Milton Neves: uma biografia
O futebol
E stava locado, portanto, no limbo do Detran e lá pareciam residir meu carma e destino. Fadado a mofar entre o vaivém dos automóveis. A minha fortuna mudou devido ao Osmar Santos e sua vaidade. Digo vaidade porque, na época, o must entre o jet set era mandar fazer placas de carro personalizadas. E o Detran era o lugar que resolvia essas pendengas.
Em 1973, lá apareceu Osmar Santos. Na época, só dava ele no rádio. Dividia a
titularidade do microfone da Jovem Pan, nas transmissões de futebol, com Willy Gonzer, locutor gaúcho, hoje radicado na Bahia, depois de ter trabalhado por anos em Belo Horizonte, na Rádio Itatiaia. Gonzer era titular, mas Osmar arrebatou o posto: estava atropelando os concorrentes, com uma voz que transmitia aos ouvintes a sensação de um sorriso perene, interminável.
Assim que pisou nas dependências do Detran, Osmar foi recebido pelo Dr.
Nerval Braga Ferreira Filho, então manda-chuva da instituição. O narrador viera com um pedido especial: queria a placa OS 1974 para ornamentar seu Corcel LDO, cor de vinho. Sem se fazer rogado, Dr. Nerval mandou que dois estafetas – Paulo Comba, sargento de cabelos grisalhos, e Sargento Salvador, popular Tartaruga – fossem pagar a TRU (espécie de IPVA da época), a confecção da placa, o seguro obrigatório e as outras quireras. Claro que o speaker levou a placa na hora, sem passar pelas alimárias e trâmites protocolares.
Para quem duvida, o Detran era uma festa de celebridades. Na mesma época,
os rapazes-revelações dos Secos e Molhados apareceram por lá para tirar carta. Enquanto as burocracias não se desanuviavam, fui incumbido de fazer sala para Osmar Santos. Ficamos quase uma hora papeando de futebol e rádio esportivo. Quer dizer, ele mais ouviu que falou. Aquela era a primeira vez que o via em carne e osso. Passei o tempo lhe contando histórias, entusiasmado com os grandes narradores da minha infância, como Haroldo Fernandes, Jorge Cury, Waldir Amaral, Fiori Giglioti, Flavio Araújo, Joseval Peixoto. Ao mesmo tempo em que colocava em prática aquilo que eu fazia de melhor: disparar minha memória e estalar saliva de tanto falar. Escalava em torrente uma fieira de escretes de outrora que conhecia de cor e salteado. O Osmar ficou apenas ouvindo, meio embasbacado. Devia estar se perguntando quem era aquele “foca” tagarela. Afinal, fazia apenas seis meses que eu trabalhava na Jovem Pan. Mas sabia tudo de futebol. Talvez foi isso que deixou Osmar Santos de joelhos...
Naquele mesmo dia, tocou a Linha Preferencial, a célebre LP. Do outro lado,
estava Fernando Vieira de Mello. Era uma quarta-feira e o pedido do meu chefe veio a mudar a minha vida. “Mineiro, vamos ver se você é bom mesmo e se o Osmar não é mentiroso. Hoje você vai fazer futebol”. Depois vim a saber que Osmar Santos havia se debulhado em elogios sobre meus conhecimentos futebolístico, a ponto de Fernando achar que ele estava o sacaneando. O fato é que me colocaram para fazer o Plantão Esportivo no lugar do Narciso Vernizzi (“o Homem do Tempo”). Algum tempo depois, assumi a titularidade do programa. Na passagem de bastão, contei com o forfait de Fausto Silva, o Faustão, que recusou o posto por implicar com a cadeira, a qual, para seu gosto e porte, era muito estreita. Na época, revesavam na folga do Vernizzi, aos sábados, o hoje apresentador da Globo, Aluani Neto e Milton Parron.
Fiz meu primeiro plantão tremendo. Eu escrevia em papeluchos tudo o que
falaria no programa, meus garatujas, rascunhos, eram a minha bússola, meu código de comportamento: “Boa noite, Joseval Peixoto!!!...” Ainda guardo a primeira escala de minha vida, onde meu nome apareceu vinculado ao Plantão Esportivo.
