Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 17 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Plantão de domingo e Terceiro tempo

Plantão de

domingo e

Terceiro Tempo

 

E mbora me esfalfasse na rádio, meu “talento” demorou a ser reconhecido: mais de uma década, para ser honesto. É verdade que tinha uma relação muito boa com o Fernando Vieira de Mello. No seu estilo morde-e-assopra, ele vivia dizendo que eu era um índio bravo, mas que quando fosse catequizado me tornaria um grande jornalista esportivo, o melhor de todos em se tratando de rádio. E ele tinha certa razão, confesso: mesmo com a cancha adquirida em quase dez anos de Jovem Pan ainda me sentia um capiau na cidade grande. A toada só começou a mudar quando fui cobrir as Macabíadas em 1985. Foi quando “descobri” que o mundo não terminava na Avenida Paulista e saquei que minha vida não podia se restringir ao Plantão Esportivo e ao Detran. Mas essa história conto daqui a algumas páginas.

Depois que assumi a apresentação do Jornal de Esportes e o comando do

Plantão Esportivo, passei a fazer parte da vida esportiva da rádio. E, mais importante, foi onde descobri meu “lugar ao sol”: um âncora futebolístico de estúdio. Transformei essa função totalmente desprestigiada até então numa possibilidade de carreira para outros profissionais que vieram depois. Hoje, o “Plantão Esportivo” (ou “Âncora Esportivo”) não é um mero ledor de resultado; é uma peça essencial na complexa engrenagem das transmissões. Modéstia à parte, o pontapé para esse up grade foi meu. Falando a verdade, o Terceiro Tempo da Jovem Pan é um divisor de águas na comunicação esportiva de estúdio. Hoje, todas as emissoras têm os seus genéricos do Terceiro Tempo com seus âncoras valorizados.

Um passo importante para a consolidação dessa nova função foi a “invenção”

do Plantão de Domingo, em 1978, cuja paternidade se deve a Fernando Vieira de Mello. Desde então, inaugurou-se uma nova maneira de se tratar o futebol nas rádios, a partir do estúdio. Outra novidade foi passar a privilegiar, durante a programação dominical da emissora, a cobertura esportiva.

Anteriormente, o domingo era um dia dedicado à família e, portanto, as

atrações musicais dominavam a grade. Os DJs eram as grandes vedetes das rádios. Quando a Pan quebrou esse paradigma, substituindo música por bola, causou uma espécie de escândalo no meio. Anos depois, Idalina de Oliveira, grande locutora, rádio-atriz e uma das primeiras garotas-propaganda da televisão junto com a Hebe Camargo, encontrou-se comigo por acaso e me agradeceu ironicamente. Disse que havia “roubado” seu emprego na Pan, já que a programação musical fora expurgada dos domingos. O Plantão passou a tomar conta do “dia da família”, registrando os bastidores do jogo, colocando na ribalta os personagens principais. Eu capitaneava as transmissões no pré-jogo e podia dar vazão a meu repertório acumulado de memória esportiva. O programa agradou tanto que me acompanhou, na Pan, entre 1978 e 2005 e já há oito anos na Bandeirantes, onde o apresento por até sete horas direto. E de improviso!

Durante a década de 70 e começo da década de 80, a Jovem Pan tinha em

mãos um verdadeiro case no pós-jogo: o humorístico-esportivo Show de Rádio que marcou época, fazendo paródia e imitando os jogadores. Tirante a reprise dos gols, o programa quase não tinha relação com o jogo que recém-terminara, mas fazia um sucesso danado, conduzido pelo sensacional Estevan Sangirardi. A audiência era tamanha que mal o juiz apitava o fim da partida, aquela fieira de personagens invadia a transmissão, sem intervalo para não desperdiçar o público. Na sequência, eu voltava para o ar, com o Plantão Esportivo Permanente e as últimas informações da rodada.

Embora já contasse com certo nome na seara esportiva, ainda ressentia de

reconhecimento da Jovem Pan em relação à minha dedicação e competência. Trabalhava como um escravo, ganhava pouco e não me davam muito espaço. Minha sorte só foi mudar em 1982, quando o Estevan Sangirardi, numa resolução absurda e tresloucada, decidiu abandonar a emissora em plena Copa do Mundo da Espanha, trocando a Pan pela Bandeirantes, concorrente direta. Do meu ponto de vista, foi uma decisão terrivelmente equivocada de sua parte. A mudança determinou o eclipse do programa, que nunca mais se reergueu. Foi uma atitude intempestiva que quase enlouqueceu a diretoria da Pan. A pergunta que ficava no ar era como preencher a lacuna deixada por um campeão de audiência e de faturamento. Tuta agiu rápido e “inventou” de bate-pronto um programa pós-jogo: o Terceiro Tempo! O nome fora tomado de um informativo de final de noite que levava ao ar o resumo das notícias do dia. Não era um programa esportivo. Para se ter uma ideia da responsabilidade que estávamos assumindo, o programa estreou logo depois do fatídico Itália 3 x 2 Brasil, comandado pelo grande Telê Santana.

