Milton Neves: uma biografia
Jovem Pan
Jovem
Pan
F aço uma declaração forte agora, e sem qualquer falsa modéstia: minha carreira é um aborto. Construí-a com a única commodity que eu possuía em abundância: minha saliva. Olhando para trás, passados mais de 40 anos do meu debute em São Paulo, do lugar em que ocupo agora, seria um devaneio arriscar qualquer previsão auspiciosa naquele julho de 1972 quando adentrei, rabo entre as pernas, na sede da Jovem Pan. Era um caipira de tudo, assustado com a metrópole, temeroso até em atravessar as avenida 23 de Maio e Rubem Berta, com medo dos carros.
Naquele dia fatídico em que fui pedir emprego para me manter com o queixo fora d’água em São Paulo, também estava tentando a sorte meu colega Ubirajara Valdez, falecido diretor da Rede Bandeirantes no Rio Grande do Sul. Ele, com seu Fusca. Eu, sacolejando num Mercedão com motorista e cobrador.
Na frente do prédio, olhei para os céus e subi para o andar indicado. Encontrei, sentado numa poltroninha preta, Salvador Silva, redator da rádio. Ele aguardava para dar uma palavra com Fernando Vieira de Mello, que estava em seu aquário com Ney Gonçalves Dias, Realy Júnior e Antônio Del Fiol. Del Fiol, como sempre, mantinha-se quietinho; Realy Junior discutia com Fernando; Fernando gritava com Ney. Uma barafunda que vim a descobrir na carne tratar-se da mais absoluta normalidade.
Postei-me, de uma maneira travada, atrás de Salvador Silva. E esperei... Escutei por horas enlouquecedoras o tec-tec da máquina Remington sobre a qual dedilhava. Lembro que Marco Antônio Gomes, Zé Carlos Pereira e Gilberto Pereira estavam na Redação. Nesse momento chegou Bira Valdez. Ele vinha de terminar seu teste na rua, mas, quanto a mim, não me haviam ainda concedido a honra de encontrar com Fernando.
Num arroubo de devaneio e nervoso pela demora, torturado que estava pelo chá de cadeira, me vi entrar na sala do Fernando, sem ser anunciado. De repente, como se fosse um ET pousado na Avenida Rubem Berta, estava no fogo cruzado daquela discussão. Com toda a razão, Fernando tomou aquilo como um atentado ao pudor. Bravo, nervosíssimo, virou-se para mim e bradou: “O que você quer, menino?”. Devolvi uma resposta facultativa: “Não... nada... hummm... é que eu sou do Objetivo”. Fernando Vieira de Mello contrataca: “Sim, mas você espera sua hora, pô”. Eu, o gago da vez, continuei: “Mas está demorando e preciso pegar o ônibus...” Fernando, feérico, como um Nero reencarnado, voltou à carga: “Mas o que você quer?”. De pronto, ecoei: “Falei com Di Gênio e ele me pediu para te procurar, vim aqui para saber como é o negócio”. Uma cena verdadeiramente surreal.
O homem, nervoso, alternava momentos de ira e risos: brigava, por alguma matéria, comentário, sei lá, com Realy Junior, com Marco Antônio Gomes da Conceição, editor-chefe, e que hoje trabalha na Cultura. Houve uma alteração indisfarçada de humores, peguei na hora o novo clima: o Fernando passou a rir, a gargalhar, até que, enxugando as lágrimas, indagou: “Como é o negócio aqui?”. Para quem conviveu com o chefão da Pan, a expressão “como é o negócio?”, sempre exarada em tom de ironia, é muito familiar. Funcionava como uma espécie de marca registrada do homem.
Marco Antônio entrou na sala. E Fernando lhe disse para fazer um teste com o “moleque”. Logo na saída, no corredor da Redação, o editor pegou uma lauda qualquer, e me encaminhou para o saudoso Chico Vieira, um operador de som, corintiano, cearense, maravilhoso, que fazia vinhetas para Osmar Santos.
