Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 16 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Detran

 

E m 1976, me vi obrigado a acrescentar outra jornada de trabalho na minha rotina para salvar um apartamento, meu primeiro, de apenas dois quartos, que eu comprara como mutuário do BNH, com financiamento de quinze anos pelo Banco Itaú. Um belo dia, a prestação que custava X passou a valer 10X, me pegando, literalmente, de calça curta. Para salvar minha pele, prestei concurso na polícia e após o curso na Acadameia fui colocado no Detran, onde já dava expediente como setorista da Jovem Pan. O funcionalismo público me salvou da concordata.

No Detran, primeiro fui alocado na Corregedoria, depois me recrutaram para a recém-criada DEAT (Delegacia Especializada de Acidentes de Trânsito), a menina dos olhos do Delegado Walter de Moraes Machado Suppo, cunhado de Laudo Natel. Mais tarde, devido à minha expertise na imprensa, fiz assessoria para vários delegados. Terminei meus dias de funcionário na TV Assembleia, doando meu salário para a AACD, APAE e Fundação Gol de Letra.

Nos meus primeiros anos de Detran, trabalhava mais que relógio de corda. Ralava por demais atrás das indefectíveis mesas de fórmica, suando o couro como escrivão. Foi um período muito duro, porque quase não tinha tempo para a família. Mas, mesmo assim, guardo muito carinho dessa época: são muitas histórias saborosas, muita gente boa com quem dividi as glórias e as agruras do escrivanato. Na época, o emprego público servia de tábua de salvação para aqueles que se deambularam em carreiras economicamente menos agraciadadas – jornalistas e artistas – cujo reconhecimento financeiro mostrava-se parco e instável. Para se ter uma ideia, o ator Norival Rizzo, hoje na Rede Globo, compartilhou comigo o tec-tec das Remingtons.

Me lembro de muitos colegas de repartição: Baptista Médici Carpigiani, Laerte Pereira da Silva, Alan, corintiano roxo, João Carlos de Oliveira, Palmiro Olivastro, Osmar Venâncio da Silva... tantos outros. O escrivão-chefe na minha época de corregedoria chamava-se Oswaldo Passini. Brandia uma severidade draconiana com o horário. O expediente começava pontualmente às 9h e, na Pan, me escalavam para informar o último boletim de trânsito cinco minutos antes. Era um tormento constante, pois bastavam dois minutos de atraso para ele chiar.

Na hora do almoço, me submetia à mesma correira: o Jornal de Esportes começava 12:15h, e, eu, sempre esbaforido. Não havia tempo nem para me dar conta dos flertes das moças, o que chegou a depreciar um pouco minha fama, se é que vocês entendem...

Sorte que eu contava com a complacência dos operadores – principalmente de Chico Vieira – que me permitiam gravar com antecedência o boletim de trânsito de meio de tarde, evitando, assim, que precisasse pendurar o paletó para entrar ao vivo. Imaginem só, nos dias de hoje, apresentar um boletim de trânsito gravado!

Dentre os meus cargos no Detran, acho que o mais estimulante foi na DEAT, quando tive o privilégio de ser chefiado pelo delegado Mauricio Henrique Guimaraes Pereira. Em vista da verdade histórica, preciso tecer um reconhecimento público a ele. Dentre os anônimos que fizeram o mundo evoluir, por meio do engenho, da criatividade e da pertinácia, Dr. Maurício é, sem dúvida, um deles. Se hoje o serviço de investigação policial conta com esse instrumento louvável da denúncia anônima, sua criação e implementação foram devido à coragem do delegado. Na época, vivíamos em plena ditadura, ou seja, uma medida como essa, baseada na delação, podia levar a reações raivosas, estimuladas pelo histórico de arbítrio do regime.

De fato, ele foi muito patrulhado. Quando pôs em prática o sistema de denúncia – que vale lembrar tinha como objetivo incrementar a taxa de elucidação dos autores de atropelamentos, a partir de um programa desenvolvido no Japão – a imprensa caiu de pau em cima dele. Dr. Maurício rebatia as críticas com argumentos muito racionais. Dizia que as técnicas disponíveis eram precárias; normalmente o que se fazia era uma comparação cromática da tinta deixada na vítima após a colisão com a do carro suspeito. Ocorre que era necessário encontrar o carro antes, incumbência de uma equipe de apenas 20 investigadores que percorriam as oficinas em busca do “fujão”.

