Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 21 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Televisão

 

P ara ser sincero, eu só conheci fama, popularidade e dindim mais grosso no momento em que passei a fazer televisão. O impacto é exponencialmente maior do que no rádio, até porque, jornalista de estúdio, ficava completamente recluso. Hoje o acesso à imagem dos radialistas via internet é bem mais tranquilo. Até os anos 2000, salvo uma ou outra exceção, podíamos transitar anônimos pela multidão: éramos uma voz sem rosto. A televisão transformou minha relação com o público definitivamente.

Até então, minha experiência na tevê era modesta, para usar um eufemismo.

Entre 1986 e 1988, participei da Mesa-Redonda da Gazeta. Em 1994, apresentei o Canal 100 na Manchete por seis meses. Estive no Cartão Verde, da TV Cultura, duas vezes em 1998. Também fui narrador da TV Jovem Pan, em UHF, entre 1990 e 1991. Resumia-se a isso minha relação com a telinha.

Verdade que tinha um pouco de preconceito com o formato disponível na

época – a discussão em forma de debate. No final dos anos de 1990, a mesa-redonda de futebol, uma verdadeira instituição do jornalismo esportivo, havia sido abandonada, reflexo da série de derrotas brasileiras nas Copas de 1974, 1978, 1982 e 1986.

Durante muito tempo, Roberto Avallone manteve no ar a única mesa-redonda

da tevê. Um grande mérito dele. No entanto, aquele modelo, quadrado (com o perdão do trocadilho) era um negócio démodé; considerado algo intelectualmente subnutrido.

Para piorar, na Gazeta, fui vítima da inveja do Avallone. Hoje nós voltamos às

boas, depois de um período em que ele viveu às turras comigo. Enquanto participei da mesa, trouxe muitos patrocinadores para o programa, marcas importantes como a Le Coq Sportif, Adidas, Rede Copel, Caltabiano, William Sports. Eu era responsável por mais de 50% do faturamento. O ciúme de minha performance toldou a razão do apresentador, que não era capaz de me ver como parceiro. Até o célebre jornalista Peirão de Castro me dizia que Avallone tinha em mim um imaginário concorrente. O resultado é que fui lentamente escanteado do programa. Meus apartes eram cada vez mais raros, e, no final, não tinha tempo de citar a contento os meus patrocinadores.

Atualmente, as mesas-redondas voltaram à crista da onda, muito devido ao

sucesso do SuperTécnico (estreou em dois de maio de 1999) que mostrou como se faz em estúdio esportivo, sem aquelas superadas mesonas. Mesmo o Cartão Verde, que surgiu como um respiro para o formato, ainda padecia de um certo ranço do velho sistema do estúdio de tevê dos anos 60.

Como já mencionei, participei de apenas duas edições do programa. A

efemeridade de cometa da minha presença na Cultura ainda é dos grandes mistérios da minha vida... Em 1998, logo após a Copa da França, onde trabalhei como comentarista para a Jovem Pan e TV Manchete, Marco Antônio Coelho, então Diretor Nacional de Jornalismo da TV Cultura, me chamou para uma conversa. Lembro que seu escritório ficava num mezanino de ferro, suspenso, de onde ele podia observar toda a redação. Sua ideia era que eu participasse de um jornal apresentado por Carlos Henrique Corrêa, paranaense de Jacarezinho, que tinha sido meu colega no Objetivo. O tema seria o “caso Ronaldo”, que ainda repercutia muito no momento. Havia toda aquela suspeita conspiratória de que a CBF havia vendido o campeonato em troca da realização da Copa de 2006 no Brasil. Uma bobagem, enfim.