Pois, então, foi a partir dessa sequência de coincidências que eu assumi o

programa que se tornou, como um patronímico, minha própria razão de ser, além de ter impulsionado de vez minha carreira. Eu brinco (com um fundo de verdade) que se Deus me concedesse outro filho, lhe daria o nome de Terceiro Tempo Neves, para simbolizar a importância que essa marca tem para mim. Hoje, possuo a propriedade do nome Terceiro Tempo, que foi criado em Porto Alegre (RS), além da exclusividade do seu uso nos mais diversos ramos de atividade – jornal, publicidade, imobiliária. Posso dizer, sem medo de errar, que me apropriei do brand. E isso só foi possível devido a uma certa avareza do ‘seu’ Tuta, que, não antenado, ficou com preguiça de registrar o nome no Instituto de Marcas e Patentes. Na época, eu nem sabia que marca se registrava, mas com a permissão da diretoria da rádio eu paguei a merreca que cobravam para a inscrição, a qual, aliás, só levei adiante porque havia a possibilidade de o Terceiro Tempo ser exibido na TV Manchete. Vejam que coincidência... mais uma.

Em 1994, estava em meu escritório, quando apareceram Hélio Vargas, que foi

meu diretor na Record e na Band (hoje está na Rede Globo) e Emílio Surita, que apresentava um programa musical na Jovem Pan 2. Vieram com a ideia de produzir um programa esportivo para a tevê. Fiquei animadíssimo, pois estava querendo muito me arriscar em novas empreitadas. Fomos procurar Osmar Gonçalves, homem poderoso da Manchete, então diretor comercial da emissora, que condicionou a viabilidade do negócio à comercialização, de nossa parte, de metade das cotas de patrocínio. Prontamente, fechei com a Rede Zacharias e com o Bradesco. Além disso, para utilizarmos o nome Terceiro Tempo no novo programa era preciso a anuência da rádio e o registro no Instituto de Marcas e Patentes. Tuta me concedera de antemão a autorização, mas não quis registrar a marca. Lembro que quando fui informá-lo sobre a necessidade daquela providência, ele me respondeu, bastante irritadiço, como de praxe: “Ah, não! Tem custo, tem custo... Se quiser, você registra”. Dali uma semana, recebemos a notícia de que a Manchete já havia vendido o horário de segunda-feira à noite para outra produção, o que inviabilizou a exibição do Terceiro Tempo. Confesso que fiquei bastante frustrado.

No rádio, o programa já estava emplacado. Não havia nada similar na praça.

Um pós-jogo que literalmente invadia os vestiários e fazia prolongar a emoção da partida. Em pouco tempo, o Terceiro Tempo se tornou o modelo a ser copiado. É um conceito que passou referenciar os programas que vieram depois. E isso vale até hoje.

Logo de saída, o pós-jogo segurava uma bela audiência e faturava adoidado.

Seu sucesso alavancou minha carreira, me deu bastante moral com a diretoria, principalmente quando começou a atiçar o departamento comercial com o potencial para atrair patrocínios. Nosso primeiro sponsor foi a Rede Zacharias de Pneus e Acessórios. Do lado jornalístico, o Terceiro Tempo rendeu grandes momentos: entrevistas memoráveis, passagens cômicas e episódios saborosos. Lembro, por exemplo, da primeira e única vez que vi o Garrincha.

Foi assim: em 1982, a Jovem Pan decidiu tornar habitual a prática de trazer

convidados para participar das transmissões. Nos programas pilotos, por assim dizer, vieram os ex-árbitros José Roberto Wright e Arnaldo Cézar Coelho. A ideia era mantê-los no estúdio até a hora do jogo e depois mandá-los para o estádio, participar da transmissão ao vivo. Finda a jornada, ainda participavam do Terceiro Tempo.

O primeiro convidado oficial foi Manoel Francisco dos Santos, o Mané

Garrincha. A rádio pagava um bom cachê, uns dois mil reais no dinheiro de hoje. Para Garrincha, muito mal das pernas, aquilo valia muito. No final, para se sustentar, jogava por umas quireras nas várzeas da vida. Num certo domingo, depois de uma pelada no campo do Jabaquara, chegou numa viatura da Pan, junto com o repórter Michele Marino, para participar do programa.

