Geriatria: Guia Prático
25 Saúde Oral
Introdução
Nas últimas décadas, o envelhecimento populacional no Brasil vem ocorrendo de forma crescente e constitui um dos fenômenos demográficos mais importantes da atualidade. No entanto, o quadro epidemiológico e a ausência de programas voltados para a população idosa brasileira caracterizam a condição de saúde bucal insatisfatória encontrada nesse grupo.
Entre os vários campos de saúde, as evidências científicas mostram que
a saúde bucal do idoso brasileiro apresenta-se em condições precárias, com alta prevalência de edentulismo (perda de todos os dentes), doenças periodontais, cáries e necessidade de uso de próteses.
A saúde oral tem grande importância para o bem-estar geral do paciente
idoso, visto que o indivíduo que apresenta perda de dentes, gengivite, periodontite, cáries, lesões na mucosa oral, próteses mal adaptadas, xerostomia e problemas de mastigação dificilmente consegue se alimentar corretamente, passando, assim, a modificar sua alimentação e causando uma redução na ingestão de nutrientes essenciais, o que facilita ou potencializa o desenvolvimento de doenças sistêmicas.
No ano 2003 (Projeto SB Brasil 2003), foi realizado um levantamento
das condições de saúde bucal da população brasileira, e o estudo foi refeito em 2010 (Projeto SB Brasil 2010), o que possibilitou uma comparação com o ano de 2003. O estudo indica que melhorou o acesso da população adulta aos serviços; na população com idade entre 35 e 44 anos, o índice de dentes cariados perdidos e obturados (CPO) caiu 19%, passando de 20,1 para 16,3 em 7 anos.
Ao compararmos os números de 2003 e 2010, vemos redução de 30%
no número de dentes cariados, queda de 45% no número de dentes perdidos por cárie, além de aumento de 70% no número de dentes tratados. Isso significa que a população adulta está tendo maior acesso ao tratamento da cárie e menos dentes estão sendo extraídos em consequência da doença. Por outro lado, o fornecimento de próteses à população idosa ainda se encontra abaixo do esperado. Entre os idosos de 65 a 74 anos, por exemplo, o CPO praticamente não se alterou, ficando em 27,5 em 2010, enquanto em 2003 a média era de 27,8, com a maioria correspondendo ao componente “extraído”, confirmando o alto índice de perda dentária nessa população.
Sabe-se que o número de dentes tem relação direta com a qualidade de
vida; é crescente a quantidade de estudos sobre a autopercepção de saúde bucal, principalmente relacionada com a perda de dentes e os aspectos psicológicos, sociais e funcionais a ela relacionados.
Apesar de as condições de saúde bucal na população idosa ainda se
apresentarem insatisfatórias, a autopercepção em geral se mostra altamente positiva, o que denota falta de informação e baixa expectativa, somadas ao fato de esses idosos serem de uma época em que não se valorizava o cuidado com a saúde bucal.
A avaliação do acesso da população aos serviços odontológicos indicou
que mais de 13% dessa faixa populacional nunca foi ao dentista. Entre a população adulta, quase 3% nunca foram ao dentista; e na população idosa, o percentual chega a quase 6%.
Fisiologia do envelhecimento bucal
De acordo com a fisiologia do envelhecimento, o indivíduo da terceira idade apresenta algumas alterações bucais, tais como as apresentadas a seguir:
■ Abrasão ou atrição: desgaste da estrutura dental pela mastigação e/ou
por bruxismo
■ Estrutura dental: o dente fica mais escurecido. A dentina torna-se mais
mineralizada e, em consequência, mais friável. A polpa sofre diminuição, reduzindo a sensibilidade à dor
■ Osso alveolar: o osso sofre reabsorção, agravada pela presença de
doença periodontal e perdas dentárias, levando a alteração da articulação temporomandibular (ATM) e condições desfavoráveis de estabilidade e retenção de próteses dentárias
■ Músculos: ocorre atrofia da musculatura fonoarticulatória, diminuindo a
capacidade mastigatória. Esta, somada à má reabilitação protética, pode levar a um déficit nutricional
■ Mucosa bucal: o epitélio torna-se mais fino e friável; além disso, a
diminuição do fluxo salivar provoca perda da lubrificação, aumentando a vulnerabilidade a traumatismos causados por próteses ou alimentos mais duros
■ Papilas gustativas: ocorre redução da sensação do paladar, podendo
causar desinteresse pela alimentação e/ou uso excessivo de sal. Principais agravos à saúde bucal do idoso
As condições bucais relevantes mais comuns nos idosos são: cárie de raiz, xerostomia, lesões de tecidos moles, doença periodontal, edentulismo, abrasão ou erosão dentárias, halitose, dificuldade de higienização, dificuldade de mastigação e deglutição, necessidade de prótese ou uso de prótese mal adaptada.