Minha performance agradou em cheio e, na sequência, Marco Antônio Coelho

me fez um convite oficial para tomar parte do Cartão Verde. Me ofereceu o equivalente a dois mil reais/mensais, pouquíssimo em se tratando de televisão. Mas para as minhas aspirações era mais do que suficiente. Afinal, queria muito fazer televisão e o dinheiro era secundário. Nas tratativas com Marco Antonio Coelho, estranhei que fosse acrescido mais um componente à bancada, que já contava com três apresentadores – José Trajano, Juca Kfouri e Flávio Prado. Só então soube que, na verdade, entraria no lugar do Trajano. De bate pronto, me assustei: “Pô, vai tirar o melhor dos três?!”. Coelho então me explicou que a situação era uma manobra temporária para que Trajano pudesse auferir uma indenização extra, de cujo valor ele precisava. Assim que terminasse a quarentena compulsória imposta pelo regimento trabalhista da TV Cultura a funcionários afastados, ele retornaria ao posto no meu lugar.

Lembro que o Cris, zagueiro que jogou no Corinthians, Cruzeiro, Lyon e

Grêmio, foi o convidado do primeiro programa de que participei. Então em começo de carreira, ele estava tão nervoso quanto eu. No dia, tanto Juca Kfouri como Flávio Prado me trataram com distanciamento e eu pouco falei. No domingo seguinte, me senti um intruso, mesmo escalado pelo próprio diretor Marco Antonio Coelho. De fato, ele se mostrou omisso, pois nunca me deu satisfação sobre o convite que não teve pulso para manter.

A partir desse episódio, José Trajano começou a tecer comentários desairosos

contra mim, os quais logo se transformaram numa campanha muito pesada de difamação. Ele certamente encrespou porque achou que eu teria feito picuinha de bastidores a fim de derrubá-lo. Nada mais longe da verdade. Eu o admiro até hoje – considero-o um jornalista completo, culto, intelectualizado, que engrandece o debate esportivo. E logo ele que tinha sido tão gentil comigo e com minha família às vésperas da Copa dos EUA, quando se ofereceu à Lenice, minha esposa, durante um encontro casual em um restaurante, para levar qualquer coisa de que eu precisasse até Dallas, onde eu já me encontrava para a cobertura do evento.

Para falar a verdade, eu não tinha muita ambição de fazer televisão, ou melhor,

me tornar apresentador de programa esportivo não estava no meu horizonte próximo. O meu negócio era rádio, que, para mim, era o máximo das minhas aspirações. Até hoje digo que rádio faço mudo; na tevê ainda sou um coadjuvante nobre, bem conhecido, mas que já soma 15 anos seguidos no ar nas noites de domingo, apresentando programas na Band e na Record. Mas as perspectivas existem só enquanto valem na teoria. Tudo mudou no dia em que recebi um telefonema do Hélio Sileman para um almoço. Na ocasião, ele me convidaria para ser apresentador do SuperTécnico e do Gol – Grande Momento do Futebol, na Band.

A história do convite é curiosa e está vinculada com o projeto Band-Traffic,

um acordo do J. Háwilla com o Johnny Saad, que arrendou a grade esportiva da TV Bandeirantes, a partir de maio de 1999.

O carro-chefe do projeto era o programa SuperTécnico, um formato

revolucionário, repaginado para a atualidade dos anos 2000, em que apenas técnicos de futebol eram convidados, sendo devidamente remunerados (pagava-se dois mil dólares por participação). A questão que restava era saber quem seria o apresentador. No mais, as coisas estavam operando: o projeto estava na rua e os departamentos pessoal e comercial estavam trabalhando a todo o vapor. A cereja do bolo seria decidida em um jantar, no famoso restaurante Rodeio, em São Paulo (um parênteses para mais coincidências: no mesmo restaurante Rodeio e na mesma mesa, assinei dois importantes contratos de publicidade, com a Brahma, em 2004, e com a Sil, em 2000). Na ocasião, estavam reunidos J. Háwilla, Vanderlei Luxemburgo, Candinho, Hélio Sileman e os saudosos Amir Michel Faha e Ruy Pinheiro Brisola Filho. Vanderlei e Candinho eram os técnicos da Seleção Brasileira.