Essa oportunidade consolidou de vez minha fé na carreira de jornalista, que
ficara abalada logo no meu primeiro ano de Jovem Pan. O fato é que eu tinha muita saudade de casa e a vida na Pauliceia era dura demais. Além disso, ninguém escutava a Jovem Pan no Sul de Minas. Uma vez mandei um recado no aniversário da cidade que passou incólume por lá. Ficava decepcionado a cada vez que voltava a Muzambinho e transitava como um reles desconhecido entre os meus amigos e parentes. Acreditava que por morar em São Paulo e trabalhar numa grande emissora, as pessoas me reverenciariam como um rei. Uma doce ilusão juvenil. Quem me dissuadiu de abandonar tudo foi Nicolau Anechine, um antigo colega de Muzambinho e ex-jogador do Noroeste de Bauru, que tinha se dado bem em São Paulo, trabalhando na Liquigas. Ele era casado com uma prima da Lenice. Quando lhe fiz menção que estava descontente da vida, ele me devolveu um verdadeiro esculacho que me fez abrir os olhos. No final da tertúlia, disparou a pergunta fatídica, da qual me lembro até hoje como um soco na fuça. “Tudo bem, volta. Mas o que você vai fazer lá? Vai ser vagabundo?”. Engoli a seco, e aguentei firme. De vergonha, resolvi ficar mais “alguns dias”, que se transformaram em mais de 40 anos...
O resultado é que passei a trabalhar como um camelo. Trânsito e Detran pela
manhã e à tarde; ledor do Jornal de Esportes, na hora do almoço, e apresentador do Plantão Esportivo no pós-futebol (para não dizerem que não falei de flores, ainda fazia plantão de lutas de boxe no estúdio). Às vezes, ficava à disposição da rádio das 6:30h da manhã até de madrugada. Para completar, ganhava uma miséria e não tinha moral nenhuma com a direção ou com os tubarões das antigas.
No Jornal de Esportes, para onde me desabalava ao sair do Detran, o máximo
que me permitiam era anunciar a hora certa. Tecnicamente, funcionava como cuco: “Este é o Jornal de Esportes da Jovem Pan. É meio-dia e meia”. Ainda assim me coçava, quando davam brecha: nas entrevistas ao vivo, eu queria fazer perguntas também, o que era prontamente vetado pelo Cândido Garcia, o diretor do programa. Ele ficava na técnica com a mão no queixo e o cotovelo em cima da mesa. Eu chegava com minha pergunta escrita num papelucho e ele nem se dava ao trabalho de mexer o rosto. Só virava um pouquinho o olho e falava assim: “Essa pergunta não presta”. De vez em nunca me concedia a honra de participar, mas em troca de muita má vontade e do aviso: “A próxima pergunta só no mês que vem”.
Isso durou até 1982, quando entrou no ar o Terceiro Tempo. Até então meu
espaço na emissora era residual, quase envergonhado. As estrelas da companhia eram Osmar Santos, depois José Silvério, Orlando Duarte, Leônidas da Silva, Silvio Luiz, Cláudio Carsughi e Randal Juliano. Eu vivia da caridade alheia. Só me manifestava quando me chamavam. Em 1981, essa minha situação subalterna deu vez a um episódio meio constrangedor. Na segunda-feira subsequente a um São Paulo e Botafogo que haviam se enfrentado por uma das semifinais do Campeonato Brasileiro, vencida pelo Tricolor, foi convidado para participar do Jornal de Esportes o lateral-esquerdo são-paulino Marinho Chagas, no auge da carreira. Eu estava no meu posto de locutor-cuco. Quando ele chegou, ficou um pouco de lado, pois o estúdio estava lotado. Estavam, além de mim (na reserva), Randal Juliano, Orlando Duarte e Cláudio Carsughi.
Foi a primeira vez que Marinho Chagas me viu e vice-versa. Antes de se sentar
ao microfone, ele assistiu por uns cinco minutos à azáfama do estúdio na abertura do programa: nesse dia, fiz a escalada das notícias em pingue-pongue com Edemar Annuseck. Mas foi só começar a entrevista, comandada por José Silvério, que eu, imediatamente, cedi meu lugar.
