Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 20 de 22

Páginas do PDF

Milton Neves: uma biografia

Bandeirantes

 

E m 2005, depois de ser demitido indiretamente, conforme assevereu a Justiça do Trabalho, troquei a Pan pela Bandeirantes após 33 anos de serviços prestados. Desde a época em que ouvia a voz impagável de Fiori Giglioti, perdido em Muzambinho, sonhava com esse momento. E, pensando bem, olhando para trás, para o começo da minha carreira, aquela era uma ideia realmente absurda. Analisando friamente, sem falsa modéstia, a previsão que meu sogro fizera na longínqua década de 60 (disse que eu só entraria na Bandeirantes se fosse para limpar privada) era a mais razoável de se concretizar do que a realidade que eu estava vivendo.

Minha saída da Pan, entretanto, foi um pouco atribulada. Deixei a rádio estremecido com ‘seu’ Tuta. Na verdade, fui fritado pela direção, tanto que estou ganhando o processo judicial que movi contra eles por assédio moral. Me vi sendo gradualmente limado da programação e indisposto com meus colegas. No final, a situação estava tão crítica que os repórteres eram proibidos de citar meu nome no ar, mesmo quando eu ancorava o Plantão Esportivo e o Terceiro Tempo.

O problema todo é que havia muito ciúme da minha presença na Record, que estava cada vez mais frequente. A diretoria achava que eu levava os melhores patrocinadores para a tevê e relegava a Pan ao segundo plano. Mas ele foi injusto nessa avaliação. Eu até me recusei a apresentar um programa de variedades no domingo à noite, o Domingo Espetacular (após minha desistência, ele foi apresentado por Celso Freitas e Paulo Henrique Amorim), criado para concorrer com o Fantástico, porque tinha compromisso com a rádio. Hoje, minha relação com ‘seu’ Tuta é diplomática, quase cordial. O aceno protocolar no elevador quando nos cruzamos é a praxe. De verdade, eu gosto muito dele. No final de 2012, fui até a Jovem Pan duas vezes e cruzei com antigos colegas. O carinho e a admiração são mútuos e, confesso, fiquei comovido com a recepção. Foram mais de três décadas de convivência. Mas como a maledicência não tem limites, houve aqueles que desconfiassem do propósito desinteressado das minhas visitas (afinal, era tempo de Natal) e creditaram minha presença no prédio a razões pecuniárias. Um dia posso precisar do dinheiro da Pan, mas hoje não.

Na Bandeirantes, dei continuidade à minha carreira, já impulsionada pela presença na televisão. Reencontrei amigos, como o Zé Silvério, a quem apelidei de Pai do Gol, e fiz novas e profundas relações, Alex Muller, Sérgio Patrick, Mário Baccei, Ricardo Capriotti, Cláudio Zaidan, Frank Fortes, companheiros a quem saúdo aqui. Na nova casa, consolidei minha função de âncora de mídia eletrônica e pude replicar minha experiência em outras emissoras da rede. Verdade que hoje trabalho um pouco menos, mas com o mesmo afinco e determinação de outras épocas, quando virava barro 16 horas por dia. Mas eu mereço. Com mais de 60 anos no lombo, tenho direito a um refresco de vez em quando.

Ainda assim, minha vida profissional continua repleta. Faço tevê na Band e Band Sports, escrevo para a Placar e Agora São Paulo; na internet, toco o portal Terceiro Tempo, o twitter e meu blog, e ainda dou a cara para bater nas rádios Bandeirantes AM e FM, Band News FM, Sulamérica Trânsito FM, Bradesco Esportes FM, com dezoito intervenções diárias. Escrevo para três revistas segmentadas e faço eventos corporativos por todo o Brasil. At last, but not the least, como diria o poliglota, dou palestras em faculdades, nas quais troco meu cachê de 50 mil reais, que normalmente cobro para enventos corporativos, por um depósito de três mil reais em dinheiro e o equivalente a esse valor em mantimentos, a serem revertidos para o Asilo São Vicente de Paulo de Muzambinho e para a Casa de Atendimento ao Muzambinho com Câncer de Jaú.

