Milton Neves: uma biografia
Macabídas
Macabíadas
A s Macabíadas são uma reunião esportivo-religiosa. Têm um pretexto esportivo, mas seu fundo é espiritual. Um congraçamento judaico que se divide no evento pan-americano e no encontro mundial. Cobri as competições em Tel Aviv e Jerusalém, em 1985, 1989 e 1993.
Na primeira das edições, minha presença estava meio incerta: não sabia se eu
seria liberado para viajar. Afinal, apesar de três anos à frente do Terceiro Tempo, eu não granjeara ainda grande sucesso na Jovem Pan. Muitos ouvintes já faziam parte da minha carteira de fregueses, mas nas convicções e respeitabilidades da casa, eu ainda era uma faca das boas, porém sem muito gume (aos olhos deles, é claro...).
O busílis é que não havia muita possibilidade com o ‘seu’ Tuta. O “Cabeça de
Manga”, como era chamado amorosamente pelos mais próximos convivas, sempre foi um cara que manteve distância olímpica da maioria de seus funcionários. Vamos e convenhamos: ele tinha um certo relacionamento, soltava sorrisos, frases de efeito muito inteligentes. Ficava em pé o tempo todo na rádio. Tuta, como todo chefe, tem seus privilegiados. Eu era um coadjuvante, talvez um bom coadjuvante, sem grife, porém.
Numa tarde, saí do Detran onde era assessor de Imprensa e, a pedido de
Francesco Giuliano, me dirigi à rádio. Ele comunicou a sugestão de Marcos Arbaitman de me levar para Israel. A comitiva dos jornalistas brasileiros estava escalada com Paulo Adário, do Jornal do Brasil; Mário Marinho, editor de esportes do Jornal da Tarde; Fran Augusti, editor de esportes do Estadão; Samuel Ferro, da Rádio Bandeirantes; Osmar Santos, da Rádio Globo e eu, representando a Jovem Pan.
Antes de tudo, precisava da liberação dos chefões. Cheguei lá por volta das
18h, mas não fui até o aquário do Fernando Vieira de Mello, nem à redação e, muito menos, à sala do ‘seu’ Tuta, onde dificilmente eu entrava. Em vez disso, me dirigi a uma das mesas do Departamento Comercial. No local confabulavam Tuta, Fernando Vieira de Mello e Realy Junior. Eu, inexperiente, queria realmente viajar. Foi a segunda vez que interrompi tertúlia alheia. Os três estavam conversando, quando, abruptamente, me meti no meio: “‘Seu’ Tuta, me desculpe, mas é o seguinte. Fui convidado e confirmado para ir às Macabíadas”. O dono da Jovem Pan não olhou para mim. Quando um assunto não lhe interessava, Tuta sempre lançava mão da expressão “vamo ver, vamo ver”, que valia o mesmo do que um solene “NÃO”.
Ele não disse mais nada. Ficou olhando para o lado, fingindo que a coisa não
lhe dizia respeito. Insisti que seria interessante viajar. Afinal, nunca havia saído de São Paulo, não tinha passaporte, etc. Nada adiantou: o patrão permaneceu quieto naqueles segundos demoradíssimos.
Da minha parte, estava nervoso. Fernando Vieira de Mello também não dizia
nada. A decisão estava na mão do dono da rádio. Tuta permanecia inflexível. Ele seguia com uma má vontade danada, sem me dar atenção nenhuma. Mas ali estava Realy Junior, com sua sensibilidade fantástica. Devo muito a ele. Ele é um ponto flamejante na minha trajetória de vida. Passados alguns segundos, Realy Junior fala pra mim: “Você vai para Israel, parabéns. Eu e minha mulher passamos sempre as férias na Europa, na Iugoslávia. Mas estou louco para conhecer Israel. Tel Aviv, Jerusalém, Jericó, Massada, Muro das Lamentações...”.
Depois da homilia do Realy, arguto que só ele, Tuta declarou em tom
contrariado: “Pode ir, pode ir, mas você vai ter que tirar férias, viu? E vê se vende patrocínio”. Agradeci com muitos salamaleques, ainda que sob aquela draconiana condição de tirar férias para ir trabalhar. E ainda por cima com a incumbência de vender anúncio. O que fiz, e com muita propriedade. Afinal, convenci um árabe, o Adhmar Zacharias, a patrocinar um evento em Israel. Haja ecumenismo!