Xerostomia
A função adequada das glândulas salivares é essencial para todos os aspectos das funções bucais. A saliva funciona como auxiliar na proteção dos tecidos bucais, lubrificando a mucosa, prevenindo desmineralização e promovendo a remineralização dos dentes.
Alterações nas glândulas salivares podem provocar xerostomia (secura
na boca) e diminuição na produção da amilase salivar, o que dificulta a deglutição e posterior digestão dos alimentos. Com o envelhecimento, as glândulas salivares sofrem um processo de degeneração avançada, que provoca diminuição da quantidade e da viscosidade da saliva secretada, especialmente em repouso.
Entre os fatores que contribuem para a xerostomia, podem ser citados
medicações para hipertensão, depressão, ansiolíticos, anticolinérgicos e anti-histamínicos, além de procedimentos específicos, como a terapia radioativa para o tratamento do câncer, que deixa os idosos mais vulneráveis a esse tipo de problema.
A xerostomia também está associada à dificuldade de mastigação,
deglutição, gustação e fala, o que resulta em dieta pobre e má nutrição, diminuindo a interação social.
Tratamento Não sendo possível a substituição da medicação, em geral o tratamento da secura na boca é paliativo.
Algumas recomendações para aumentar a produção de saliva são:
estímulo à mastigação (uso de goma de mascar ou balas sem açúcar pode ser eficiente), aumento do consumo de água, uso de substitutos de saliva (saliva artificial) e lubrificantes de lábios, e aconselhamento profissional sobre a dieta.
Cárie
A lesão cariosa é considerada uma manifestação clínica de infecção por bactéria. A atividade metabólica das bactérias resulta em um contínuo processo de desmineralização e remineralização do tecido dentário, e um desequilíbrio nesse processo pode causar um avanço da desmineralização do dente, com consequente formação de lesão de cárie. Esse processo é influenciado por muitos fatores determinantes, o que faz da cárie dentária uma doença multifatorial. Hoje se considera que os estádios anteriores da doença antes da cavidade podem ser paralisados por ações de promoção à saúde e à prevenção. Os mecanismos de formação da cárie são:
■ Fermentação de carboidratos
■ Produção de ãcidos orgânicos (lãctico, fórmico, acético e propiônico)
pelas bactérias
■ Dissolução das camadas do dente (esmalte, dentina e cemento) ■ Cavitação dentária (processo de dissolução contínua).
Em idosos, a maior preocupação clínica refere-se às cáries que se
formam na raiz dos dentes, pois eles representam a parcela da população que mais frequentemente apresenta recessão gengival. A prevalência de cárie radicular é considerada alta entre idosos; varia de 20 a 45%, dependendo do país estudado.
As cáries radiculares são lesões que se iniciam na superfície das raízes
dos dentes quando estas estão expostas ao ambiente bucal. Tal exposição é denominada recessão gengival e pode resultar, principalmente, de doença periodontal e escovação dentária traumática, ou ainda de efeito adverso de um tratamento contra periodontite.
O resultado desse tipo de cárie, que avança sem intervenção
profissional, é a extração do dente, que, além de resultar em impacto importante na saúde bucal, pode interferir de modo importante na saúde sistêmica e na qualidade de vida de indivíduos idosos.
Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de cárie de raiz
em idosos são:
■ Higiene bucal precária
■ Hipossalivação
■ Uso de medicamentos que tenham como efeito adverso redução dofluxo
salivar
■ Variáveis sociodemográficas, como nível de renda, grau de escolaridade
e etnia
■ Doenças crônicas e neurodegenerativas que interferem na capacidade do
indivíduo de realizar seus cuidados de higiene bucal
■ Depressão
■ Idade superior a 60 anos.
Tratamento
O tratamento da cárie ativa tem como objetivo restabelecer o equilíbrio entre os processos de desmineralização e remineralização das estruturas dentárias, paralisar ou reduzir o avanço das lesões, e promover a restauração ou reabilitação, quando necessário.
