Geriatria: Guia Prático

Ana Beatriz Galhardi Di Tommaso · Capítulo 32 de 32

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Geriatria: Guia Prático

27 Atenção ao Idoso Institucionalizado

Introdução

As instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) são definidas como “instituições governamentais ou não governamentais, de caráter residencial, destinadas a domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, com ou sem suporte familiar, em condição de liberdade, dignidade e cidadania”. No Brasil, a institucionalização ainda é vista como última opção para cuidados e interpretada, tanto pela sociedade como pelos idosos, como abandono pela família. Entretanto, essa alternativa de atenção ao idoso se impõe progressivamente, dados o rápido envelhecimento da população e as mudanças na sociedade desde o último século, e, quando bem indicada, traz inegáveis benefícios para a dinâmica familiar e para o paciente.

As ILPIs, embora ainda sejam muito conhecidas na sociedade como

“asilos” ou “casas de repouso”, têm objetivo institucional bem diferente. Enquanto, no passado, asilos e casas de repouso sempre foram considerados locais de abrigo principalmente para idosos carentes (não apenas financeiramente), atualmente as ILPI, além de manterem uma estrutura física que remeta a um ambiente acolhedor de casa ou moradia, devem planejar a atenção à saúde do idoso de maneira global, integrada a serviços de saúde e equipe multiprofissional, interna ou externa à instituição.

 

O idoso institucionalizado

Todo idoso, à admissão, deve ser avaliado globalmente, de modo multidisciplinar (avaliação geriátrica ampla [AGA]). A avaliação dá embasamento ao Plano Integral de Atenção ao Idoso, documento exigido por regulamentação sanitária, que direciona e planeja a atenção à saúde e as metas de cuidado para todos os residentes.

O Plano de Atenção deve conter direções e contatos da equipe

multiprofissional assistente, além do Plano de Cuidados na Instituição (em que é esquematizado todo o planejamento da rotina de cuidados do residente), visando a promoção, prevenção e manutenção da saúde. Além disso, sempre que possível, deve incluir diretivas avançadas de vontade de todos os pacientes.

 

Preditores de institucionalização

■ Incapacidade funcional (principalmente para algumas das atividades

básicas da vida diária: alimentação, vestimenta, banho)

■ Imobilismo

■ Dificuldade de deambulação ou distúrbio da marcha ■ Incontinência

■ Acidente vascular encefálico

■ Doença de Parkinson

■ Idade avançada

■ Suporte social ineficaz ■ Declínio cognitivo ou demências (principal causa de institucionalização,

segundo literatura norte-americana).

 

Regulamentação brasileira

A regulamentação de instituições de longa permanência para idosos no Brasil surgiu após o Estatuto do Idoso, em 2005, em resolução publicada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), visando estabelecer critérios mínimos para funcionamento e atenção adequados aos idosos institucionalizados.

As premissas básicas para todas as instituições incluem:

 

■ Observar os direitos e garantias dos idosos ■ Preservar a identidade e a privacidade do idoso, assegurando um

ambiente acolhedor, de respeito e dignidade

■ Promover a convivência mista entre os residentes de diversos graus de

dependência

■ Promover integração dos idosos nas atividades desenvolvidas pela

comunidade local e favorecer o desenvolvimento de tarefas em conjunto com pessoas de outras gerações

■ Incentivar e promover a participação da família e da comunidade na

atenção ao idoso residente

■ Desenvolver atividades que estimulem a autonomia dos idosos ■ Promover condições de lazer para os idosos, tais como: atividades

físicas, recreativas e culturais

■ Desenvolver atividades e rotinas para prevenir e coibir qualquer tipo de

violência e discriminação contra pessoas nelas residentes.

Segundo tal resolução, as instituições devem possuir alvará sanitário

(expedido por órgão competente), ser legalmente constituídas, contar com regimento interno e ser coordenadas por um responsável técnico, profissional de nível superior. A mesma resolução determina como recurso humano básico para ILPIs a presença de um cuidador para cada 20 idosos independentes, um cuidador para cada 10 idosos semi-independentes em período integral e um cuidador para cada seis idosos dependentes também em período integral, além de outros profissionais responsáveis por lazer, limpeza etc.