A avaliação consistia em ler em voz alta a lauda diante de um microfone. Cheio de pólvora, sanguíneo, declarei: “Atenção, vamos evitar o trânsito agora na Av. Celso Garcia, está tudo parado, há um acidente envolvendo um taxi com um ônibus do Pare”. Levaram a gravação para Fernando ouvir. Ao escutar “Pare” o jornalista foi tomado por uma incontinência, uma sequência interminável de alaridos. Retificou-me, com as orelhas esbraseadas, e já de todo curado do esporro da cena anterior. “Olha, se pronuncia Pari, não Pare!!!!”. “Como você é burro”, prosseguia Fernando Vieira de Mello, mimoseando-me.
Foi assim que teve início minha carreira na Pan – a sílaba tônica no lugar errado e uma gargalhada do meu futuro chefe...
Quem é Quem
Deus me colocou diante e ao lado de muitas pessoas que me ajudaram a nortear meus caminhos no rádio, na tevê, na publicidade, no jornalismo e na vida.
O primeiro foi Fernando Luiz Vieira de Mello (1930-2001), o diretor de jornalismo da Rádio Jovem Pan que, em 1972, me contratou a pedido de João Carlos Di Gênio: “Vá primeiro ser repórter de trânsito no Detran, treina lá e depois a gente vê”, disse ao final de meu teste de microfone. Com o passar do tempo, costumava dizer para Antonio Del Fiol, Realy Junior e Ney Gonçalves Dias: “Esse mineiro meio índio é caipira, mas quando for “catequizado” vai se tornar o maior jornalista esportivo de rádio do Brasil”.
João Carlos Di Gênio, mesmo que a contragosto abriu as portas para mim, dizendo: “Você quer bolsa? Primeiro procure o Fernando Vieira de Mello lá na Jovem Pan e peça estágio remunerado em meu nome”. Fui e deu certo. Depois disso, ele e seus diretores e sócios como Roger, Dinhão, Rudge, Okida, Jorginho, Gilberto e Flávio Guilherme me deram mais de 50 bolsas para estudantes carentes de cursinho, meus amigos de Muzambinho e para meus filhos.
Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o ‘seu’ Tuta. Por 33 longos anos dediquei-me em 1000% à emissora que me contratou em 1972. Lá, entre 1972 e 2005, fiz de tudo e muito bem. Como repórter de trânsito, repórter rodoviário, setorista do Detran, repórter geral, plantão esportivo, apresentador esportivo e contato comercial. Como plantão e apresentador esportivos, ganhei todos os prêmios possíveis, implantei o Intervalo Inteligente, o Plantão de Domingo e o Terceiro Tempo, um marco na história do rádio esportivo. E, no Departamento Comercial, fui responsável, em determinado momento, por vender 50% do faturamento da emissora. Mas, com o sucesso simultâneo na TV Record, ‘seu’ Tuta ficou enciumado e me afastou em 2005, quando deixei a empresa por “demissão indireta”, conforme decisão judicial. Uma pena: teria ficado mais de 50 anos na querida Jovem Pan, do meu primeiro patrão efetivo, o ‘seu’ Tuta. Mas ele quis assim... E tenho certeza de que ele se arrependeu amargamente, porque sempre me dizia que eu era o melhor funcionário que ele teve na vida. “Você joga em qualquer posição”, dizia.
Osmar Santos, que hoje é companheiro de jantares no Restaurante North Grill do Shopping Frei Caneca, foi meu descobridor, em 1973, quando, em conversa passatempo no Detran, viu em mim o cara certo para fazer futebol no rádio.
Fiori Giglioti. O meu maior ídolo como ouvinte e o mais emblemático locutor esportivo do rádio. Menino, sonhava em trabalhar com ele na Bandeirantes. Só consegui isso em meus programas de tevê, na Record e Rede Mulher, hoje Record News.
Haroldo Fernandes. Era da Rádio Tupi, “o homem da camisa 10”, foi também meu grande inspirador. Narrava demais. Aposentado, o locutor que narrava “em cima da bola”, vive hoje entre São Paulo e São Lourenço-MG.
Flávio Araújo, histórico, recordista de audiência na Rádio Bandeirantes AM com a luta entre Éder Jofre e Harada, direto do Japão. Marcou época no rádio, em meus ouvidos e em meu coração. Aposentado, vive em Águas de Santa Bárbara-SP.