Um dos comensais mencionou que o apresentador poderia ser o Fernando

Vanucci, então ainda na Rede Globo. Ele realmente foi contratado, mas para apresentar a programação de domingo à tarde. Consideravam que Vanucci não sabia improvisar; aventou-se o João Carlos Albuquerque, ele era bom, mas não estava disponível; Wanderley Nogueira, da Jovem Pan, era querido pelo J. Háwilla; o Amir Michel Faha sugeriu meu nome. Ruy Pinheiro Brisola Filho também demonstrou simpatia por mim, mas haveria uma incompatibilidade entre a Bandeirantes, patrocinada pela Brahma, e a Antárctica, para quem eu trabalhava na época.

Háwilla, então, disse gostar de mim, mas achava que eu traria os cacoetes da

rádio, onde se fala o tempo inteiro. Na tevê, o apresentador precisa ser comedido. Na época, eu elogiava muito o Felipão, que rivalizava com o Vanderlei na preferência nacional dos técnicos. Luxemburgo me odiava por isso. Brigamos três vezes quando ainda estava na Jovem Pan; duas delas foram ao vivo. Quando Luxemburgo foi treinador do Santos, também tivemos um entrevero: eu discordava da mudança da numeração das camisas do time que ele havia imposto. Tradicionalmente, no Santos, o goleiro é o número um; o lateral-direito, quatro; o zagueiro-central, dois; lateral-esquerdo três e o quarto-zagueiro, número seis. O Luxemburgo cometeu o sacrilégio de interferir com o sagrado. Brigamos também por outros motivos: por causa da célebre história da manicure de Campinas. Ele me considerava falastrão, briguento, fofoqueiro e começou a falar muito mal de mim durante o jantar.

Segundo Amir Farah, Brisola, braço direiro de Háwilla, sinalizou para o chefe

que Marcos Lázaro, também envolvido no projeto, jantava na mesa ao lado. Lázaro a tudo ouvia, mas continuou a tomar sua sopa, quieto, sem fazer qualquer referência (uma anedota: Marcos Lázaro era o único cliente para quem o falecido Roberto Macedo, dono do Rodeio, concedia o benefício de ser servido de uma sopa na sua churrascaria). Finalmente, J. Háwilla lhe perguntou qual opinião tinha sobre o impasse. No intervalo entre a boca e o prato, enquanto a colher viajava para levar outra porção de sopa, ele decidiu salomonicamente o dilema: “Io só ouço o Milton Neves”. Disse isso num carregado sotaque portunhol. E, com isso, fez-se o silêncio perturbador dos grandes momentos. E a história foi escrita. J. Háwilla, então, emendou na direção de Hélio Sileman, o diretor do projeto: “Liga para o Milton Neves”. E o Luxemburgo, ali, de cara amarrada...

Assim entrei na televisão. O programa durou três anos, o tempo da parceria

entre Háwilla e Saad. Logo antes de o SuperTécnico sair do ar, fui para a Record, contratado para encabeçar a programação esportiva que se iniciava. Fiquei sete anos na emissora, onde apresentei vários programas, entre esportivos, policiais e de variedades. Na televisão, tive uma outra dimensão do significado da relação com o público. Estampado na telinha, literalmente se dá a cara para bater, exposto ao escrutínio de milhões de espectadores.

Verdade que desde muito cedo desenvolvi um contato muito íntimo com o

público, uma interação que precede a internet, quando as vias de contato ficaram muito mais estreitas. Me lembro da minha infância, quando esperava semanas as cartinhas da Tupi chegarem em casa. Essa expectativa do reconhecimento por parte da emissora da existência e da importância de cada ouvinte ou telespectador, em sua individualidade, cultivo desde sempre. E minha presença na tevê só reforçou essa postura.

Nas minhas eventualíssimas participações na Mesa-Redonda da TV Gazeta,

não ia embora sem levar para casa os papeizinhos que os atendentes de telefone, como Cléber Machado – sim, ele mesmo, hoje consagrado narrador esportivo da Rede Globo – me entregavam ao final do programa. Na segunda-feira seguinte, passava a noite telefonando para TODAS as pessoas que haviam contatado o programa. Já na época, os torcedores não acreditavam, pensavam que era trote, mas, ao final, agradeciam demais. Uma dessas pessoas que tive o prazer de me comunicar foi César Sachetto, hoje jornalista do SBT, com quem trabalhei na Rádio Jovem Pan e na Rádio Bandeirantes.