A manutenção e a promoção de saúde para idosos residentes em ILPIs

devem ser priorizadas por meio de um Plano de Atenção Integral à Saúde, traçado em conjunto com o gestor local de saúde, que “deve indicar os recursos de saúde disponíveis para cada residente, em todos os níveis de atenção, sejam eles públicos ou privados, bem como encaminhamentos, caso se façam necessários; prever a atenção integral à saúde do idoso, abordando os aspectos de promoção, proteção e prevenção; e conter informações acerca das patologias incidentes e prevalentes nos residentes”.

Ainda pela resolução mencionada, as instituições devem ser avaliadas e

monitoradas rotineiramente pela vigilância sanitária local, órgão ao qual também devem ser relatados eventos-sentinela, como quedas com lesão e tentativas de suicídio.

É notório que muitos dos aspectos já regulamentados ainda estão longe

de estar plenamente estabelecidos. Existe uma grande heterogeneidade entre as ILPIs, tanto em termos de estrutura como de serviços oferecidos a seus internos. As restrições orçamentárias e os elevados custos de manutenção observados na maioria das instituições levam a um atendimento que se limita ao mínimo de serviços disponíveis para os idosos. Segundo dados divulgados por Camarano e Kanso, em 2010, apenas 66,1% das ILPIs brasileiras prestavam serviço médico, e em apenas 56% havia serviço de fisioterapia. A oferta de atividades recreativas, de lazer e/ou cursos diversos é menos frequente, declarada por menos de 50% das instituições pesquisadas em todo o Brasil. Portanto, um atendimento que englobe serviços que contribuam para melhorar a qualidade de vida dos idosos, com atividades de lazer e serviços especializados, com equipe multiprofissional que inclua profissionais de fisioterapia e terapia ocupacional, acaba sendo oferecido ainda em poucas instituições, em geral para uma clientela com maiores recursos financeiros.

 

Principais demandas geriátricas em instituições

de longa permanência para idosos

 

Síndromes demenciais e sintomas comportamentais

A prevalência de síndromes demenciais em idosos institucionalizados varia na literatura, mas estima-se que ocorram em pelo menos 50% dos casos.

A institucionalização é motivada principalmente por dependência para o

desempenho das atividades da vida diária e por sintomas comportamentais.

Na literatura norte-americana, 75% dos residentes com diagnóstico de

alguma síndrome demencial apresentam sintomas comportamentais relacionados com demência (BPSD – behavioral and psychological symptoms of dementia).

A avaliação dos sintomas comportamentais deve ser detalhada: devem-

se descrever causas, fatores associados, frequência, intensidade e local em que ocorrem. Escalas objetivas, como o inventário neuropsiquátrico (NPI), são importantes para acompanhamento ao longo do tempo.

A avaliação inicial de BPSDs deve excluir condições agudas que podem

simular o quadro, como delirium e efeitos adversos de medicamentos

(Tabelas 27.1 e 27.2).

O manejo não farmacológico é pilar central na abordagem de sintomas

comportamentais em ILPIs e deve ser realizado de maneira multidisciplinar e individualizada, com base na descrição do comportamento, e sempre centrado no paciente (considerando-se suas preferências e personalidade pré-mórbida):

■ Nível de instrução dos cuidadores e familiares ■ Intervenções ou adaptações do ambiente: manter estimulação ambiental

equilibrada, tornar o ambiente mais familiar ao paciente, com uso de mobília ou objetos pessoais

■ Abordagem de necessidades não atendidas (unmeet need approach):

observar o paciente antes, durante e após o comportamento, com o objetivo de compreender o propósito e o significado de sintomas comportamentais e desenvolver uma estratégia delineada especificamente para cada paciente

■ Manutenção da mesma equipe de cuidadores para assistência ao

paciente: os sintomas tendem a diminuir e, quando ocorrem, geralmente são previstos

■ Outras intervenções específicas, como musicoterapia, terapia

ocupacional e fisioterapia.