Lembro que a Folha de S. Paulo destacou um repórter para entrevistá-lo a respeito da medida. Era um sujeito encorpado, irmão do zagueiro Polaco, que se destacou no Corinthians e no Palmeiras. Já vinha com a pauta preparada, pronto para esgrimir o mantra do denuncismo. Dr. Maurício dobrou o jornalista. Mostrou que a intenção não era nefasta nem autoritária; tratava-se apenas de uma medida eficaz de segurança pública. Ele se fez tão persuasivo que a matéria caiu.

Dr. Maurício fumava quatro maços de cigarro por dia. O delegado-geral da Polícia Civil, Dr. Romeu Tuma, não ia com sua cara. Por isso, o comissionou para chefiar a DEAT, uma delegacia menor na hierarquia da instituição. Dr. Maurício tinha certeza de que o superior o grampeava, mesmo em seu escritório. Quando falava ao telefone, ele sempre dava um jeito de achincalhar o chefe. Ao telefonar para a esposa, acrescentava maledicências ao diálogo conjugal: “Oi, bem, vou chegar atrasado hoje para o jantar e o filho da puta do Tuma tá me grampeando”. Ele também era odiado na própria polícia: sua honestidade era rascante e incomodava os mal intencionados. Ainda assim, no topo da carreira, se tornou Delegado Geral e, hoje, seu nome orna uma sala na DGP, o Vaticano da Polícia Civil.

Conheci outros grandes delegados para quem fiz assessoria, no final dos anos 80: Dr. Cyro Vidal Soares da Silva, Dr. Francisco Guimaraes do Nascimento, Dr. Homero Honório Ferreira e Dr. Abrão José Kfouri Filho. Em 2002, antes de ser transferido para a TV Assembleia, fui durante 28 dias comissionado novamente no Detran para cumprir uma exigência legal. Lá, trabalhei com o Dr. Francisco Leigo e Mario Gobbi Filho. Jocoso como de costume, o atual presidente do Corinthians condicionou minha presença na corporação se eu repetisse ad eternum a frase que eu cunhara anos antes, e que se tornou mote para os milhares de adesivos que distribuí: “Corinthians, nada é mais bonito!”.

Terminei meus dias de funcionalismo público na TV Assembleia, após uma passagem pela Secretaria de Esportes e Turismo. Quem me fez o convite foi o deputado Paulo Kobayashi, que tinha sido meu professor no Objetivo. Lá apresentei o Jornal da Assembleia e o Tribuna do Esporte, que, aliás, entrava no ar no mesmo horário do Terceiro Tempo, da TV Record, que eu também apresentava. Vejam que situação cômica essa da onipresença: apesar do bom Ibope carreado pelo Terceiro Tempo, recebia constantes reclamações do bispo Honorilton, uma vez que o Tribuna roubava minha própria audiência!

Na TV Assembleia, cumpri os últimos anos necessários para minha aposentadoria. Para falar a verdade, um dos motivos que me fez aceitar o convite de Paulo Kobayashi foi a possibilidade de se completar o tempo regulamentar de serviço público para que me fosse concedido o direito sagrado a todo o trabalhador brasileiro. Afinal, só faltavam dois anos... Era uma verdadeira questão de honra que resgatava a dureza da minha vida pregressa.

De certa forma, a aposentadoria significava o sucesso da minha trajetória. Não era do dinheiro, portanto, que eu estava atrás; afinal, ainda que tivesse me retirado com 75% do salário, o valor ao qual tinha direito não passava de uma quirera, como costuma acontecer com a esmagadora maioria das aposentadorias no Brasil (tirante os privilegiados de sempre). Foi uma espécie de orgulho que me moveu a completar o círculo: orgulho de ter vencido. Olhando para trás 40 anos, em Muzambinho, com as perspectivas que se me apresentavam na época, ainda que não precisasse, por dinheiro, cumprir meu tempo de serviço na área pública, eu devia para mim mesmo e para os que me acompanharam desde sempre aquele exercício de humildade: dar valor ao trabalho árduo e não desprezar o que se ganha com o suor. Tanto é que, repito, doo integralmente o montante da pensão para a Casa de Atendimento do Muzambinhense com Câncer, prestes a completar dez anos de existência.

Em 1976, na corregedoria do Detran, em pleno escrivanato, suando sobre a mesa de

fórmica. Reparem na camisa florida, presente mais uma vez

Em 1984, com Wanderley Nogueira (à esquerda) e José Silvério, e suas respectivas

filhas, no Troféu Bola de Ouro, Rio de Janeiro