Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 12 de 22

Páginas do PDF

Milton Neves: uma biografia

São Paulo

São

Paulo

 

P ois, como todos os passos importantes que dei na vida, minha ida para São Paulo começou com uma coincidência. A pressão estava grande em casa. Depois da minha estada malfadada em Curitiba, onde passei fome e frio, minha vagabundagem se tornara quase insuportável. Nem eu mesmo me aguentava mais. Terminado o carnaval, a moçada toda se tocava dali e Muzambinho entrava numa pasmaceira maior do que o usual. Somente eu permanecia lá, coçando, com o perdão do linguajar.

E ainda tinha a pachorra de reclamar! Vejam só: eu costumava filar o Estadão,

companheiro véio de vadiagem, no Bar Avenida, de propriedade de Euclides Carli, que nas horas vagas trilava o apito como árbitro das pelejas locais. Num belo dia, em vez do diário de praxe, repousava sobre o balcão o rival, a Folha de S. Paulo. Mas que coincidência, vejam só. Folheando o jornal, deparei um anúncio de fundo preto, onde estava escrito “Supero (Sociedade Unificada Paulista de Ensino Renovado Objetivo) torne-se jornalista”. Aquilo acendeu uma luz de eureka. Por que não? Juntava o útil ao agradável: uma carreira que me apetecia, ao mesmo tempo em que dava uma satisfação geral. O problema, claro, era o cascalho. Viagem cara, curso caro, cidade cara. E, claro, as despesas pesariam na cacunda da pobre da Madrinha. Mas ela não se fez de rogada: das tripas fez coração, juntou o dinheirinho suado e me mandou para a Pauliceia. E vou ser honesto: só passei na prova porque havia duzentas vagas e naquele tempo não tinha tanta procura.

Cheguei em São Paulo em abril de 1972, a bordo do glorioso ônibus da

Expresso José Orrico, a única empresa que fazia a linha Muzambinho-São Paulo, via Caconde. Demorava uma vida para chegar. Quando chovia, o trajeto levava duas vidas. Não era incomum o busão empacar na estrada de terra enlameada. E toca descerem os passageiros até que se desatolasse o veículo. Uma lástima.

Com 21 anos, São Paulo não era de todo desconhecida para mim. De criança,

costumava frequentar um oftalmologista em Campinas, o Dr. Maiz, e, às vezes, passava alguns dias na casa de uma tia, localizada na alameda Olga, perto do Largo Padre Péricles, na Barra Funda. Era uma casa modesta que ficava apinhada com a presença dos Neves: meu irmão, meus primos, minhas tias que se desabalavam do interior. Me lembro que dormia mal para burro graças à fábrica de violão Gianinni, vizinha, a batucar o maquinário das cinco da matina até à meia-noite.

Mas São Paulo tinha seus muitos atrativos para um menino caipira e amante do

futebol: de manhã cedinho, já encontrava A Gazeta Esportiva na banca do bairro. Em Muzambinho, o jornal só chegava no final da tarde, cheio de notícia velha. Também, pertinho de lá, ficava a pastelaria do Cheng: ele servia um trem enorme, que nunca tinha visto igual - um pastel gigantesco com três ovos dentro! Gostava também de comprar as peras e maçãs argentinas, envolvidas naquele papel-cartão roxo, suculentas, de cores vivas, baratinhas... Uma delícia!

No entanto, meu reencontro com São Paulo foi bem menos doce. Duro de

tudo, meu bolso (ou melhor, o bolso da Madrinha) só conseguia bancar o teto modestíssimo da “República dos Muzambas”. Ali, gramavam a dureza doze jovens egressos do Sul mineiro, inclusive alguns muzambinhenses clássicos, como Marino Campedelli, cuja família é notória e notável por ter levado Getúlio Vargas a visitar a cidade, em 1953. Hoje já falecido, ele era primo-sobrinho de nosso conterrâneo, Dom Fernando Figueiredo, bispo de Santo Amaro. Apiedado da minha condição, Campedelli me presenteou com uma camisa florida, uma das únicas a ornar meu guarda-roupa.

Foi uma época terrível. A república ocupava um prédio grande e velho na

esquina da rua Pamplona com a alameda Jaú. A boia de todo o dia, o famoso PF, batalhava num bar de operários, mas a comida era ruim e fria. Para enganar a fome, passei a comprar miojo, tomate e arroz; misturava a gororoba sozinho e mandava ver. Odiava tudo isso. Passava mal. Para piorar, as festas duravam a noite toda, abarcando a então proscrita comunidade gay de São Paulo e com muitos travestis, adorados por meus companheiros, mas evitados por mim. Nada contra a bagunça alheia nem a opção sexual do próximo. Podia ser um coral de freiras. Mas o barulho era um inferno para quem madrugava como eu. E tinha mais: apesar da colaboração de todos, o dono da república, Dalton Gaspar, dava sumiço na grana.

A energia foi cortada várias vezes. Sobrevivíamos na base das gambiarras engendradas pela astúcia de Marco Aurélio Rondinelli de Oliveira, irmão de meu amigo jornalista Wellington de Oliveira. Não durei mais que seis meses na República dos Muzambas.

