Milton Neves: uma biografia
O futebol na minha infância
O futebol
na minha infância
N ão posso separar minha infância do futebol. Aliás, minha vida se fez falando de bola. É verdade que, como todo o garoto, sonhava ser jogador. Mas muito cedo descobri que não tinha habilidade nenhuma. Se nos campos era uma negação, ao menos podia fantasiar o futebol que chegava até mim pelas ondas do rádio, um rádio gaiola que pertencia à “vó” Beatriz. Minha primeira lembrança do som de um jogo de futebol é de uma partida do Santos – vejam só que coincidência... Será a memória seletiva? E afirmo que todo episódio foi meio acidental, quer dizer, foi de passagem que escutei os balbucios acelerados saindo daquela caixa mágica. Devia contar uns sete anos, pois vinha de chegar em casa, direto do Grupo Escolar Cesário Coimbra.
Na casa em que morávamos, como era costume em todo o interior do Brasil,
havia um quarto dedicado ao aparelho de rádio – no nosso caso, chamávamos de Sala do Rádio, numa reverência de altar. Funcionava como uma espécie de praça de coreto, em que o lugar altaneiro era ocupado pelo objeto de desejo, e em torno do qual se dispunham algumas cadeiras para o povo se sentar enquanto escutava as transmissões. Embora fosse bem mais acessível do que a tevê – raríssima na década de 50 –, para as famílias remediadas, a aquisição do rádio também exigia certa ginástica financeira.
Anos mais tarde, já adolescente, enchi a paciência de minha tia para que me
comprasse um rádio GE, envolto numa capa de couro cor de café com leite, que namorava diariamente na vitrine da loja do Mazzili. Seria a forra contra meu primo Luis Carlos, corintiano doente, que não me deixava escutar seu rádio, um potente Pionneer (que, em Muzambinho, pronunciávamos como se lê “pionéer”, com o erre puxado). Num Santos e Corinthians, eu e meu amigo João Mula fomos à casa do primo para não perder um só lance do jogão. E como era de costume na década de 1960, Pelé foi logo fazendo dois gols em cima do Timão, despertando a ira do meu primo. De uma só tacada, ele nos expulsou de casa. Saímos enxotados, porém contentes, vibrando com mais uma vitória do Santos.
Como se vê, era urgente que eu tivesse um rádio só meu para saciar minha
paixão pelo Santos e evitar saias-justas como aquela. A cada dia que passava, minha angústia aumentava: temia perder o aparelho para algum consumidor concorrente. Até que, finalmente, minha tia abriu um crediário, assinou nota promissória, se enforcou ainda mais e me deu o presente. O radinho, que eu deixava numa prateleira em cima da minha cama, me acompanhou por muitos anos. Me desfiz dele numa de minhas mudanças em São Paulo, já na década de 1970. Foi uma decisão estúpida, da qual me arrependo profundamente. Brinco que aquele rádio GE foi a maior universidade esportiva da minha vida.
Mas, sem perder o fio da meada, naquela tarde perdida na década de 1950,
ouvi a bulha atordoante do speaker Geraldo José de Almeida, então na Rádio Record, quando passava apressado pela porta da Sala do Rádio, rumo ao quintal, onde a jabuticabeira me esperava carregada. Aquele movimento chamou minha atenção: meu primo Humberto e um colega dele, chamado Milton Vanius de Almeida Lima, o Milton Coloro, se torciam, nervosos, ouvindo a transmissão. Tratava-se, nada mais, nada menos do Santos e Palmeiras que decidiu o Super Campeonato de 1959, (infelizmente) vencido pelo Alviverde, por 2 a 1. Ambos estavam tão envolvidos com a partida que interrompi meu caminho para olhar a apreensão alheia. Daquele emaranhado de nomes “metralhados” pelo locutor, um jogador em especial me chamou a atenção: Pagão. Na hora, perguntei aos fanáticos para quem jogava o tal Pagão... “Santos”, me responderam em uníssono (pensando bem, um grande paradoxo).
No universo religioso de Muzambinho, nada poderia ser mais atemorizador
para um menininho do que morrer pagão. Ainda mais quando a ameaça atroava das prédicas do pároco da cidade, o frei holandês Rafael Zeenhoveen, torcedor do Botafogo, dono de uma silhueta portentosa de quase 1,90m. A bem da verdade, nosso padre era um visionário, um homem além de seu tempo. Anteviu a corrupção generalizada dos prefeitos, denunciada semanalmente a partir do púlpito da igreja matriz. Aos domingos de manhã, dia do sermão principal da semana, frei Rafael pregava, numa paciente elaboração, que morrer pagão não era um bom negócio. No final das contas, me tornei santista porque Pagão ostentava a gloriosa camisa imaculada. Tremendo de medo de morrer pagão, assustado com a brabeza de frei Rafael, não me restou alternativa que não fosse torcer para o Santos.