Passados trinta minutos de programa, o Marinho Chagas vira e fala assim:
“Escuta, e o grandão aí da voz bonita? Vocês não vão deixar ele perguntar? Ele é o melhor de vocês aqui”. O Cândido Garcia ficou desarmado. Me fez um sinal com a cabeça e eu tasquei uma pergunta. Nunca me esqueci disso. Em 2010, quando reencontrei Marinho em Natal (RN), com a saúde depauperada, ajudei a interná-lo no Hospital São Paulo. Passados três anos, ele se encontra em uma situação bem melhor.
Uma história parecida aconteceu quando Carlos Aymar, presidente da
Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp), foi participar do Jornal de Esportes, nas celebrações do bicentenário dos Estados Unidos, em 1976. Eu ainda era estudante no Objetivo.
O fato é que não falo nada de inglês, e não tenho um bom sotaque, mas, ainda
assim, me viro bem com algumas palavras. Desenvolvi essa pequena habilidade graças ao incentivo de um grande professor que tive, chamado Arnon Hollaender, já falecido. Em 1976, estava informando, em parceria com Edemar Annuseck, que o Brasil jogaria contra a Itália, em Seattle, com transmissão direta de Osmar Santos.
Depois da escalada de notícias, o técnico de som aumentava o volume da
música para dar um efeito sonoro. O operador chamava-se Oswaldo Silva, um moreno baixinho. Antes de reabrir nosso microfone, o coordenador Cândido Garcia disse, escandindo bem as sílabas: “Mineiro burro, Seattle (Siatol) a puta que o pariu; fala-se Siatlê!”.
Carlos Aymar, também fora do ar, retorquiu: “Não, senhor, o menino está certo
é Seattle”. Nunca vou me esquecer, o Carlos Aymar ficou do meu lado. Cândido Garcia não me pediu desculpas, mas ficou muito sem graça.
No estúdio principal da Jovem Pan, meados da década de 1990, entrevistando
Marcelinho Carioca (à direita), com Flávio Prado, Tatiana Ferraz e Luis Carlos Quartarollo
(em pé)
A placa do Di Gênio
Na garagem do Objetivo, cintilavam dois automóveis importados, que em tempos pré-Collor chamavam atenção como fossem naves espaciais. Um deles era o espetacular Met One, com uma águia de bico recurvo adornando o capô. Era do Jorge Brihy, um dos sócios e pilares do Objetivo e hoje (quem diria?) meu vizinho em condomínio da Grande São Paulo; o outro carro importado era a Mercedes do Di Gênio. Na época, o must era ornar as carangas com placas personalizadas. Como trabalhava no Detran, às vezes servia de intermediário para as veleidades alheias. Sabendo disso, Di Gênio me conferiu a missão de levantar uma chapa com as iniciais DI. Para minha desgraça, tal placa era impossível de se obter. Não existia aquela série disponível... O máximo que consegui foi uma DO 5555.
Flávio Guilherme Correa Rathsam e eu levamos a placa para o Objetivo, já nos justificando pelo mau jeito. Dito e feito: ele bateu o pé pelas iniciais DI. Redargui, destilando ironia: disse que DO significava “Dono do Objetivo”. O professor Di Gênio arriou as orelhas, não adocicou restrições à minha fala: simplesmente ficou puto da vida. E não aceitou o regalo.
Voltei à labuta no Detran: vamos achar uma DI para atender as vaidades do homem. E imaginem só. Década de 70, a tecnologia era digital, isto é, na ponta dos dedos se folheavam as fichas nos catálogos, uma por uma, para encontrar uma placa ao gosto do freguês. Achamos! E a famigerada placa do Di Gênio “abrilhantava” nada mais, nada menos do que um DKW velho! O carro pertencia a um japonês, feirante de Taboão da Serra, na grande São Paulo. Um então funcionário de Di Gênio, hoje um médico genial, chamado Yugo Okida, foi até a casa do japonês... e comprou o tal DKW. Só para pegar a placa. O carro, digamos que valesse hoje seus 10 mil reais, foi comprado a 12 mil reais e devolvido ao feirante depois da retirada da bendita chapa DI 5000.
A disputa por placas era tamanha que até o famoso radialista Afanásio Jazadi, então repórter policial, lutou anos a fio para conseguir uma AJ 0007: além de levar suas iniciais, adicionava o numeral do mais famoso espião do mundo... e tudo o que Afanásio sonhava em ser então era converter-se no 007 brasuca.