 

A abordagem farmacológica deve ser coadjuvante no manejo de

BPSDs, ou seja, a introdução de medicamentos deve ser concomitante ou posterior à abordagem não farmacológica. O uso de medicações psicoativas para controle de sintomas comportamentais deve estar sob contínua avaliação quanto à efetividade e ao surgimento de efeitos colaterais, e o desmame ou a suspensão do uso devem ser cogitados após controle e estabilização dos sintomas, como descrito a seguir:

 

Tabela 27.1 Avaliação de sintomas comportamentais em instituições de longa permanência para idosos.

 

Mnemônico 5Ds

 

Descrever Descrição do comportamento: como, onde, com quem geralmente

ocorre?

 

Decodi car Por que ocorre: personalidade, costumes pré-mórbidos, delirium,

interações medicamentosas

 

Desenvolver Considerar aspectos anteriores para o desenvolvimento de

estratégias intervenções individualizadas

 

Desempenhar/fazer Introdução de estratégias na rotina

 

Determinar Reavaliação do sintoma comportamental (por vezes, objetiva) para

respostas determinar a resposta à intervenção realizada

 

Adaptada de AMDA, 2012a.

 

■ Antipsicóticos: estão indicados para sintomas como alucinações,

delírios e ideias paranoides, mas podem ser utilizados em casos de agitação ou agressividade, especialmente se esses sintomas deixarem o paciente ou o cuidador em situação de risco para qualquer tipo de lesão. Os antipsicóticos atípicos (risperidona, olanzapina e quetiapina) são os de primeira escolha, devido à menor possibilidade de efeitos adversos

■ Anticolinesterásicos (galantamina, donepezila e rivastigmina): também

são efetivos para controle de BPSDs, e devem ser preferidos a longo prazo em detrimento de antipsicóticos. A associação de memantina e antagonista do receptor N-metil-D-aspartato (NMDA) também pode propiciar efeito benéfico adicional

■ Antidepressivos: em especial os inibidores seletivos da recaptação de

serotonina (ISRS) podem ter papel na abordagem não apenas de sintomas depressivos relacionados com as síndromes demenciais, como também de agitação e ansiedade. A trazodona pode ter grande valia em transtornos do sono

■ Anticonvulsivantes (ácido valproico e lamotrigina): também podem ser

utilizados, especialmente em casos de labilidade emocional, mas também de agitação e agressividade.

O tratamento das síndromes demenciais em idosos tem poucas

peculiaridades no contexto de institucionalização, além daquelas previamente delineadas. É controverso na literatura até quando (ou mesmo quando) o tratamento com anticolinesterásicos e memantina deve ser instituído, principalmente em pacientes com quadro avançado ou sem perspectiva de retorno à vida em comunidade, já que esses fármacos não impedem o avanço da doença. Não há evidência também se anticolinesterásicos e a memantina reduzem o tempo de hospitalização ou previnem úlceras por pressão, desnutrição ou intercorrências infecciosas.

É bem estabelecido na literatura, entretanto, que a alimentação artificial

não prolonga sobrevida nem promove melhora na qualidade de vida de pacientes com demência avançada. Declínio funcional substancial e intercorrências clínicas recorrentes ou progressivas podem indicar que um paciente não está comendo provavelmente por evolução da doença, e que é improvável obter qualquer benefício significativo ou a longo prazo por meio de nutrição e hidratação artificiais.

 

Tabela 27.2 Exemplos de possíveis “gatilhos” para sintomas comportamentais relacionados com demência (BPSDs) e possíveis abordagens não farmacológicas.

 

Comportamento Causas Manejo não farmacológico

 

Paciente não Necessidade de urinar Uso do vaso sanitário/diurese

dorme, perambula programada

Ambientais (barulho,

à noite

luminosidade, equipe Ajustes no ambiente (luz indireta, entrando silêncio etc.) frequentemente no

Educação para cuidadores

quarto etc.)