No fim do dia, o pagamento. O cheque, em vez de trazer o valor redondo, já

computava os descontos de fundo de garantia, de imposto de renda, etc. Garrincha estrilou. O diretor José Carlos Pereira da Silva pagou a diferença do próprio bolso. O pior foi quando o craque foi remexer os bolsos na busca dos documentos para conferir o CPF necessário para a quitação. Daquela barafunda amarfanhada de papéis diversos, maço de cigarro, notas miúdas, bilhete de loteria, Garrincha sacou uma carteira de identidade toda amassada, com as bordas de plástico carcomidas e foto amarelada, de onde mal se divisavam as informações pessoais. Depois de cumpridos os trâmites, Mané foi embora. Fiquei reparando no caminhar dele. Acompanhei-o até o elevador – aquelas pernas tortas, famosas. Nunca vou me esquecer dessa cena.

Da Jovem Pan, guardo alguns outros momentos memoráveis. Muitos deles, por

óbvio, ligados ao futebol. Foram tantas entrevistas, reportagens, furos... Nunca mais o rádio esportivo fará igual, muito por culpa dessas malditas e modorrentas entrevistas coletivas.

De passagem, me lembro de alguns episódios. Uma entrevista que fiz com

Cafu, no comecinho da carreira dele no São Paulo ficou na minha memória. Era para ser mais uma entrevista com um jovem promissor, cujo risco de dar em nada parecia ser muito grande. Aliás, no meio esportivo, quando alguém diz “olha, anotem esse nome... esse vai ser craque”, pode ficar certo de que o fracasso é iminente.

Num domingo de manhã, na Jovem Pan, estava fazendo o programa, e o

repórter Dirceu Cabral entrou no ar para dar as informações do São Paulo: “Milton Neves, estou com um menino aqui e queria que você anotasse esse nome”. Perguntei como o garoto se chamava: “É Cafu. Esse vai emplacar”.

Coloquei o menino na linha e comecei conversar. Fiz as perguntas de praxe:

idade, estado civil, família. Ele contava 17 anos, quase 18, era solteiro e já tinha dois (!!!!) filhos, com o terceiro a caminho. Outro dia, numa entrevista com a Regina, a mulher do Cafu, que está casada com ele desde a época em que viviam no Jardim Irene, respondeu aos meus parabéns pela longevidade do matrimônio, explicando que a longa duração devia-se ao fato de ter se casado com o Marcos e não com o Cafu. Dessa vez, fui pé-quente, para a desgraça dos meus destratores que caçoam da temperatura de meus pés...

Outra entrevista marcante que fiz foi com o saudoso Dr. Sócrates. Em um

domingo de 1983, antes da decisão do Paulistão entre Corinthians e São Paulo, o repórter João Bosco colocou o Magrão na escuta para a famosa “uma pergunta só”. O repórter estava na porta do hotel, concentração do Timão, antes da partida. Eram 11h da manhã e o democrático jogador havia recém-chegado no local.

Para esse mesmo domingo, estavam programados importantes exames

vestibulares. Com o craque na escuta, não titubeei – perguntei na bucha, sem bom dia: “O que o deixa mais nervoso: a grama decisiva do Morumbi ou o banco da escola no vestibular?”. Ele permaneceu em silêncio. Fiquei com medo de que me ignorasse. Mas, de repente, começou a matraquear. Falou por longos cinco minutos – um milagre para um sujeito extremamente inteligente que odiava pergunta comprida e que amava dar respostas curtíssimas. E concluiu: “É claro que o banco da escola na hora do vestibular!”. A entrevista seguiu por quase uma hora – um recorde! O assunto? Educação. Não falamos uma vírgula sobre futebol.

Algumas horas depois, ele arrebentaria com o São Paulo. Com o Timão

campeão, a comemoração teve lugar numa casa noturna. Em meio à festa, abordado pelo jornalista Orlando Duarte, Sócrates perguntou quem era o jornalista que fizera aquelas questões diferentes. De bate-pronto, Orlando respondeu: “Uma revelação”.

Disso jamais me esquecerei, como ficará sempre na minha memória a

saudação que Sócrates fez a mim, antes de um jogo do Corinthians no Maracanã, quando nasceu meu terceiro filho, Milton Neves Netto. Em 6 de março de 1983, o repórter Israel Gimpel, no gramado, avisou-o sobre o nascimento de meu filho. Sócrates fez questão de, antes do jogo (uma raridade), colocar o fone e me cumprimentar, desejando felicidades ao bebê que havia nascido em Muzambinho.

Uma pena que nada disso ficou registrado para os anais do jornalismo. Na

época, era caro e raro gravar reportagens para arquivo. Só excepcionalmente, a direção da Jovem Pan autorizava o procedimento. O velho bordão do ‘seu’ Tuta -“tem custo, tem custo” - se fazia escutar, e o acesso às tão sonhadas fitas K-7 de capinha vermelha ficava para as calendas. Fazer o quê? Azar da história...

