Milton Neves: uma biografia
Epílogo
N o domingo 27 de janeiro de 2013, em meio à modorra do início de temporada do futebol nacional, me dirigia de manhã para a rádio Bandeirantes, onde, durante as sete horas seguintes, apresentaria o Domingo Esportivo. Como de costume, avançava pela rodovia Castelo Branco ouvindo música ambiente, ainda um pouco sonado e repassando a pauta do programa.
Cheguei na redação bem antes das 9h e encontrei os plantonistas numa
polvorosa incomum para o dia e o horário. Meu faro de 40 anos de janela se confirmou na sequência: os primeiros relatos do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, se anunciavam a conta-gotas. A dimenção total da tragédia ainda era incerta. Em companhia do repórter Cláudio Junqueira, tomei a dianteira da cobertura, entrevistando, em primeira mão, os personagens envolvidos naquele drama.
Ficamos horas no ar, sem interrupção ou propaganda, desencavando
informações, orientando o público, prestando serviço. O futebol – a coisa mais importante entre as coisas menos importantes (Arrigo Sachi) – ficou prontamente em segundo plano. A prioridade é sempre do jornalismo, como já me ensinara Fernando Vieira de Mello. A agilidade da equipe da Bandeirantes acabou por pautar outras rádios e emissoras de tevê. Causou comoção a entrevista que fizemos com um dos bombeiros socorristas ao relatar a sinfonia dos celulares onde jaziam os corpos sem vida.
Terminada a cobertura, num momento de desanuvio, vaguei pelos corredores
da redação. Não pude deixar de reparar, com o rabo do olho, o zunzum de estagiários e repórteres, a comentar a qualidade da cobertura, orgulhosos por trabalharem na empresa e revigorados quanto à escolha profissional, ainda que o caminho se mostrasse sacrificante e muitas vezes pesaroso, como aquela terrífica jornada havia deixado evidente. Um deles, Christiano Panvechi, me abraçou emocionado, dizendo que nunca havia imaginado me ver de perto. Eu te perdoo o exagero, querido “Passarinho”!
Da minha parte, sei que a aposentadoria se aproxima. Ando cansado, mas
nunca desanimado. O trabalho que levamos a cabo naquele dia fatídico renova a dimensão da carreira, confirma a vocação antiga, dá a medida exata da recompensa dos percalços do caminho e da dureza da labuta. Faz-me perceber que, mesmo transcorridas quatro décadas, em nenhum momento me entreguei ao piloto-automático da soberba, do eu sei tudo. A cada dia de batente, me doo como se fosse o primeiro.
Este livro que se encerra agora serve como um balanço da minha carreira. E o
mais curioso é que, apesar de ter-me dedicado quase integralmente ao futebol, ao menos neste epílogo, ele foi figura ausente. A resposta para esse aparente lapso é simples e vai encontrar as indagações que lancei no início do texto: a busca por uma alma.
Embora nesse longo tempo de estrada tenha combinado atividades diversas e
transitado por todos os veículos de informação, antes de tudo sou jornalista – de formação e de convicção. Sendo assim, por que não dizer que reside nessa assertiva redundante a manifestação mais plena daquilo que sou? E, até por isso, estou pronto para pendurar as chuteiras, com a certeza do dever cumprido.
A casa onde vive, num condomínio da Grande São Paulo. Ladeando o muro, um
microfone estilizado: homenagem ao eterno companheiro
No aniversário do filho Fábio com a “japona” de couro de antílope, presente de Fausto
Silva, o Faustão, então colega na Jovem Pan
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