Milton Neves: uma biografia
Nascimento e família
Nascimento
e família
N asci num seis de agosto – data infausta que marca a efeméride triste do bombardeamento de Hiroshima pelos americanos. Para o otimista, entretanto, o evento significa renascimento, reconstrução... Portanto, é nesse sentido auspicioso que tenho guardada a superstição de meu natalício: um seis de agosto de 1951. A essa curiosidade soma-se outra, ainda mais impressionante devido à coincidência, mas que vem comprovar a minha teoria. Saiba-se que o Santos Futebol Clube – minha vida, minha razão – surgiu em 14 de abril de 1912, no mesmo dia, e aos pés do mesmo oceano (ainda que a alguns milhares de quilômetros de distância), em que o Titanic encontrava seu fim. Pois, se é inegável o destino que bem-aventurou o time da Vila nesses cem anos de história... está ao acaso se confirmar.
Como dizia, fui dado à luz em Muzambinho, numa manhã de inverno. Nasci na Santa Casa, como era de vezo das famílias humildes do interior. E como também era praxe naquele interior, minha infância correu solta, entre a cidade e o sítio. Ao contrário do usual, posso dizer que fui abençoado com duas mães. Não se vá pensar que se trata desses arranjos familiares modernos... Os Fernandes e os Neves eram para lá de tradicionais, católicos praticantes, tementes a Deus, como o era quase toda a gente muzambinhense. O fato é que minha criação se dividiu entre mamãe, Carmen “Carmita” Carlos Neves, e minha “tia-mãe” Antônia – Antônia Carlos Fernandes – professora denodada, que carregava nas costas o fardo de fazer sobreviver a família. Os próximos sempre a trataram por Madrinha, uma deferência autoexplicativa. Meu pai, Milton Neves, conheci pouco (não me lembro de sua voz, o que é um fato significativo para quem trabalha com rádio há tanto tempo): morreu com 39 anos, quando eu contava apenas oito.
Meus primeiros passos se deram no Grupo Escolar Cesário Coimbra, no quintal de casa, no meio-fio de ruas enlameadas da Praça dos Andradas e de castelos de barro, feitos e desfeitos na mais inocente aventura pueril, das quais minha tia Antônia, hoje incapacitada pela doença, até há pouco tempo fazia questão de me rememorar; foram as viagens ao sítio Invernada, cuja grandiloquência de papai exagerava-lhe as dimensões, alcunhando-o de fazenda.
Porém, acima de tudo, minha infância é sinônimo de bola: essa entidade sagrada. Não uma bola qualquer, mas a bola tangida pelos pés mágicos de totens vestidos com suas túnicas brancas. Guardado o exagero da imagem, há de se me desculpá-lo, mas ele se justifica plenamente. Explico: é de se ressaltar que, nos idos dos anos 50, o futebol – o futebol oficial, jogado pelos deuses e titãs – chegava a mim, e a todos perdidos pelos rincões do Sul mineiro, trazido pelas ondas do rádio, do rádio paulista mais precisamente, representado pelas emissoras Bandeirantes, Tupi, Piratininga, Gazeta. E os feitos de meus heróis descrevia, em pormenor, a voz em potência de um Fiori Giglioti, de um Geraldo José de Almeida, de um Pedro Luiz, de um Haroldo Fernandes, de um Flávio Araújo; eles, também, figuras lendárias, paladinos de um mundaréu desconhecido que se estendia por detrás das Alterosas. Seres etéreos, escondidos naquelas caixinhas de pandora, que, quando abertas, libertavam vozes maviosas, a narrar tamanhas peripécias.
Personificados pelo timbre imponente dos locutores, os jogadores combatiam, sobre a relva rarefeita dos campos daquele tempo, sanhudos inimigos, cujo único intuito era o de me privar do deleite da vitória do Santos. Pagão, Calvet, Dalmo, Zito, Formiga, Manga, mais tarde, Gylmar. Tantos outros protagonistas que retiniam sob o contraste do uniforme alvo ou listrado em preto: o suor do esforço físico a ressaltar a nitidez da pele sob o manto – Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe e... preciso concluir?
De todo o modo, posso dizer que de minha infância repercutiu (e repercute ainda) a magia conjugada – a bola e o rádio a iluminar minhas ilusões de futuro tão distante e de perspectivas, então ainda, muito embotadas: quem diria que naquela curva de fim de mundo, no sonho mais ingênuo do menino, meu destino já estava traçado?
A seguir dou início a esse relato, dividido nas minhas memórias mais marcantes. Coisas da infância, de Muzambinho, do futebol...
Na casa da família, em Muzambinho. Com a esposa, Lenice, Milton Neves Netto, Fábio
e Rafael