Milton Neves: uma biografia
Repórter de trânsito
Repórter
de trânsito
N uma ironia maquiavélica, a primeira incumbência que me atribuíram na rádio foi a cobertura do trânsito. Até aí, nada de mais: a grande maioria dos repórteres, mesmo os mais renomados, debutou engolindo fumaça em congestionamento. O problema é que, na época, São Paulo era uma gigante desconhecida para esse mineiro matuto. Não sabia o nome de uma rua sequer, um caminho que fosse. Aquele emaranhado diabólico, traduzido em logradouros, para mim, era um mistério mais profundo do que falar russo. Em todo caso, no primeiro senão que interpus à missão que me agraciaram, já tomei um presta-atenção do Fernando Vieira de Mello: “Você não conhece nada, não quer ir ao Detran, volta para Muzambinho, então, caipira”.
Na São Paulo dos anos 70, o Detran, no Ibirapuera, era o centro nevrálgico das
informações sobre trânsito. O órgão era vinculado à Polícia Civil e lidava com assuntos que extrapolavam a mera circulação do tráfego. Toda a burocracia relacionada aos veículos (emplacamento, pagamento de taxas) e motoristas (exame médico, habilitação) se concentrava no Detran e na sua sede principal. Além disso, a tecnologia que permitia a entrada ao vivo nas rádios não era muito avançada. Para se ter uma ideia, a Jovem Pan contava apenas com uma viatura – uma Rural Willis – munida de rádio em frequência FM. Assim, a reportaiada das rádios e jornais se reunia na sala de imprensa, onde dispunham de Linhas Preferenciais que se conectavam com seus respectivos veículos de comunicação. Muita gente que hoje está nos píncaros da carreira amassou barro comigo naquela salinha acabrunhada. De orelhada, posso lembrar de Dora Kramer, Paulo Markun e Randau Marques.
O trampo se mostrava empedernido, principalmente para o cabra aqui, mas
enfim estava empregado e, melhor ainda, pendurado ao microfone, objeto antigo dos sonhos de infância. Em que pese esse certo alívio, minha rotina não era bolinho – às 6:30h da manhã, fazia ronda com a viatura. Depois ficava no Detran a partir das 9:00. À tarde, faculdade. No final do dia, o mesmo procedimento: fazia a ronda com a viatura, antes de ser depositado em casa.
Mas o pior mesmo era lidar com um assunto que eu não conseguia
compreender: a complexidade das ruas, da tecnologia. Um mistério insondável. Para se ter uma ideia da minha caipirice, vou contar, sem peias, dois episódios tragicômicos que a 40 anos de distância podem fazer rir, mas no calor do momento embrulharam meus intestinos.
Na sala de imprensa do Detran, além das Linhas Preferenciais, havia um ramal
geral, que vivia ocupado. Me lembro até hoje: o número do telefone era 711161, ramal 116. Um belo dia – eu devia ter uns 22 anos – o “maldito” começa a tocar e me flagra nas redondezas. Eu dei uma de João-sem-braço e me retirei, à francesa, de perto do aparelho. Paulo Markun, setorista e estagiário do Estadão, hoje renomado jornalista, que me fazia companhia no plantão, me olha torto e dispara: “Ô, bonitão, por que você não atendeu?!”. Carregava a pergunta a sugestão de que eu tivesse sido arrogante, me eximindo de tarefa tão reles. Na maior das inocências, eu lhe expliquei que não atendia o telefone, porque simplesmente não sabia como fazê-lo: temia confundir o bocal com o auscutador.
Um pouco mais tarde, já em 1973, eu fazia o boletim do trânsito logo às sete
da matina. Ainda era completamente verde na lida das ruas. Eu, então, bolei uma estratégia infalível: guardava por escrito a descrição dos congestionamentos do dia. O negócio funcionava assim: pela manhã, a 23 de Maio congestionava no sentido do aeroporto para o centro; a Nove de Julho, no sentido dos bairros para o centro; a Radial Leste, da Zona Leste até a Diametral leste-oeste; o Minhocão, no sentido do Largo Padre Péricles para Praça Roosevelt. À tarde, bastava inverter a ordem do tráfego e, pronto, não tinha erro.
Um dia, para meu desespero, perdi as benditas das folhas. Procurei por todos
os cantos em vão. Até por baixo do carpete rasgado fucei. Minha salvação estava na ajuda alheia. Pedi para o sargento Antonio Sol – o Toninho Sol – funcionário do Detran para que me arranjasse alguns congestionamentos, porque eu, obviamente, não conhecia nada e precisava entrar no ar. Munido de espírito zombeteiro ou talvez por desacreditar na minha ignorância, Toninho escrevinhou umas situações sem sentido, do tipo, Marginal do Tietê totalmente congestionada na altura do aeroporto de Congonhas; av. Rubem Berta, na altura da Penha, totalmente parada; avenida Nove de Julho, em Guarulhos, com acidente. Já no ar, depois de informar as duas primeiras situações absurdas, Ney Gonçalves Dias, o apresentador do Show da Manhã, me interrompeu incontinenti com uma inabitual condescendência: “Esse é o Milton Neves, brincalhão, jovem lá do Sul de Minas”. Ele achou que eu estivesse troçando, que eu fosse um gozador. Imediatamente, tocou a Linha Preferencial. Do outro lado do fone, vituperava aos berros: “Milton Neves, sua anta, sua besta, você trocou Jesus por Genésio”. Enquanto eu me debulhava em lágrimas, o Toninho Sol entra na sala confrangido, me pedindo desculpas. O sargento logo percebeu a gravidade da situação e pôs-se, ele também, a chorar. Nunca podia imaginar que aquele jornalista realmente não conhecesse as ruas paulistanas. Antonio Sol, hoje com 79 anos, vive na Zona Leste de São Paulo.
Com Silvério Rodrigues, motorista da Pan: o homem que, desde os anos 70, anunciava a
iminência de um acidente aéreo na Rubem Berta, à beira do aeroporto de Congonhas
Primeira aparição no jornal, como jornalista da Pan, ao lado de Osmar Santos, Orlando
Duarte e Cândido Garcia (de barba)