O exame do Roberto Carlos
Numa tarde de 1973, apareceu no Detran o cantor Roberto Carlos para renovar a carteira de motorista e os exames médicos de praxe, que também eram realizados nas dependências do órgão. Tratava-se de um evento extraordinário naquela sensaboria burocrática. Todos ficaram de plantão para conversar com o grande ídolo da Jovem Guarda: o Franz Netto, da Rádio Bandeirantes; o José Neto, da Rádio Marconi; o José Carlos Marques, da Rádio Piratininga; o Paulo Markun, iniciante, do Estado de S. Paulo; Aluani Neto, da Folha da Tarde; Benê Braga, da Jovem Pan. Menos eu, creiam, porque fiquei com vergonha.
Os médicos de plantão eram o Dr. Galvão, pai do jornalista Paulo Galvão, que hoje trabalha na Rádio Bandeirantes, e o saudoso Dr. Vicente Sá Puppo, que também era médico da Portuguesa. Entretanto, ambos os especialistas não examinavam pessoas com deficiência física. Para esses casos, se formava uma banca específica conduzida pelo Dr. Antônio Carlos Corsi, já falecido. Me lembro muito bem dele: Corsi era alto, tinha um nariz de periquito, um rosto bem vermelho, adornado por uma barba espessa.
Foi ele quem examinou Roberto Carlos. No entanto, o saudoso Nerval Ferreira Braga Filho, então diretor do Detran, pediu para Corsi levar Roberto Carlos do terceiro andar, onde se realizavam os procedimentos, para o quinto andar, na diretoria, a fim de dar mais privacidade ao artista.
Dr. Corsi ponderou que seria necessário transportar todos os equipamentos oftalmológicos, verdadeiros trambolhos na época. Mas a hierarquia se fez inflexível e o exame foi marcado para o quinto andar.
Nem bem se encerraram os trabalhos, a nova carteira de motorista do cantor foi emitida, atalhando os descaminhos da papelada. Sem dúvida, um enorme privilégio. Roberto Carlos estava autorizado a conduzir seu Lincoln Continental importado, preto, que seria adotado mais tarde pelo governo. Eu nunca tinha visto um carro daquele.
Antes de entregar a carta ao condutor famoso, Dr. Corsi carimbou o documento com uma insígnia destacada: “Portador de defeito físico”. Roberto assinou a carta. Na hora, Dr. Nerval disse que aquilo pegava mal e que não era necessário. O médico, então, retrucou com severidade: “Lei é lei”. Ele estava puto por ter sido obrigado a transportar o equipamento de um andar para o outro. E o carimbo foi mantido. Mas se outra carta, sem carimbo, foi emitida, não soubemos.
O Pluto é filho da Pluta
Numa sexta-feira à tarde, em 1972, quando me preparava para ir a Muzambinho, onde passaria o fim de semana, Fernando Vieira de Mello bateu a Linha Preferencial no Detran, me informando que eu teria que ficar em São Paulo para cobrir uma batida policial do Esquadrão Bem-te-vi do Detran, muito famoso nos anos de 1970. Haveria uma blitz contra maus motoristas no Vale do Anhangabaú, entre a meia-noite e às quatro da manhã de sábado.
Esperei a perua Rural Willis na minha
pensão. Conduzido pelo célebre motorista
Silvério Rodrigues, cheguei ao local na
boca da madrugada. Aliás, Rodrigues foi
um profeta. Já em 1972, rodando pela
Rubem Berta, ficava abismado com o
tráfego aéreo sobre Congonhas. Não foram
poucas vezes que vaticinou um acidente nos
moldes do que aconteceu com o Airbus da
Tam, em 2007.
Quem comandava a blitz era um célebre
tenente-coronel, o Horácio Bonzon, homem
bravo para burro. Ele usava umas botas de
cano de couro até a coxa.
Um dos veículos abordados foi uma
Kombi, cujo motorista – um feirante –
chorava desesperadamente cercado por
policiais. O veículo estava cheio de
mercadorias que ele levaria para a feira em
Santana.
