Milton Neves: uma biografia
Curitiba: Fome e frio
Curitiba:
fome e frio
O fim repentino das atividades da Continental abreviou meu início de carreira. Com quase 20 anos de idade, voltei ao ritmo morgado da vida que levava. Sem trabalho, sem perspectiva, passava os dias jogando baralho e conversa fora com outros desocupados. Para tapear o pessoal de casa – que me pressionava a “tomar tento” –, prestei um utópico vestibular de Odontologia e enfrentei concursos para o Banco do Brasil e Petrobras, o porto-seguro para a maioria dos jovens do interior. Não passei em nenhum deles. Ainda fiz um curso de Contabilidade para agradar a Madrinha, mas sem qualquer convicção, entretanto. Olhando em retrospectiva, acho que não seria infeliz se seguisse carreira pública. Teria tido uma vida remediada, estaria aposentado, ao lado da Lenice, dos filhos e netos. Porém, o destino ainda me reservava algo maior. Mas ainda demoraria um bocado para eu tomar à unha minha vocação.
Ser jovem no interior é dureza. Era pior no início da década de 70: as distâncias – físicas e simbólicas – em relação aos grandes centros eram muito maiores do que hoje em dia. O mais difícil, para mim, era assistir aos meus amigos, jovens também, tomarem rumo na vida, cavando uma “boa colocação”, como se dizia então. No final das férias, a depressão remontava: a turma debandava para cuidar da vida, e eu ficava lá, em Muzambinho, de papo para o ar, na aba da minha tia e de minha mãe.
Na época, meu irmão Homero fazia cursinho em Curitiba e, por insistência familiar, fui me juntar a ele em 1971, aos 19 anos, para tentar a sorte num vestibular para Odontologia. Confesso que parti chorando. De carona no DKW de Jorge Pimenta, gerente do banco Crédito Real, lá fui eu para minha grande aventura. O trajeto pela BR 116 nunca mais saiu de minha memória. Caminhões daquele tamanho eu só tinha visto em filme americano.
Em Curitiba, instalado clandestinamente na Casa do Estudante Universitário-CEU, conheci o frio. Matriculado no curso preparatório para a universidade, fui à luta procurando um lugar ao sol em qualquer emissora de rádio da capital do Paraná. Bati em muitas portas. Na Universo, Pirajá Ferreira me prometeu, mas não me deu o emprego. Na Cultura, Dirceu Graeser alegou que não tinha vaga, mas me alentou dizendo que eu tinha futuro. “Bem modestamente”, acho que acertou... Nas rádios mambembes onde me aventurei, fui patrão de mim mesmo. Mas serei injusto se desdenhar da experiência. Foi na Rádio Colombo meu primeiro emprego de radialista, digamos, quase profissional, com carteira asssinada e tudo.
A Colombo não estava em boa fase. Pouco dinheiro, pouca audiência. Assumi logo a “Diretoria do Departamento de Esportes”. O “departamento” contava comigo e com Victor Marcassa, ex-árbitro de futebol, que comentava a atuação dos juízes. Erwin Bonkoski, o dono, não foi um bom patrão. Tenho péssima lembrança daquele senhor, hoje político do Paraná. No entanto, o irmão dele, Milton Bonkoski, me era muito estimado.
Apesar da fase ruim da emissora, o meu trabalho começou a ser reconhecido. Bira, lateral-direito do Ferroviário, foi o primeiro jogador a me elogiar. Num programa esportivo, disse que eu era o melhor cronista de futebol do estado. A minha estreia num estádio foi um 0x0 no maior clássico paranaense: Coritiba e Atlético, o famoso Atletiba! Lembro bem que o goleiro Rubens, o Rubão do Atlético, foi o melhor em campo.
Também não me esqueço de que, acabrunhado no meio de tantos repórteres esportivos no estádio Belfort Duarte, do Coritiba, vivia assediado por um jogador jovem, magrelinho, que forçava sempre uma entrevista. Muitos anos depois, aquele homem mirrado, frequentou por muito tempo a seleção brasileira. Seu nome: Dirceu. Mas Curitiba definitivamente não havia me atraído. Nunca mais voltei à capital do Paraná, a não ser numa escala que me levou à lua de mel, em 1978, em Foz do Iguaçu.
