Milton Neves: uma biografia
O sítio invernada
O sítio
invernada
A s viagens para o sítio eram aguardadas com muita ansiedade pela meninada. Nas férias, a roça, como se dizia, era o destino certo. Quando papai voltava do sanatório ou de suas longas ausências, costumava cuidar da terçada que nos coube na divisão das terras – chamávamos o lugar pelo pomposo nome de Fazenda Alto do Mirante, devido à sua localização topográfica, no alto do morro. Na casinha simples, toda branca, meu irmão e eu nos divertíamos. Chupávamos fruta no pé – lima de bico, como se chama no Sul de Minas –; nadávamos no ribeirão. No lugar, não havia quaisquer benefícios: luz elétrica ou água corrente. Papai sonhava em instalar uma bomba para levar água da mina que brotava no pé do morro até a casa, mas o equipamento (de nome bié) nunca funcionou. O banho, tomávamos numa enorme bacia, que minha mãe enchia, trazendo com chaleiras a água quente direto do fogão a lenha. O sabão, fazia-se das cinzas recolhidas da madeira queimada. Eram cozidas num tacho com banha de porco para dar a liga. Aquilo, acreditem, fedia demais. Depois, um jantarzinho frugal e sono – dormíamos e acordávamos com as galinhas. Ainda assim, as viagens eram uma redenção. Esperávamos com ansiedade as visitas ao sítio. Na nossa pobreza de provérbio, a aventura na roça tinha muito valor.
O sítio ficava em Monte Belo, a quarenta minutos de Muzambinho (hoje leva dez). O acesso não era fácil. Normalmente, quem nos conduzia era o Waldomiro, chofer de praça, como se dizia. Waldomiro e sua esposa, dona Noêmia, geraram 18 filhos, sendo que doze deles vingaram. A curiosidade é que todos foram batizados com a letra i. De sua prole, os mais “famosos” são Ivonaldo, com quem dividia a assinatura de A Gazeta Esportiva, e Ivan Surdão, centro-avante do “temido” Bandeirante de Muzambinho.
A história do porquê Ivan ganhou seu adendo não deixa de ser curiosa. Em Muzambinho, como por todo o interior de Minas, havia o costume de se jogar víspora, que em outras partes do país se conhece por bingo ou tômbola. Nas cartelas, marcava-se o número sorteado com feijões. Numa imprevidência momentânea, Ivan introduziu no ouvido um grão da leguminosa. Desesperada para sacar o intruso, Noêmia, mãe de Ivan, cavucou o local, conforme narrava a crônica local. Em vão. Não contente, cavucou e cavucou mais, até que o feijão, claro, adentrasse seu canal auditivo e ferisse de morte seu tímpano.
Se a conveniência da corrida com seu Waldomiro Chofer resolvia nossa vida para chegar ao sítio, o imbróglio maior estava na volta. Não existia telefone; não podíamos chamar o chofer; ônibus também não havia. A alternativa era pegar o trem na estação de Monte Cristo, distrito de Monte Belo – a maria-fumaça resfolegava pelos lugarejos de Palmeia e Monte Alverne até chegar em Muzambinho. A estação de Monte Cristo ficava longe da fazenda e o único acesso se dava via carro de boi. Isso mesmo: um carro de boi, que atravessava preguiçoso pastos e descampados. Me lembro bem de dois carreiros que conduziam o veículo. Um deles se chamava Zé Pintinho; o outro, a quem presto singela homenagem, chamava-se João Jacinto. Um dia, no caminho para Monte Cristo, com aqueles olhos matreiros, João Jacinto divisou uma cobra por entre a folhagem do pasto. Arriou do carro e matou a bicha: uma urutu cruzeiro, venenosíssima. No interior, tinha dessas coisas: morria-se de dor de dente, de dor de parto e de picada de cobra.
Mas, enfim... chegando na estação de Monte Cristo, um último obstáculo se erguia: um riacho. Tão inofensivo, aparentemente, mas cuja travessia se fazia por sobre uma pinguela. Para quem não conhece, pinguela é uma ponte improvisada, normalmente um tronco derrubado, que une uma margem à outra. O carro de boi estacionava à beira do riozinho e arribávamos do veículo: vovô Beatriz, mamãe, Homero e eu. Uma cena pungente: vovó e mamãe com dificuldades para andar, equilibrando-se sobre a pontezinha, um reles cipó como único arrimo, preocupadas com a integridade das crianças. Apesar do perigo iminente, aquilo fazia parte da vida das pessoas, era uma situação absolutamente natural.