Diário de sono: observação de padrão

de sono ao longo do dia para possíveis

Sedentarismo, cochilos intervenções durante o dia

 

Paciente agitado ou Paciente interpreta mal Abordagem centrada nas preferências

combativo ao ou não compreende o do paciente: horários mais exíveis,

banho banho preferências prévias

 

Ambientais (ambiente Treinamento para equipe ou água frios ou

Tranquilidade do staff na hora do

quentes)

banho

Pudor ou recato

Cuidadores do mesmo sexo na hora do

Dor (à mobilização, por banho exemplo)

Medicação para dor, se necessário

 

Paciente agitado ao Dor Avaliação e manejo da dor

longo do dia

Depressão Avaliação de depressão

 

Estimulação excessiva Orientação do staff para observar sinais no ambiente e sintomas inespecí cos de dor em

pessoas com demência

Reação a uma ação

inadequada ou Determinar se os sintomas são inapropriada de um incongruentes ou exagerados em cuidador ou familiar relação ao ambiente

 

Paciente com Pode representar Manter, durante encontros sociais,

insinuações sexuais exacerbação de traço de paciente agressivo longe de residentes

personalidade anterior que ele tenha como alvo

para equipe ou ou perda de inibição Atribuir atendimento do paciente

outros residentes social agressivo a um membro da equipe que

Paciente tem uma não é suscetível de ser alvo de necessidade básica de investidas, se possível

intimidade e amor Educar os funcionários sobre as

questões relacionadas com a

sexualidade em idosos

 

Educar os membros da família sobre as

necessidades sexuais de pacientes

idosos e incentivá-los a mostrar afeição

física (p. ex., acariciando, abraçando)

durante as visitas, quando apropriado

 

Educar os funcionários sobre a gestão

das situações que envolvem a

sexualidade

 

Adaptada de AMDA, 2012a.

 

Quedas

A prevalência de quedas em idosos institucionalizados varia bastante na literatura: 30 a 50% dos idosos residentes em ILPIs caem todos os anos.

A ocorrência de quedas está associada ao aumento da morbidade e da

mortalidade e à dependência funcional. Em idosos institucionalizados, muitos deles frágeis e sob maior risco de lesões graves, o estudo da queda e de abordagens preventivas é essencial.

Há vários fatores, intrínsecos (como alterações próprias do

envelhecimento e relacionadas com doenças subjacentes) e extrínsecos

(fatores ambientais), que contribuem para quedas (Tabela 27.3). O principal fator de risco, contudo, é o antecedente da queda. Outro importante fator de risco é o medo de cair.

O paciente que sofreu uma queda deve ser avaliado por uma abordagem

interdisciplinar: deve-se buscar compreender as circunstâncias (como, onde e com quem caiu), as consequências e o impacto funcional da queda. A observação clínica do idoso que caiu deve ser o mais breve possível (com exame físico completo e exames complementares, se necessários) e pode estender-se até 72 h, para que sejam notadas possíveis lesões tardias.

Um protocolo de quedas constitui ferramenta importante dentro de uma

ILPI. Quedas com consequências graves devem ser obrigatoriamente comunicadas à vigilância sanitária local.

Após uma queda, além de intervenções imediatas específicas, devem ser

traçadas para o paciente (ou mesmo antes, no Plano de Atenção Integral à

Saúde) medidas que minimizem o risco de novas quedas (Tabela 27.4). Tal abordagem, também interdisciplinar, deve ser contínua, com avaliações

periódicas quanto a sua eficácia (Figura 27.1).

O uso de restrição física deve ser reservado para situações

extremamente especiais. A restrição física está associada a declínio físico e funcional, além de depressão e ansiedade.

A relação da família com a ILPI após uma queda pode ficar fragilizada.

Portanto, após cada episódio devem ser esclarecidas aos familiares as medidas preventivas instituídas e a possibilidade de ocorrência de quedas devido aos inúmeros fatores de risco frequentemente observados em idosos institucionalizados.

 

Tabela 27.3 Fatores de risco relacionados com quedas.

