Milton Neves: uma biografia
A morte do pai
A morte
de papai
O mais cruel foi que aquele 14 de setembro de 1960, dia fatídico, começou radiante. Tudo porque, ao chegar da escola, vislumbrei o Ford do Waldomiro Chofer estacionado em frente de casa. Não podia ser outra coisa: uma viagem ao sítio se anunciava... Mas logo percebi o equívoco: em dia útil não se viajava. Foi então, com a maior habilidade do mundo, que tia Antônia emendou: “Vamos para a roça porque o Milton não está passando bem”. Naquela voz, soava um fatalismo quase doce. Logo mais eu saberia por quê...
Meu irmão já estava dentro do carro, de olhos vidrados, e envolto numa dor recente. Entrei no carro e fomos. Quando fizemos a voltinha lá no alto, onde havia antigamente um mato cheio de macacos (há muito tempo um vizinho desmatou tudo lá e a macacada sumiu) e olhamos para o alto, onde ficava a casa, havia muita gente no terreiro de café – todos vestidos de branco. Embora ardesse de curiosidade, resolvi me calar.
Homero contava doze anos; eu era apenas um moleque. Ele disparou, com endereço certo, mas jogando interrogações ao vento: “Ele morreu, né, Madrinha?”. Ela, numa objetividade acuada, foi seca: “Morreu”. Quando chegamos, fomos para a sala: meu pai estava deitado no caixão. Imediatamente, olhei pela janela. Logo, à frente, no terreiro de café, onde não havia pasto nem manjedoura, sem qualquer motivo razoável, as vaquinhas se concentravam em grupo, como se também quisessem velar o cadáver de papai. Essa cena surreal, sob o véu da morte recente, ainda marca minhas memórias e inspiram uma divagação: o que as novilhas faziam lá? E para açular o mistério, Estrela, nossa preferida, estava prenha e logo deu à luz nosso primeiro bezerrinho.
Tenho poucas lembranças do meu pai. Sua voz, não reconheço; há raríssimos retratos. Lembro que era vascaíno e costumava falar muito sobre o Écio, que jogou no Vasco no final da década de 50, e hoje é um grande amigo meu. Nas horas de descanso, se sentava no alpendre – o olhar esgazeado, mirando o futuro incerto. Por companheiro, um radinho Mitsubishi de capa marrom a ecoar as peripécias do Super Vasco. Ele não se cansava de repetir: “Esse Écio é bom de bola; esse Écio é bom de bola”. O ex-jogador do time da Cruz de Malta escutava sempre esse comentário que reproduzi anos a fio na rádio Jovem Pan. Sentiu-se tocado também. Um dia, veio me agradecer o carinho, mas sou eu quem fica obrigado a ele. Valeu, Écio!
Milton Neves (pai), com os filhos, Milton e Homero, na Praça dos Andradas, em
Muzambinho
Sérgio Cabral encontrou com Écio
Essa se deu quando eu apresentava o
Canal 100, em abril de 1994, na extinta TV
Manchete. Embora contando com acervo
primoroso da história do futebol no Brasil, o
programa durou apenas seis meses. Num
deles, seriam mostrados os jogos do Super
Super Campeonato Carioca de 1958. Talvez
o caso único no mundo de um certame
duplamente super. Isso só era possível num
tempo que não existe mais, quando o
futebol singrava no amadorismo, e o calendário podia ser mais complacente.