Geraldo José de Almeida. Era fã dele na Rádio Record, quando ele dizia “mata no peito e baixa na terra”, com aquele vozeirão. Mas sua consagração foi mesmo na Copa de 70, a primeira com transmissão de tevê ao vivo para o Brasil: Craque Café, Gauchão Everaldo, Patada Atômica (Rivellino), Furacão Jairzinho e os seus “olha lá, olha lá... lindo, lindo, lindo” ainda estão em minha memória, em meus ouvidos.
Valdir Amaral. Foi um ícone no Rio, na Rádio Globo, mas tinha uma “batata na boca”. Não gostava dele e só o ouvia quando Jorge Cury não estava transmitindo na Rádio Nacional.
Jorge Cury. Mineiro de Caxambu, foi bom demais. Para mim o maior de todos ao lado de Osmar Santos, do Fiori, do Pedro Luiz e do José Silvério. Que voz, que dicção, que vibração!
Joseval Peixoto. Foi excelente também na Jovem Pan e Bandeirantes. Inteligente e culto, a sílaba final de suas frases enchia o rádio. Meu grande amigo.
Jota Júnior. Trabalhava na Rádio Guarani de Belo Horizonte, quando o “descobri” em 1966 durante os jogos entre Cruzeiro e Santos pela Copa do Brasil. O saudoso Jota Júnior era uma metralhadora.
José Silvério. Natural de Lavras, no Sul de Minas e de origem humilde como eu, foi meu padrinho de casamento em 1978 e juntos marcamos época na Jovem Pan e Bandeirantes. Seu epíteto de “o Pai do Gol” foi criação minha. Ele é tão preciso e técnico a ponto de as pessoas afirmarem, nos bastidores do rádio esportivo, que apenas José Silvério e Pedro Luiz poderiam transmitir um jogo de xadrez.
Jovem Pan I AM. Jamais a esquecerei. Pena que no livro de sua história o ‘seu’ Tuta tenha omitido minha contribuição. Dedicaram-me poucas, más e não verdadeiras linhas. Ora, escrever um livro sobre a querida Jovem Pan e omitir a importância de Milton Neves seria como escrever um livro sobre a vida do Santos Futebol Clube e apagar a figura do Pelé. Sim, podem patrulhar se quiserem, mas a comparação não é exagerada. Ou seja, não a comparação de um mito mundial com um funcionário apenas de importância restrita ou localizada em uma empresa. É apenas uma analogia envolvendo alguém que dedicou os melhores 33 anos de sua vida a uma empresa de comunicação e que teve, sem paralelos, importância única e exemplar entre 1972 e 2005. Nos dez primeiros anos, admito, fui apenas “o terceiro goleiro reserva”. Mas depois do Terceiro Tempo, dividi a artilharia com o José Silvério.
Edu Zebini. Hoje na Fox Sports, foi meu belo companheiro de tabelinha em mágicos sete anos de Rede Record. Ele dirigia e eu apresentava. E como apresentei... Debate Bola, Terceiro Tempo, Roleta Russa, Cidade Alerta, Golaço...
Mário Quaranta. Parceirão de Redes Manchete, Band, Mulher e Record. Grande cara, maravilhoso, hoje tenta moldar pessoas no vídeo à minha feição, jeito e estilo. Não consegue, mas tenta. É um sujeito notável
Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, presidente do Santos, começou como Pelé, mas depois andou jogando como Totonho, Admundo e Luizão, que veio do Bangu,
Band, minha primeira incursão à vera na tevê, com o SuperTécnico, em 1999. Devo a ela minha condição de apresentador televisivo. O emblemático SuperTécnico representou para mim mais do que a marca Terceiro Tempo. Em dois momentos da minha vida, a Band foi uma mãe para mim.
Rede Record, sete anos inesquecíveis, entre 2001 e 2007, apresentando o conceitual Debate Bola, Terceiro Tempo, Roleta Russa e Cidade Alerta. Fui muito feliz lá e só sai por ter acreditado em Roberto Justus, um grande erro que estou procurando reparar na justiça.
Detran: lá fiquei como jornalista ou funcionário, de 1972 a 1994. A experiência foi muito boa por conhecer todo o tipo de gente, uma vez que o órgão era visitado por milhares de pessoas.