Doença periodontal A doença periodontal deve ser vista como um processo de desequilíbrio entre as ações de agressão e defesa sobre os tecidos de sustentação e proteção do dente, que tem como principal determinante a placa bacteriana, a partir das diferentes respostas dadas pelo hospedeiro. A periodontite é uma doença infecciosa crônica dos tecidos de suporte dos dentes, com característica inflamatória, em que microrganismos anaeróbios e aeróbios facultativos específicos desempenham papel fundamental no estabelecimento e no avanço da doença.
A maior prevalência e a maior gravidade da periodontite entre idosos
relatada na literatura, bem como a maior suscetibilidade dessa população à periodontite, podem decorrer dos níveis elevados de glicocorticoides observados com o envelhecimento.
As doenças do periodonto (gengivite e periodontite) são causadas
inicialmente pelo acúmulo de placa dental e cálculo ao redor dos dentes e, ao progredir, causam sangramento ou supuração, perda de inserção periodontal, mobilidade dentária e halitose. Também se associam a algumas doenças sistêmicas como diabetes melito, problemas cardiovasculares, distúrbios respiratórios e fragilidade. O diabetes tipo 2 não controlado, por exemplo, é amplamente reconhecido como fator de risco de periodontite grave. Os principais fatores de risco para o desenvolvimento da doença periodontal são:
■ Fatores culturais e socioeconômicos ■ Diabetes melito
■ Tabagismo
■ Ausência de controle da formação de placa ■ Imunodepressão e estresse.
Tratamento
No tratamento da doença periodontal, é importante uma abordagem integral, envolvendo as ações de promoção à saúde e prevenção (para controle da atividade da doença e dos seus fatores de risco).
Edentulismo
O edentulismo resulta de determinantes diversos e complexos, tais como: condições de vida precárias, baixa oferta e cobertura dos serviços, o modelo assistencial predominante de prática mutiladora, aliados a características culturais que exercem significativa influência sobre o modo como a perda dentária é assimilada. O índice mais utilizado para se estimar o edentulismo é a avaliação do uso e da necessidade de próteses.
A perda dentária é um reconhecido problema de saúde pública.
Considerada um importante indicador da condição de saúde bucal de uma população, tem forte efeito sobre a qualidade de vida das pessoas. Os principais impactos da perda dentária são:
■ Redução da capacidade funcional de mastigação ■ Redução da capacidade funcional de fonação ■ Prejuízos de ordem nutricional ■ Diminuição da autoestima
■ Redução da integração social
■ Aumento na demanda por reabilitações protéticas.
Uma importante condição que se pode considerar ao estudar a perda
dentária entre os idosos é o edentulismo funcional, caracterizado por ausência de um mínimo de 20 dentes permanentes em condições funcionais (em oclusão), condição que proporciona ao idoso maior longevidade pelo fato de poder utilizar uma dieta rica em nutrientes e fibras.
A abordagem para controle do edentulismo, visando diminuir o grande
contingente de dentes perdidos por sequelas de cárie e doença periodontal na população brasileira, deve incluir:
■ Incorporação e universalização de tecnologias preventivas individuais e
coletivas para as doenças bucais mais comuns
■ Universalização e acesso precoce da população da área de abrangência
aos procedimentos de controle coletivo da cárie e doença periodontal (p. ex., tratamento restaurador atraumático, tratamento clínico-restaurador básico e controle da doença periodontal)
■ Oferta de procedimentos reabilitadores de baixa complexidade, como os
tratamentos endodônticos conservadores em dentes permanentes, com grande impacto no sentido de preservar e manter o maior número possível de elementos dentais
■ Oferta de próteses dentárias com o objetivo de construir uma política de
inclusão social de adultos e idosos edêntulos, minimizando as sequelas da prática odontológica mutiladora, de acordo com as diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal.
Reabilitação oral
O objetivo da odontologia moderna é restituir ao paciente contorno, função, conforto, estética, fonética e saúde normais, independentemente da atrofia, doença ou lesão do sistema estomatognático.
Entretanto, o que os pacientes consideram importante para a função e
satisfação com relação às suas próteses pode ser bem diferente daquilo em que os dentistas acreditam.
Atualmente, as abordagens devem ser centradas nas expectativas dos
pacientes, visando ao sucesso da reabilitação protética.
As próteses totais tecnicamente corretas podem melhorar o desempenho
mastigatório, mas não suprem a necessidade de orientação e monitoramento nutricional que os usuários devem receber após a instalação das próteses.
