Milton Neves: uma biografia

André Rosemberg · Capítulo 18 de 22

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Milton Neves: uma biografia

Publicidade e viagem para Israel

Publicidade

e viagem

para Israel

 

E m 1982, já desfrutava de um certo sucesso devido ao Terceiro Tempo, que já bombava na audiência. No entanto, não havia jeito: continuava ganhando uma merreca. Me virava do jeito que dava – na rádio e no Detran. Eu e minha Brasília velha. A oportunidade de fazer um up grade no quesito automotivo veio com uma venda em baciada dos carros que eram descartados pela diretoria da GM. Nessa, comprei uma Caravan, onde cabia, com folga, a família toda. Mas em cavalo (quase) dado não se olha os dentes. Me venderam o carro com os pneus em frangalhos. Certamente substituídos, à socapa, antes do negócio ser fechado. Quem poderia prever que devido a essa insuspeita calvície, consegui meu primeiro patrocínio? Mais uma das coincidências que guiam minha vida.

Pois, sem me fazer de rogado, estacionava minha Caravan no pátio do Detran,

com os pneus reluzentemente à mostra. Certa vez, o delegado Sérgio Madureira me chamou de lado para uma admoestação muito justa. Afinal, casa de ferreiro, espeto é de pau. Funcionário do Detran com os pneus carecas? Onde já se viu...

A minha fortuna foi retroativa. Explico o porquê. Dois anos antes, conhecera

no Detran Ademir Lopes Parra, um dos diretores da Rede Zacharias de Pneus, que viera fazer o BO de um estelionato de que havia sido vítima. Um gaiato havia lhe emitido um “cheque borrachudo” na compra de dois Rádios Rio de Janeiro, o top de linha da época. Numa época pré-cartão de crédito, esse golpe era muito comum. Por sorte, ele havia anotado a placa do carro e, após um eficiente trabalho de investigação, chegamos no 171, que se viu obrigado a pagar o que devia. No fim das contas, Ademir ficou contentíssimo.

Com os pneus carecas na minha Caravan nova decidi ir à loja de Ademir

solucionar o meu problema. Não apenas me agraciaram com um desconto de 10%, como também ganhei “lindas” rodas raiadas, que o pessoal achava bastante bregas, mas ornaram muito bem na minha Caravan. Na ocasião, estava presente outro diretor da rede, Luis Antonio Píccolo, que elogiou muito o Terceiro Tempo, a ponto de me oferecerem um patrocínio. Disse que não sabia como funcionava o negócio, mas que me interessava, sim. No entanto, sem dar muita trela para a proposta. Marcaram comigo no dia seguinte às sete da madrugada: em ponto. Dei uma atrasadinha básica, sem desdém nenhum, apenas dando vazão à minha caipirice. Uma oportunidade de ouro que só vim a vislumbrar mais tarde. Tomei um presta-atenção daqueles. E ganhei nova chance, já que a diretoria comercial, claro, não havia esperado a primadona chegar. Marcaram o encontro para o mesmo horário na manhã seguinte. Tomei tenência e cheguei na hora aprazada. Fechei, sem problemas, o patrocínio. A partir de então o bordão “Zacharias é uóóóóóóóótimo” me acompanhou por doze anos, enchendo o microfone da Pan. Durante muitos anos a rede automotiva seguiu como meu sponsor exclusivo.

O mais curioso foi que no mês seguinte, me chamaram no caixa para assinar

um boleto. Logo lamentei: acreditava que seria mais uma vez admoestado por alguma falta que tivesse cometido, como costumava acontecer com certa frequência. Chegando na boca do caixa, Silvio Malagola, vulgo Silvio Pintado, no seu proverbial mau humor, mandou que eu assinasse logo a via. Diante do meu embasbacamento, decidiu me esclarecer a questão: “É a tua comissão do Zacharias”. Eu olhei para aquele cheque do Banco Nacional, e olhei de novo e tornei a olhar. Os cifrões cintilavam. Achei que houvesse alguma coisa errada... Era quase o dobro do meu salário mensal. Cheguei em casa com aquela dinheirama (para os meus modestos fundos) e mostrei para a Lenice. Decidimos ir para Santos no fim de semana seguinte. Nos hospedamos no Hotel Parque Balneário, com direito a camarão no jantar. Gastei metade da comissão nessa extravagância. Na volta para casa, Lenice ponderou que devíamos guardar o dinheiro e, no futuro, comprar uma casa no litoral, sonho antigo dela. Desde então, guardei religiosamente todo o dinheiro que recebi do Zacharias, morrendo de medo que ele largasse mão de mim... Durou doze anos.

Ainda assim, eu fiquei durante muito tempo sem ter a dimensão do meu lugar

na publicidade. A ficha só caiu quando, muitos anos depois, o mesmo Silvio Pintado que me pagou a minha primeira comissão, me encontrou no corredor e disse: “Milton Neves, no que diz respeito a faturamento, essa radio só é boa para dois caras. Para o Tuta e para você”.

O casamento entre jornalismo e publicidade rendeu muito patrulhamento na

minha carreira. Hoje, um pouco menos, pois as vestais começaram a perceber que as atividades não são incompatíveis. Ao contrário. Não há qualquer conflito de interesses, uma vez que a publicidade não interfere na credibilidade do jornalista. O merchandising que faço para determinada empresa, os eventos institucionais de que participo ocorrem em espaços separados. São as empresas patrocinadoras que produzem o material. Minha função é apenas a de reproduzi-lo, com clara distinção do conteúdo editorial. E não estou sozinho nessa empreitada: muitos jornalistas consagrados se dedicam à publicidade, sem prejuízo da reputação que construíram. Mesmo os grandes jornais, hoje em dia, se renderam à publicidade para sobreviver. O New York Times, por exemplo, passou a veicular propaganda na antes imaculada primeira página. A Folha e o Estadão, em São Paulo, envelopam o jornal com publicidade, com a chancela do dono da empresa, já que os anúncios, muitas vezes de página inteira, aparecem coroados pelo cabeçalho oficial, sob os auspícios do diretor de redação.