Souvenires perigosos

 

Em Israel, em 1985, o grande jornalista Ricardo Setyon nos levou ao deserto da Judeia, onde jazem cadáveres de tanques, caminhões e outros trens bélicos. Os restos mortais ficarão por lá por toda a eternidade como troféus da vitória de Israel sobre os árabes na guerra de Yom Kippur, em 1973. Nas placas dos equipamentos, lê-se “Made in URSS”.

No assoalho dos tanques, há sangue talhado misturado ao combustível e muitas cápsulas deflagradas. Muito matuto, subi num desses veículos destruídos e recolhi uns cartuchos – enormes. Antes de irmos embora, guardei alguns na mala. Queria mostrá-los no Mesa-Redonda da TV Gazeta, onde fazia participações especiais.

No aeroporto David Ben Gurion,

esperávamos o embarque rumo a Paris. Dali

a um pouco chegou o Jack Leon Terpins (era

sócio das Lojas Brasileiras, que não existem

mais, e das lojas Marisa, casado com a

Denise Goldfarb, filha de Bernardo

Goldfarb) todo esbaforido, porque ressoava

um aviso chamando um tal de “Mister Filho

Neves Milton”. Terpins me conduziu às

autoridades, que, imediatamente me

detiveram. Não vou me vangloriar: não teve

algema ou revólver no peito. Marcos

Arbaitman também foi me socorrer.

Com minha mala escancarada sobre uma

mesa, os seguranças mostravam a cápsula

que peguei no assoalho do tanque. O Jack

não falava nada de hebraico, mas com seu inglês macarrônico fez compreender que eu era um jornalista brasileiro e queria levar os “souvenires” para mostrar na televisão. O mal entendido foi desfeito, mas confiscaram os petardos. Resultado: o voo atrasou e eu ganhei um upgrade: me colocaram na First Class. Eu nem sabia da existência daquela parte nobre do avião.

E Samuel andou sobre as águas

 

Num barzinho às margens do Lago Tiberíades, onde Jesus caminhou sobre a água, estávamos Osmar Santos, Rosa Maria, Mário Marinho, Fran Augusti, Samuel Ferro, Paulo Adário do Jornal do Brasil e eu.

Samuel Ferro ficou escutando Rosa Maria, ex-esposa do Osmar Santos e mulher muito religiosa, contar histórias bíblicas. Samuel já havia tomado dez latas de Maccabi Beer, a Brahma deles lá. Frágil a tais libações, ele fica grogue rápido. Só de olhar o carrinho do avião vindo com as bebidas, o moço já ficava de fogo. Quando bebe, como costuma acontecer com os mais sensíveis, o bicho se ouriça. Rosa Maria contou que Jesus pegou uma canoa, foi ao centro do lago e andou sobre as águas. Samuel, já meio balão, não se fez de rogado: “Se Jesus andou, eu também ando”. Aí, ele remou uns cinquenta metros, e ousou emular o milagre de Cristo. Das mesas, ao primeiro “passo” de Samuel, só se ouvia o glup, glup, glup.

Na hora H, foi salvo por dois militares israelenses que almoçavam ao lado e que o tiraram da água em meio a uma série de impropérios contra o dublê de santo e contra seus acompanhantes “irresponsáveis”.

Em 1988, no programa Mesa-Redonda, da TV Gazeta, após a primeira partida da final do

Campeonato Paulista entre Corinthians e Guarani, quando Neto (o terceiro, da esquerda

para a direita) marcou um golaço de bicicleta em pleno Morumbi. Com Pedro Luiz,

Roberto Avallone, Eduardo José Farah, Wanderley Nogueira e Gilberto Costa

Com Pelé, no Terceiro Tempo da TV Record, em 2001