O super super nada mais foi do que o segundo torneio de desempate em que se enfrentaram Vasco, Flamengo e Botafogo para ver quem levava o título de 1958. Na época, jogava-se em dois turnos, com pontos corridos. No campeonato “normal”, os três times empataram com 32 pontos. Na época, não havia, como hoje, critério de desempate. Não valiam número de vitórias, gols pró ou confronto direto. A “negra” decidia-se em campo. Sábia e sensacional decisão. No primeiro turno de desempate, o Vasco ganhou do Flamengo, que ganhou do Botafogo, que ganhou do Vasco. Houve a necessidade de um eletrizante segundo turno de desempate. No primeiro jogo, o time da Cruz de Malta ganhou de 2 a 1 do Botafogo. No segundo, Flamengo 2 x 2 Botafogo. Na terceira partida, a decisiva, o Vasco jogava pelo empate o Clássico das Multidões. Dito e feito: 1 a 1 no placar, para mais de 130 mil pagantes no Maracanã. Gols de Roberto Pinto, para o Vasco (13 minutos do segundo tempo), e Babá (Flamengo), aos 25 minutos do segundo tempo.
No jogão, o Vasco formou com Miguel (nota 8), Paulinho (10), Belini (9), Orlando (8) e Coronel (8); Écio (8), Valdemar (9) e Sabará (9); Almir
(9), Roberto Pinto (10) e Pinga (9); Flamengo: Fernando (8); Joubert (8), Pavão (9), Jadir (8) e Jordan (8); Moacir (8), Dequinha (8) e Babá (9); Luís Carlos (8), Henrique (9) e Dida (8). As notas dos jogadores foram dadas pelo grande jornalista Ney Bianchi, de a Manchete Esportiva.
Enfim, era a partida decisiva que estava agendada para exibirmos naquele dia. Como envolvia o Vasco da Gama, o convidado do programa foi Sérgio Cabral, pai, que, além de outros atributos intelectuais, é vascaíno doente. No mesmo dia, recebemos a visita de um jogador do Vasco que participara daquela decisão e comentaria a partida junto com Cabral, que, aliás, estava atrasadíssimo. A querida TV Manchete passava por problemas sérios. Não dispúnhamos de muito tempo de gravação, pois o estúdio seria ocupado por vários outros programas.
Esbaforido, gordo, suado, amarrotado, com paletó na mão, camisa saindo e apressado nas desculpas, Cabral chegou falando de complicações que teve na ponte-aérea, mas insistia em fazer a gravação.
Realizadas as devidas apresentações, envolvendo o saudoso diretor Roberto Jorge, os assessores Edu Zebini e Mário Quaranta, Cabral olhou ressabiado para o jogador e lhe perguntou para qual time havia jogado. O sujeito respondeu de pronto: “No Vasco, ‘seu’ Cabral”. Cabral continuava a fitá-lo sem reconhecê-lo: “Você é o goleiro Miguel?”, “Paulinho?”, “Belini?”, “Coronel?”, “Sabará?”, “Almir?”, “Delém?”, “Vavá?”, “Roberto Peniche?”, “Valdemar?”, “Roberto Pinto?”. Todas as tentativas receberam a negativa zombeteira do jogador.
Não me aguentei e intervim na conversa, alertando-o sobre o seu lapso em uma das posições: “O senhor, mestre, pulou o médio-volante”. Cabral caiu em si, embasbacado e gaguejante: “É o Écio, é o Écio!!! Há quantos anos não te vejo!!!!”. Emocionado, foi desfiando as peripécias da carreira do craque, dentro e fora do gramado. Dentre elas, o fato de Écio ter estrelado a poderosa capa da revista O Cruzeiro, após ter vencido a competição do jogador mais bonito do Brasil, quando suplantou, ninguém mais, ninguém menos, que Gylmar dos Santos Neves e Hideraldo Luis Bellini.
Um emocionado Cabral se debulhou em lágrimas com o volante Écio Capovilla em seus braços. Confesso que nunca vi alguém chorar tanto diante de um ídolo do passado. O mesmo Écio a quem meu pai não se cansava de elogiar. Fiquei ainda mais fã do velho vascaíno Cabral.
Com Fiori Giglioti, o moooooço de Barra Bonita, na Aceesp, por ocasião da posse de
Aroldo Chiorino, de quem Milton Neves foi vice-presidente