Na sequência, me mudei para um lugar menos pior. Ficava na rua Alfredo

Ellis, 185, perto do Viaduto Treze de Maio, na Bela Vista. Lá moravam estudantes que podiam dispensar uma graninha a mais: mas, veja bem, a diferença era pouca. Da minha parte, eu “habitava” num porão reformado, e dividia meu “latifúndio” com cinco japoneses de Marília. Compartilhávamos dois beliches de três lugares. Para meu “gáudio”, coube-me a cama do meio, o que me obrigava a ensanduichar-me entre os orientais. Enfim, estava no pior dos mundos. Os japoneses estudavam a noite inteira. Eu me levantava às 6h30. Em Minas, temos um ditado muito chulo que vou me eximir de repetir aqui. Trocando em miúdos, ele diz mais ou menos assim: nada é tão ruim que não possa piorar. Pois, a pensão dispunha de apenas um banheiro para ser compartilhado por cerca de setenta pessoas. A fila começava às seis da matina e o tempo de uso por pessoa não podia ultrapassar os cinco minutos – sanitário e chuveiro inclusos. Um ano depois, fui promovido para a parte de cima da república, onde fiquei mais um tempo. Depois dessas privações, posso dizer que Deus faz direitinho as coisas, para que você vá sofrendo aos poucos, mas vai avançando.

Enfim, em junho de 1972, entrei no Objetivo. Mas logo o dinheiro acabou:

minha tia não aguentou arcar com a faculdade, a moradia e o rango. A pobrezinha só podia bancar metade da despesa. Resultado, me vi forçadamente jubilado por falta de fundos. Uma porteira japonesa, com emanações de autoritarismo, mas muito educada, não me deixava entrar no prédio do Objetivo. Fiquei um mês nessa, dando com a cara na porta. A saída seria arrumar uma bolsa de estudos. Mas o Di Gênio, dono do império, era empedernido... Ruim de abrir a mão.

Foi necessário um estratagema, urdido por meus colegas, para convencer o

homem a me deixar estudar de graça. Em mais outra grande coincidência, esse ardil me levou até a Jovem Pan, a rádio que impulsionou minha carreira, onde permaneci por 33 anos e onde eu aprendi a ser jornalista e publicitário. E vou ser sincero: a história de como cheguei lá é de pouca glória, aliás, como o são quase todos os começos.

Tratou-se, na verdade, de um golpe de sorte – e com uma pitada de

comicidade; isso olhando agora, em retrospectiva. Na época, a tragédia era o vaticínio mais certeiro. Um detalhe se interpôs que fez pender o fio da navalha longe do meu pescoço. Vejam como aconteceu.

Em dois meses de existência, a Faculdade Objetivo já contava com algumas

cabines de rádio para o curso de Comunicação. Lá me destaquei como pioneiro. Na visão de hoje, em que a Internet varre impérios, pode parecer uma coisa bem precária aquelas salinhas de rádio... mas havia também estúdios de televisão. Na mais deslavada vontade de ter o microfone sempre à minha frente, eu participava dos simulados radiofônicos e também fazia telejornal. Os colegas viram que eu levava jeito para a coisa, perceberam que eu era bom. E, por isso, ficaram ainda mais penalizados de minha condição financeira, que impedia o prosseguimento dos estudos. Não quero me fanatizar com essa ideia, mas é impossível fugir dela: as danações pecuniárias para continuar frequentando a faculdade Objetivo foram pacificadas pela história de uma insistência...

Devo essa a gente como Ricardo Carvalho, o Ricardão, meu colega de curso,

grande jornalista e publicitário. Ricardo realizou campanhas eleitorais e foi comentarista político da TV Gazeta. É irmão do falecido Agnaldo de Carvalho, ex-deputado, líder da Assembleia durante o governo Laudo Natel.

Enfim, Ricardo Carvalho, Paulo Rachid Saab e mais alguns colegas, como o

Bahia e o Marco Antonio, hoje cantor no Lellis Tratoria da rua Bela Cintra, decidiram ir para o estacionamento da Gazeta esperar o Big Boss Di Gênio em frente da sua caranga. O plano era pressioná-lo, ou melhor, implorar-lhe uma bolsa para este caipira que vos escreve, sem eira nem beira nem lugar para cair morto. Uma informação para a história: o responsável pelo estacionamento chamava-se Sérgio Felipe dos Santos, atual presidente da Fundação Cásper Líbero.

O pessoal ficou na garagem por cerca de quarenta minutos. De repente chega

ronronando o carro de Di Gênio, uma bela Mercedes. Eu, caipira acanhado, metido na minha timidez de recém-chegado, não cheguei nem perto do automóvel. Afinal, vejam vocês, Di Gênio já era uma lenda. Mas o Ricardo Carvalho tomou a frente da situação: me apresentou como o menino que veio de Muzambinho, aquela lenga-lenga emotiva.

João Carlos Di Gênio, ofegantemente apressado, avisou que não montara “uma

faculdade para presentear a todos com bolsas de estudo”. Irritou-se, já que todos “me procuravam apenas para pedir favores”. E, ato contínuo, num olhar ciclópico, desabalou-se pela na porta do elevador, dizendo algo como se continuasse “a ajudar a todos ia acabar quebrando”.

Foi então que recaiu o braço da providência e, talvez, um laivo de

arrependimento por tanta rispidez. A porta do elevador já estava semisserrada, quando um esbaforido e atrasado professor vinha resfolegando ao longe a fim de sensibilizar o ascensorista de sua má fortuna. O homem interrompeu o curso do tempo e segurou a porta aberta. Nesse ínterim, Di Gênio tirou a cabeça de lado e asseverou, se dirigindo à minha pessoa: “Grandão, agora é com você. Vai então até a Rádio Jovem Pan e procura Fernando Vieira de Mello e lhe diga que fui eu quem te mandei”.

No Detran, em 1973, “catando milho” na máquina. Sobre a mesa, o extinto Jornal da

Tarde anunciando um rumoroso caso de sequestro, fato raro naquele tempo

No prédio do Detran, no Ibirapuera, admirando a metrópole que ainda o assustava