atividades instrumentais da vida diária (AIVDs), necessárias para uma vida independente na comunidade.
Instrumentos de avaliação do domínio cognitivo
O diagnóstico precoce do comprometimento cognitivo permite que o paciente apresente uma resposta mais eficaz ao tratamento, além de garantir que sua família consiga programar o futuro da melhor forma possível. O comprometimento cognitivo deve ser rastreado na avaliação multidimensional do idoso, por meio de questionamentos sobre:
■ Memória (tem apresentado esquecimentos? O que costuma esquecer?
Os esquecimentos têm piorado? Tem-se observado muito repetitivo?)
■ Orientação (esquece datas ou se confunde com elas? Tem se perdido em
locais conhecidos? Apresentou episódios em que não reconhecia onde estava, apesar de estar em ambiente familiar?)
■ Habilidades para realizar tarefas rotineiras (tem se atrapalhado nas
atividades que fazia antes sem dificuldades? Quais atividades?)
■ Linguagem (tem apresentado dificuldade para se lembrar das palavras e
nomear objetos? Tem dificuldade para compreender as falas e as orientações?)
■ Comportamento (apresenta alteração do comportamento? Passou a
apresentar condutas pessoais ou sociais inadequadas? Quais?)
Associada a essa avaliação, a aplicação rotineira dos testes Miniexame
do Estado Mental (MEEM) (Tabela 1.1), desenho do relógio (TDR) e fluência verbal (FV) oferecem uma triagem cognitiva satisfatória. Eles estão explicados a seguir:
■ MEEM: consiste no teste de triagem cognitiva mais utilizado no mundo.
É constituído por 30 itens, dos quais deve-se somar 1 ponto para cada item correto. A última adaptação brasileira foi realizada em 2003,
considerando a pontuação mediana conforme a escolaridade (Tabela
1.2). É importante ressaltar que a maior utilidade do teste não está na pontuação obtida (análise quantitativa), mas na avaliação dos itens em que o paciente apresentou dificuldade ou não conseguiu responder (análise qualitativa), pois estes relacionam-se a uma ou mais funções cognitivas específicas, e sua avaliação pode indicar o diagnóstico etiológico do comprometimento cognitivo
■ Teste do desenho do relógio (TDR): é simples e rápido para ser aplicado
no consultório (em média 5 min), sendo muito útil para avaliar memória semântica, função executiva e orientação visuoespacial. As disfunções executivas podem preceder os distúrbios de memória nas demências. Para aplicação do teste, dê uma folha em branco para o paciente e peça a ele que desenhe um relógio analógico com os números e ponteiros marcando 11h10 ou 02h50. Deve-se escolher uma hora em que os ponteiros fiquem localizados em dois quadrantes diferentes. O teste não é cronometrado, e o paciente pode repetir o desenho caso solicite. Existem diversas pontuações que podem ser aplicadas; neste capítulo, será descrita a pontuação de 15 itens, por questões de objetividade
(Tabela 1.3)
Tabela 1.1 Miniexame do Estado Mental (MEEM).
Orientação
1. Dia da semana (1 ponto) ( )
2. Dia do mês (1 ponto) ( )
3. Mês (1 ponto) ( )
4. Ano (1 ponto) ( )
5. Hora aproximada (1 ponto) ( )
6. Local especí co (andar ou setor) (1 ponto) ( )
7. Instituição (residência, hospital, clínica) (1 ponto) ( )
8. Bairro ou rua próxima (1 ponto) ( )
9. Cidade (1 ponto) ( )
10. Estado (1 ponto) ( )
Memória imediata
Fale três palavras não relacionadas (p. ex., carro, vaso, tijolo). Posteriormente, pergunte ao
paciente pelas três palavras. Dê 1 ponto para cada resposta correta. ( )
Depois, repita as palavras e certi que-se de que o paciente as aprendeu, pois mais adiante
você irá retomá-las
Atenção e cálculo
Subtraia 7 de 100; do resultado, subtraia 7, e assim sucessivamente. Pare ao completar cinco
subtrações
100-7 ( ); 93-7 ( ); 86-7 ( ); 79-7 ( ); 72-7 ( ); 65
(1 ponto para cada cálculo correto)
Evocação ( )
Pergunte pelas três palavras ditas anteriormente
(1 ponto por palavra; total: 3 pontos)
Linguagem
1. Nomear um relógio e uma caneta (2 pontos) ( )
2. Repetir “nem aqui, nem ali, nem lá” (1 ponto) ( )
3. Comando: ”pegue este papel com a mão direita, dobre ao meio e coloque ( )
no chão (3 pontos)
4. Ler e obedecer: “feche os olhos” (1 ponto) ( )
5. Escrever uma frase (1 ponto) ( )
6. Copiar um desenho (1 ponto) (dois pentágonos com uma intersecção entre ( )
eles)
Escore: ( /30)
Tabela 1.2 Teste de triagem cognitiva de acordo com a escolaridade.