O futebol enraizou-se em mim sem qualquer imagem. Só com som. Eu não vi
futebol; eu ouvi futebol. Nos meus delírios infantis, supunha que meus ídolos eram gigantes “armagedônicos”. Para mim, Pagão representava um deus de dez metros de altura. O centro-avante foi o único que entendeu a genialidade e antevisão de Pelé. Foi ele quem criou a famosa tabelinha com o gênio. Enxergava as gradações, imperceptíveis aos demais, da trama que Pelé fazia em campo. Demorou para que eu descobrisse que Pagão era, em carne e osso, um homem de físico minguado.
Pelo rádio escutava meus grandes ídolos – não aqueles com a bola no pé –
mas os que empunhavam o microfone, trazendo para aquele “sertão” um pedaço da fantasia do melhor futebol do mundo. Geraldo José de Bretas, Pedro Luiz, Haroldo Fernandes, Jorge Cury e, principalmente, Fiori Giglioti, minha grande inspiração, dono de uma voz bastante heterodoxa para os padrões daquele tempo, mas que marcou época na locução esportiva. Como já disse, minha aspiração mais utópica era trabalhar na Rádio Bandeirantes para escutá-lo dizer meu nome naquele timbre inesquecível: “Agora, Milton Neves, o mooooooço de Muzambinho...”. O som das emissoras paulistas chegava límpido no Sul de Minas. Não havia muitas rádios regionais, o que garantia o trânsito desimpedido das ondas, mesmo em AM. Pois então, desde criança ouvia todos os programas de rádio, sabia de cor a programação, os “reclames”, que até hoje posso repetir. Também me correspondia com as emissoras através de cartas, nas promoções que então havia. A Tupi, por exemplo, respondia as missivas enviadas com uma tabelinha do campeonato ou com um retrato do time do coração dos ouvintes; a Bandeirantes e a Tupi anunciavam no ar os aniversariantes. No meu dia, ficava angustiado ao lado do aparelho, esperando que pronunciassem meu nome...
Mas nem só dos times de São Paulo vivia o futebol de Muzambinho. Na
cidade, havia um time de futebol semiprofissional, o Bandeirante, que costumava pelejar contra outros esquadrões da região – o Comércio Esporte Clube se mostrava um adversário valente, apesar de tecnicamente inferior: era considerado o time dos pobres. Sem dinheiro para frequentar o minúsculo estádio Professor Antônio Milhão, assistia aos jogos, sentado no muro da casa da costureira Marta Borges, amiga da família. Com olhar de pidão, invariavelmente convencia o porteiro “seo” Bruno Galinheiro a me deixar entrar para o segundo tempo. Misturado aos 1.500 torcedores, lotação máxima do estádio, fiz de Muzambinho meu primeiro mundo futebolístico. Até hoje, guardo na lembrança os nomes dos craques da cidade que se digladiavam nas pelejas varzeanas. Entre outros, “desfilavam” Pedrinho de Monte Belo, Candóca, Camila, Fominha, Cavadeira, Corote, Ivan Surdão, Cuiabano, Tente e Tôti.
Caderno de Milton Neves, onde “compunha” a escalação do time do Santos
Supercampeonato paulista de
1959
Da mesma forma que no Rio de Janeiro, em
1958, o campeonato paulista de 1959 terminou empatado com Palmeiras e Santos na liderança com 67 pontos. A decisão do título, portanto, foi marcada para um torneio melhor de quatro pontos. Os dois primeiros jogos terminaram empatados (1 a 1 e 2 a 2). Na partida final, marcada para 10 de janeiro de 1960, o Palmeiras meteu 2 a 1, de
virada, conquistando o título depois de sete anos. Os gols foram marcados por Pelé, aos 14 minutos do primeiro tempo; Julinho Botelho, aos 43; e Romeiro, aos três minutos da segunda etapa.
Aquele campeonato marcou o último ano que o Nacional e o Comercial (da capital) disputaram a primeira divisão do Paulistão.