Enfim, vendi o patrocínio, tirei férias e não recebi nenhuma outra verba. Tudo
pela enorme vontade de ir para o exterior. No dia de embarcar, a Rádio Jovem Pan não me levou ao aeroporto. Eu fui no Opala preto do Dr. Cyro Vidal Soares da Silva, diretor do Detran, de quem recebera uma folga autorizada em troca do excesso de horas trabalhadas.
Na época, eu não tinha nem passaporte. O grande Badeco (Ivan de Oliveira),
volante da Portuguesa, Fluminense e Corinthians, trabalhava no setor de expediçãoda Polícia Federal. Hoje ele é delegado aposentado da Polícia Federal. Graças ao Badeco, pude viajar para as Macabíadas, já que ele adiantou a expedição do documento em 48 horas.
No aeroporto, uns meninos, filhos de diretores e atletas da Hebraica, me
reconheceram da televisão (fazia o Mesa-Redonda, da TV Gazeta) e, muito gentis, se ofereceram para fazer o check in em meu lugar. Fingi ser um cara experiente, mas não fosse o cicerone da moçadinha perderia o voo, pois nem sabia como embarcar. Entrei no avião da TAP muito nervoso. Comecei a me sentir mal por causa de minha mãe, que estava internada num hospital em Poços de Caldas. Mamãe estava entre a vida e a morte. Quando visitei o Muro das Lamentações, coloquei nas frinchas das pedras milenares um papelzinho pedindo saúde para ela. Os deuses devem ter me escutado, pois ela viveu ainda dez anos após minha viagem. Ainda na aeronave, recebi o apoio incomensurável de Giba Stein, dono da rede Babilândia, que não existe mais. Chegou com sua careca lustrosa, alegre, feliz, trazendo a tiracolo um médico que ministrou um sossega-leão que me derrubou até Lisboa, onde fizemos escala.
No início das Macabíadas, a Jovem Pan comportou-se com desdém, inclusive
em relação a horários. Eu tinha direito de falar durante um minuto no Jornal da Manhã, que, na época, como atualmente, era o principal noticioso da emissora. Sem dúvida, um excelente noticiário criado por Fernando Vieira de Mello. Foi o primeiro grande jornal do rádio brasileiro de integração nacional no período da manhã. Em 1985, era apresentado por Marco Antônio, Antônio Alexandre, Franco Neto, Antônio Del Fiol, todos grandes locutores.
Mas, enfim, falar de Tel Aviv com São Paulo, nos idos de 1980, era uma
dificuldade danada. Naquele tempo, no Brasil, a conexão demoradíssima dava-se via Collect Call, Ligação Internacional a Cobrar. Uma verdadeira tragédia. Os boletins eram curtinhos, já que, convenhamos, a relevância do assunto era pequena. Mas depois de três ou quatro dias, chegou um recado do José Carlos Pereira, o diretor de jornalismo da Jovem Pan: “Pode falar dois minutos de manhã e três à tarde, no Jornal de Esportes”.
É preciso dizer que nas Macabíadas, os resultados do atletismo e da natação
eram pífios comparados aos das competições principais, ainda que houvesse personagens importantes, como o célebre nadador americano Mark Spitz, que conduziu a pira olímpica no estádio de Ramat Gan, na abertura da competição. Só que o evento agitou a comunidade judaica de São Paulo. Os donos de bancos, indústrias, comércio curtiam aquilo ali porque seus filhos e netos participavam das disputas. O Salomão Schvartzman, então na TV Manchete, ligava com frequência para o Fernando Vieira de Mello querendo saber o resultado dos jogos. Resultado: passei a falar um tempão na programação.
Agora estava com moral na rádio, agradando em cheio uma bela fatia do PIB
brasileiro com meus boletins. Até que José Carlos Pereira veio ao telefone: “Negão, você não está mais de férias, mas vou te mandar mil dólares. Fica na Europa por mais um tempo, não tem problema não”. Na verdade, ele estava com medo que eu seguisse José Silvério e trocasse a Pan pela Bandeirantes.
Com o ex-presidente Lula, nas Macabíadas de 1993
Massada
Massada é um imponente planalto escarpado, localizado a Oeste do Mar Morto. Ergue-se cerca de 400 metros para cima da planície que o circunda. O platô tem cerca de 600 metros de comprimento e 300 metros de largura.