Escolaridade em anos Pontuação mediana
Analfabetos 20
1 a 4 25
5 a 8 26
9 a 11 28
Escolaridade superior a 11 anos 29
Tabela 1.3 Itens para pontuação do teste do desenho do relógio (TDR).
Item Descrição
1 Desenho de contorno aceitável
2 Contorno com tamanho médio
3 Números de 1 a 12 sem adição ou omissão
4 Só algarismos arábicos ou só romanos
5 Ordem correta dos números
6 Papel não é rodado quando se escreve
7 Posição correta dos números
8 Todos os números dentro do contorno
9 Com dois ponteiros e/ou marcas
10 Hora indicada de alguma maneira
11 Minutos indicados de alguma maneira (marca)
12 Na proporção correta entre os ponteiros (minutos – maior)
13 Sem marcas supér uas
14 Ponteiros ligados (ou até 12 mm de proximidade)
15 Centro desenhado ou inferido onde os ponteiros se encontram
■ Teste de fluência verbal (FV): rápido, de fácil aplicação, que avalia a
memória semântica, a função executiva e a linguagem. Nesse teste, o paciente deve falar durante 1 min a maior quantidade possível de nomes de animais ou de frutas. Avise ao paciente que vale qualquer tipo de animal ou de fruta, e que, quanto mais nomes citar, melhor. Os nomes dos animais (ou das frutas) devem ser anotados, pois o escore será definido pelo número de nomes citados em um minuto (excluindo-se as repetições). “Boi e vaca” devem ser considerados como dois animais, mas “gato e gata” como um só. Considere a classe como nome se não houver outros nomes da mesma classe. Por exemplo: passarinho, elefante e onça contam como três nomes, já passarinho, beija-flor, canário e cobra, como dois. Existem diversas pontuações de corte, utilizadas conforme a escolaridade. Sugere-se como referência a pontuação de corte de pelo menos nove palavras para os idosos com menos de 8 anos de escolaridade, e acima de 13 palavras para aqueles com 8 anos ou mais de escolaridade, embora comparar o mesmo idoso ao longo do tempo seja mais importante que a pontuação de corte.
Além dos três testes descritos anteriormente, os testes de recordação
tardia apresentam elevada acurácia diagnóstica na doença de Alzheimer, podendo-se utilizar a lista de palavras do Consortium to Establish a Registry for Alzheimer’s Disease (CERAD) ou a bateria breve de rastreio cognitivo (Nitrini et al., 1994; 2005).
Instrumento de avaliação do domínio afetivo A prevalência de sintomas depressivos aumenta com o envelhecimento. A somatização e a anedonia são mais prevalentes nessa faixa etária do que a queixa de humor deprimido, o que dificulta o diagnóstico. Portanto, esses sintomas devem ser questionados ativamente. A escala de depressão geriátrica (GDS, do inglês Geriatric Depression Escale) auxilia na triagem de depressão e é um dos instrumentos mais utilizados para avaliação da
doença. Essa escala pode ser vista adiante no Capítulo 18.