O Palmeiras entrou em campo com Valdir de Moraes; Djalma Santos, Valdemar Carabina, Aldemar e Geraldo Scotto; Zequinha e
Chinesinho; Julinho Botelho, Américo Murolo, Romeiro e Nardo.
Técnico: Osvaldo Brandão.
E o Santos com Laércio; Urubatão, Getúlio e Dalmo; Formiga e Zito; Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe.
Técnico: Lula.
O dono da bola
Hoje, a bola é maravilhosa, leve,
enfrenta chuva, barro, umidade, o que
quiser, sem se deformar, sem encharcar.
Antigamente, não. A redonda era de
capotão, horrível. Procedimento muito
comum era o de se interromper uma partida
para ensebar a menina, a fim de se evitar
que a água charcasse o coro, como se dizia
no jargão do interior.
A bola era um objeto caro e raro. Assim,
consistia em condição sine qua non o dono
da bola jogar. Em Muzambinho, o
“proprietário” da preciosidade era o becão
Eurípedes Pires, ruim para o diabo. Ele era
dono do Bazar Pires, onde também se
vendia material esportivo. Quando o técnico
o tirava do jogo ou desconfiava que o juiz
estivesse roubando seu time, pegava sua princesa e ia embora. Eurípedes é pai do publicitário Alan França Pires, do Yahoo, valor revelado pelo terceirotempo.com.br.
Corote e Cavadeira
Pois, para ficarmos no esporte bretão, em Muzambinho desfilava pelos campos emburacados um jogador chamado Corote – de batismo, Adolfo Vieira –, filho de dona “Virgínia da Venda”, portuguesa legítima. Tratava-se de um jogador extraordinário, tanto que jogou em São José do Rio Pardo, Guaxupé, Alfenas e Poços de Caldas. Era um jogador forte, troncudo e baixo, no estilo do Puskás. Era meia-armador, batia falta, fazia lançamentos milimétricos, jogou futebol como ninguém até os 49 anos. Toda vez que vinha time do Rio de Janeiro jogar na região, o Corote, de Muzambinho, o Dedém, de Cabo Verde, e o Pachá, de Guaxupé, enxertavam a esquadra desafiante.
Todos ficavam maravilhados com a performance de Corote, até mesmo os grandes do Rio de Janeiro. Botafogo, Fluminense, Flamengo e Vasco tentaram levar embora o jogador, mas dona Virgínia não deixava. O Rio era muito perigoso, havia muitas mulheres na noite, muito assassinato, alegava.
Corote era funcionário da escola Agrotécnica de Muzambinho (hoje Universidade Agrícola de Muzambinho), inaugurada em 1953 por Getúlio Vargas. Ele jogava tanto que sua fama chegou aos ouvidos do ex-presidente do São Paulo, José Douglas Dallora. Dallora é de Guaxupé, dentista formado na Universidade de Odontologia de Alfenas. Certa vez, numa entrevista que me concedeu na Jovem Pan, ele contou uma história fantástica do seu tempo de estudante.
No caminho de Guaxupé para Alfenas, passava-se por Muzambinho. Estrada de terra, doída de ruim, não raro, o ônibus emperrava. Uma vez, impossibilitado de seguir viagem, decidiu assistir a uma peleja na cidade e teve a chance de ver ao vivo o jogo de Corote, então com uns 18 anos. Segundo seu relato, tratava-se de um assombro. “Era jogador de Seleção Brasileira – um craque”. Se tivesse ido para um time grande, como aconteceu com Táti, que foi de Guaxupé para o Palmeiras e, depois, Inter de Porto Alegre, Corote teria feito carreira brilhante até em Copas do Mundo. E não é que esqueceram de
Corote era um exímio lançador, melhor que Gérson, Didi, Rivellino e Zenon. Seus alvos preferidos eram os atacantes Ivã Surdão, Tente e Tôti e Cavadeira, este último, ponta-direita.
Cavadeira – de batismo, Américo Sérgio Montanari –, na boca só tinha as duas presas, daí o apelido. Entretanto, Cavadeira não fazia jus à habilidade do colega. Avisava sempre que não adiantava botar a bola no seu pé. Ele queria receber a redonda na... boca. A explicação para tamanho absurdo era singela, e até fazia certo sentido: ele “fisgaria” a bola e faria o gol de boca. Corote não entendia a possibilidade de o lance acontecer.
Mas a ciência explica: a bola de capotão normalmente estava muito gasta, tinha muito barro e dos gomos se despregavam umas barbelas. Aí que morava o macete: Cavadeira fisgaria a bola pela barbela e a levaria até o gol, segurando a bola no dente, contando com a precisão de suas presas.