Classificação das próteses As próteses podem ser classificadas de acordo com a característica de sua fixação, conforme a distribuição do esforço mastigatório ao osso alveolar, e quanto ao número de dentes que serão substituídos. Segundo sua fixação, as
próteses podem ser (Figura 25.1):
■ Fixas: aparelho dentossustentado e fixo. A prótese é cimentada nos
dentes
■ Parciais removíveis: aparelho dentomucossustentado. Estrutura metálica
fundida para suporte de dentes artificiais previamente preparados
■ Totais: aparelho mucossustentado. Restaura as arcadas desprovidas de
dentes. Recupera 20% da função mastigatória
■ O-ring: implantes instalados na região do mento para retenção de
prótese total convencional através de sistema macho/fêmea
■ Próteses implantossustentadas: elementos protéticos são instalados
sobre os implantes. Restituem 90% da função mastigatória.
Câncer de boca
A expressão “câncer de boca” abrange os cânceres de lábio e da cavidade oral (mucosa bucal, gengivas, palato duro, língua e assoalho da boca), e nomeia uma das principais causas de óbito por neoplasias.
Figura 25.1 Tipos de prótese dentária.
O câncer de boca representa uma causa importante de morbidade e
mortalidade, uma vez que em mais de 50% dos casos o diagnóstico é feito quando a doença já está em estádio avançado, situação em que o tratamento deixa de ser curativo e, na maioria dos casos, é mutilante, influindo no tempo e na qualidade da sobrevida. Tende a acometer de forma mais intensa indivíduos do sexo masculino, e em 70% dos casos o diagnóstico é estabelecido em pacientes com idade superior a 50 anos. Localiza-se, preferencialmente, no assoalho da boca e na língua, e o tipo histológico mais frequente (90 a 95%) é o carcinoma de células escamosas (carcinoma epidermoide). Os principais fatores de risco relacionados com o câncer de boca são:
■ Fatores culturais e socioeconômicos ■ Tabagismo (uso de cachimbo, hábito de mascar fumo etc.) ■ Etilismo
Uso crônico de álcool e tabaco associados, que potencializa
■
drasticamente o risco
■ Exposição à radiação solar
■ Higiene bucal precária
■ Uso de próteses dentárias mal ajustadas ■ Deficiência imunológica (adquirida ou congênita).
O câncer de boca é, muitas vezes, precedido de lesões que podem ser
detectadas precocemente ao exame clínico. Esses ferimentos têm sido
denominados lesões cancerizáveis (Figura 25.2).
Figura 25.2 Lesões cancerizáveis.
Um dos passos mais importantes para o diagnóstico de câncer de boca é
uma boa anamnese, seguida de um correto e completo exame da cavidade bucal. O exame dos tecidos moles (mucosa bucal) deve ser feito internamente e ao redor da boca. São avaliados os lábios e a mucosa da porção anterior da boca, a porção anterior das comissuras labiais e a mucosa da porção posterior da boca, a língua, o assoalho da boca, o palato (duro e mole), os rebordos alveolares e a gengiva.
O indivíduo que apresente qualquer lesão dos tecidos moles da boca que não regrida
espontaneamente nem após remoção de possíveis fatores causais (como dentes fraturados,
bordas cortantes em próteses etc.) em no máximo 3 semanas deve ser encaminhado para
diagnóstico.
Os tumores de cabeça e pescoço são tratados por cirurgia, radioterapia e
quimioterapia, isoladamente ou de forma combinada, almejando a cura ou o tratamento paliativo da doença. No âmbito da saúde bucal, as consequências da doença e de seu tratamento podem ser càries de radiação, perda de elementos dentários e outras alterações, as quais podem resultar em impacto na percepção da qualidade de vida dos pacientes submetidos a tratamentos oncológicos.
Condições sistêmicas no idoso
Pacientes com doença de Parkinson podem, conforme o estádio de avanço da doença, apresentar problemas bucais importantes, os quais podem estar relacionados com os tremores associados à doença e com bradicinesia, acinesia e instabilidade postural, que, associadas à hipossalivação decorrente do uso de medicamentos antiparkinsonianos, podem provocar agravos à saúde bucal.
Dificuldade mastigatória talvez seja uma das queixas desses pacientes e
pode estar relacionada com a própria discinesia ou com a xerostomia; com frequéncia, está associada a mordedura dos tecidos da bochecha, do lãbio e da língua.