Instrumentos de avaliação do domínio físico
A avaliação funcional começa com a observação do paciente antes mesmo de sua entrada no consultório. Observa-se, assim, como ele realiza as transferências, as dificuldades auditivas e visuais etc. Alguns instrumentos e testes auxiliam a avaliação do impacto das dificuldades do idoso no seu cotidiano, de acordo com a avaliação das ABVDs e das AIVDs:
■ ABVDs: utiliza-se a escala de Katz, constituída por seis itens que
obedecem à seguinte hierarquia de complexidade: alimentação, controle de esfíncteres, transferência, higiene pessoal, capacidade para se vestir e tomar banho. Cada função em que o indivíduo apresenta dependência soma um ponto, enquanto, nas funções em que ele é independente, não
há pontuação (Tabela 1.4)
■ AIVDs: a escala de Lawton investiga a capacidade para realizar preparo
das refeições, tarefas domésticas, lavagem da roupa, manuseio da medicação, uso do telefone, manuseio do dinheiro, compras e uso dos meios de transporte. Cada fator desse é classificado de 1 a 3, no qual 1 representa dependência para determinada função, 2 significa que o indivíduo precisa de ajuda, e 3 exibe total independência para a função
(Tabela 1.5). O escore total é o somatório das pontuações, tendo como pontuação máxima 24 pontos.
É importante avaliar não apenas o grau de dependência, mas também a
causa da dependência. Por exemplo: dependência parcial para AIVDs devido a déficit visual, limitação motora ou comprometimento cognitivo.
Avaliação da capacidade física
A avaliação da capacidade física pode ser feita por meio dos seguintes testes:
■ Timed up and go test: avalia o equilíbrio, o risco de quedas e a
capacidade funcional de idosos. O paciente fica sentado em uma cadeira sendo instruído a levantar-se, andar tão rapidamente quanto possível e com segurança por uma linha reta de 3 m de comprimento no chão (pode-se usar simples fitas adesivas para desenhar essa linha) e retornar à posição sentada inicial. Considera-se normal o tempo de percurso de até 10 s para adultos saudáveis, independentes e sem risco de quedas; entre 11 e 20 s para idosos frágeis ou com deficiências, com independência parcial e com baixo risco de quedas; acima de 20 s é indicativo de déficit importante da mobilidade física e risco de quedas
Tabela 1.4 Escala de Katz.
Atividade Descrição Sim Não
Tomar banho Não recebe ajuda ou somente recebe ajuda ( ) ( )
em uma parte do corpo
Vestir-se Escolhe as roupas e se veste sem nenhuma ( ) ( )
ajuda, exceto para calçar os sapatos
Higiene Vai ao banheiro, usa-o, limpa-se, ajeita as ( ) ( )
pessoal roupas e retorna sem nenhuma ajuda (pode
usar objetos para apoio, como bengala,
andador ou cadeira de rodas, e pode usar
comadre ou urinol à noite, esvaziando- o de
manhã)
Transferência Consegue deitar e levantar de uma cama ou ( ) ( )
sentar e levantar de uma cadeira sem ajuda
(pode usar bengala ou andador)
Continência Tem autocontrole do intestino e da bexiga ( ) ( )
(sem “acidentes ocasionais”)
Alimentação Alimenta-se sem ajuda, exceto para cortar ( ) ( )
carne ou passar manteiga no pão
Pontuação: 6: independente; 4: dependência parcial; 1-2: dependência importante. Fonte: Katz S, Dowms T, Cash H, Grotz RC. Progress in development of the index of ADL. Gerontologist 1970;10(1):20-30.
Tabela 1.5 Escala de Lawton.
Para cada atividade listada a seguir, assinale a descrição que se aplica (as palavras “ajuda” e
“assistência” signi cam supervisão, orientação ou auxílio pessoal)
Uso do telefone – O(a) senhor(a) consegue Recebe e faz ligações sem assistência (3)
usar o telefone?