Massada tem uma importância particular para os judeus, e sua história remonta a 150 a.C, quando lá se construiu uma fortaleza, que foi reforçada, anos depois, pelo rei Herodes. Além da muralha militar, o rei, muito vaidoso, fez erigir dois palácios luxuosos, plantou uma horta e edificou depósitos de armas e duas cisternas, com capacidade para mais de 40 milhões de litros, incrustadas na pedra, com o objetivo de recolher as águas pluviais.
Após a morte de Herodes, Massada foi deixada sob a proteção de legionários romanos. Em 66 d.C, em meio à rebelião judaica contra Roma, um grupo de rebeldes – os sicários (ou zelotes) –, contrário ao domínio romano, invadiu o platô, assassinou os soldados e tomou a fortaleza. Com a destruição de Jerusalém pelos romanos (em 70 d.C), outros sobreviventes se refugiaram em Massada. Após a tomada completa de Jerusalém, a montanha sobreviveu como o último bastião da resistência judaica. E para lá foram envidados todos os esforços de guerra dos invasores, representados pela Décima Legião, comandada pelo novo procurador Flávio Silva.
Segundo a crônica do historiador contemporâneo Flavio Josefo, única fonte disponível sobre aqueles eventos, o cerco romano à fortaleza foi renhido e brutal, logrando vencer as linhas de defesa dos judeus através de uma engenhosa estratégia bélica. A sobrevivência dos judeus só foi possível graças à sofisticação da estrutura deixada por Herodes, com a cisterna, o depósito de armas e os silos para mantimentos.
No último dia de cerco, em 73 d. C, após dizimada a resistência local, em vez de os romanos investirem no derradeiro e definitivo assédio, resolveram tornar à base da montanha para descansar. Durante a noite, Eleazar Ben Jair, o líder dos sicários, persuadiu seus compatriotas a matarem-se uns aos outros (o judaísmo condena o suicídio), em vez de morrerem sob o jugo inimigo ou se tornarem seus escravos. Os 960 judeus restantes decidiram pôr fim à própria vida e destruir a cidade antes da retomada do ataque.
Atualmente, Israel homenageia o ideal que guiou a atitude de seus antepassados no hino nacional, em cuja letra se lê: “Viver em liberdade na terra de Sião e Jerusalém”.
Baixou o santo no Nilson Cesar
Na Copa dos EUA, em 1994, nossa sede era
em Dallas, onde se alojavam delegações de várias emissoras brasileira. Na ocasião, dividia o quarto com Nilson Cesar, até hoje narrador da Jovem Pan. A cobertura do evento foi uma loucura:
trabalhávamos 18 horas por dia no Centro de
Imprensa.
Uma noite, cheguei no meia-boca Grand
Dallas Hotel cansadíssimo. Encontrei meu
companheiro de quarto já na cama, assistindo à tevê. Fui direto tomar banho e saí do banheiro enrolado na toalha. Qual não foi minha surpresa quando sou recebido à porta pelo narrador em pé, com as duas mãos para a frente, olhos vidrados como um sonâmbulo de filme de comédia,
repetindo “Zifio, zifio, zifio, o amor, o amor, o amor...” Tomei um susto terrível e saí do quarto assustadíssimo, quase “au naturel”, não fosse o pedaço de pano cobrindo as minhas vergonhas.
Branco como vela, comecei a esmurrar a porta do quarto da frente, onde estavam hospedados o repórter Luis Carlos Quartarollo e o operador Luís Carlos Pereira, o Luisão. Quando me dou conta, Nilson Cesar estava atrás de mim, naquela espécie de transe: “Zifio, zifio, zifio”. Para piorar, na correria, a toalha foi ao chão.
Imagina a cara do Quartarollo quando abriu a porta de seu quarto e me viu nu no corredor, e o Nilson Cesar, lá, possuído, atrás de mim, gemendo seu mantra: “Zifio, Zifio”. De tão assustado que fiquei, na mesma hora juntei meu farnel e com meu inglês macarrônico exigi na recepção “change my room”. Mediante uma imódica taxa, consegui um quarto pequeno só para mim e o Nilson com seu santo baixado ficou sozinho naquele quartão.
Com o narrador da Jovem Pan, Nilson César, em frente ao Centro de Imprensa de
Grotta Rossa da Rai, em Roma, durante a Copa do Mundo da Itália, em 1994. Na Itália,
Nilson não entrou em transe
Com sua cartolinha verde e amarela na mesa de som na rádio Bandeirantes