Os soldados seguravam seus dois braços como se se tratasse de um criminoso dos mais perigosos. Eu era muito inexperiente, nunca tinha visto uma violência daquelas, pois em Muzambinho a polícia só pegava uns pinguços, e muito de vez em quando. Pensei comigo que o cara deveria ser algum assassino. O tenente-coronel se dirigia ao feirante dizendo repetidas vezes que ele era “um homem mau do Brasil”.
Não é de se esquecer que, na época, grassava a ditadura militar. No fim, o ato de lesa-pátria cometido pelo feirante foi ter, no vidro da Kombi, um adesivo com um desenho estilizado do Pluto e de uma cadela – a Pluta –, com a seguinte inscrição: “O Pluto é filho da Pluta”. Por causa disso, Horácio Bonzon mandou prender o cara e apreender o veículo.
Na minha inexperiência, fui dar palpite. Falei ao tenente-coronel que aquilo não tinha nada demais, coitado do homem, etc., etc. O militar me falou: “Você tem certeza, menino? Então tudo bem, você tem razão. Toninho Sol, solta ele, mas me dá aqui esse adesivo. E suma daqui, Japa, e sem olhar prá trás”.
Bonzon pegou o decalque e picou em dez pedaços. O sujeito, ligeiro, abriu a porta da Kombi, entrou e deu a partida, engatando a primeira. Antes de partir por um milésimo de segundo, olhou para trás, para mim, com um rosto cheio de gratidão. Isso foi em 1972. Até hoje guardo o olhar daquele sujeito, que estava prestes a perder todas as suas frutas e verduras por causa de um adesivo de mau gosto para a época.
Se é que ainda está vivo, quando me vê na tevê, ele deve se recordar disso. Foi o olhar de gratidão que jamais esquecerei.
O calça branca
Num sábado, estava de plantão na redação da
Jovem Pan com Gilberto Pereira, Paulo Saab,
Marco Antônio Gomes da Conceição e Antônio Garini.
Pintou um tiroteio na Zona Sul de São Paulo,
evento que nunca imaginaria ter que cobrir. Tinha 21 anos e me mandaram para lá numa C14 azul com um motorista chamado Moacir Targa, o
popular Dom Pedro, apelido pespegado graças às suas avantajadas costeletas. Chegamos ao local por volta das 23h. Quem comandava a operação era o coronel Sidney Gimenez Palácios, que, anos mais tarde, se tornou deputado pelo PTB.
Era a primeira vez na vida que entrava numa
cela. Fui a “convite” do coronel Palácios. Quando chegamos, estavam os quatro suspeitos de calção, com chinelo em um pé só, sem camisa, todos
ensanguentados. Eram meninos de 18, 19 ou 20 anos. Tinham uma cara de santo... Comentei em voz alta que eles eram uns coitados.
O coronel retrucou com uma frase lapidar, me chamando de calça branca. Diante da minha cara de interrogação, ele explicou que calça branca é o sujeito noviço, inexperiente, iniciante, na gíria dos policiais. O comandante me perguntou se eu gostaria de ver o que aqueles menininhos que eu achava santinhos haviam feito. Me levou onde uma das vítimas estava prestando testemunho junto ao escrivão e ao delegado de plantão.
Eles tinham entrado numa casa na região de Interlagos, estuprado três mulheres – a filha, a mãe e a avó – e matado uma outra pessoa. Arrematou a lição de moral, explicando que quando os bandidos são presos, eles viram todos santinhos. Registrei a reportagem com o gravadorzão que eu carregava. Ele me explicou tudo isso no ar: aprendizado na carne.
E o General Costa cantou em
Brasília
Nos anos 80, trabalhava na Jovem Pan
um locutor chamado Ibraim José. Eu
carinhosamente o apelidei de “Fuinha”. Em
seu auge, na TV Tupi, ele fora candidato a
deputado. Durante a campanha lhe
perguntaram seu local de nascimento e a
resposta, desastrada, foi: “A cidade é tão
pequena que não vale a pena dizer o nome”.
Natural de Itapetininga, não conquistou
nenhum voto lá. Perdeu a eleição.
