Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 5 de 22

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Milton Neves: uma biografia

A casa da família

A casa

da família

 

M eu pai, Milton Neves, era natural de Areado, mas logo cedo foi viver em Varginha. Ganhava a vida como sapateiro. Atrás de trabalho, mudou-se para Muzambinho, onde funcionava uma fábrica de sapato (a cidade, aliás, abrigava duas outras indústrias: uma fabriqueta de cerveja e uma outra, de doce de leite). Lá conheceu mamãe, e se casaram. Pouco tempo depois do meu nascimento, a fábrica faliu. Rumamos, então, para Varginha; mas, sem muitas perspectivas, ali permanecemos apenas dois anos.

Papai levava vida errática e doente – jogador contumaz de baralho e sinuca,

sofria do “mal do peito”, como se dizia. Tuberculose. Doença maldita e interditada na boca do povo, a acometer os boêmios e os irreverentes. Ele passava longos períodos fora, fosse no calcanhar das cartas ou internado no sanatório de Campos do Jordão.

Resultado: voltamos a nos instalar em Muzambinho – mamãe, Homero, meu

irmão mais velho, e eu – sob as asas de tia Antônia, que nos acolheu e proveu. A casa em que morávamos – na praça dos Andradas, 185 – pertencera a meu bisavô materno, o austero Joaquim Teixeira da Silva, que amealhou bom dinheiro nos anos de 1920 plantando café. Falecido, deixou a casa e um torrão de terra – o sítio Invernada (que fica no município vizinho de Monte Belo) – para suas três filhas, dentre elas, minha avó Beatriz, nome santificado, cujo significado – aquela que provê felicidade – acompanha minha família até hoje. Minhas netas Maria Beatriz e Giulia Beatriz “roubaram” os nomes das filhas que nunca tivemos (minha prole consiste em três marmanjos: Rafael, Fábio Lucas e Milton Neves Netto). A cada gravidez de Lenice, tínhamos certeza de uma princesinha vindoura, e o nome Beatriz devidamente preparado para brindar a ocasião...

Na nossa casa, em Muzambinho, morávamos nove: vovó Beatriz, tia Antonia,

mamãe, meu irmão Homero, eu, e meus quatro primos, Beatriz Maria, Humberto (prefeito de Monte Belo para o mandato de 2013-2016), Luis Carlos e Ana Maria; todos filhos de tia Maria Carlos Fernandes (a caçula das irmãs) e Juscelino Bonelli Maciel. Tia Mariinha e tio Celino viviam na fazenda Invernada.

Nas décadas de 1920 e 1930, a vida das três irmãs Carlos Fernandes - Carmen

Carlos (a mais velha), Antônia Carlos e Maria Carlos - ainda podia sorrir. Vovó Beatriz recebera um bom quinhão de seu falecido pai e casara em segunda núpcias com Luís Carlos Fernandes, de quem adquiriu o sobrenome, um chefe de estação que fora alocado em Muzambinho pela Companhia Mogiana. A morte precoce de Luis Carlos deixou as meninas em posição privilegiada, com uma herança polpuda de 300 mil contos de réis para serem repartidos, além dos alqueires do Invernada.

Na região, a tríade carregava a pomposa alcunha de “as milionárias filhas de

dona Beatriz”, desvelando, por trás do apelido, a cobiça de um dote portentoso. Entretanto, a administração precária, a divisão das terras em três partes e a crise da década de 1930, refluíram a prosperidade do sítio e do café lá produzido. Verdade que tia Mariinha e tio Juscelino conduziram melhor os negócios que as outras irmãs. A sede da propriedade e o solo mais fértil lhes couberam na partilha. Para os padrões da época, eles ascenderam a uma condição bastante abastada. Pelo menos até o momento em que tio Celino resolveu se dedicar à política, tornando-se um quadro fervoroso do PSD (partido a que pertenceu o xará Kubistchek e o meu “vovô” Tancredo Neves), elegendo-se, posteriormente, prefeito de Monte Belo. A política, entretanto, mostrou ser sua desdita: ele foi o único político que eu conheço a deixar a carreira mais pobre do que entrou.

A parte da fazenda que ficou para mamãe não vingou. A doença e o vício de

papai o afastavam da lida necessária das terras. A lavoura minguou, o gado era parco. Pouco a pouco, as “filhas de dona Beatriz” perderam o valor agregado da herança, a pobreza avançou sobre a rotina, obrigando as mulheres a se virar.

Minha tia Antônia seguiu o magistério. Foi ela, com seu salário derrisório,

quem segurou as pontas e bancava as despesas da casa. Para cuidar de todos, nunca se casou. Mantinha-se sempre esguia, alta. Ainda que segura de si, não disfarçava seu olhar triste. Uma deusa grega que trabalhava de sol a sol, lecionando em três cidades: Guaxupé, Muzambinho e Monte Belo.

Foi tia Antônia quem me deu, sem cobrar, os tostões que abriram o caminho

para minha vida profissional. Pagou, com sacrifício, minha estada em São Paulo no começo da minha carreira: a mensalidade da faculdade, a pensão, meu sustento. Quando comecei a me projetar na Jovem Pan, fui incontinenti à finada casa de materiais de construção Marcovan, na Marginal Tietê, e ao também extinto Mappin, na Praça Ramos. Para ela, comprei material de construção, sofá, tevê, oratório, etc. Tudo em 24 prestações. Quando viu aquele mundaréu de coisas, tia Antônia, na sua inapelável santidade, devolveu: “Mirtim, precisamos acertar o valor disso”. Até hoje essa cena me enternece: se tivéssemos que acertar as contas, Madrinha, nem todo o dinheiro que ganhei seria suficiente para retribuir seu amor e sacrifício...