Por motivos de foro íntimo, três produtos eu me recuso a anunciar: cigarro,

cachaça e insumos da Parmalat. Os dois primeiros são autoexplicativos. Já dos derivados da empresa italiana evito fazer propaganda, porque quando a Parmalat entrou com força no futebol, na cogestão com o Palmeiras, no começo dos anos 90, muito se falou da influência econômica nos resultados esportivos. Eu sempre disse que a chegada da Parmalat representou uma revolução no gerenciamento do futebol no Brasil, ainda que as suas influências tenham sido mal aproveitadas. Assim, para evitar que as más línguas associem meus reiterados elogios a qualquer tipo de vantagem desabonadora, prefiro me abster de anunciar seus produtos.

A aliança entre as duas carreiras – jornalista e publicitário – foi o que me

ajudou a tirar a barriga da miséria. Mesmo com o patrocínio da Rede Zacharias, eu ainda era muito tímido na prospecção de clientes. Na minha caipirice humilde dava graças aos céus da vida que estava levando: apartamento próprio, os meninos em escola particular, o comando do Terceiro Tempo. O que mais eu podia pedir para Deus, ainda mais tendo em vista as perspectivas da minha infância e adolescência?

Quem me abriu os olhos para a esteiteza dos meus horizontes foi o Osmar

Santos. Durante a viagem que fizemos para Israel, em 1985, para cobrir as Macabíadas, ele me fez ver o final inglório de alguns radialistas que conheceram muito sucesso no auge, mas que sucumbiram à falta de dinheiro quando suas carreiras declinaram. E todos eles tomaram parte do meu panteão de ídolos: principalmente Fiori Giglioti, que terminou seus dias sem o reconhecimento financeiro à altura do seu lugar no pódio dos narradores de futebol. O Pai da Matéria vivia a me dizer: “Mineiro, você precisa aliar o sucesso profissional ao sucesso financeiro”. A percepção exata do rumo que tomava minha vida, eu só tive na Terra Santa: minha primeira viagem internacional, a segunda vez que voei de avião na vida.

A estada em Israel representou um divisor de águas na minha trajetória

profissional. A Lenice costuma dizer que antes da viagem eu era um índio a ser catequizado. No exterior, a convivência com outras culturas, com outras formas de se relacionar com a vida e com a profissão me fez perceber a premência em sacudir a modorra da modéstia que conduzia meu cotidiano, em ampliar meu horizonte, o qual se limitava à rotina do rádio e do Detran. Continuei um caipira, é verdade, porque a essência da gente não muda com o tempo. Mas, ao menos, me tornei um caboclo com os olhos abertos para as oportunidades.

Como a que quase deixei escapar em 1994, quando fui contratado pela

cervejaria Schincariol, com a qual fiz parceria por 10 anos até abrirem mão dos meus serviços em 2004.

Na Schin, que antes de se tornar amplamente conhecida e reconhecida, na

grande mídia e em rede nacional, era chamada pelos poucos consumidores de “Xincariol”, fizemos grandes campanhas. Talvez a mais emblemática tenha sido a do “Experimenta”, em conjunto com Zeca Pagodinho.

Até 1994, a cervejaria tinha um alcance somente local. Esse fato, confesso, me

desanimava a entreter contato comercial com a empresa. Deslavadamente, fazia muxoxo com a insistência dos executivos que correram atrás de mim durante um mês. Foi o grande comentarista Mauro Nóbrega, que alcunhei de “O Correto”, natural de Porto Feliz, vizinha de Itu, terra da Schin, que me convenceu a procurar Rosan Francischinelli, um dos diretores.

A obstinação em minha contratação, apesar das seguidas refugadas que dei,

deveu-se à performance jornalística que demonstrei num dos momentos mais dramáticos da história esportiva nacional: a morte de Ayrton Senna, em 1° de maio de 1994, em San Marino, após se chocar com o muro da curva Tamburello.

Eu não conheço patavinas de Fórmula 1, mas tenho sensibilidade jornalística

considerável. Tanto no exato instante do acidente, quanto no tenso lapso de tempo que se sucedeu, tive certeza absoluta de que o piloto fenomenal não tinha mais chance de vida, ainda que houvesse indefinição e sigilo médicos a respeito do desfecho do sinistro. No ar, e contra todas as prescrições do manual do bom jornalismo, mantive o tom pesaroso e pessimista, afirmando ser impossível para alguém sobreviver a um impacto daqueles, reprisado ad nauseam pela televisão.

Me lembro que, fora do ar, Nilson César, na época o titular das transmições de

automobilismo na Jovem Pan, me admoestava, à beira da loucura, afirmando que eu não devia ser tão categórico sobre a situação do piloto. Mas, mesmo antes da lúgubre confirmação pela médica italiana - “Ayrton Senna è morto” -, mantive meu veredito.

Foi, enfim, esse memorável trabalho de cinco horas que levou meu grande

amigo Nelson Schincariol, morto num assalto, e Rosan a bater o pé por minha contratação. Mais uma coincidência a guiar minha carreira...

Com colegas jornalistas, em Israel, no ponto mais baixo da Terra, às margens do Mar

Morto, durante as Macabíadas de 1989

As famosas pedras redondas de Massada (Israel), que serviram de munição para os

judeus contra o assédio Romano. Durante a cobertura das Macabíadas de 1989, com

Lenice