Ainda me lembro do número do telefone de onde fazia as chamadas. Foi meu

primeiro telefone, comprado a duras penas, num plano de expansão da Telesp. Na época, a linha custava uma fortuna: dividi o valor em 36 longas prestações, mas valeu a pena. Ele me deu muita aceitação e credibilidade junto a meu público. O número, me lembro de cor: 645903, instalado na rua Capote Valente, 513, apto 123. Na época, éramos vizinhos de Ciça Guimarães, quando ainda era casada com Paulo César Pereio.

Hoje, ainda que a tecnologia tenha evoluído, e o email, o twitter e o blog

tenham substituído o telefone, a filosofia de respeito a quem me banca o pão de todo o dia ainda é a mesma. Fiz essa digressão toda para reforçar o compromisso que o jornalista, comunicador, publicitário têm com aqueles que o veem e escutam. Essa confiança é a base de todo o trabalho e é o que paga toda a saliva que gastei nesses mais de 45 anos de profissão.

Em 2002, no Terceiro Tempo da TV Record, com o Dr Osmar de Oliveira, Fernando, ex-

volante, e Neto, então muito fora de forma

Em 2000, no SuperTécnico, com Zagallo, Luize Althenhofen e Abel Braga

Meus programas de tevê

 

Canal 100

Em 1994, em parceria da Rede Manchete de Televisão com a Sport Promotion, empresa de marketing esportivo, eu apresentei por cinco meses o Canal 100 na tevê dentro do projeto “A Grande Jogada”, que teve em Osmar Santos um de seus líderes. O Canal 100 entrava no ar de segunda-feira à sábado, às 20h00 em programetes de cinco minutos e, aos domingos, entre 13h00 e 15h00 dentro do “A Grande Jogada”.

As atrações eram transmitidas em rede nacional. Foram programas memoráveis, recebendo ícones da memória esportiva brasileira como Sérgio Cabral, Armando Marques, Romeiro, Flávio Minuano, José Trajano, Écio Capovilla, Luís Pereira, Ademir da Guia, Francisco Horta e muitos outros astros e personagens do futebol de ontem.

 

SuperTécnico

O programa SuperTécnico, na Rede Bandeirantes de Televisão, idealizado pelo executivo esportivo J. Háwilla, marcou época reunindo todo domingo à noite treinadores que foram destaque na semana. Nos três anos de programa, passaram por lá Felipão, Vanderlei Luxemburgo, Abel Braga, Tite, Telê Santana, Joel Santana, Oswaldo de Oliveira, Leão, Rubens Minelli, Zagallo (que deu nome ao estúdio de onde era apresentado o programa) e até treinadores internacionais, como o saudoso Omar Pastoriza, também ex-craque do Independiente e da Seleção da Argentina. Para Carlos Alberto Parreira, o SuperTécnico foi o melhor programa esportivo da história da televisão brasileira. Ele fez escola abolindo os feios e superados “balcões de despachante” das mesas-redondas, introduzindo o bate-papo livre em cenário moderno. O SuperTécnico foi ao ar pela Rede Bandeirantes de Televisão de 1999 a 2001, exatamente o período da feliz parceria Band-Traffic. Nesses três anos, eu pude desfrutar da companhia de Nereide Nogueira, Luize Altenhofen, Bianca Russo e Daniela Freitas. Já Renata Fan, hoje na Bandeirantes, foi revelada pelo Terceiro Tempo e pelo Debate Bola da Rede Record de Televisão.