Num domingo de maio de 1962, em pleno duríssimo clássico entre Muzambinho e Cruz Preta de Alfenas (que estava empatado em 0 a 0), Corote resolver anuir a exigência do ponta: lançou a bola exatamente em um dos três gomos onde tinha barbela, um couro solto, se oferecendo para Cavadeira, que fisgou a bola, foi desviando dos atônitos beques e entrou de bola e tudo na meta adversária. O gol foi confirmado. O Cruz Preta entrou com recurso na FMF, na CBF e até na FIFA, mas não adiantou nada: de boca vale, só não pode fazer com a mão.
marcar o lugar do jogo?
Outro personagem pernóstico de Muzambinho foi o Biga. Mas antes de introduzi-lo, vale lembrar a precariedade da telefonia no interior do Brasil naqueles idos. Como se verá, uma coisa tem a ver com a outra.
Como eu dizia, a telefonia no Sul de Minas Gerais era horrorosa. Uma ligação para Guaxupé, Juruaia, Guaranésia, Botelhos, enfim para qualquer lugar próximo ou distante de Muzambinho, demorava mais de seis horas.
Para fazer a bendita, era necessário ir ao centro telefônico, pedir à Dona Célia de Melo, cândida telefonista, que conectasse com o número desejado. Antes, preenchia-se um papel e ela registrava. Depois de horas, mandavam alguém avisar que a ligação estava pronta. Havia uns cinco meninos que serviam de mensageiros a correr para casa das pessoas avisando o sucesso da empreitada.
Agora o Biga: o tipo cuidava de um time chamado Comércio Esporte Clube, a equipe dos “pobres” de Muzambinho. O time rico era o Bandeirantes Futebol Clube, de Nilo Bortoloti e de Pedro Viola. Bortoloti era avô do Marcelo Bortoloti, repórter da sucursal carioca da Folha de S. Paulo e ex-repórter de Veja.
Mas um belo dia, Biga foi combinar um jogo com o time de Juruaia, vizinha de Muzambinho, e, hoje, uma das capitais brasileiras do lingerie... Para tanto, ele ligou para o Zé da Loja, já falecido, jogador e diretor do time daquela cidade.
Biga, além de ser um jogador muito ruim, era técnico e diretor do Comércio Esporte Clube. Ademais, apresentava uma dificuldade enorme em articular uma conversa. Para piorar, a qualidade da conexão não ajudava. Os dois palestraram numa sexta-feira pela manhã e marcaram jogo para o domingo seguinte. Acertaram a peleja para às 15h30, com renda dividida. O trio de arbitragem seria escolhido na hora.
O jogo estava combinado. Até mandaram confeccionar o clássico cartaz na tipografia do Zé Inacarato. Como ensinava o Velho Guerreiro, quem não se comunica se trumbica. E, na época, o cartaz era o meio de comunicação por excelência. Por isso, pregaram cartazes na estação de trem, no Bar Majestic, na Sapataria do Camila, na lotérica do Lua, na rodoviária, no bar do Quinca, ou seja, nos lugares de maior aglomeração pública. Em Juruaia, fizeram o mesmo.
No domingo de manhã, em cena holiwoodiana, apontou um caminhão no horizonte de Muzambinho. Tomava o destino do Estádio Professor Antônio Milhão e trazia, impávido, o time de Juruaia, com os jogadores já devidamente fardados, comandado pelo do Zé da Loja.
A alguns quilômetros dali, no mesmíssimo horário, uma cena parelha se repetia: resfolegava pelas ruas da vizinha Juruaia o caminhão com os bravos atletas do Comércio Esporte Clube, também vestidos de calção, camisa e chuteiras, como era a praxe.
Atendendo ao chamamento dos cartazes espalhados nas duas cidades, duas pequenas multidões de cerca de mil pessoas aguardavam com anseio o início dos prélios. Cada qual em seu estádio. Num poeirão danado, de faroeste, esses caminhões devem ter se cruzado no caminho. O fato é que o time de Muzambinho foi para Juruaia, e o de Juruaia foi para Muzambinho. O jogo não aconteceu “por falta de adversário”. Foi o único WO duplo da história do futebol mundial, porque os organizadores do amistoso se esqueceram “apenas” de definir o local do jogo.
Entrevistando Pelé, pela Jovem Pan, meados da década de 1980