Decidido a voltar para Muzambinho, larguei a rádio e marquei a data: 20 de outubro de 1971, uma quarta-feira. Comprei a passagem para bem tarde da noite, com tempo para assistir ao jogo do Santos, que faria uma partida contra o Coxa pelo Campeonato Brasileiro daquele ano.
Às oito da manhã, lá eu estava à porta do hotel Ouro Verde para ver meus ídolos de perto pela primeira vez. O voo e o ônibus do Santos atrasaram e só às duas da tarde pude acompanhar, com emoção, a descida de Davi, Edu, Clodoaldo, Lima, Cejas, Ramos Delgado, Mazinho e, quase aos prantos, ele mesmo... Pelé. Foi a glória. Antes de subir no ônibus da viação Pluma para deixar definitivamente Curitiba, ainda assisti à melhor exibição do time local na competição, vencendo o grande Peixe por 1 a 0, com gol do artilheiro Tião Abatiá.
Coritiba 1 x 0 Santos
Coritiba: Carvalho; Hermes, Pescuma, Cláudio Marques, Nilo e Rinaldo; Hidalgo e Renatinho; Leocádio, Tião Abatiá, Paquito.
Técnico: Tim.
Santos: Cejas, Orlando Lelé, Ramos Delgado, Oberdan e Rildo; Lima e Clodoaldo; Davi, Mazinho, Pelé e Edu.
Técnico: Mauro Ramos de Oliveira.
Meu Santos de todos os tempos
1 Gylmar,
4 Carlos Alberto
2 Mauro
6 Zito
3 Lima
5 Clodoaldo
8 Jair
7 Neymar
9 Coutinho
10 Pelé
11 Edu
Técnico: Lula
Gylmar dos Santos Neves, o Gylmar
Com todo respeito a Rodolfo Sérgio Rodríguez y Rodríguez, “o maior goleiro da terra”, epíteto que lhe dei quando jogou no Santos, na década de 80, Gylmar é meu preferido. O único jogador vivo do time do Corinthians campeão do IV Centenário, em 1954, atualmente está numa cadeira de rodas, vítima de um AVC. Gylmar foi bicampeão da Libertadores e do mundo pelo Santos, bicampeão do mundo pela Seleção. Uma curiosidade é que antes de o goleiro surgir no Corinthians, Gilmar era nome de mulher.
Carlos Alberto Torres
Carlos Alberto Torres foi o maior lateral-direito de todos os tempos; o lendário e saudoso Djalma Santos e o grande Leandro, do Flamengo, devem ser lembrados, mas Torres era tão bom que foi alçado a batedor oficial de pênaltis no Santos, mesmo quando o Pelé jogava, além de dar broncas no maior do mundo. Lamentavelmente disputou somente a Copa de 1970. Deveria ter ido em 1966, 1974 e 1978. Carlos Alberto jogou mais na lateral-direita que Nilton Santos na lateral-esquerda.
Mauro Ramos de Oliveira, o Mauro
Nasceu na minha querida Poços de Caldas, perto de Muzambinho. Foi campeão do mundo pelo Brasil em 1962. Tinha pernas tão bonitas que era chamado de Martha Rocha. Foi reserva de Bellini em 58 na Suécia e no Santos ganhou dois mundiais, duas Libertadores e “milhões” de Campeonatos Paulista, Taças Brasil e Torneios de Verão, Inverno, Outono e Primavera.
José Ely de Miranda, o Zito
Vou deslocar Zito para a quarta-zaga para colocar Clodoaldo como médio-volante. Assim, acomodo dois monstros numa tacada só.
Zito costuma dizer que, em geral, as pessoas viram muito pouco o Pelé jogar. Afirmava que os espectadores privilegiados do Rei foram Macedo, ex-massagista do Santos, já falecido, o Gylmar, o Mauro, o Pepe e ele mesmo. Zito ia além. Alegava que nem mesmo Pelé tem a dimensão do seu próprio jogo ou é capaz se recordar direito de suas atuações. “O Pelé não sabe o que fez e nem quem foi Pelé”, afirma o filho maior de Roseira-SP.
Antônio Lima dos Santos, o Lima
Dalmo que me perdoe, mas Lima, mineiro de São Sebastião do Paraíso, é meu lateral-esquerdo improvisado, até para justificar o atributo que marcou sua carreira: o fato de ele ser considerado um curinga. Ele jogou em todas as posições, menos no gol, e, por mérito, ganha a lateral-esquerda.