 

Terceiro Tempo

Pela primeira vez na televisão com este

nome, o Terceiro Tempo estreou na Rede

Record de Televisão no dia 02 de dezembro

de 2001. Nos primeiros seis anos de vida, o

programa sempre liderou em audiência no

segmento esportivo de debates e inovou no

quesito cenário, tornando-se um modelo

para programas similares. O Terceiro Tempo

bateu recordes de resposta comercial e

lançou ou recebeu nomes como Robinho,

Diego, Mascherano, Vágner Love, Daniel Passarela, Kia Joorabchian, Tevez, Kerlon e Rafael Sóbis, que, pela primeira vez, foram vistos ao vivo em rede nacional.

 

Debate Bola

O Debate Bola estreou na Rede Record de Televisão no dia 3 de dezembro de 2001, deixou a grade no dia 21 de fevereiro de 2008, quando voltei para a Bandeirantes. Elel inaugurou uma nova maneira de se discutir e informar o futebol na tevê. Com a entrada de Cacá Rosset – ator, humorista e corintiano –, o programa logo emplacou consagrando o estilo irreverente, calcado no tripé opinião-informação-humor. O Debate Bola teve momentos memoráveis e expressivos índices de audiência, daí sua permanência no ar por mais de seis anos.

 

Roleta Russa

O programa de perguntas e respostas foi ao ar entre outubro de 2002 e outubro de 2003, na Rede Record. A atração, que na época foi líder de audiência da emissora em três ocasiões e por duas vezes chegou a 10 pontos de pico, era baseada em um formato pertencente à Sony Pictures Television Internacional. Consistia num cenário em que os participantes permaneciam sobre um círculo que se abria, simulando o tambor de um revólver, acionado por meio de uma alavanca. O “selecionado” caía em um buraco (com toda a segurança, é claro) de quase dois metros de altura e ficava eliminado da disputa. Na última rodada, o remanescente tinha 60 segundos para responder oito perguntas, podendo “pular” se não soubesse, mas deveria, obrigatoriamente, responder a todas para conquistar o prêmio. Mesmo acertando todas as questões, o candidato ainda deveria acionar a alavanca e torcer para que a luz vermelha não parasse sobre o seu lugar, acionando o mecanismo. O ator, diretor e multimídia Cacá Rosset foi o único a conseguir chegar à última fase, mas não teve sorte com a “alavanca” e acabou ficando sem o prêmio de quinhentos mil reais.

 

Cidade Alerta

Numa emergência, surgida pela saída de José Luiz Datena da Record para a Bandeirantes, eu fui convidado a apresentar o jornal policial Cidade Alerta por quase um semestre, em 2003. Foi nessa ocasião que assinei o melhor contrato da minha vida. A saída do Datena foi mais uma das coincidências a guiar minha vida. Foi uma experiência interessante, mas cruel, já que o programa era barra pesada. Obrigado por contrato a apresentar qualquer programa que a emissora convocasse, atendi ao chamado. Os altos índices de audiência mostraram que foi uma escolha acertada. Nesse período, eu apresentava quatro programas na Record (Roleta Russa, Cidade Alerta, Debate Bola e o Terceiro Tempo), o que levou a emissora a me retirar do Cidade Alerta.

Renata Fan

 

Tanto na Rede Record, como hoje na Band, o Terceiro Tempo era exibido no horário nobre, por volta de 19hs ou 20hs, sempre aos domingos. Cheguei a fazer programas com até três horas de duração. Renata Fan, em início de carreira, gaúcha de beleza ímpar, participava entregado coolers, brindes e atendendo o público, via computador.

Certa vez, participaria do programa um jogador muito badalado, que, na ocasião, estava muito feliz porque sua mulher acabara de dar à luz duas filhas. Por ele ser muito reservado, o assunto não foi discutido no ar. Entretanto, no intervalo do segundo bloco, o tal boleiro se aproximou da bancada onde estava Renata e começou a elogiar a moça.