 

Fatores intrínsecos Fatores extrínsecos

 

Distúrbios da marcha, do equilíbrio ou da Ambiente com equipamentos e móveis

força (mesmo relacionados com o inadequados, como falta de corrimão

envelhecimento)

Solo com desníveis

Condições clínicas agudas (p. ex., quadros

Iluminação insu ciente

infecciosos)

Roupas de uso difícil

Multimorbidade

Objetos pessoais de alcance difícil

Dé cits sensoriais (visual ou auditivo)

Cama alta

Declínio cognitivo

Uso inapropriado de restrição física ou

Efeitos adversos de medicações ou

química

polifarmácia

Calçado inadequado

Tontura

 

Dor crônica

 

Idade acima de 80 anos

 

Condições crônicas: neuropatia periférica,

arritmia, doença de Parkinson

 

Adaptada de Taylor et al., (2006).

 

Tabela 27.4 Estratégias para prevenção de quedas em instituições de longa permanência para idosos.

 

Inserir sioterapia ou atividade física supervisionada para pacientes com distúrbio da marcha,

do equilíbrio e/ou fraqueza muscular

 

Enfatizar necessidade de mobilidade ou movimentação ao longo do dia

 

Utilizar dispositivos de auxílio à marcha adaptados, quando necessário

Abordagem de dé cits sensoriais:

 

■ Rastreamento para dé cit visual, avaliação oftalmológica e uso de lentes corretivas,

quando necessário

 

■ Uso de próteses auditivas, quando indicado

 

Minimizar uso total de medicações. Atentar para dosagem e ajuste da dose de medicações,

principalmente psicoativas, anti-hipertensivas, diuréticas e antiepilépticas

 

Usar sapatos fechados, com solado de borracha, confortáveis

 

Manter comunicação adequada interdisciplinar para que mudanças notadas no paciente sejam

prontamente avaliadas

 

Usar alarmes ou sensores de movimento como alternativa à restrição física (observar

interferência no padrão de sono)

Figura 27.1 Resumo da abordagem de quedas em idosos institucionalizados. Adaptada de Taylor et al. (2005).

 

 

Incontinência urinária

A incontinência urinária (IU) trata-se de uma importante síndrome geriátrica observada em idosos institucionalizados, com alta prevalência, mas frequentemente negligenciada pela equipe assistente.

Sua abordagem deve ser contínua, também interdisciplinar, objetivando

a determinação das causas e o desenvolvimento de estratégias pertinentes para cada paciente.

A avaliação clínica envolve história, exame físico, exames

complementares (se necessários, como ultrassonografia para quantificação de resíduo vesical) e avaliação geriátrica ampla usual. Deve-se atentar para uma avaliação cognitiva adequada; a maioria das abordagens demanda compreensão ao menos de comandos simples. Constituem abordagens para IU:

 

■ Diurese ou uso programado do banheiro, com idas a cada intervalo de

tempo (2 a 4 h)

■ Reabilitação, principalmente por meio de fisioterapia, envolvendo, por

exemplo, treino da musculatura do assoalho pélvico

■ Assistência quanto ao uso do vaso sanitário ou para higiene pessoal

(incluindo uso de fraldas geriátricas) para pacientes que não obtiveram sucesso com os métodos anteriores ou aqueles que não têm cognição nem possibilidade de aprendizado.

 

Polifarmácia

A polifarmácia, definida como uso de cinco ou mais medicamentos, é frequente em ILPI.

O número de medicamentos é o principal fator de risco para iatrogenia e

reações adversas. Há uma relação exponencial entre a polifarmácia e a probabilidade de reação adversa e interações medicamentosas. Idosos institucionalizados, além de multimorbidade, muitas vezes apresentam fragilidade e incapacidades funcionais que podem aumentar a predisposição para efeitos adversos.

Cada fármaco deve ser reavaliado continuamente quanto a necessidade

de uso, dose e duração da terapia, como também quanto a possíveis efeitos adversos e possível suspensão do uso. Nos EUA, regulamentação federal preconiza uma revisão mensal das prescrições por um farmacêutico, com objetivo de prevenir ou minimizar efeitos colaterais de medicações.

Esquemas terapêuticos e prescrições devem ser simplificados para

evitar erros de administração (p. ex., com uso de medicações de liberação

prolongada) (Tabela 27.5).

 

Nutrição

Todo paciente institucionalizado deve ser avaliado e acompanhado quanto a parâmetros nutricionais, com o objetivo de se reconhecer precocemente e controlar alterações no status nutricional, frequentes em residentes de ILPI.