Na Pan, Ibraim apresentava o noticiário
Terceiro Tempo, que ia ao ar de madrugada,
depois do meu Plantão Esportivo
Permanente que fechava a jornada do
futebol. Numa noite, enquanto arrumava
minhas coisas na mesa, Ibraim começou a
ler a escalada das manchetes. Com sua voz
empostada de locutor, mãos nas orelhas,
caprichava na gravidade do tom, já que a
notícia era “política”: “General Costa chega
em Brasília e canta amanhã”. Estupefação
geral! Ibraim confundiu a abreviatura de general com a Gal... a Gal Costa! A manchete era: “Gal Costa chega em Brasília e canta amanhã”!
Afanásio e os mortos que gemiam
Ainda era um noviço na Jovem Pan. Numa madrugada, às três da manhã, bate na porta da República dos Muzambas o motorista da rádio, Paulo Caveira, avisando que tinha acabado de acontecer um acidente terrível nas obras da Imigrantes, então em construção. Segundo os primeiros relatos, havia caído um viaduto. No ar, Afanásio Jazadji anunciara a morte de pelo menos 300 pessoas. E eu fora escalado para fazer a cobertura in loco. À medida que nos aproximávamos da cena, o tamanho da tragédia era atenuado pelo Afanásio, até que, no saldo final do acidente, “nenhum morto morreu”. Houve apenas operários feridos.
Não obstante, num dos boletins proferidos no calor da hora, Afanásio, com sua voz inconfundível, afinando ainda mais o tom lúgubre, informou: “São 275 mortos gemendo sob os escombros”.
Histórias de Cláudio Carsughi
Cláudio Carsughi é um decano do jornalismo brasileiro. Veio ao mundão em Arezzo, na Toscana, e foi criado em Florença. É torcedor fanático da Fiorentina. Tem tanto tempo de janela que já se tornou uma lenda viva. O cenário dessa história foi um tubão, num dos estúdios da Jovem Pan. O vocábulo - tubão - é oriundo de off tube. Esse é o nome que se dá a narrações e comentários feitos a partir de imagens da televisão. Àquele estúdio específico, bastante modesto em suas proporções, demos o nome de Tutão, em homenagem a ‘seu’ Tuta”, o apelido de Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o dono da rádio. Chovia. E o sempre ético Carsughi chega no seu protocolar estilo inglês: a pé, de guarda-chuva e galocha.
Estávam lá Luiz Carlos Quartarollo, eu, Fred Junior, Cláudio Carsughi, Flávio Prado, Rogério Assis. Todos são testemunhas oculares do causo. Conversa vai, conversa vem, antes de entrarmos na transmissão, Carsughi contou essa história sensacional.
Corria o ano de 1939, quando Hitler e Mussolini assinaram o chamado Pacto de Aço, em 22 de maio e somaram as duas maldades para aguentar o confronto mundial que se prenunciava. Cláudio, que nasceu em 1932, tinha seus sete anos. Enfim, depois de firmado o acordo, ambos os ditadores desfilaram em carro aberto por Florença. Saudavam o povo da Itália, que lotou as ruas e avenidas nesse trajeto.
A multidão segurava as bandeirinhas dos dois países. Cláudio jura que estava lá, acompanhado do pai italiano, Odoardo, e da mãe brasileira, Marina. Até que o carro aberto sobre o qual Hitler e Mussolini acenavam para a multidão passou em frente ao local onde se encontrava a família Carsughi. Ainda conforme o relato de Cláudio, Hitler teria dado um cutuco na costela de Mussolini, como se chamando sua atenção. E falou na sua voz de ditador: “Mussolini, aquele menino ali, olha, quero ele de garoto propaganda, esse será o símbolo de nossa união”. O dedo fatal de Hitler estava em riste, como uma flecha, direto entre os olhos do pequeno Cláudio.
Pai e mãe se assustaram com a
inesperada predileção do ditador. Os três,
depois do rápido contato, dissiparam-se tal
qual vento. Como não sabiam qual motivo
levara o Führer a apontar seu indicador em
sua direção, acharam mais prudente se
escafederem. Todos nós ouvimos
embasbacados a narrativa. Mas sua força
retórica se fez tão persuasiva que convenceu
a crédula audiência. E, arrematando,
Cláudio jura que deu tempo para Hitler
apertar suas bochechas e perguntar seu
nome. “Eu respondi, Cláudio, Cláudio
Carsughi, e meu pai e minha mãe me
puxaram”, lembra o mestre.