Ela sempre foi muito gentil e deu-lhe parabéns por ser papai novo e também por causa da sua grande fase nos gramados. Em retribuição, o rapaz mostrou-lhe a foto das recém-nascidas, recebendo de volta os encômios de praxe. Vestindo a pele do lobo, o jogador não se segurou, e mandou uma resposta lasciva: “São lindas sim, mais seriam muito mais bonitas se você fosse a mãe”.

Resultado: Renata se sentiu constrangida, acuada, cantada e simplesmente “sumiu” do programa nos 80% do tempo que restava. Nos outros intervalos, a moça não conseguia conter as lágrimas, borrando toda a maquiagem. O jogador também “murchou”.

Ela passou o resto do programa entregando maquinalmente os vários brindes que distribuíamos, devido ao grande número de patrocinadores : Brahma, Bom Bril, Correios, Sonda, Sucos Camp, Predilecta. No final, ela desabou, correu para o camarim, lavada em choro. Renata mostrou muita dignidade. Não denunciou a xavecada que levou no estúdio. Seria trágico.

Na época, os diretores Mário Quaranta e Edu Zebini levavam dez, às vezes doze, jogadores, que eram distribuídos num semicírculo de cadeiras vermelhas. Havia entre seis ou sete jogadores top, e pagávamos dois mil reais de cachê para cada um. Às vezes, o número de convidados excedia a capacidade do palco, o que nos forçava a adotar um sistema de rodízio. Sempre fui adepto a remunerar os participantes do programa, afinal todos são profissionais. Lamentavelmente, os jogadores brasileiros ainda não cobram. O SuperTécnico, por exemplo, pagava dois mil dólares para cada visitante.

Eu costumava brincar muito com a Renata Fan, “acusando-a” de namorar o Wagner Love ou o Vampeta. Essas troças consagraram o apelido Renata “Love” Fan. Aproveitando o sucesso da brincadeira, eu resolvi estender o rol dos enamorados, e adicionava o Love Fan para outros jogadores, como o zagueiro Fabão, então jogador do Goiás. Durante dois meses, levei à frente a campanha Fabão Love Fan, até que ele acreditou na piada.

E como acreditou.

Num domingo em que ele foi ao Terceiro Tempo, esperando sua vez de entrar no palco, toda vez que a moça aparecia nos monitores das coxias, ele abraçava e beijava o aparelho. E repetia em voz alta: “Ao vivo, no ar, lá dentro, vou pedi-la em casamento”.

Ah, Renata Fan... Eu fui seu pai e técnico. Uma ligação que se perdeu há seis anos. Seu início na TV Record, em 2003, foi pelas minhas mãos e pelas mãos da providência. Como costumo dizer sempre, numa das frases feitas que adoro, “sorte é o encontro da capacidade com a oportunidade”. Pois, no dia seguinte da saída da Daniela Freitas do programa, me aparecem no camarim duas moças: uma loira, alta, esguia e tagarela, e outra, gordinha, esposa de um alto executivo do Unibanco, acompanhadas pelo diretor do Cidade Alerta, Luís Gonzaga Ribeiro. Por iniciativa desta última, elas tinham ido visitar os estúdios.

Na ocasião, eu estava deitado, com um japonês sobre as minhas costas. Mas antes que os maledicentes tirem conclusões precipitadas, o sujeito, um notável massagista, tentava aliviar minha tensão lombar, fruto das horas e horas que ficava em pé para apresentar os programas Terceiro Tempo, Cidade Alerta, Roleta Russa e Debate Bola. Com o esforço repetido, estava me tornando inapelavelmente corcunda! Resultado: ao deparar a moça loira e loquaz, sugeri a Luis Gonzaga Ribeiro e a Edu Zebini, diretor do Debate Bola, hoje na Fox Sports, que fizessem um

teste com ela. Do alto do seu talento, ela

passou com louvor

Fiquei um ano a mais que a Renata na

Record, quando ela trocou a emissora pela

Band. Aliás, quem a colocou na

Bandeirantes fui eu. Na época, começo de

2007, não pude atender o convite de

Marcelo Parada, então diretor de

programação do canal, já que havia recém-

renovado meu contrato com a Record,

amarrado por uma multa pesada imposta

pelo bispo Honorilton Gonçalves. Num

almoço de duas horas, quando apresentei os

motivos da minha recusa, não me cansei de

elogiar Renata Fan.