Perda ponderal deve sempre ser pesquisada e investigada (recomenda-se

acompanhamento com aferição periódica do peso dos pacientes). Duas medidas são essenciais em ILPI: avaliação fonoaudiológica para disfagia e rastreamento e, se necessário, tratamento de depressão.

A abordagem de perda ponderal, também multidisciplinar, inclui

intervenções nutricionais (como aumentar a densidade calórica dos alimentos e prover suplementação), revisão de medicamentos que alterem o paladar, terapia fonoaudiológica, tratamento de depressão e outras causas clínicas subjacentes.

 

Tabela 27.5 Estratégias para evitar problemas potenciais relacionados com medicações.

 

Problema potencial Recomendações

 

Atraso na administração da Medicação básica em caixa de fácil acesso

medicação

 

Prescrição inadequada de Avaliação rotineira de humor, estado mental e

medicamentos psicoativos sintomas comportamentais

Uso de instrumentos de avaliação, quando necessário

(como Escala de Depressão Geriátrica)

 

Atraso na noti cação de mudanças Limitar a prescrição conforme a necessidade (“SN”) (p.

de condições ex., de laxativos e antipiréticos)

 

Aferição rotineira, no mínimo semanal, de sinais vitais:

pressão arterial (nos residentes em uso de anti-

hipertensivos), pulso (nos residentes em uso de

betabloqueadores, digoxina) e peso (megestrol)

 

Prescrições complexas Uso de medicações de uso estendido ou de liberação

prolongada

 

Tentar minimizar administração de medicações para 1

ou 2 vezes ao dia

 

Medicações geralmente prescritas Inibidores de bomba de prótons, vitamina C, zinco,

em excesso sulfato ferroso em mais de uma dose

 

Adaptada de Halter et al. (2009).

 

Infecções

O diagnóstico de quadros infecciosos em ILPI é um verdadeiro desafio. Idosos institucionalizados apresentam quadros clínicos atípicos, e exames complementares geralmente são de difícil acesso.

No contexto de ILPI, não é incomum o surgimento de infecções por

microrganismos multirresistentes, em parte devido ao uso frequente (e também de modo indiscriminado) de antibioticoterapia e de intercorrências relacionadas com antibióticos (p. ex., colite pseudomembranosa).

As infecções mais comuns entre idosos institucionalizados são

infecções do trato urinário (mais prevalentes), infecções respiratórias, infecções de pele e de tecidos moles, e gastrenterites.

Sintomas clássicos localizatórios geralmente não estão presentes. As

alterações clínicas mais comumente notadas são alteração do estado mental, declínio funcional, redução da aceitação alimentar, queda e incontinência.

O uso de antimicrobianos de forma empírica deve sempre ser racional,

baseado no julgamento clínico. A literatura internacional favorece o uso de

antimicrobianos em situações claras, como as descritas na Tabela 27.6.

 

Tabela 27.6 Infecções em idosos residentes em instituições de longa permanência para idosos.

 

Infecção Sinais e sintomas Exames Critério para

complementares utilização de

antibióticos

 

Trato urinário Febre, disúria, Urina I, urocultura (se Disúria (aguda)

 

(ITU) urgência, piúria) Febre com outro

incontinência ou

Hemograma sintoma sugestivo

piora de

de ITU

incontinência,

obstrução ou Em pacientes com

mudança na urina cateter vesical de

em pacientes com longa permanência:

cateter vesical de febre e delirium ou

longa permanência calafrios

 

Pneumonia Frequência Oximetria de pulso Febre alta (38,9°C)

respiratória > 25 com aumento de

ipm, oximetria de expectoração ou Radiogra a de tórax

pulso com saturação frequência

Hemograma

< 90%, tosse, febre, respiratória > 25

expectoração ipm purulenta, ausculta

Febre e tosse com

pulmonar sugestiva

taquicardia (> 100

bpm) ou delirium ou calafrios ou

frequência

respiratória > 25

ipm

 