É essencial a manutenção de cuidados diãrios de higiene bucal no
intuito de inibir a instalação e/ou progressão de doenças da boca, as quais podem dificultar sobremaneira a mastigação e/ou a deglutição e aumentar os riscos de pneumonia por aspiração, diminuindo a qualidade de vida dos pacientes.
Quanto à saúde bucal dos pacientes com doença de Alzheimer, dados da
literatura descrevem higiene bucal precária e aumento da prevaléncia de doenças periodontais e de cãrie. É provável que isso esteja relacionado principalmente com inaptidão do portador em executar os procedimentos de higiene bucal de maneira eficiente.
Alguns estudos também destacam a importãncia da função salivar,
indicando que, pelo fato de correrem maior risco de disfunção salivar (consumo de medicamentos que tém como efeito secundãrio redução do fluxo de saliva), os portadores dessa enfermidade estariam, por consequéncia, em maior risco de desenvolver doenças bucais. Por esse motivo, é importante que o portador receba assisténcia de um familiar ou cuidador no cuidado ou na higiene bucal durante o avanço da doença.
O tratamento odontológico deve focar na remoção de dentes não
restaurãveis e na manutenção dos dentes e próteses existentes, com medidas de higiene oral frequentes.
A equipe de saúde deve ficar atenta à ocorrência de sinais e sintomas
que chamem a atenção e que possam indicar necessidade de avaliação pela equipe de saúde bucal, tais como:
■ Dificuldade ao se alimentar, tanto durante a mastigação como ao engolir
os alimentos
■ Queixa de dor ou desconforto ■ Costume ou mudança de hábitos alimentares, com preferência por
alimentos pastosos, líquidos ou tenros e rejeição daqueles que exigem mastigação
■ Queixas no momento da higiene oral ou da manipulação da sua boca ■ Resistência ou recusa à realização da sua higiene bucal ■ Mau hálito
■ Secura ou ardência na boca
■ Feridas na boca
■ Sangramento gengival.
Orientações para a higiene bucal
Idosos independentes
A higiene bucal pode ser dividida em quatro passos (Figura 25.3):
■ 1o passo: escovar as superfícies internas e externas dos dentes
pressionando suavemente a escova, da gengiva até a ponta dos dentes. Fazer isso em todos os dentes superiores e inferiores e também na parte de trás dos últimos dentes
■ 2o passo: escovar a superfície oclusa do dente. O movimento é suave, de
vaivém, e deve alcançar todos os dentes
■ 3o passo: enrolar cerca de 40 cm de fio ou fita dental entre os dedos.
Levar o fio até o espaço existente entre a gengiva e o dente e deslizá-lo delicadamente
■ 4o passo: escovar a língua, para retirada de restos de alimentos e
bactérias que provocam mau hálito. Fazer movimentos cuidadosos com a escova, “varrendo” a língua da parte interna até a ponta.
Figura 25.3 Orientações sobre higiene bucal – quatro passos.
Idosos dependentes
A manutenção da saúde bucal é de grande importância para dar suporte a uma boa nutrição, comunicação e às relações sociais durante o envelhecimento, especialmente entre idosos frágeis, com incapacidades cognitivas, físicas e/ou que vivam em instituições de longa permanência. O trabalho em equipe é considerado fundamental para provisão de cuidados e promoção de saúde bucal para idosos dependentes.
A higiene bucal de adultos e idosos com algum grau de dependência,
com ou sem dente, deve ser feita após cada refeição e após o uso de remédios pela via oral. Se a pessoa cuidada consegue fazer a higiene bucal, o cuidador deve estimulá-la e providenciar o material necessário,
orientando, dando apoio e acompanhando a atividade (Tabelas 25.1 e 25.2).
Tabela 25.1 Orientações sobre higiene bucal realizada por cuidadores em pacientes dentados.
Escolher um horário em que o idoso esteja mais calmo
Colocar a pessoa sentada em frente à pia ou na cama, com uma bacia
Usar escova de cerdas macias e, sempre que possível, usar também o dental
Colocar pequena porção de pasta de dente para evitar que a pessoa engasgue
Escovar os dentes
Tabela 25.2 Orientações de higiene bucal realizada por cuidadores em pacientes parcialmente dentados e/ou desdentados.