 

Corinthians 1 x 1 São Paulo

 

Local: Estádio do Morumbi - São Paulo (SP)

Data: 14/12/1983

Árbitro: Dulcídio Wanderley Boschillia

Público: 88.085

Renda: Cr$ 126.715.000,00

Corinthians: Leão, Alfinete, Mauro, Juninho, Wladimir, Paulinho, Sócrates, Zenon,

Biro-Biro, Casagrande (Wágner) e Eduardo.

Técnico: Jorge Vieira

São Paulo: Waldir Peres, Paulo (Paulo César), Oscar, Daryo Pereira, Nelsinho, Zé

Mário, Humberto (Gassen), Renato, Márcio Araújo, Marcão e Zé sérgio.

Técnico: Mário Travaglini

Gols: Sócrates (46 - 2º) e Marcão (48 - 2º)

 

Me recordo de um outro episódio marcante que não está relacionado ao

futebol. Sua dimensão trágica marcou demais a minha carreira. Era sábado de carnaval. Mais precisamente 14 de fevereiro de 1981. Dia importante: o Brasil jogaria uma partida amistosa em Quito, no Equador. Como de costume, saí cedo de casa, na rua Capote Valente, rumo à Joven Pan a bordo da minha “possante” Brasília.

Em frente ao Conjunto Nacional, o farol ameaçou fechar, reluzindo a luz

amarela. Eu bem poderia ter avançado o sinal naquela manhã preguiçosa, mas resolvi não seguir. Ou seja, minha previdência ao volante me propiciou um dos maiores furos jornalísticos da minha carreira. Outra coincidência fantástica. Pois, assim que parei o carro, reparei, no lado esquerdo, uma fumaceira danada. Quando firmei os olhos na fachada do Edifício Grande Avenida, me dei conta de que as labaredas já lambiam o prédio.

Apertei o pé e rápido cheguei na rádio. Fui direto para a cobertura do prédio,

que também fica na Paulista. Meu figurino era uma lástima: bermudão e chinelo de dedo. Paulo Barreiros Freire, chefe da técnica, me entregou um microfone e me pus a narrar, sozinho a princípio, o desenrolar da tragédia.

Foi um furo sensacional, num tempo sem celular ou internet. Para resumir,

fiquei sete horas no alto do edifício. Naquela época jogo do Brasil era sagrado. A equipe toda no Equador – José Silvério, Wanderley Nogueira, Orlando Duarte, Bento de Oliveira – e a partida simplesmente não foi transmitida. Só deu Jovem Pan. Eu cheguei primeiro no 25º andar, depois fui ladeado por mais uns dez repórteres. Foi inesquecível.

A cobertura tornou-se um grande aprendizado para mim – profissional de

estúdio que só falava de futebol comandando a reportagem. No dia seguinte, recebi vários elogios escritos na “pedra” da redação. A tônica das mensagens era a surpresa das pessoas que diziam achar que eu só sabia falar de futebol. Uma pena que não guardei esses bilhetes.

A tragédia foi considerável: morreram 17 pessoas e mais de 50 ficaram feridas.

O dano só não foi maior porque era Carnaval. A reportagem do incêndio foi uma lição marcada na carne de uma máxima apregoada por Fernando Vieira de Mello (e que aprendi a fórceps na minha carreira). Ele dizia mais ou menos assim: a responsabilidade número um da emissora é com o ouvinte e nada é mais importante do que a prestação de serviço. O dinamismo inerente ao veículo, ainda mais numa época pré-internet, fazia do rádio um instrumento de comunicação imediato. Eu mesmo fui suspenso algumas vezes quando não obedeci a essa prescrição. Quando ancorava o Plantão Esportivo me demorava demais nas informações sobre futebol, relegando para segundo plano assuntos mais prementes. O incêndio do Grande Avenida foi a epítome desse modelo de fazer jornalismo criado pela Jovem Pan, e que se espalhou como paradigma.

Nesse mesmo dia, depois de umas quatro horas ininterruptas de cobertura,

desci para o 24º andar, sede da Pan, arejar o gogó. Me veio a ideia de ligar para a rádio Continental de Muzambinho, reportar o sinistro em primeira mão. Era um momento marcante da cidade, do jornalismo e da minha carreira. Precisava informar a aldeia os eventos da metrópole, mesmo que fossem trágicos. No fundo, queria enaltecer a pequenez de Muzambinho, que na sua modéstia, não costumava viver dramas daquele talante. Enfim, tinha uma necessidade anímica de me conectar com os meus.