Pele Eritema, calor, dor, Hemograma Drenagem

edema, piora no purulenta em

Biopsia (úlceras que

aspecto de feridas qualquer local

não cicatrizam,

lesões com suspeita Pelo menos 2 dos

de patógenos não seguintes sinais:

usuais etc.) febre, eritema,

calor, dor, edema

 

Trato Diarreia, febre, dor Coprocultura e Diarreia com febre e

gastrintestinal abdominal protoparasitológico delirium ou calafrios

de fezes, geralmente

para pacientes com

sintomas há mais de

7 dias

Se uso de

antibióticos nos

últimos 30 dias e

quadro clínico

sugestivo: toxina do

C. difficile

 

Os critérios adotados servem apenas como guia para uso adequado de antibioticoterapia, muitas vezes empírica, em ILPI. O julgamento clínico sempre deve ser priorizado. ipm: incursões respiratórias por minuto; bpm: batimentos por minuto. Adaptada de Halter et al. (2009); Loeb et al. (2001); High et al. (2009).

 

Transição de cuidados

Pode ser definida como a transição, realizada pelo paciente, devido a alterações ou novas necessidades clínicas, do local de atendimento, da equipe assistente ou do nível de atenção à saúde.

As ILPIs vêm se tornando também alternativa para cuidados de

transição de idosos recém-saídos do hospital e que ainda necessitam de atenção de enfermagem ou que apresentam dependência funcional; essas instituições cumprem, em muitos casos, o papel de reabilitação do idoso para a vida em comunidade.

Idosos institucionalizados também podem necessitar de hospitalização

devido a inúmeras intercorrências possíveis, como quedas ou infecções.

A transferência de idosos para outras unidades de atenção à saúde deve

estar sempre consoante com suas metas de cuidado, definidas no Plano Integral de Atenção à Saúde.

Transições de cuidado, em ambos os sentidos (da ILPI para o hospital e

do hospital para a ILPI), realizadas de modo inadequado favorecem reinternação, aumento dos custos, delirium e iatrogenias, com prejuízos para a evolução do paciente.

A principal maneira de evitar eventos adversos após a transição é

manter uma comunicação eficiente entre a instituição de serviços e a equipe assistente. Para evitar possíveis dificuldades de contato, deve-se priorizar a manutenção de um registro centrado no paciente e seus familiares, contendo histórico e/ou antecedentes, condições clínicas atuais e diretivas e/ou metas de cuidado.

É importante envolver o paciente, quando possível, e a família acerca de

acontecimentos e processos decisórios, mantendo-os informados.

O paciente, a família e as equipes assistentes devem estar conscientes de

possíveis intercorrências e concordantes sobre como proceder caso aconteçam (lista com “sinais de alerta” [red flags], condições a serem evitadas ou que não podem acontecer e procedimentos a serem adotados caso tais situações ocorram).

 

Cuidados paliativos

A perspectiva dos cuidados paliativos, que consiste em uma abordagem multidisciplinar que visa melhorar a qualidade de vida do paciente e de seus familiares, que enfrentam uma doença que põe em risco a vida, por meio de prevenção e alívio do sofrimento físico, emocional ou espiritual, é extremamente importante em uma ILPI.

Conforme dados da literatura norte-americana, 30% dos idosos

institucionalizados falecem no primeiro ano de institucionalização. Tal fato traduz o perfil dos idosos residentes em ILPI: geralmente com doenças graves, muitas ocorrendo em associação, e com declínio funcional evidente.

Desse modo, devem ser trabalhadas, através de uma comunicação

eficiente, clara e contínua, diretivas avançadas e metas de cuidado (incluindo-as no Plano Integral de Atenção ao Idoso) de cada paciente, com o paciente – se possível – ou com os familiares.

Conclusão

Ainda há muito a ser trabalhado para que as ILPIs funcionem de maneira adequada em todo o Brasil, mas o conhecimento adequado e condizente com as necessidades apresentadas pelos idosos institucionalizados é o primeiro passo para que essa alternativa de atenção se imponha em um cenário preocupante de rápido envelhecimento populacional e marcadas transformações sociais, que chamam atenção para um futuro ainda incerto para os idosos brasileiros.

 

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