Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 9 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Meu primeiro Pelé

Meu

primeiro

Pelé

 

P agão foi o motivo que me inoculou a paixão pelo Santos. Mas Pelé, posso dizer sem erro, é a cereja do bolo. Para quem nasceu na década de 50 como eu, suas peripécias nas Copas de 1958 adquiriram status de mito. Mas, por outro lado, Pelé também era o ídolo da esquina, que se apresentava nos palcos humildes do interior de São Paulo, correndo atrás da redonda, judiado pelos campos carecas e pelos beques botinudos. A verdade é que Pelé estava à mão, e foi numa dessas ocasiões que o vi, ao vivo, pela primeira vez.

Eu tinha catorze anos. Enfrentavam-se pelo segundo turno do Campeonato

Paulista de 1965 Santos e Comercial, o Leão do Norte (ou Bafo, para os íntimos...), no “lendário” estádio Palma Travassos, em Ribeirão Preto (o jogo terminou 2 a 0 para o Peixe, gols de Pelé e Dorval). Assistir ao jogo significava uma pequena peripécia, consideradas as condições da época. Combinou a aventura uma turma grande, que acertou o aluguel de uma Kombi. Cada qual pagaria uma cota.

Claro que minha tia foi contra: onde já se viu um menino mal saído dos

cueiros se meter numa viagem perigosa daquelas? Mas a paixão falou mais alto, e insisti com a Madrinha: deixa, deixa, deixa. Meus parceiros santistas também arengaram até que ela cedesse, não sem antes ver-se obrigada a negociar um empréstimo para bancar minha jornada, que deve ter custado, em valores de hoje, uns 50 reais. Era um dinheiro minguado, suficiente para que o “menino” pudesse cumprir com sua parte no aluguel da Kombi, a gasolina, a entrada no estádio e também um almoço ou um café ralo com pãozinho, quem sabe barrado na manteiga. Espremidos na Kombi alugada estavam, entre as dez ou doze pessoas, Amintas, goleiro falecido recentemente; Moisés, que alugou o veículo, Mauro Chame, já falecido, que veio a ser o irmão da minha sogra, o Biga, que também mora no céu, Greninho, de Monte Belo, Glênio Lambari, João Ferpudo, Marcio Pavão e Zé Tarzan.

Durante a partida, fiquei grudado no alambrado com meu radinho de pilhas GE

de capa marrom. O estádio estava apinhado. Eu nunca tinha visto tanta gente junta. E minha atenção se desviava do campo para mirar a parte superior da plateia. Por que eu olhava para cima? Empoleirado na cabine acanhada, narrava a peleja Fiori Giglioti. Digo sempre que, guardadas as devidas proporções, naquele dia me deleitei com dois Pelés – um no campo e outro na cabine.

Mas houve um momento na partida em que a bola foi espirrada na lateral. Pelé

se aproximou suado, como que se flutuasse na sua divindade. Pelé então se abaixou, pegou rapidamente a bola e deu uma olhadinha instintiva para o alambrado. Coisa de milésimo de segundo... Eu estava lá, espremido. Dentre os muitos olhares embasbacados pelo Rei, estava o meu, que cruzou com o do craque durante aquele átimo. Eu vi o Pelé em campo. E, de perto, presenciei o ídolo por cerca de um ou dois ciscos de segundos. Poderá alguém objetar que fui ingênuo, mas confesso: ainda acalento a doce ilusão de que eu e Pelé havíamos cruzado nossos olhares no calor do estádio. À noite, no caminho de volta para Muzambinho, durante aquelas horas de viagem, fiquei sonhando com o rosto suado, tenso e apressado do Rei. “Será que ele me viu mesmo?”, vibrava nos meus pensamentos.

 

Comercial 0 x 2 Santos

 

Local: Estádio Francisco de Palma Travassos, em Ribeirão Preto.

Árbitro: José Teixeira de Carvalho.

Renda: Cr$ 24.158.500,00

Comercial: Rosã; Ferreira, Jorge, Piter e Nonô; Amauri e Carlos Cesar; Luis, Paulo

Bim, Jair Bala e Ari.

Técnico: Alfredo Sampaio.

Santos: Gilmar; Carlos Alberto, Mauro, Orlando e Geraldino; Joel e Lima; Dorval,

Toninho Guerreiro, Pelé e Pepe.

Técnico: Luis Alonso Peres, “Lula”.

Gols: Pelé (pênalti, 42-1) e Dorval (7-2).

O ídolo primeiro: nunca ninguém falou tantas vezes e com tamanha admiração a palavra

 

Pelé

Pelé e eu

 

Eu afirmo com categoria: no mundo e em todos os tempos, sou o sujeito que mais falou o nome do Pelé, a palavra Pelé. Guardo também uma vasta coleção de fotos dele, algumas inéditas que só eu tenho, tanto que, orgulhosamente, cedi algumas delas para ornamentar o seu museu. Sou também o primeiro “mortal” com quem Pelé dividiu um comercial. Isso por volta dos anos 90, quando a Imobiliária Trabulsi nos contratou para o lançamento de apartamentos de um dormitório que seriam construídos em São Vicente, no litoral de São Paulo.

As gravações do “reclame” eram

externas, na praia. No dia marcado, choveu.

Cancelaram a filmagem. No dia seguinte, a

mesma coisa. Pelé ficou meio puto. Avisou

que teríamos que gravar na marra, já que

estava de viagem marcada para Hong Kong.

Era inverno e fazia frio. No litoral, com

temperatura baixa e garoa, não sai viv’alma

na rua. Mas se até guerra o Pelé parou, ele

não vai espantar friagem? Foi só o primeiro

popular reconhecer o Rei que começou a

juntar gente. Em quarenta minutos, com um

pouco de exagero (a gente sempre

apimenta), havia um povaréu de umas dez

mil pessoas. A imobiliária não previra

segurança e o pessoal foi se aglomerando,

sendo contido pela boa vontade de alguns

salva-vidas que estavam por ali.

Mais para o final da gravação, um carteiro passou por trás da turma, com aquela roupa amarela chamativa que só ela, subiu numa pilastra e gritou: “Milton Neves, quem é esse negão do seu lado?”. A gargalhada foi geral...

Em São Vicente, durante a gravação de um comercial para uma imobiliária. O

perfeccionismo do Rei era tamanho que ele ensinou para Milton Neves o jeito certo de

correr para não fazer feio a seu lado

Mestre de cerimônias em Muzambinho, em 1968, no Clube Recreativo. Atrás, os

saudosos Rui “Zulu” Ernesto e Áureo Augusto