Chamei três vezes a cobrar, mas por falta de verbas, o pessoal rejeitou minha

ligação. Da minha parte, tinha muito pudor em abusar da Jovem Pan e resistia a fazer um interurbano de cunho pessoal. A custo, venci meus bloqueios e entrei no ar, ao vivo, em pleno programa do João Baptista da Silva, o João Dureza, um veteraníssimo do rádio. Na época, ele apresentava um “campeão de audiência”, que ressoava longe pelo Sul mineiro, o programa Cidade Sertaneja. Na minha cabeça, a assimetria de status entre João Dureza e eu era a mesma de São Paulo a Muzambinho. Ele era um ícone; eu, um bagrinho.

Dureza me pôs no ar. Depois de terminado meu boletim exclusivo, ele passou

a se desfazer em elogios. Disse que eu era um orgulho para a cidade, que eu era o melhor repórter que ele conhecia. E não falava isso da boca para fora: afirmava com convicção. Até hoje esse episódio me emociona. Lembrar João Dureza do outro lado da linha, impressionado com meu relato, me deu a noção exata do que é ser jornalista. Abrir mão de todo o resto para buscar a notícia, a satisfação do ouvinte, do público.

João Dureza está marcado na minha vida. E assim restará eternamente. Digo

isso sem qualquer licença poética. Seu túmulo fica ao lado do túmulo de minha mãe, em Muzambinho. Cada vez que vou visitá-la, faço questão de dar uma palavrinha com ele. Paro diante de sua “última morada”, abro os braços e o agradeço de viva voz. Quem passa perto, acredita piamente estar diante de um maluco... Um detalhe emocionante: no epitáfio que adorna seu mausoléu lê-se a seguinte frase: “Enquanto houver uma moda de viola, e uma folia de Reis, João Dureza nunca morrerá”.

Essa mesma experiência que sorvi dos veteranos durante meus tempos de

noviciado, procurei transmitir para os garotos que passaram pela Pan ou que trabalham comigo na Bandeirantes e no meu portal de internet. Muitos deles estão muito bem colocados na vida. O mesmo orgulho que João Dureza disse ter sentido de mim, quando liguei para a Continental no dia do incêndio do Grande Avenida é o que eu sinto de gente como Fabricio Bataglini, Pedro Bassan, Otávio Mesquita, Alan França Pires, Gustavo Grohmann, Paulo Galvão, André Kfouri, Ernesto Paglia (por segundos), Monalisa Perrone, Valmir Salaro, Renata Fan, Oscar Godoi, Daniela Freitas, Chico Prado, e tantos outros. Espero que para todos esses “meninos” possa ter dado algumas dicas valiosas e ensinado alguma coisinha da profissão que eu abracei. Diz o ditado que se conselho fosse bom a gente vendia, mas pelo menos uma lição fiz questão de transmitir para essa turma da nova geração. Dizia para todos, sem exceção: “Treina bastante aqui e vai para a televisão. Radio é trampolim. Eu já sou puta velha, mas vocês podem voar”. E na Pan, dizia o Silvinho do caixa, só duas pessoas conseguiam ganhar dinheiro: o ‘seu’ Tuta e eu.

Num domingo, Fabricio Bataglini me confidenciou em primeira mão, antes

mesmo de anunciar à sua família, que havia recebido uma proposta da Rede Globo e que pediria demissão no dia seguinte. Disse que me agradecia muito pelo conselho e que parte da coragem necessária para a mudança viera da minha insistência. Bataglini trabalha até hoje na Globo, na produção do programa de Ana Maria Braga. O narrador Milton Leite, hoje no Sportv, foi outro que se aconselhou comigo antes de aceitar o convite da ESPN e deixar a Pan.

Um repórter, hoje global, que literalmente, e por coincidência, começou a

carreira comigo foi Ernesto Paglia. A primeira vez que entrou no ar foi numa quarta-feira, dia de futebol. Era um Inter e Corinthians o jogo-comando, com José Silvério narrando. Ele se sentou ao meu lado no estúdio para dar a notícia de um congestionamento na Anchieta. Meu operador Paulo Barreiros Freire avisou Silvério que o repórter Ernesto Paglia entraria ao vivo. Pois bem, num intervalo da transmissão, o narrador chama em alto e bom tom: “Agora Ernesto Paia com informações do trânsito. É com você, Paia”. Antes de ligar o microfone, Paglia desabafou num impropério cabeludo: “Paia é a puta que pariu”. No ar, recuperou a compostura e deu o boletim sem problemas. Retomando a transmissão, Silvério insistiu. “Bem, os senhores ouviram Ernesto Paia, com informações do congestionamento na Anchieta”. Ainda puto da vida, o repórter novato saiu do estúdio soltando os cachorros. “Desde criança me sacaneiam o nome... agora aqui também. Paia é a puta que o pariu”. Me lembro que Paia, ops, Paglia tinha um Chevette branco, caindo aos pedaços, emplacado em Ribeirão Preto, sua cidade natal. Várias taxas e multas pendentes para piorar o cenário. Ajudei-o a elaborar os recursos para o Detran e nos livramos de algumas dívidas.