Marcelo Parada, entretanto, insistia que

programa de debate de futebol com mulher

não daria certo, mas argumentei que a

aquela moça era diferente, pois tinha aprendido muito comigo. Na Record briguei muito por ela, confrontando, inclusive, o Edu Zebini que não lhe dava nenhuma chance. Tanto que, às sextas-feiras, dia de minha folga mensal, quem apresentava o Debate Bola era o Doutor Osmar de Oliveira. Mas eu quebrava lanças, lutava por mais espaço para Renata e até a levei para o Golaço da Rede Mulher. Lá, treinei-a por três anos, quando ela fazia as vezes de apresentadora. Ela saiu-se tão bem na função que dobrou a resistência do Parada.

Para Renata, estendi minha mão e fiz por ela mais do que fiz para os meus filhos.

Falta no Ademir da Guia!

 

Em 1994, estávamos, Julinho Botelho, falecido, Ademir da Guia, Luís Pereira e eu, gravando um programa para o Canal 100, na antiga sede da TV Manchete no bairro do Limão. De repente, em plena gravação, aparece um operador completamente desesperado.

Ele olha para nós quatro e avança direto no peito de Ademir da Guia. Lépido, agressivo, arranca-lhe o microfone da lapela, extraindo com brutalidade também a parte da geringonça que fica nas costas.

No fim, larga Ademir da Guia como se o tivesse recém-assaltado e sai correndo do estúdio. O genial meia do Palmeiras, em plena gravação, falou: “Nossa, que violência”. O problema todo é que, no mesmo horário, estava para entrar no ar um jornal vespertino e não havia microfone disponível para a apresentadora Lídia Andreatta.

A TV Manchete estava tão mal das pernas que não tinha outro microfone para que a moça pudesse apresentar o jornal. Tiveram que arrancá-lo à força de Ademir, que pela primeira vez na carreira sofreu uma falta sentado e na televisão.

E Silvio Luiz gorou o

 

SuperTécnico

 

Era minha “estreia” na tevê. Pela primeira vez comandaria um programa de esportes e, claro, estava nervoso e excitado com a experiência. Ainda me via um pouco cabreiro com tudo aquilo. Afinal, na minha convicção, eu era um homem de rádio. Acreditava piamente que o SuperTécnico não passaria da terceira semana. Até fiz esse comentário para o Rafael, meu filho mais velho, que me acompanhava até os estúdios da Band, onde gravaríamos o programa-piloto. A ideia era marcar a iluminação, a distribuição dos convidados no palco, essas coisas.

Participaram da encenação o Nivaldo Prieto, Mauro Beting, Silvio Luiz e o Rafael (fazendo número porque Oliveira Andrade deu o cano), além deste que vos escreve. No final, o diretor Hélio Sileman pediu para que os “convidados” dissessem algumas palavras de incentivo ao novo programa. Todos foram muito elogiosos, augurando a melhor das expectativas.

Quando chegou a vez do velho narrador, ele armou aquela cara de limão azedo e fez questão de criticar o SuperTécnico com todo o despeito que Deus lhe deu. Disse que aquilo não era novidade nenhuma, ia fracassar, que o modelo já era antiquado e coisa e tal. Um verdadeiro mala sem alça!

Silvio Santos e Felipão

 

Em 2003, Daniela Freitas, que já havia sido minha companheira de palco por mais de dois anos no Super Técnico (sucessora de Nereide Nogueira e de Bianca Russo), foi afastada, pela direção da Rede Record, do cargo de assistente no Terceiro Tempo. A justificativa da emissora foram suas seguidas e públicas separações do ator Alexandre Frota, o que geraria “má mídia”. Também contribuíram os comentários de que ela se relacionara com os jogadores Denílson, então atuando na Espanha, e, principalmente, Diego, à época muito jovem e revelação do Santos. Mas, frise-se, os dois negaram peremptoriamente a história toda, sempre desmentiram o eventual namoro.