Enfim, a década de 1950 nos flagrou na pobreza: proprietários de uma terra

sem muito valor, vivendo numa casa despojada. Eletrodomésticos, por exemplo, não havia: geladeira, fogão a gás, televisão; sofá e outros “supérfluos”, também não. Quimeras de uma situação inatingível. Mesmo do mais básico carecíamos: papel higiênico, improvisávamos de retalhos do jornal Minas Gerais, o diário oficial do estado, que minha tia – professora da rede pública – assinava, a fim de acompanhar os trâmites da burocracia.

Apesar do apertume daquela vida em Muzambinho, no Natal, tínhamos direito

a uma “dádiva”. Embora com os tostões contadinhos do salário no magistério, tia Antônia fazia questão de dar presente para as crianças. Nem que fosse um par de meias, todos os anos, na manhã de 25 de dezembro, sob a árvore mirrada, encontrávamos nosso pacotinho... Mas o grande frisson do dia, o evento que me aguça a memória e me emociona até a medula, era a chegada da Cesta de Natal Amaral.

Os “reclames” da época comprovam o enorme sucesso da cesta, disponível em

cinco tamanhos – do número 5 ao número 1, da maior para a menor. E não pense que era barata: vendia-se a prestações aquele colosso de vime que embalava iguarias com as quais nem sonhávamos no dia-a-dia ordinário: azeitona, azeite, chocolates, balas, vinho, doces em calda... Em meio àqueles produtos, se escondia um boneco de plástico – o Gigante Amaral – que, numa das mãos carregava uma casa, representando os prêmios distribuídos pela empresa. Ao comprar a cesta, concorria-se a casas, carros e dinheiro, sorteados com as extrações da Loteria Federal. O sucesso era estrondoso: vendiam-se mais de 50 mil unidades por ano. Para as crianças, entretanto, a sorte consistia num bem abstrato demais. Muito mais palpável e palpitante era a sensação de desbravar a palha que acomodava os quitutes na cesta em busca das melhores guloseimas e do prêmio máximo almejado pela ingenuidade infantil: o bonequinho de plástico. Em casa, a cada Natal, nos atracávamos, os primos, escarafunchando a cesta número 5, a maior e mais sortida, comprada com muito orgulho, e com muito custo, diluído nas inúmeras prestações mensais.

Num determinado ano, tia Antônia, com um quê de decepção, chegou em casa

com uma cesta número 4 – a diferença passou despercebida para nós. Valia o prazer da surpresa. Nos Natais subsequentes, o decréscimo se acentuou gradativamente: 3, 2, 1. A frustração se notava entre a meninada, mas fazer o quê? Ainda tínhamos o Gigante Amaral! Até que, finalmente, o cinto apertou, e titia avisou o que já se anunciava: naquele Natal não haveria cesta. Ela deu a notícia quase envergonhada: um ano difícil, o dinheiro curto, muitas bocas para alimentar. Mas o presentinho ainda estava lá, ao lado da árvore, para compensar a dureza, para amainar o orgulho ferido.

Como eu dizia, pouquíssimos luxos nos eram concedidos. Normalmente, só

em caso de doença, quando tia Antonia se contorcia para compensar o desconforto. E, naquela época, quando o interior ainda era desprovido da vacinação sistemática, adoecia-se a granel: sarampo, catapora, escarlatina, caxumba, a temida poliomelite, e toda a sorte de moléstias infantis funcionava como rito de passagem para as crianças. O sofrimento se mostrava atroz, principalmente aos mais pobrezinhos, padecentes de nutrição suficiente. Era praxe, nesses estados, oferecer-se algum refrigério compensador ao doente, por mais modesta que fosse a extravagância. No caso, uma garrafa de guaraná caçulinha funcionava como um bálsamo dos deuses. Para se ter uma ideia da preciosidade do evento, quando recebíamos a oferenda, no lugar de escancarar-lhe logo a tampa, fazíamos um furo com o prego mais delgado. Um buraco quase imperceptível por onde vazava aquele chiado mágico do gás escapulindo. Pelo furinho, sorvíamos, ou melhor, degustávamos o líquido reparador bem devagar, prolongando ao máximo aquele prazer raro.

Mas de todos os cheiros e sabores da minha infância, aquele que me embala os

sentidos é a lembrança da jabuticaba. Pela fruta, nutria paixão avassaladora. Toda vez que podia, corria para o fundo do quintal de casa, onde se agigantava, frondosa, a jabuticabeira, a oferecer suas dádivas dulcíssimas. São elas, as jabuticabas, as reminiscências mais poderosas que carrego da tenra idade. Assim, permitam-me o direito de fazer minhas as palavras de Nelson Rodrigues, em A Menina sem Estrela, onde registra suas mais verdes memórias: “Toda a minha primeira infância tem gosto de caju e de pitanga”. No meu caso, paira o sabor da jabuticaba. Recentemente, recuperei a parte do quintal que minha tia fora obrigada a vender para custear uma mastectomia que lhe salvou a vida. A jabuticabeira continua lá, como um marco a manter viva as memórias de outrora.

A famosa jardineira do Expresso José Orrico, que ligava Muzambinho com o resto do

mundo (isso quando ela não empacava nas estradas de terra precárias do sul-mineiro).

Em Caconde (SP), a viagem seguia num ônibus melhor

A casa do sítio Invernada