Outros jornalistas que passaram pela Pan e hoje têm grande cartaz são

Monalisa Perrone e Cesar Tralli. Monalisa, a quem carinhosamente apelidei de “Carnudinha”, por motivos pouco lisonjeiros que prefiro declinar, tinha o vício de se aferrar muito ao texto escrito, o que tornava sua locução meio travada. Com o Tralli era a mesma coisa. Vivia insistindo para que improvisassem mais. Um dia, antes de entrar no ar, arranquei o papel das mãos de Monalisa, que começou a se debulhar em lágrimas, coitada. Depois, pegou os macetes e hoje dá show na televisão.

Outro que ajudei no início de carreira foi Everaldo Marques, da ESPN, nota

1000 em tudo que faz. Levado para a Pan por Flávio Prado, era o melhor aluno do pedaço. Humilde, modesto e sonhador, queria fazer tevê, e ganhava muito pouco no rádio. Durante uma participação especial que fez no curso de jornalismo Praetzel-Fábio Neves Terceiro Tempo, revelou que o cachê que havia recebido era superior ao seu salário na emissora. O mesmo vale para Felipe Motta, outra jovem realidade do jornalismo esportivo. Todos eles, salvo algumas exceções, como Milton Leite, sempre demostram ser muito gratos a mim. E, como digo sempre, a gratidão é a maior virtude do homem, base de todas as demais.

Claro que o mérito é pessoal de cada um, eu não poderia dizer diferente. Mas

vendo todos eles com carreira já sedimentada e realizando o fino do jornalismo não posso esconder meu sentimento de orgulho, mesmo que minha colaboração seja na base de 0,1%.

Na redação da Jovem Pan, em 1987. Da esquerda para a direita: João Antônio de

Carvalho, Flábio Prado, Nilson César, José Carlos Carboni (em pé), Milton Neves e Luís

Carlos Quartarollo

O faraó da tevê

 

Certa noite, em 2003, jantava eu na companhia de amigos no La Tambouille, restaurante top de linha em São Paulo. Tínhamos entornado umas e outras quando aborda nossa mesa a eterna musa da tevê brasileira, a saudosa Hebe Camargo. Ela me disse: “Você está ótimo até em programa policial”. Era o Cidade Alerta, da Record, que apresentava à época substituindo José Luiz Datena.

Como sempre, ela se mostrou muito carinhosa com todos. Confesso que já estava um pouco balão, já que sou desacostumado a farras etílicas. E, no embalo de Baco, ela pediu um selinho para mim. Solicitação prontamente concedida.

Talvez pela emoção do momento, retribuí a boa ação com a maior rata que dei na vida. Com minha voz de locutor, em frente a todos aqueles preclaros comensais, lancei a pérola em alto e bom som: “Hebe Camargo, foi uma emoção muito grande ter beijado o faraó da televisão brasileira”.

Passados os breves segundos do indefectível

silêncio constrangedor, a plateia caiu na risada. Inclusive a homenageada. Eu fiquei com uma baita vergonha daquela saia justa...

E na “plateia” era composta “só” por João Carlos Di Gênio, Abílio Diniz, Jorge Bornhausen, Isael Pinto dos Sucos Camp, Olacyr de Moraes e suas moças e etc...

O sine qua non do Leônidas

 

Em 1973, em uma sexta-feira, quando

Joseval Peixoto voltou à Jovem Pan, vindo

da Rádio Bandeirantes, a ideia era que

dividisse as incumbências da narração com

Osmar Santos, que já comandava 70% dos

jogos importantes. Joseval, com uma prole

de miúdos, declarou que não tinha mais

condições de trabalhar em um dos finais de

semana por mês. Mesmo que fosse jogo de

Copa do Mundo, ele requisitava uma folga.

Era sua condição sine qua non.

Vejam o que se sucedeu. Leônidas da

Silva, o comentarista líder da equipe, se

esgueirou na turma, escolheu o mais

humilde de todos, logo eu, óbvio, e me

indagou, com um olhar suplicante:

“Menino, o que é sine qua non, hein?”.

Explicada a expressão latina, ele se deu por

satisfeito.