Para se ter uma ideia da gravidade dos rumores, em julho de 2003, entre o primeiro e o segundo jogo do Santos contra o Boca Juniors pela final Libertadores, o então goleiro do Peixe, Fábio Costa, entrou no estúdio com o programa prestes a começar, gritando: “Cadê a Daniela Freitas que vou bater nela! Cadê ela?”. Fábio Costa, um pouquinho mais calmo graças à intervenção de sua amiga Helô Campagnollo, explicou todo aquele arroubo devia-se ao comentário que a moça havia feito no ar de que, como corintiana, torceria pelo Boca. E justificou dizendo: “Pô, essa moça arrebentou com a cabeça do Diego. Depois que o menino se apaixonou por ela, ele deixou de jogar e agora ela ainda diz aqui na TV Record que tá torcendo pelo Boca, contra nós e contra o Diego”? E foi direto ao pequeno púlpito onde ficava minha assistente de palco. Chegando lá, deparou-se com Renata Fan. Daniela Freitas tinha deixado a emissora e evitou “ter apanhado”.

Mas, desde dezembro de 2001, Daniela foi fundamental para que o Terceiro Tempo conquistasse o público, ganhando notoriedade entre os programas de esporte com muita audiência e resposta comercial. Esse foi o motivo principal para que o programa tivesse se consolidado na grade da Rede Record, então terceira colocada no Ibope, tornando-se intocável na

emissora por sete anos com robustos índices de audiência, grande retorno de mídia e fortíssima veiculação publicitária.

O início promissor do Terceiro Tempo deu-se,

também, graças à performance notável de Daniela Freitas na noite de 16 de dezembro de 2001, quando nós entramos “em cadeia” com a então bombástica Casa dos Artistas do SBT.

Algum tempo antes, a diretoria do SBT havia

solicitado que Daniela fosse aos estúdios da emissora, em companhia dos familiares dos outros “confinados”, para um longo bate-papo. Honorilton Gonçalves, esperto, não liberou a saída de Daniela, mas permitiu o “encontro” dela com Frota, ao vivo, via Terceiro Tempo. Silvio Santos não teve saída. Concordou, mas limitou o link a “apenas” três minutos.

No dia fatídico, Felipão, então técnico da

Seleção Brasileira, participava do programa,

com Daniela Freitas e demais convidados. Os

tais “três minutos” exigidos pelo “patrão” se

encompridaram por longos 18 minutos de

participação conjunta, o que arrebatou o

primeiro lugar da Globo durante o período,

somados os números de SBT e Record.

Para “esticar” o papo e o encontro no ar de

Daniela e Frota, eu demorava uma eternidade

para fazer as perguntas ou emitir opinião. Em

contrapartida, Silvio Santos, macaco velho que é, sacou na hora o estratagema e exclamava a todo momento na sua voz inconfundível: “Miltaaam, Miltaaaaamm”. Foi engraçado e maravilhoso. Mas o melhor foi quando, quase no final, para aproveitar mais ainda o momento tão especial, pedi ao Felipão (vestido de Samurai, devido à proximidade da Copa de 2002) que fizesse uma pergunta ao Silvio. E não é que o Felipão relutou e refugou, acreditando ser uma das “pegadinhas” tão populares na época? Instado a participar, Felipão bufava no seu gauches de fronteira: “Pffffff, pegadinha para cima de mim, não!”. Ele acreditou que o link inédito e histórico era ficção!

Com Felipão, no SuperTécnico, em 2001. A bola de cristal, nas mãos de Milton Neves, foi

presente do técnico, então à frente do Cruzeiro, devido às previsões do jornalista sobre

seu futuro na Seleção Brasileira. Um ano depois, o vaticínio se realizou. No destaque, o

link direto do Terceiro Tempo com o programa Sílvio Santos

Com as netas Giulia Beatriz e Maria Beatriz