Nosso sitiozinho era muito simples. Plantava-se um pouco de café, que secava num improvisado terreiro. As ausências de papai prejudicavam o bom andamento dos negócios; mas ele se esforçava. No meu devaneio infantil, ansiava em ver o sítio tomado de vacas e bois. Afinal, o gado simbolizava opulência naquelas paragens. A riqueza se contava por cabeças: quanto mais reses possuísse, mais o sujeito era considerado. Devo confessar que tinha uma pontada de inveja do tio Celino, proprietário de apreciável boiada. Ele era minha aspiração de sucesso.
Pois então, é de se imaginar o meu encantamento quando flagrei, um dia, olhando para o horizonte, aquelas silhuetas que tomavam forma à medida que se aproximavam do sítio. Era meu pai a tocar meia-dúzia de bois que havia recém-adquirido. Bois de carro, possantes. Que alegria, meu Deus! Me senti no topo do mundo. O dono do mundo... A dupla de guias, responsável por puxar o veículo, chamamos de Matoso e Mateiro; me lembro também de outro boi: o Relógio. Mas um carro com seis bois carece de potência: não guenta carregar o fardo morro acima. Meu pai, então, me disse orgulhoso: “Vou comprar outros bichões, você vai ver”. Dito e feito. Arranjou mais seis cabeças, entre zebus (gado de corte) e gires (gado leiteiro). Na minha inocência de criança, me afeiçoei por duas novilhas em especial, a Azeitona e a Estrela. E, como se verá a seguir, elas estão intimamente ligadas às lembranças que tenho da morte de papai.
Cordô Morto
Em Muzambinho-MG, cidade pequena,
quando morre alguém, a notícia é moída pelo
alto-falante da Alfaiataria do Nhonhô (que não existe mais, agora é do Bazar Pires). Em
póstumo respeito, toca-se a música Il Silenzio
com Nino Rosso. Egressa desse hábito é a minha prática de colocar a mesma canção na Rádio e TV Bandeirantes, como costumava fazer na
Jovem Pan e TV Record, toda vez que morre
alguém, ou quando um time grande é eliminado de uma competição. É a minha singela
homenagem.
Mas, em Muzambinho, quando morria
alguém, como costumava acontecer amiúde,
quem se desincumbia do anúncio oficial nos
alto-falantes era o célebre Zé Tarzan, José Sales de Magalhães, primo do ator Tarcísio Meira, a cuja ocupação conjugava a de professor de
português, técnico de futebol e apresentador na Rádio Continental.
Certo dia faleceu Zé Sprita, que também
atendia por José Espírita, o médio-volante do escrete local. Da mesma cepa que Toninho Cerezo, Zé Sprita jogava muito futebol, muita sinuca. E bebia industrialmente. Para variar, Magalhães meteu o Il Silenzio. Emendou, dizendo que era uma lástima a morte de Sprita, médio-volante, pedreiro, exímio jogador de sinuca. Deixava viúva sua estimada Batatinha.
E agora afirmo eu: Zé Sprita jogava sinuca com a mão enfaixada, pois não tinha quatro dedos de uma das mãos, perdidos na infância depois de um acidente com fogos de artifício.
O morto era uma figura muito querida e Zé Tarzan ficou iluminado de triste. Tanto que soltou a seguinte pérola ao microfone da Rádio Continental: “Gente, que pena, morreu Zé Sprita, vocês têm notado o que vem ultimamente acontecendo em Muzambinho? Está morrendo gente que nunca tinha morrido”. E para adoçar a história, conta a lenda que Zé Sprita morreu de raiada. Quem detalha a morte incomum é a “Física Particular” de Muzambinho. Pois, explica-se. Pedreiro de profissão, Sprita ajudava na reforma do prédio da prefeitura, localizado na Praça dos Andradas. No vaivém dos quefazeres, o pobre rapaz foi incumbido de desinstalar o para raio, o qual havia 105 anos ninguém colocava a mão. No “desparafusamento” do bicho, o coitado tomou uma chuva de relâmpagos no peito. “Raios que estavam ali armazenados por mais de um século”, garante, em tom circunspecto, José Maria Maciel dos Reis, o Zé Viado, pai de 24 filhos.
O certo é que não importa o falecido, quando Nino Rosso ressoa pela praça, o mundo para e presta atenção. Dá-se, então, uma espécie de Terceiro Tempo da morte (que se me desculpe o tema mórbido): um diz-que-me-diz a fim de saber quem é o desdito da vez. O cenário é de um Brasil que não mais existe: caboclo pitando cigarro de palha, de cócoras ou sentado no banco, conversando com os compadres, assuntando sobre o destino.
A curiosidade é fatídica: “Escuta, ele morreu do quê?”. E o “médico legista”, prenhe de empáfia, arguto observador do cotidiano, responde: “Ora, cordô morto”. Sem um doutor oficial para atestar, de ciência, a causa mortis, o motivo do empacotamento transita pela boca do povo no veredito definitivo: “Cordô morto, uai”.
O pai, Milton Neves