Pois bem, durante a primeira

transmissão após a reunião, logo no clássico

do domingo, Osmar Santos, como sempre chamou a participação do comentarista da seguinte maneira: “E agora, a opinião de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, ele esteve lá!”. Aí, Leônidas, “analisou” o renhido São Paulo e Corinthians, no Morumbi, resolvendo usar sua nova sapiência e deitou o verbo: “Senhoras e senhores, quero dizer que esse jogo está muito... sine qua non, porque essa é uma condição de sine qua non, quem tiver mais sine qua non ganha o jogo”.

E Telê Santana quis me matar

 

A cena se passou em 1992, no restaurante Esplanada Grill, que não existe mais, por ocasião do aniversário do saudoso Julinho Bordon. Fui à festa acompanhado do “voz de trovão” Antônio Freitas, até hoje locutor da Rádio Jovem Pan. Não deu nem tempo de piscar: quando me dei por mim, Telê Santana segurava uma faca contra meu pescoço naquela enorme mesa compartilhada por Osmar Santos e Rosa Maria, então sua esposa, Carlos Alberto Torres, Kalef João Francisco Neto e Fernando Casal De Rey, ex-diretor do São Paulo.

Numa das extremidades do instrumento cortante estavam os dedos nodosos, as mãos trêmulas, de Telê Santana. Na outra, a minha jugular. Por minuto e meio, se tanto, passaram aqueles filminhos na minha cabeça. Os melhores momentos da vida. Da família. Os gols mais sensacionais. Até que o técnico do São Paulo interrompeu a sessão com seus berrros:

- Fala agora! Fala agora, coió, se você for homem! Fala na minha frente que eu botei o Elivélton na reserva do São Paulo por inveja do Parreira...

Tentei balbuciar algo. Mas a lâmina não deu trégua. Arrochou mais ainda. O pomo de Adão já começava a ficar avermelhado. Afinei um pouco mais o pescoço para tentar me livrar do aço selvagem da faca. Não funcionou. Meus pés subiram ao ar como se eu galgasse uma escada imaginária. São meus segundos finais.

Telê voltou à carga:

- Você falou que tenho inveja do Parreira. Você disse que eu coloco o Elivelton na reserva só porque, na Seleção, com o Parreira ele é titular. Repita agora!!!! Repita... Saiba que o Elivelton não está jogando nada, por isso está no banco...

Então, puxado por Fernando Casal De Rey, Telê distende finalmente os músculos, a faca se abaixa. Eu estou arrasado. Mas a salvo. Quase fui dessa para a melhor, graças a vaidade do Mestre, e também pela minha verve polêmica. Fazer o quê? Ossos do ofício... E o detalhe: a faca era de ponta reta, texana, e não pontiaguda como quase todas.

Milton Leite e seus colchões

 

Milton Leite é um dos melhores jornalistas que conheci. Sujeito eclético e culto. Com ele trabalhei anos e anos na Rádio Jovem Pan. Eu o chamava de “Milton Bom”. Juntos, torcíamos e rezávamos por Guga em seus áureos tempos de Roland Garros. Um dia, ‘seu’ Tuta, dono da Jovem Pan, parou o Milton Leite no corredor e, ao meu lado, comunicou-o que estava escalado para, junto comigo, transmitir futsal na TV Jovem Pan, Canal 16 UHF. Milton Leite relutou, mas “intimado” foi para o Ginásio Presidente Ciro, perto do Parque São Jorge. Estava muito receoso, pois não tinha qualquer experiência em narração esportiva. Ele faria a preliminar, Wimpro x Cães Vadios, e eu, o jogo de fundo, Corinthians e Palmeiras.

Vendo sua apreensão e aflição, inverti os jogos, dispensei o comentarista Mário Travaglini e narrei o primeiro jogo – uma pelada – ladeado por Milton Leite, que fez as vezes de comentarista. Na verdade, minha intenção era ambientá-lo com a nova função, deixá-lo à vontade com o retorno, o timing; enfim, com as manhas da transmissão. A ideia era que ele narrasse o jogo com o Emerson Leão de comentarista. E assim foi. Competente, acalmou-se, comentou e depois transmitiu seu primeiro jogo da vida. E bem. Ao final, feliz, me abraçou e disse que eu tinha sido um pai para ele.

E seguimos a vida na Jovem Pan, rádio e TV. Quando a TV encerrou as atividades, Milton Leite foi convidado para trabalhar na ESPN. Imediatamente, ele me consultou se a mudança seria benéfica. Respondi para que fosse “ontem”, pois, financeiramente, a Jovem Pan era boa apenas para ‘seu’ Tuta e para mim. O resultado foi um sucesso!

Nossa relação começou a estremecer quando Milton Leite teceu críticas a meu respeito na internet em razão de um episódio em que José Trajano, seu chefe então, me ofendeu no ar e foi processado.