Clodoaldo Tavares Santana, o Clodoaldo
Clodoaldo é o melhor médio-volante de todos os tempos. Mas essa é uma qualidade secundária. Seu maior atributo é ser o maior santista vivo de todo o planeta. Ninguém é mais santista do que Clodoaldo. A Vila Belmiro podia levar o nome dele; se não a Vila, pelo menos o Centro de Treinamento. De uma humildade rascante, Clodoaldo já me pôs em lágrimas, aos pés da Vila Belmiro, ao pedir para um diretor da base do Santos um teste para seu neto, que criou como se fosse filho, já que o menino havia ficado órfão de pai muito cedo.
Antônio Wilson Vieira Honório, o Coutinho
Natural de Piracicaba, Coutinho foi o maior centro-avante de todos os tempos, considerando-se o exíguo espaço da área. Lá, era mais perfeito do que Pelé. Ele não estufava a rede e nem comemorava gol. “Para valer o gol basta a bola passar da risca, e correr feito louco é para sprinter de 100 metros”, desdenha.
Jair Rosa Pinto, o Jair
Jogador do passado, atuou pouco tempo no Santos. Sei que vai gerar polêmica, no entanto darei para Jair Rosa Pinto a camisa oito, com muito merecimento. Começou no Madureira, jogou no Vasco da Gama (onde atuava quando disputou a Copa de 1950), Palmeiras, um pouquinho no São Paulo, e mais um pouco no Santos, mas o suficiente para ser grande o conselheiro do Pelé, quando, ainda alcunhado de Gasolina, desembarcou no time da Vila. Diz-se que foi Jair quem ensinou Pelé a bater na bola.
Figura polêmica, notável, brigava com os cartolas pelos direitos dos jogadores, numa época romântica e amadora do futebol, em que os dirigentes costumavam enrolar os boleiros. Nos limites do contexto da época, o meia tinha exata noção daquilo que valia. Jair foi fundamental para que o Santos de time pequeno ou médio se tornasse um grande.
Edson Arantes do Nascimento, o Pelé
Não vou desperdiçar tinta...
Jonas Eduardo Américo, o Edu
O Pepe que me desculpe, mas Jonas Eduardo Américo fica com a ponta-esquerda. Não apenas por ter nascido em seis de agosto, mesmo dia do meu nascimento. Ele de 1949, em Jaú, eu, em 1951.
Edu foi genial. Era para ter sido titular da Seleção Brasileira nas Copas de 1966, 1970 e 1974. Disputou somente míseros minutos em 1974 contra o Zaire (hoje República Democrática do Congo).
Neymar da Silva Santos Júnior, o Neymar
O Dorval Rodrigues vai ficar fulo comigo, mas a ponta-direita entrego para o Neymar. Ele é um dos poucos jogadores santistas que não atuaram nos tempos áureos que pode integrar esse time. Não por acaso, eu o chamo de Neymar Arantes do Nascimento, um dos muitos Pelezinhos que surgiram pós-Rei. Todos os novos Pelés sumiram no fio do tempo. Neymar é o único que tem potencial para se firmar. Se jogar 20% do que jogou o original, já está mais que bom. E, agora no Barça, conquistará o mundo.
Luís Alonso Pérez, o Lula
Luís Alonso Pérez é o primeiro Lula famoso do Brasil. Quem moldou o Pelé e montou o Santos Futebol Clube, maior time de futebol de todos os tempos, foi exatamente Luís Alonso Pérez.
A história não faz muita justiça ao Lula, que só dirigiu a Seleção Brasileira como auxiliar de Aimoré Moreira em 1965, num amistoso no domingo à noite, em que a Seleção B, na verdade um combinado paulista, ganhou de 5 a 3 do time da Hungria.
“Formando” a linha mágica do Santos (mais o “intruso” Tite, primeiro à esquerda), com
Dorval, Mengálvio, Pelé e Pepe. Coutinho, o ausente, estava brigado com Pelé. Eles se reconciliaram após intervenção de Milton Neves e do saudoso governador Mário Covas,
em 1992, no Salão de Mármore da Vila
Em frente à segunda “moradia” em São Paulo, na rua Alfredo Ellis, 185, no Paraíso, onde compartilhava um quarto no porão com cinco japoneses. O porão se situa onde hoje está
a garagem (à esquerda)