Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 3 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Muzambinho

 

T oda biografia tem início pela origem. É o óbvio ululante, com o perdão de Nelson Rodrigues. Mas este não é o caso aqui. Fosse assim, começaria rastreando as inconfidências dos longínquos Neves que aportaram no Brasil nos idos do século XVII; quiçá, fossem judeus convertidos a fórceps (isso explicaria muita coisa...). Talvez me debruçasse sobre a árdua trajetória familiar até que tivessem se fixado - avôs e avós - no Sul de Minas, numa labuta infinita pela sobrevivência digna. Num rastro de orgulho, divisaria em antepassados a semente do sucesso que de geração em geração amadureceu à espera de um portador para, enfim, conseguir germinar.

Mas esta não é uma biografia na sua forma mais usual. Trata-se, em vez, da busca pela alma - a minha - que na mais absoluta transparência pretendo compartilhar com o público que me acompanha há tanto tempo. É a essa tarefa que me dedico aqui: reunir os fragmentos de vida, quer onde eles se encontrem.

A origem de tudo, posso afirmar, vem do chão roxo de minha terra – é de lá que pulsa a natureza do que eu sou; do que eu sempre fui; do que eu nunca deixarei de ser - seis décadas de vida; 45 anos de profissão. Parafraseando Fernando Pessoa, eu sou a minha aldeia. Hoje, cidadão rodado, não desgarro da essência que me forma e me conforta: meu mundo é Muzambinho. Sou de Muzambinho. Sou Muzambinho.

Eis-me lá escancarado. Está aí o meu começo: o bojo do novelo que se desenrola um bocadinho todos os dias, em cada gota de suor, em cada tribuna onde milito. A quem quiser me desvendar - este tabaréu imodestamente caipira e monoglota de quatro costados - que se dedique primeiro a conhecer meu rincão natal. Como é a costela para Adão, também sou uma parte de Muzambinho. A ela, e aos que nela viveram e me fizeram, tenho contas a prestar. É o que começo a cumprir agora, saudando meus maiores amores: Carmen Fernandes Neves (1923-1995), minha mãe; Milton Neves (1921-1960), meu pai; Antonia Carlos Fernandes, minha tia-mãe, acometida de do Mal de Alzheimer desde 1998.

Sendo assim: deixa cair, Muzamba!

No Monumento em homenagem aos pracinhas da Segunda Guerra, na praça dos

Andradas, em Muzambinho. Dona Carmen Neves rodeada por netos, filhos de Homero

e Milton

No mesmo monumento da foto anterior (1956): vó Beatriz, Homero (irmão, em pé),

Beatriz (prima, em pé). Sentados, Humberto (primo), Luis Carlos (primo), Milton Neves

(ao centro)