Retirar a prótese e escová-la fora da boca, com escova de cerdas mais duras e sabão neutro ou
pasta dental, limpando as superfícies interna e externa
Para limpeza de gengivas, bochechas, dentes, palato e língua, pode ser utilizada escova de
cerdas mais macias ou gaze umedecida em enxaguatório à base de clorexidina a 0,12%. O
movimento de limpeza da língua é realizado de dentro para fora, de maneira delicada para
evitar traumatismo; podem ser utilizados raspadores de língua
Enxaguar bem a boca e recolocar a prótese
Quando for necessário remover a prótese, colocá-la em uma vasilha sem água e em lugar
seguro, para evitar queda
Aspirar durante qualquer procedimento, se as vias respiratórias estiverem em risco
Idosos que utilizam próteses dentárias
As orientações para higiene bucal de idosos que utilizam prótese dentária são:
■ Se o idoso tem alguns dentes e usa prótese (ponte móvel): limpar a
prótese fora da boca com sabão ou pasta de dentes e escova separada para essa função. Antes de recolocar a prótese na boca, escovar os dentes e limpar a gengiva, o céu da boca e a língua
■ Se o idoso não tem dentes e usa dentadura: retirar a prótese de dentro da
boca e limpá-la com escova e pasta de dentes. Antes de recolocá-la na boca, limpar a gengiva, o céu da boca e a língua. É recomendável dormir sem a prótese total
■ Devido ao desgaste natural, durante certo tempo, a ponte móvel ou
dentadura precisará ser reajustada, refeita ou recolocada. A prótese não estará mais em perfeitas condições quando começar a ficar solta, dificultando a mastigação e irritando a gengiva
■ Deve-se realizar avaliação profissional periódica da prótese para evitar
o aparecimento de lesão causada pelo uso de prótese mal adaptada.
Considerações finais
Os estudos recomendam que os prestadores de assistência médica expandam sua prática para identificar e abordar determinadas necessidades odontológicas de seus pacientes e, reciprocamente, que os prestadores de assistência odontológica abordem algumas necessidades médicas de seus pacientes. Para os idosos, essa integração dos serviços médicos e odontológicos é especialmente importante e exigirá a colaboração de dentistas e geriatras, clínicos gerais e especialistas em saúde pública e preventiva.
Deve ser realizado um exame criterioso para detecção das condições
bucais e seus fatores determinantes (Tabela 25.3).
Tabela 25.3 Orientações gerais.
Exame físico Retirar as próteses
Avaliação visual do número e da condição dos dentes ou próteses presentes
Avaliação visual e tátil da condição da língua e das mucosas
Higiene Escovação com dentifrício uoretado
bucal
Uso de o dental
Higiene da língua
Higiene das mucosas
Avaliar a coordenação motora para realização do controle de placa e desenvolver, junto ao usuário, uma técnica adequada, até mesmo individualizada
Quando necessário, solicitar ajuda de um familiar ou cuidador no processo de higienização
Promoção de O edentulismo pode contribuir para uma dieta inadequada (alimentos
uma pastosos ou líquidos geralmente ricos em carboidratos e pobres em bras e
vitaminas)
alimentação
Alimentação rica em sacarose é fator de risco para o desenvolvimento de
saudável
cárie e outras doenças
Redução de carboidratos re nados na dieta
Inclusão de frutas frescas
Ingestão de líquido
Redução de condimentos
Xerostomia A falta de saliva é uma queixa comum entre os idosos, que sofre in uência
dos efeitos de medicamentos
Avaliar a possibilidade de substituição ou diminuição da medicação
Prótese Avaliar estabilidade, retenção, e ciência, limpeza e estética das próteses
dentária
Orientar sobre a higiene da prótese e a importância do autoexame periódico
Ao perceber alteração na coloração e/ou na textura da mucosa, deve-se buscar atenção pro ssional
Orientar os usuários sobre a importância de se realizar avaliação pro ssional periódica da prótese (funcionalidade, estética e conforto) e das alterações teciduais associadas
Conclusões
O idoso requer uma avaliação global que envolve a atenção de diversas especialidades. A compreensão da situação clínica sistêmica, emocional, cognitiva, social e econômica do idoso é importante para a formulação de um plano preventivo ou terapêutico adequado à sua realidade. A intensidade das doenças bucais, o estado de conservação dos dentes e a prevalência de edentulismo são reflexo, principalmente, da sua condição de vida.
A promoção de saúde bucal em idosos busca garantir o bem-estar e a
melhora da qualidade de vida e da autoestima, melhorando a mastigação, a estética e a possibilidade de comunicação. O envolvimento dos familiares ou dos cuidadores e a interação multidisciplinar com a equipe de saúde fazem parte do processo de atenção na saúde bucal do idoso.
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