Necessita de assistência para realizar
ligações telefônicas (2)
Não tem o hábito ou é incapaz de usar o
telefone (1)
Transporte – O(a) senhor(a) consegue ir a Realiza viagens sozinho(a) (3)
lugares distantes, usando algum tipo de
Somente viaja quando tem companhia (2)
transporte, sem necessidade de
planejamentos especiais? Não tem o hábito ou é incapaz de viajar (1)
Compras – O(a) senhor(a) consegue fazer Realiza compras quando é fornecido o
compras? transporte (3)
Somente faz compras quando tem
companhia (2)
Não tem o hábito ou é incapaz de fazer
compras (1)
Preparo das refeições – O(a) senhor(a) Planeja e cozinha as refeições completas (3)
consegue preparar suas próprias refeições?
Prepara somente refeições pequenas ou
quando recebe ajuda (2)
Não tem o hábito ou é incapaz de preparar
refeições (1)
Trabalho doméstico – O(a) senhor(a) Não realiza tarefas pesadas (3)
consegue arrumar a casa?
Realiza tarefas leves, necessitando de ajuda
nas pesadas (2)
Não tem o hábito ou é incapaz de realizar
trabalhos domésticos (1)
Lavanderia – O(a) senhor(a) consegue lavar Cuida da roupa sem assistência (3)
e passar roupa?
Necessita de assistência (2)
É incapaz de fazer (1)
Medicamentos – O(a) senhor(a) consegue Faz uso de medicamentos sem assistência
tomar seus remédios na dose e no horário (3)
corretos?
Necessita de lembretes ou de assistência (2)
É incapaz de controlar sozinho o uso de
medicamentos (1)
Manuseio do dinheiro – O(a) senhor(a) Preenche cheques e paga contas sem auxílio
consegue cuidar das nanças? (3)
Necessita de assistência para uso de cheques
e pagamento de contas (2)
Não tem o hábito de lidar com o dinheiro ou
é incapaz de manusear dinheiro, contas (1)
Pontuação: 9 = totalmente dependente; 10 a 15 = dependência grave; 16 a 20 = dependência moderada; 21 a 25 = dependência leve; 25 a 27 = independência.
■ Força de preensão palmar (handgrip): este teste é utilizado para
avaliação da força muscular. O idoso fica sentado em uma cadeira, com os ombros posicionados em posição neutra e o cotovelo do membro a ser medido flexionado em 90°, com o antebraço em rotação neutra. Deve então ser instruído a apertar com a maior força possível o dinamômetro em três tentativas, com 1 min de descanso entre elas, considerando-se para acompanhamento a maior medida. Ainda não existe consenso quanto a valores de referência, mas são baseados no índice de massa corporal (IMC), na idade e no sexo. A maioria dos autores considera o ponto de corte para perda de força muscular inferior a 30 kg para homens e inferior a 20 kg para mulheres. A força de
preensão palmar é um parâmetro muito importante para o acompanhamento evolutivo do idoso
■ Velocidade de marcha: é um parâmetro de grande relevância em
geriatria por ser preditor de eventos adversos e estar associado à estimativa de sobrevida em idosos, sendo um teste de fácil aplicação que exige apenas um local adequado para avaliação e cronômetro. Marca-se no solo uma distância de 4 m e solicita-se ao indivíduo que caminhe na sua velocidade habitual o percurso demarcado. O teste é realizado 3 vezes, e o cronômetro é acionado quando o pé do avaliado ultrapassa a linha de início. A partir dos tempos cronometrados, obtém-se a média para avaliação. Considera-se o ponto de corte de 0,8 m/s. Velocidade de marcha inferior a esse valor mostrou associação com menor sobrevida em idosos.
Avaliação do suporte social
Para a plena independência funcional, além das capacidades físicas e cognitivas, são necessárias boas condições sociais, com ambiente favorável, incluindo transporte público, baixa criminalidade, calçadas apropriadas, suporte familiar e condições financeiras que possibilite arcar com as necessidades diárias. Frequentemente é necessário intervir nas condições sociais conversando com a família, que nem sempre percebe determinadas dificuldades sem o auxílio de um profissional de saúde.
O engajamento do idoso em atividades sociais tem sido cada vez mais
valorizado e deve ser estimulado, sendo parte do perfil daqueles que alcançam o envelhecimento ativo.
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