Neto, caso tivesse um advogado, conselheiro, empresário ou pai como o do Neymar, teria disputado pelo menos duas Copas. Faltou-lhe cabeça, o que conseguiu na Band, como jornalista. Ele foi um gênio da bola, mas não soube aproveitar seu talento.
Osmar de Oliveira, uma das melhores pessoas que conheci em minha vida. Simples assim.
Paulo Morsa, em sua companhia, durante sete anos, dei as melhores risadas da minha vida. Era uma delícia trabalhar com ele, um cara sensacional.
Faustão, o Fausto Correa da Silva, é um grande sujeito. Começamos juntos na Rádio Jovem Pan, em 1972. Ele tinha um fuscão e eu um Mercedes Benz... da CMTC! Mesmo pobretão, principalmente se tomarmos sua carreira atual (ganhávamos cerca de mil reais por mês), Fausto era um mão aberta e dava presentes para todo mundo. Em 1973, voltando de uma excursão da Seleção, deu-me uma jaqueta de pele de antílope porque a havia elogiado sua japona.
Telê Santana virou mito, até porque a morte aumenta o talento. Mas, sem dúvida, seu sucesso e honestidade são inquestionáveis. Fiz a ele, ainda em vida, duas homenagens, ao vivo, no SuperTécnico, da Band, e no Terceiro Tempo, da Record. Entretanto, confesso que tenho certo remorso quando penso em Telê. Fiz-lhes muitas críticas, principalmente no tempo em que trabalhei na Pan, quando não me cansava de chamá-lo de pé-frio. In memorian, demonstro arrependimento e lhe peço desculpas.
Felipão foi quem mais me ajudou a emplacar na tevê. Ele e Zagallo. E voluntária ou involuntariamente, o coloquei na Seleção Brasileira em 2001, fazendo grande bem a ele e, principalmente, para o Brasil. No entanto, ele nunca reconheceu publicamente esse fato nem me agradeceu ou mesmo cumpriu a promessa de retribuir a indicação decisiva: a camisa do goleiro Marcos!
Luciano do Valle, o maior e melhor gol da história do futebol na tevê, e a melhor voz esportiva da história.
Flávio Prado tem uma característica interessante: não fala bem e nem mal de ninguém. “Só passo para a frente”, brinca.
Roberto Avallone, profundo conhecedor do futebol, bom cara, bela carreira, mas hoje fora do centro da mídia por ter se deslumbrado aos tempos da TV Gazeta. Ficasse quietinho em seu Mesa-Redonda, estaria firme lá até hoje.
Vanderlei Luxemburgo, grande treinador na opinião até de quem não gosta dele. Tem apenas um problema: ele mesmo. Fosse só treinador, seria 500% mais do que é. Briguei muito com ele no ar e, como técnico da seleção em 1999, tentou evitar que eu assumisse o SuperTécnico da Band. Hoje, nos damos muito bem.
Lenice, minha primeira e única namorada. Foi namorada, esposa, amiga, companheira e mãe de meus três filhos, que ela criou e educou sozinha, enquanto eu trabalhava feito burro de carga na Rádio Jovem Pan e no Detran. Por nossa família, ela deixou de exercer a Odontologia.
Zagallo, outro sujeito maravilhoso que muito me ajudou a emplacar na tevê, a partir de 1999. Mas o SuperTécnico da Band deu-lhe mais uns sete anos de carreira, na época, quase encerrada. E deu-lhe muito mais: uma nova imagem, de uma pessoa engraçada, boníssima e amiga, diferente daquele treinador turrão e nervoso da Seleção Brasileira. Mas ele nunca me perdoou pelo que um dia disse e escrevi: “Luxemburgo é um computador e Zagallo uma máquina de escrever”.
Roberto Justus, inteligente, brilhante, vitorioso, milionário, vaidoso, poderoso e extremamente cruel. Ele só pensa nele, nele e nele e tenho contra ele uma ação judicial que, se Deus quiser, vencerei. Essa pessoa precisa pagar o mal que fez a mim e a outros jornalistas.
Com os colegas do Objetivo, em plena sala de aula. O cabelo à moda da época e a
indefectível camisa florida, presente de Marino Campedelli
Na viatura da Jovem Pan, um C-14 da Chevrolet, reportando o intrincado trânsito
paulistano