***
O ponta-direita Faustino, que, na década de 60, jogou na Ferroviária de Araraquara e no São Paulo, morreu assassinado em 1988. Muita gente sabia disso, principalmente os jornalistas esportivos. Menos o Cláudio Carsughi e eu. Numa noite de março de 1992, ele encontrou num restaurante de São Paulo um cantor de churrascaria que garantia ser o Faustino.
Carsughi acreditou e encaminhou para mim o assunto. Com o aval do sério companheiro, coloquei o tal Faustino no ar, que contou muitas histórias de futebol, com verve e verossimilhança impressionantes. A entrevista já durava muitos minutos quando o comentarista Waldo Braga me ligou e advertiu: “Tira esse louco do ar porque o Faustino morreu mesmo. Eu fui ao enterro”. Já Carsughi, quando cobrei dele esse mico que paguei, deu de ombros e asseverou com seu inconfundível sotaque: “É, eu me enganei”.
***
A necessária agilidade do rádio e as transmissões ao vivo propiciam muitas gafes. Algumas ficam registradas na memória de seus profissionais.
Em 1973, na abertura de cada jornada esportiva, Osmar Santos disparava a inevitável pergunta: “Alô, Milton Neves, qual é o destaque internacional de hoje?”.
Era um domingo e o telex da Jovem Pan, um trombolhão barulhento, estava quebrado. Resultado: não havia nenhum destaque estrangeiro para anunciar. E eu lá, desarmado, sem nem uma notícia sequer. Sabia que vinha a pergunta e me preparei como deu.
Na hora, não tive dúvida, e a notícia inventada em minha cabeça fluiu com naturalidade: “O destaque internacional de hoje é a decisão do título sul-americano de boxe, peso leve, entre o chileno Juan Contreras e o argentino Ortiz Peña”.
Osmar Santos, sempre vibrante e meio desligado, no embalo e no pique, pediu a opinião do comentarista Cláudio Carsughi. Para meu espanto, o italiano foi ainda mais cara de pau. Disse que Contreras tinha uma esquerda portentosa, mas que Peña possuía um cartel maior de nocautes, e por isso era o favorito.
Ri sozinho com a desfaçatez de meu colega. Esperei a chance e um dia cobrei de dele aquele comentário. Carsughi jamais admitiu o fato e afirma até hoje que eu só posso estar maluco. Mas que aconteceu, aconteceu mesmo.
Brasil 2 x 3 Itália: a derrota mais
sofrida
A estreia improvisada do Terceiro Tempo, na Rádio Jovem Pan, depois da debandada intempestiva do Estevam Sangirardi não poderia ter sido de pior agouro. Deu-se depois da chamada “Tragédia do Sarriá”, na Copa de 1982. Lembro que nesse dia, estava tão nervoso com o jogo que, logo após o terceiro gol da Itália, me tranquei no banheiro e disparei a descarga, uma daquelas Hidra, cujo barulho parece estrondo de bomba atômica, para tentar não escutar mais nada. No finalzinho do jogo, tomei coragem e larguei o botão. Fui invadido por um silêncio revelador: a Seleção ainda perdia o jogo. Resolvi me esconder num quartinho da técnica. Queria mastigar sozinho a amargura da espera do apito final. Doce ilusão. Já me esperavam no escuro da angústia outros desiludidos com a derrota iminente. Um deles era o operador José Carlos Zavanella, rezando.
Local: Sarriá (Barcelona);
Juiz: Abraham Klein (ISR);
Público: 44 000;
Gols: Rossi 5, Sócrates 12 e Rossi 25 do 1º; Falcão 23 e Rossi 29 do 2º;
Cartão amarelo: Gentile e Oriali
Itália: Zoff, Gentile, Cabrini, Collovati (Bergomi) e Scirea; Tardelli
(Marini), Antogoni e Oriali; Conti, Rossi e
Graziani.
Técnico: Enzo Bearzot
Brasil: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico; Éder e Serginho (Paulo Isidoro).
Técnico: Telê Santana
Em 1974, entrevistando o saudoso investigador Airton, vistoriador do Detran, o homem
que “descobriu” César Sampaio. No detalhe, a onipresente camisa florida