Ingrato, agindo como uma cobra venenosa para puxar o saco de seu diretor, escreveu que era uma vergonha “fazer referência a duas cervejas” na mídia. Ora, desde 1994 que venho sendo contratado por cervejarias em meus trabalhos de rádio e tevê, sendo disputado a tapa por elas. Mas sempre anuncio uma de cada vez, nunca ao mesmo tempo, o que seria um absurdo.

Mas quem fez merchan simultaneamente para três marcas concorrentes de colchão na Rádio Jovem Pan? Justamente o “crítico” Milton Leite! E por um longo tempo no Show da Manhã, jornal que apresentava, e muito bem. E aí vem me criticar só porque eu trocava de cerveja de dois em dois ou de cinco em cinco anos?

E por que ele passou a fazer merchan?

Um belo dia, meados dos anos 90, um desesperado Milton Leite me procurou em meu escritório, onde aparecia só ao meio-dia e no final da tarde. Foi me comunicar que havia se apaixonado por uma repórter da rádio e que estava em dificuldades financeiras devido a despesas com a família anterior e com os gastos do novo relacionamento.

Ele ansiava por fazer merchan, mas seu Show da Manhã não contemplava ações de merchandising no plano comercial. Diante de sua insistência canina, eu fui tentar dobrar o ‘seu’ Tuta, que resistiu, mas concordou. Isso fez com que Milton Rodrigues Leite recebesse de minha agência sua remuneração mensal – cachê por testemunhais dos colchões concorrentes Copel, Ortobom e Giorgio Nicoli.

Meses depois, ele volta a implorar por mais merchans, alegando que as despesas haviam aumentado. Mais uma vez, consigo dobrar ‘seu’ Tuta, com o argumento de que manchetes negativas sobre Milton Leite poderiam manchar a reputação da rádio. O dono da rádio cedeu, aumentamos os merchans e os repasses para o narrador. Milton, mais uma vez, emocionado, disse que eu era o seu segundo pai.

Pai nada! Tratou-me como um “madrasto”, criticando hipocritamente minhas anuais mudanças de cervejarias e virando a cara para mim em 2010, no Rio, durante a convocação de Dunga para a Copa, e nos estúdios da Rede Globo, na África do Sul, quando fui entrevistar Galvão Bueno.

Na verdade, ele não virou o rosto. Ficou é com vergonha de me encarar. Sócrates e a Schincariol

 

Ali pela segunda metade dos anos 90, eu

era apresentador do MediaCast, um projeto

pioneiro lançado nos balbucios da internet que transmitia via web conteúdo jornalístico e

esportivo. Chegamos, inclusive, a transmitir

um Terceiro Tempo com o suporte tecnológico da empresa, mas a Jovem Pan não se interessou muito e não soube capitalizar aquela estupenda revolução tecnológica que se anunciava. Foi a primeira vez no Brasil que um programa

esportivo foi ao ar ao vivo pela “nova” internet.

Enfim, mesmo sem a parceria da rádio, a

MediaCast continuou a operar. Lá tive a chance de realizar várias e encorpadas entrevistas num programa que durava duas horas, dentre as

quais me lembro com carinho da que fiz com o Doutor Sócrates. Durante todo o tempo, ele não largou sua latinha de Skol. Deve ter tomado

umas quinze.

Aquela foi a primeira vez que estive cara a

cara com o Magro. Já o havia visto em uma

ocasião, mas de relance, quando, em 1983, ele saía furtivamente da garagem do prédio da

Jovem Pan diretamente para o elevador que o

levaria até a sala de um misterioso italiano, com escritório no mesmo edifício da rádio. Foi nesse dia que Sócrates acertou pessoalmente sua transferência para a Fiorentina.

Ao final da entrevista, da qual Raí participou de metade, informei que, conforme costumava fazer com os convidados, mandaria uma geladeira personalizada da Schincariol, minha parceira na ocasião, assim como uma Kombi lotada de camisetas, relógios de parede, canetas, bonés, guarda-sóis, guarda-chuvas e dezenas e dezenas de caixas de água mineral, refrigerantes e cervejas da marca. Ao escutar o nome da cerveja, ele não se fez de rogado, levantou os dois braços e, gargalhando, berrou: “Essaaaa... só em últimaaaaaaaaaaaa instânciaaaaaaaa!!!!!!!!”. Mas, conta Terence Paiva, seu amigo e hoje meu companheiro de Band, que ele recebeu tudo em sua casa no Brooklin e bebeu sim as “Schincarióis”. E depois vendeu a casa com a geladeira e tudo.

Na redação da Jovem Pan, no início da década de 1980, com uma bolsa promocional da

Rede Zacharias de Pneus